O Menino à Beira-Mar
10 de maio de 2007
Foi no meio de uma tarde encharcada pela chuva que Julian viu pela primeira vez o menino que se tornaria tudo para ele como amigo.
A areia marrom e úmida grudava em suas roupas, mas ele estava sentado à beira-mar mesmo assim, com os braços envoltos nos joelhos e as coxas contra o peito. Seu olhar vagava pelas ondas agitadas, carregando uma solidão silenciosa e uma entrega, como se ele não resistisse caso o mar revolto o alcançasse e o engolisse.
Por que ele estava tão triste?
Julian reconhecia todos os rostos da cidade, mas aquele menino era um estranho. Sua pele era clara demais, intocada pelo sol. E, o mais importante, ninguém que morava ali carregava tamanha tristeza.
Com apenas seis anos, faltando cinco meses para seu aniversário de sete, Julian estava cheio daquela energia que não deixava espaço para hesitação. Ele pulou da bicicleta e correu em direção ao menino, com a chuva batendo em sua pele sem dó. Enquanto descia os degraus até a praia, pensou que o menino pudesse estar chorando sob a chuva.
“Por que você está sentado aqui? Pode ficar doente.”
Ele olhou para cima, surpreso, antes de voltar a encarar as ondas tempestuosas.
“Estou bem.”
“Não parece nem um pouco.”
O menino não se mexeu. Parecia um pouco mais velho que Julian, mas por que agia de forma tão sem noção? Ele deveria saber que não se deve sentar na chuva; isso lhe daria um resfriado forte.
“Ei, a gente precisa ir”, insistiu Julian, examinando a costa deserta. Não era uma tempestade, mas a chuva estava forte o suficiente para afastar as pessoas da água.
“Eu estou bem.”
“Não. Minha mamãe disse para irmos para casa quando o tempo está feio.”
O menino fechou a cara ainda mais. “Então vai para casa.”
Julian ficou chocado. Como alguém podia ser tão grosseiro? Quem o criou não lhe ensinou muita coisa. Tudo bem, que ficasse ali e pegasse um resfriado.
Mas Julian não conseguia ignorar o conselho de sua mãe: seja gentil, especialmente com aqueles que parecem estar sofrendo. O menino não parecia nada feliz. Relutante, Julian sentou-se ao lado dele.
“O que você está fazendo?”
Julian resmungou enquanto a areia molhada grudava em suas pernas. “Não posso ir embora. Minha mãe me daria uma bronca se soubesse.”
“Eu pensei que ela tivesse dito para ir para casa.”
“Ela disse, mas também falou para ser legal com as pessoas.”
“Por que você continua falando da sua mãe?”, sibilou o menino.
“E por que você não fala da sua?”
O menino fungou, com os dentes cerrados. Ele não entendia por que aquele garoto mais novo, um pouco mais alto e com a pele bronzeada pelo sol, ainda estava ali. Mesmo com o céu nublado e a chuva constante, seus olhos grandes e redondos pareciam poças de luz solar, e ele brilhava de um jeito irritantemente radiante.
A frustração do menino aumentava só de olhar para ele.
“Você é novo aqui”, afirmou Julian. “Eu sou o Julian. Quase sete anos. E você? Qual é o seu nome? De onde você veio?”
Resignado com o fato de que Julian não iria embora, o menino murmurou: “Sou o Joaquin. Sou de Manila...”
“Manila? Uau!”, exclamou Julian. “Eu nunca estive lá! Dizem que os prédios são superaltos, tipo, muito altos mesmo!”
Joaquin piscou, pego de surpresa e um tanto divertido. Esse garoto era de verdade?
“Ah, sim, suponho que sejam.”
“E? E? Quantos anos você tem? Você é meio mais baixo que eu.”
A irritação de Joaquin ressurgiu. Sua mandíbula relaxou e seus olhos caíram para a areia grossa cheia de pedrinhas. “Acabei de fazer onze.”
“Ah, então você é mais velho.”
“É, então me mostre um pouco de respeito.”
Julian observou Joaquin enquanto a chuva diminuía, transformando-se em uma garoa leve. Apesar do vento mais brando, o ar estava frio e Julian estremeceu. Joaquin finalmente olhou na direção dele.
“Vai embora. É você quem vai ficar doente, não eu.”
“Não”, insistiu Julian com firmeza. “Eu não vou sair daqui sem você.”
Joaquin encarou-o, perplexo. Ele não entendia por que aquele garoto, um completo estranho, estava agindo daquela forma. Julian ainda não sabia absolutamente nada sobre ele.
Se Julian pudesse ler sua mente, saberia que não era porque Joaquin queria estar ali, ficando encharcado como um cachorro vira-lata solitário. Ele simplesmente não tinha coragem de voltar para casa. Sua mãe estava bebendo, e quando ela fazia isso, sempre perdia o controle, procurando alguém para machucar.
Ele fungou baixinho.
Joaquin sentia muita falta do irmão, mas ele tinha ido embora, trancado em uma prisão. Sem nome de pai na certidão de nascimento, o serviço social localizou a mãe dele. Então, colocaram Joaquin em um navio, arrancando-o da única vida que ele já conhecera.
E ele odiava aquela província, aquela cidade. Não passava de árvores, praias e um punhado de gente. Pior ainda, todos falavam Bisaya, um idioma estranho para ele. Às vezes, ele jurava que estavam falando dele, como se fosse um filho pródigo que tinha ido embora e voltado por escolha própria.
Como se ele não tivesse sido abandonado.
Joaquin lançou um olhar de lado para Julian. Ele era diferente, mudando imediatamente para o Tagalog.
Hah. Ele era bem intuitivo para uma criança.
“Ei, quer vir brincar na minha casa?”, Julian ofereceu, apontando para sua bicicleta. “A gente pode ir na minha bike. É logo ali, na esquina!”
Os olhos de Joaquin passaram para a bicicleta, jogada no chão, toda enferrujada e velha. Mas a preocupação dele era outra.
“Essa bike é pequena demais para nós dois.”
Julian fez um biquinho, com as bochechas estufadas como um esquilo. Sua paciência estava acabando; ele estava tentando ser legal, mas ainda era apenas uma criança.
Joaquin soltou um risinho debochado. “Tudo bem. Fica atrás de mim. Eu dirijo.”
Julian concordou; ele nunca tinha tido a chance de ser o passageiro mesmo. Além disso, com o frio chegando, ele estava mais do que pronto para sair da praia.
“Vem logo!”, gritou Julian, correndo em direção aos degraus e à rua, onde vastos campos de arroz se estendiam sob as cordilheiras distantes. Joaquin seguiu devagar, sem saber se deveria realmente ir para a casa de um estranho. Mas qualquer lugar era melhor do que a própria casa.
Julian parou a bicicleta e gesticulou com entusiasmo para Joaquin subir, batendo no assento com alegria.
Com um suspiro relutante, Joaquin sentou-se e apertou os freios com cautela, só por segurança. Ele mal teve tempo de testar o pedal quando sentiu a bicicleta baixar sob o peso de Julian, com as mãos dele agarrando seus ombros.
“Vai, vai agora!”, gritou Julian.
A energia de Julian era demais – sua voz alta, sua empolgação contagiante – mas, para Joaquin, aquilo era uma distração útil para o barulho em sua própria cabeça.
Eles pedalaram pela estrada sinuosa, passando por fileiras intermináveis de árvores. A voz de Julian abriu caminho até chegarem a uma casa de campo, onde o cheiro de peixe grelhado os convidava a entrar.
Só então Joaquin percebeu que não tinha comido nada o dia todo. A lembrança de suas necessidades básicas o fez se sentir mais vulnerável do que gostaria.
“Mamãe!”, gritou Julian, descendo da bicicleta e correndo para a porta. Mas então ele parou e se virou para Joaquin, que tentava estacionar a bicicleta perto do galinheiro.
“Trouxe um amigo comigo! É o Joaquin! Ele fala Tagalog!”
Joaquin ficou parado, mexendo os pés nervosamente. O que ele deveria estar fazendo ali? E por que Julian estava fazendo tanto alarde?
“O que está esperando? Vem logo!”
Joaquin hesitou, sem saber se seguia ou recuava, mas antes que pudesse decidir, a porta de tela se abriu. Uma mulher apareceu, parecendo quase idêntica a Julian, com olhos suaves e gentis, e cabelos longos presos com uma presilha.
“O-Olá”, ele disse baixinho.
“Depressa agora”, ela disse, saindo e guiando gentilmente Joaquin para dentro da casa aconchegante. “Julian, vocês têm quase o mesmo tamanho. Pegue umas roupas para ele. E vocês dois precisam se aquecer.”
Julian correu para buscar as roupas e voltou com dois conjuntos, conforme instruído.
“Joaquin, é esse o seu nome?”
Ele balançou a cabeça.
“Pode me chamar de Tita Lina”, disse ela, passando a mão pelo cabelo dele de um jeito que parecia estranho, porém reconfortante. Fazia tanto tempo que ninguém olhava para ele com tamanha bondade, como se ele fosse mais do que apenas uma boca extra para alimentar.
“Você acabou de se mudar para cá?”
Joaquin mordeu o lábio. Ele não queria admitir. Não queria que fizessem muitas perguntas, que descobrissem quem era sua mãe e o que estava acontecendo em casa. Joaquin estava ali há apenas um minuto, mas seu estômago dava nós só de pensar em ser rejeitado.
Lina deu um tempo, observando o jovem de pele clara com cuidado. Ele era mais velho que Julian, mas menor e mais magro, com o corpo quase só pele e osso. Aquilo fez seu coração doer.
“Hum... ah... Amelia... ela está...”, murmurou ele ansioso.
Ah, Amelia.
Lina não deixou transparecer sua compaixão. Em vez disso, escondeu seus pensamentos atrás de um sorriso sereno.
“Vamos trocar a roupa de vocês”, ela disse com uma autoridade gentil, levando as crianças até o banheiro. Um balde com água morna e uma caneca estavam prontos.
Julian brilhou. Como esperado de sua mãe.
“Tirem primeiro a água da chuva. Vou começar o jantar. Podem ir, está tudo pronto.”
Quando Lina voltou para a cozinha, o som de seus passos ficou distante. Julian esperou pacientemente que Joaquin fosse primeiro, mas Joaquin hesitou. Seu irmão costumava cuidar dele em momentos como aquele. Ele deveria, como o mais velho, assumir o comando agora?
Julian parecia um garoto esperto, mas ainda era mais novo.
Entediado, Julian despejou a água sobre a cabeça, molhando-se inteiramente, roupa e tudo. Ele soltou um animado: “Woo!”
A cena foi tão ridícula que Joaquin não conseguiu evitar uma risada. E quando Julian lhe entregou a caneca com um sorriso, Joaquin sentiu algo que não sentia há semanas: o menor dos sorrisos apareceu em seus lábios.
Observação rápida: Chuveiros e banheiras não são comuns nas Filipinas, especialmente em famílias de baixa renda. Usamos canecas e baldes (pesquisem no Google!).