Grim Reaper
ESTELLE
O vídeo tem quinhentas mil visualizações. Atualizo a página. Quinhentas mil e vinte e uma.
O fim da minha carreira não só foi gravado e disponibilizado online para todos verem — o que já seria ruim o suficiente —, mas a miniatura ainda sugere que a culpa foi minha.
Dizem que fui imprudente, quase matei o embaixador de um dos maiores rivais econômicos do nosso país e quase causei uma crise diplomática.
Com um amendoim.
Mentiras. Mentiras. Mentiras.
Enfio o celular de volta no bolso da calça. A frustração borbulha tão forte que sinto a nuca doer.
Quando esse pesadelo vai acabar?
Fui ostracizada e difamada por algo que nem foi minha culpa e, pior, estou quebrada demais para me defender.
Fecho a porta do apartamento e tranco-a com um suspiro. Então, repito a afirmação de hoje enquanto caminho pelo longo corredor até o elevador barulhento.
Hoje vai ser menos uma merda porque eu decidi assim.
O SUV Cadillac preto brilhante está parado no meio-fio; vejo-o assim que saio do prédio. Ele se destaca como um dedo machucado caríssimo neste bairro, ao lado do meu pequeno Fiat vermelho que já viveu dias melhores.
A porta do passageiro do Cadillac se abre e um homem robusto, de aparência bruta e terno preto, sai. Ele usa óculos escuros pretos, escuros demais para ver seus olhos, mas sei que ele está me olhando.
"Srta. Signon?", ele pergunta.
Quase minto. "Sim. Do que se trata?"
"O Sr. Fuentes nos enviou para levá-la à casa dele para a entrevista de emprego", diz ele.
Meu corpo inteiro fica tenso. "Tudo bem, mas não precisa. Tenho um carro e o endereço. Eu posso..."
"Tenho que insistir. São as condições do Sr. Fuentes. Se recusar a carona, a entrevista será cancelada." Ele abre a porta traseira e espera minha resposta.
Essa é a parte em que pessoas sensatas dão meia-volta e vão embora. Só que estou desesperada demais e decido que a insanidade custa menos do que todas as contas que preciso pagar.
Meus pés começam a se mover em direção ao carro assim que tomo a decisão.
"Seu celular, por favor." Ele se move até ficar na minha frente, bloqueando meu caminho.
"Isso é realmente necessário?"
Ele não responde.
Condições do Sr. Fuentes.
Tiro o celular do bolso e o entrego relutantemente. Depois que ele o enfia no bolso do paletó, ele bate duas vezes no vidro do lado do motorista.
A porta se abre e um homem vestido de forma idêntica sai, também usando óculos escuros.
"Levante os braços e afaste as pernas, por favor", diz ele com um tom autoritário.
Não faço o que ele pede imediatamente. "Você está falando sério?"
Novamente, sem resposta.
Levanto os braços levemente e afasto as pernas, esperando que meus vizinhos não passem por ali e me vejam assim. Um dispositivo longo e estranho — um detector de metais — está pronto em suas mãos, e ele começa a passá-lo pelo meu corpo.
Quando ele chega na minha virilha, o aparelho emite um bipe agudo, fazendo com que os dois homens olhem para o meu rosto, esperando uma explicação.
Quero mentir, mas minha mente está totalmente em branco. Percebo, resignada, que a verdade é minha única escolha.
"É um piercing", solto rapidamente.
O canto da boca do Número Um se curva para cima, enquanto o Número Dois aperta os lábios com firmeza, mas, felizmente, nenhum deles diz nada.
Quando ele termina, recebo óculos escuros e uma pequena bolsa plástica transparente com um par de protetores auriculares laranja dentro. Olho para cima e encaro incrédula as lentes opacas do Número Dois.
"Use-os assim que entrar", ele instrui.
O cheiro de carro novo me recebe, como se tivesse sido comprado esta manhã ou ainda estivesse em test drive.
Um de cada vez, coloco os protetores nos ouvidos, tentando não entrar em pânico quando o mundo inteiro fica completamente mudo. Os óculos escuros deslizam pelo meu rosto em seguida, e perco o fôlego.
Não consigo ver absolutamente nada.
Esses não são óculos escuros, são praticamente vendas.
Este é o momento em que eu deveria cancelar tudo, correr para fora do carro e nunca mais olhar para trás. É o que pessoas normais fariam.
Sinto o impacto da porta fechando, sinto a vibração do motor ganhando vida e sou jogada contra o banco de trás com o movimento da aceleração do carro.
Todos os argumentos e o discurso positivo que usei para me preparar para hoje viraram cinzas.
Meus próprios pensamentos me ridicularizam agora. O que foi que eu disse sobre isso ser apenas mais uma entrevista de emprego? Nada que eu não tenha feito uma dúzia de vezes, certo?
Vou me misturar com os outros funcionários, a voz zomba na minha cabeça. Olha para você agora, no banco de trás do carro do Grim Reaper, sendo escoltada por capangas, cega e surda, sem ter ideia de para onde está indo.
O endereço que a secretária dele me deu há três dias deve ter sido algum tipo de armadilha. Não tem como eles se darem a esse trabalho todo só para me impedir de ver para onde estão me levando se fosse o mesmo lugar.
Agora entendo como o chefe da máfia conseguiu se manter fora do radar por tanto tempo — precauções infinitas, especialmente com gente nova. Depois do que parece uma hora, o carro para. Minhas mãos tremem enquanto espero pelo que vem a seguir.
Sinto a porta abrindo. Uma mão grande envolve a parte superior do meu braço, sem apertar com força, mas aplicando pressão suficiente para eu entender que ele vai me guiar.
O cascalho estala sob meus sapatos baixos.
Um passo após o outro, até que meus dedos batem contra um obstáculo.
Um dos protetores é removido. "Vou levantar seus óculos escuros para que você possa subir as escadas. Depois, vou colocá-los de volta", diz o Número Um.
A luz inunda meus olhos, fazendo-me semicerrá-los. Quando se ajustam, ofego ao ver o prédio palaciano à minha frente: janelas altas e paredes imponentes com trepadeiras subindo pelas laterais.
Como um castelo moderno.
"Srta. Signon, o primeiro degrau, por favor", instrui o Número Dois antes que o protetor seja enfiado de volta no meu ouvido.
Olho para baixo e começo a subir os degraus de pedra branca que levam às grandes portas duplas. Tenho um momento para admirar as esculturas intrincadas na superfície de madeira antes que os óculos escuros desçam sobre meus olhos novamente.
O piso de pedra e o ar fresco dão lugar a um piso elegante e calor. Estamos dentro.
Caminhamos por um tempo, e o nervosismo aperta meu estômago. Ninguém vai me ouvir se eu gritar. Ninguém vai encontrar meu corpo, e...
O Número Dois para de andar, os óculos escuros são retirados e, mais uma vez, meus olhos lutam para se ajustar.
A primeira coisa que vejo é um par de olhos verdes — penetrantes, emoldurados por cílios longos, com sobrancelhas grossas e castanhas escuras descansando na base de uma testa plana, com algumas linhas horizontais suaves interrompendo a pele lisa.
Seus traços são imediatamente familiares, o que se deve apenas ao fato de ter ficado acordada até tarde ontem à noite pesquisando sobre ele na internet.
As poucas fotos que existem dele são desfocadas, tiradas de longe ou parcialmente escondidas por guarda-costas.
Ele não sorri.
Não se move.
Apenas me observa em silêncio, provavelmente esperando para ver se vou entrar em pânico ao vê-lo.
Essa seria a reação normal.
Endireito os ombros e encaro de volta os olhos do próprio Grim Reaper.
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