Capítulo 1
Marcus
Os olhos azuis-elétricos — iguais aos da minha mãe — me encaram enquanto jogo mais água no rosto.
O arranhão no meu antebraço ainda arde, onde me cortei ao salvar uma garota de apanhar até quase morrer.
A boca esperta e a atitude debochada dela ainda me fazem sorrir.
Os olhos dela surgem na minha mente — um azul, um castanho. Havia algo nela… Desde que a encontrei, não consigo tirá-la da cabeça.
Será que vou cruzar com ela de novo?
Já se passaram duas semanas inteiras.
Duas semanas desde que me arranharam… Desde que estou na expectativa pela oportunidade da minha vida.
Meus pensamentos voltam para a minha mãe enquanto os olhos azuis que compartilhamos vasculham meu rosto em busca de respostas que não tenho.
Será que ela ficaria orgulhosa? Ou será que nem ligaria?
Minha mãe foi embora quando eu tinha só dez anos, e meu pai nunca mais foi o mesmo.
Meu pai me disse que ela tinha morrido. Ele não sabe que eu a encontrei — que a vi com a nova família — depois de vencer o CTF. Que consegui rastreá-la.
Ela parecia feliz. Não sei por que foi embora… Mas acho que nunca fomos o suficiente.
Quando minha mãe foi embora, não perdi só uma mãe… Meus olhos pousam na porta do quarto do meu pai.
Os roncos dele no outro cômodo sobem e descem numa sinfonia irregular — perdi meu pai também.
Sento nos degraus perto da porta. A madeira está gasta — nem lembro quando foi a última vez que passei óleo nela — enquanto vejo o carteiro deixar nossa correspondência pela fresta e ir embora.
Pego as cartas e começo a separá-las.
A maioria são contas atrasadas, mas tomara que…
Ali.
Pego o envelope e o coloco com cuidado no meio do balcão. Vou pegá-lo, mas recuo a mão.
Não consigo esquecer o dia que me trouxe essa oportunidade.
Minha visão se estreita enquanto me concentro na tela do computador. Todos os sons desaparecem, menos o batimento do meu coração.
A bebida energética tem gosto de cafeína e algo amargo que fica na boca.
Mais três linhas e eu pego o nó, calculo. Posso vencer.
Meus dedos voam pelo teclado enquanto digito o último trecho do código e aperto enter. Meu coração dispara nos microssegundos que o programa leva para rodar.
A plateia enlouquece quando capturo o último nó do adversário e venço o título solo.
É a primeira vez que participo desse torneio CTF. Sem treinamento formal, sem formação em tecnologia. E consegui!
Um sorriso explode no meu rosto, embora se apague um pouco.
Mesmo nesse momento, tudo o que mais me importa é ver meu pai sorrir — sem precisar beber para isso.
O apresentador nos leva até um pódio, onde os prêmios são distribuídos. Por ter ficado em primeiro lugar, ganho um troféu e um cheque de cinco mil dólares. Esse dinheiro vai ajudar muito a pagar minha faculdade.
Estou saindo de lá quando um homem de terno caro, com olhos prateados e únicos, provavelmente na casa dos quarenta e poucos anos, se aproxima.
“Essa performance foi brilhante, rapaz! Quantos anos você tem?”
Fico olhando para ele de boca aberta. É o Daniel Ingram, da Ingram Technologies.
“Eu… hum… dezoito, senhor.”
Ele ri e dá um tapinha nas minhas costas.
“Rapaz, estou impressionado. Em qual colégio você estuda?”
“Hum… Alpen High, na minha cidade natal. Não sou daqui, senhor.”
Suas sobrancelhas se erguem. “Sério?”
Ele tira um cartão de visitas e me entrega. “Que tal estudar no Westridge Prep?”
Engulo em seco ao pegar o cartão.
“Isso…” Penso por um segundo, tentando encontrar as palavras certas antes de optar pela verdade nua e crua.
“…não seria possível, senhor.”
O Westridge é famoso por ser difícil de entrar, e mesmo que conseguisse, só a mensalidade nos deixaria na miséria.
“Me mande seus dados por e-mail. Envie também as notas dos últimos três anos.”
Ele acena e vai embora, me deixando ali, acenando de volta enquanto seguro o cartão junto ao peito — quase como se fosse ouro.
Coço o pescoço, parado ali, oscilando entre esperar pelo meu pai ou ir em frente.
Para de enrolar.
Meus dedos tremem enquanto rasgo com cuidado o topo do envelope e tiro o papel de dentro.
A folha é grossa, como se espera da melhor escola preparatória do estado. É isso.
“Prezado Sr. Marcus Holden,
A Westridge Preparatory Academy tem o prazer de informar que seu pedido de transferência foi aceito.
Além disso, com base em suas notas e em uma recomendação especial do próprio Sr. Daniel Ingram, você recebeu uma bolsa integral para todo o período de estudos e estadia conosco.
Caso aceite esta oportunidade, será necessário manter média 4.0. Também será esperado que participe de um esporte e curse duas disciplinas avançadas a cada semestre.
O não cumprimento desses requisitos resultará na suspensão da bolsa até que tais métricas sejam restabelecidas.
Ressaltamos que a WPA espera que você mantenha um comportamento exemplar em todos os momentos. Bullying, trotes, cola ou qualquer tipo de perturbação não serão tolerados e podem levar a medidas disciplinares. Qualquer processo disciplinar contra você resultará no cancelamento da bolsa.
Uma acusação grave, com provas de culpa, pode até resultar em expulsão. A WPA se orgulha de seus alunos e espera o mesmo deles.
Caso aceite, por favor, assine e nos envie o comprovante de recebimento dentro de quinze dias após o recebimento desta carta.
Instruções adicionais, data de início e outros detalhes relacionados fazem parte do pacote de orientação enviado junto com esta carta.
Esperamos vê-lo em breve.
Atenciosamente,
Sr. Jace Hartley, Vice-Reitor (WPA).”
A carta escorrega dos meus dedos dormentes, e eu caio numa cadeira. Entrei. ENTREI!
Guardo a carta de volta no envelope com cuidado, reviso o resto do pacote e não consigo conter um grito de alegria.
Só o nome dessa escola preparatória junto ao meu já vai abrir portas que eu nunca imaginei atravessar.
Isso muda tudo.
O mundo está aos meus pés.
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Celeste
As bordas ásperas do tijolo cravam nas minhas costas quando bato na parede, antes de o impulso me jogar para frente, direto num soco.
O ar sai dos meus pulmões, mas eu avanço contra a garota, puxando seu cabelo e derrubando-a.
A amiga dela se joga em cima de mim e grita, me arrancando da vaca e me dando um tapa forte.
Ela recua para me chutar, e eu me encolho no chão duro, esperando a dor que nunca chega.
Em vez disso, um garoto fica entre nós, de frente para mim, com um arranhão no antebraço e uma marca de sapato na camisa.
As duas garotas com quem eu estava brigando já estão correndo. Levanto e saio atrás delas, mas ele me segura pela cintura.
“Calma aí, elas já estão longe. Você está bem?”
Me solto do aperto dele e bufo. “Tô bem. Eu tinha a situação sob controle.”
Não tinha, mas ele não precisa saber disso.
O antebraço dele se flexiona contra minha barriga enquanto me contorço para me soltar e ir atrás delas.
“Tá bom”, ele diz, “Claro. Só que seu cabelo conta outra história.”
“Você devia ter visto a outra garota…”, começo, mas ele solta uma gargalhada.
Pego minha mochila escolar ao lado da parede, onde a tinha largado.
“É só isso? Acho que você me deve um obrigado.” A voz dele ainda carrega um traço da risada.
Reviro os olhos, enquanto ele sorri e tira a poeira da camisa.
“Eu não precisava da ajuda.” Ajeito a roupa, tiro a poeira de mim e toco no meu rosto. Amanhã vai doer pra caramba, já sei.
Mas valeu a pena.
Tenho uma regra: ninguém insulta minha mãe. Na minha cara ou pelas costas.
O resto eu aguento, mas isso não.
“Uma puta só podia gerar um bastardo. Vou fazer ela pagar por ter a cara de pau de aparecer numa escola como a nossa.”
Não me importo que me chamem de bastarda… mas chamar minha mãe de puta?
Essas vacas deviam ter pensado melhor.
Eu sempre descubro… e sempre acerto minhas contas.
O cara está limpando um arranhão com um lenço—ainda está sangrando.
Um aperto de culpa me faz estremecer por dentro. Ele até me ajudou.
Pego um band-aid, rasgo a embalagem, afasto a mão dele e colo no ferimento.
“Não se mete em brigas dos outros, bonzinho. Da próxima vez, pode ser pior.”
As sobrancelhas dele somem nos fios escuros, deixando os olhos azuis bem abertos.
Tão elétricos. Tão perigosos.
Pigarreio e dou um passo para trás.
“Valeu”, ele murmura.
Assinto e me viro.
É hora de voltar pro hospital—minha mãe provavelmente está fazendo um escândalo de novo.
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O cheiro de antisséptico é tão forte que me dá ânsia. A enfermeira está limpando minha mãe.
O cheiro de vômito ainda paira ao redor da cama, e na mesma hora minha raiva some, substituída pela preocupação.
“O que aconteceu?” Minhas palavras se misturam com as dela, mas as minhas saem mais claras.
“Você brigou de novo?” As palavras da minha mãe são fracas, e logo começa um acesso de tosse.
“Não fala… Tô aqui.” Pego a mão dela. A enfermeira junta suas coisas e sai.
“Preciso te contar uma coisa…”, a mãe continua num sussurro. Deito a cabeça no colo dela enquanto ela afaga meu cabelo.
“Quando chegar a hora, vá com seu pai. Eu contei tudo pra ele.” A tosse dela fica violenta.
“Não…”, sussurro com os olhos cheios de lágrimas. “Eu nunca vou te deixar.”
“Desculpa por não ter cuidado melhor de você.” A voz dela mal se ouve. O câncer devorou tudo—os pulmões, a garganta… Tudo.
Balanço a cabeça.
“Seja boazinha. Não brigue.” Balanço a cabeça de novo. O monitor ao lado da cama dela começa a apitar sem parar.
Levanto de repente e chamo a enfermeira. Minha mãe puxa minha mão.
“Te amo.”
O apito se transforma num tom contínuo, e até eu sei o que isso significa.
Enfermeiras e médicos se aglomeram ao redor dela. Dou um passo para trás e fico esperando enquanto fazem de tudo para reanimá-la—mas eu já sei a verdade.
Ela se foi. Disse seu adeus.
Pela primeira e última vez em quase dezoito anos, ela disse que me amava.
“Vou ficar bem, mãe”, sussurro. “Agora você pode ser feliz. Vá em paz.”
Fico sentada ao lado da cama enquanto anunciam a hora da morte.
Dizem coisas que não consigo ouvir. Assino uns papéis sem ler.
Me entregam a certidão de óbito da minha mãe. Guardo nossas coisas. Já tínhamos perdido a casa há muito tempo.
Não tenho para onde ir.
Vou para um abrigo passar a noite.
Fico grata por minha mãe ter deixado tudo organizado para o funeral antes de morrer—acho que eu não conseguiria.
Acontece dois dias depois. Visto o único vestido que tenho, um preto que minha mãe comprou antes de nos mudarmos para o hospital em tempo integral.
Não lembro direito do que aconteceu, só que fui a única. Ninguém apareceu—nem esperava que aparecessem.
Não tem um conhecido a quem não tenhamos pedido dinheiro emprestado, e minha mãe afastou até o último funcionário do hospital.
A amargura e o sofrimento dela eram como um veneno—contaminando tudo o que tocava, inclusive eu.
Todo mundo era culpado, menos ela. Mesmo assim, ela era minha mãe. E ficou—mesmo quando não queria.
Sento na primeira fila vazia enquanto o pastor diz algumas palavras. Jogo terra e uma rosa no túmulo dela antes de ir embora.
Sento no ponto de ônibus em frente ao cemitério e fico olhando para a rua.
E agora?
Pedi emancipação há três anos. Trabalho meio período há anos. Esperava começar o terceiro ano do ensino médio esse ano.
Mesmo depois que as aulas voltarem, devo conseguir continuar trabalhando meio período. Talvez dê para conversar com a escola?
Um lugar para morar pode ser complicado.
Ou será que devo arrumar um emprego em tempo integral? Ainda preciso pagar o pessoal que nos emprestou dinheiro.
Os pensamentos giram na minha cabeça, mantendo as emoções sob controle.
Uma sombra cobre minha visão.
Um carro preto para na minha frente, e o motorista desce.
“Senhorita Shaw? Sou do espólio Lowell. Seu pai, o senhor Jonathan Lowell, me mandou buscá-la.”
Fico olhando para o motorista, quase em choque. Não acreditava de verdade que meu pai fosse me acolher. Achava que era só papo furado que ele tinha dado para minha mãe moribunda.
Fico em silêncio no banco, avaliando minhas opções.
O motorista espera com paciência, me dando espaço.
Mesmo depois do banho, ainda sinto o cheiro do abrigo em mim. Uma das alças das minhas duas bolsas está esgarçada, onde um rato roeu ontem à noite.
O orgulho pode ser a única coisa que me resta, mas posso engoli-lo se isso significar um teto e um lugar para planejar meus próximos passos.
O que quer que meu pai esteja planejando, não pode ser pior do que viver no abrigo ou na rua.
Putz, dependendo do humor dele, até consigo tirar alguma coisa dele.
Finalmente decidida, pego as duas bolsas ao meu lado—tudo o que tenho no mundo—e caminho em direção ao carro.
Um novo capítulo me espera.
Será que vai dar certo?
Aperto os punhos ao lado do corpo enquanto me recosto no banco macio.
Vai ter que dar. Ainda não encontrei um desafio que não consiga superar na raça—e não pretendo começar agora.