Capítulo 1 - Genocídio
Eles retornaram como deuses: ensanguentados, barulhentos e triunfantes.
Os guerreiros da Desert Moon surgiram na aldeia sob um céu cor de roxo-ferro, com as últimas veias do pôr do sol ainda sangrando no horizonte. A poeira cobria suas patas, agarrava-se aos seus pelos e assentava-se nas dobras de suas narinas. Parecia glória. Tinha cheiro de glória também: suor, ferro e fumaça, intensos o suficiente para arranhar o fundo da garganta.
Tamsin observou a aproximação deles. Alguns lobos manchavam. Alguns carregavam restos de carne entre os dentes. Todos os focinhos estavam úmidos. Todas as patas manchadas de vermelho. Seu estômago revirou.
E se o sangue não fosse prova suficiente, os despojos de guerra que carregavam eram. Fardos de suprimentos estavam amarrados em suas costas, e uma fila de carroças puxadas por lobos, cheias até a borda com mercadorias, compunha a retaguarda da procissão. Até mesmo os marcos de madeira entalhada que antes demarcavam as fronteiras territoriais da Dark Moon eram ostentados como troféus. Despojos. A prova de um genocídio concluído.
Os lobos mais jovens já corriam para saudar os guerreiros que retornavam, crianças guinchando de alegria enquanto os pais assumiam suas formas humanas, nus como vieram ao mundo, e levantavam os filhotes sobre seus ombros largos. Os anciãos da alcateia surgiam nas portas, balançando a cabeça em aprovação. Alguém estava rolando barris de cerveja e Liquave para fora do depósito. Madeira estava sendo empilhada para uma fogueira na praia.
Eles despejaram tudo no altar de pedra no centro do mercado, bem na beira da praia: lâminas da Dark Moon lascadas e enegrecidas, caixotes de suprimentos abertos, uma bandeira rasgada bem ao meio e queimada nas bordas. O sigilo ainda era visível sob as marcas de queimadura.
Ela o reconheceu. Isso fez sua respiração falhar.
Risonhos trovejavam pelo acampamento, crus e estrondosos. Alguém começou a tocar um tambor, devagar no início, depois mais rápido, o ritmo rastejando sob sua pele. Um barril se abriu com um chiado agudo, a espuma transbordando sobre mãos ávidas.
A alcateia entrou em erupção.
Tamsin permaneceu na borda da celebração, meio escondida por uma pilha de lenha, com a respiração presa no peito como se tivesse engolido uma pedra. Ela não comemorou. Não conseguia. Sua garganta se recusava a emitir qualquer som.
O ar estava denso com fumaça rasteira; metal e sangue montavam o calor, e o poder vibrava por tudo aquilo. A vitória tinha um gosto. Amargo. Elétrico.
Ela sabia o que eles tinham feito.
Não foi uma escaramuça. Não foi um ataque comum. Eles apagaram uma alcateia inteira. Genocídio.
Ela se lembrou de uma garotinha da Dark Moon. Não do nome dela, apenas do jeito que a criança costumava trançar conchas no cabelo nos mercados de solstício de verão. Do jeito que ela ria quando Tamsin tropeçava em uma rede de pesca.
Aquela garota não existia mais. Queimada. Dilacerada. Ou enterrada sob uma areia que nunca se lembraria dela.
Tamsin engoliu em seco.
Não apenas os guerreiros. Não apenas os líderes. Todos eles. Crianças. Mães. Anciãos.
Mortos.
Eles chamavam isso de justiça. Ela sabia que não era.
O horror pesava em seu peito, uma pedra que ela não conseguia engolir. E ainda assim, sob o horror, algo dentro dela se agitava, contorcendo-se em seu ventre como algo vivo e separado de si mesma. Poder reconhecendo poder. E com isso…
Algo se desenrolou dentro dela. Não desejo. Não no começo.
Uma pressão. Um aperto. Um calor que não pertencia ao seu luto.
Suas mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo, as unhas cravando nas palmas. Ela não sentia a dor. Seu corpo estava ocupado demais reagindo a outra coisa. Algo traiçoeiro, vivo e aterrorizante. Algo que ela odiava, mas que desejava.
Seu corpo já doía com isso. Um desejo profundo e implacável que não tinha nada a ver com a conquista e tudo a ver com o que aconteceria após a celebração. Depois da fogueira. Depois da bebedeira. Depois que os guerreiros estivessem embriagados de cerveja, vitória e sede de sangue, eles iriam querer alívio.
Eles iriam querer ela.
Eles sempre a queriam.
E ela, que os deuses a ajudassem, que os deuses a condenassem, ela queria também.
Porque a dor já latejava em seu baixo ventre. Ela já estava úmida de desejo. Ela já podia sentir o gosto de suor, sal e algo mais sombrio. Sentir o peso fantasma de mãos, bocas e corpos se amontoando sobre ela até que não conseguisse pensar.
Uma onda de umidade se acumulou em sua roupa íntima. Ela podia sentir seu próprio cheiro.
A percepção a atingiu como um tapa.
A Desert Moon rugiu como campeões. A fogueira explodiu em vida atrás dela, as chamas saltando alto, lambendo o céu como oferendas a algo antigo e faminto. Faíscas espiralaram para cima, desaparecendo na escuridão.
Suas coxas se contraíram.
A vergonha veio imediatamente depois, quente e aguda, inundando seu peito. Sua pele formigou como se todos pudessem ver, sentir o cheiro e saber exatamente o que seu corpo estava fazendo em resposta ao massacre.
O que há de errado com você?
Ela recuou para as sombras, cada passo deliberado. Com uma ponta de esperança de que não a notassem ainda.
E com a outra ponta, esperando que já o tivessem feito.
A dor pulsava lá embaixo, profunda e insistente, como um segundo batimento cardíaco. O calor se enrolava ali, espalhando-se para fora, descendo pelas coxas, subindo pela espinha. Ela nem tinha sido tocada. Nem tinha sido olhada. Pelo menos não direito.
Ainda.
Seus dedos se enterraram na casca de um coqueiro semi-queimado atrás dela. A madeira era áspera, lascando sob seu aperto. Pontas afiadas morderam sua pele, alojando-se sob suas unhas. Ela aceitou. Deixou que ardesse.
Não ajudou. Não podia tocar na dor real.
Ou no calor.
Algo está errado comigo.
O pensamento veio novamente: intruso, apertado pelo pânico. Ela mordeu o lábio com força suficiente para sentir o gosto de sangue. A dor foi limpa e imediata. Um ponto de equilíbrio.
Mulheres normais não se sentiam assim, sentiam?
Mulheres normais tinham autocontrole.
Mulheres normais não desejavam o rastro de uma carnificina.
Nenhuma das outras fêmeas sem parceiro se jogava nos machos da maneira que ela fazia. Por quê? Por que ela não conseguia se impedir?
Elas não pulsavam de necessidade enquanto o fedor de cinzas e sangue ainda pairava no ar, enquanto gritos ainda ecoavam na memória, mesmo que elas mesmas não tivessem ouvido.
Mas sua pele parecia apertada demais, sensível demais, como se cada nervo estivesse virado para fora. Seu pulso falhava e corria. Seu corpo a traía, já imaginando o peso deles… um, dois, mais… amontoando-se sobre ela, mãos ásperas, bocas quentes, vozes baixas e satisfeitas.
Usando-a.
Elogiando-a.
Dentes em sua garganta. Rosnados em seu ouvido.
Seu estômago revirou. Ela engoliu em seco, a bile queimando o fundo da garganta.
“Você é repugnante”, ela sussurrou, as palavras mal mais altas que o estalar do fogo.
A noite respondeu com uma brisa. Ela deslizou pelo acampamento, fria contra sua pele corada, trazendo novos aromas consigo.
Macho. Familiar.
Gavin, o filho do Beta. Cheiro de couro e cerveja, forte e limpo; Devlon, fumaça e aço; Jace, quente, animal, inconfundível.
Seu corpo reagiu instantaneamente. Um calafrio percorreu sua espinha.
Ela já tinha estado com todos eles.
O depósito brilhou em sua mente sem aviso. Pedra fria contra suas costas. Um barril pressionado contra sua coluna. A respiração de Gavin quente em seu pescoço enquanto ele prendia seus pulsos. Jace e Devlon atrás dela, revezando-se, invadindo seu espaço, preenchendo-a até ela não conseguir pensar.
Ela mal conseguia andar depois. Mas não conseguia parar de sorrir.
Aquela tinha sido a terceira vez naquela semana. Combinações diferentes. Mesmo resultado. Sempre dizendo sim. Sempre desejando mais.
Ela odiava como era fácil lembrar. Como seu corpo recordava vividamente cada sensação. Quão pouca vergonha restava quando a vontade crescia.
Sua mãe estava furiosa. É claro que estava. Embora o motivo de ela ainda se surpreender com as aventuras sexuais de Tamsin estivesse além de sua compreensão. Não é como se fosse algo novo. Ela tinha sido insaciável nos últimos três anos. Desde sua metamorfose em mulher, aos quinze anos.
Ela se lembrou da reação da mãe naquele dia, quase encolhendo-se ao ouvir a voz que cortou a memória como uma lâmina, como se ela estivesse aqui, agora.
“Três homens em uma tarde. De novo.”
Ilyra estava esperando quando Tamsin deslizou de volta para sua pequena moradia na borda da alcateia, cabelo emaranhado, pele corada, vestido amarrotado além da conta, exalando sexo. Ela estava rígida na entrada, coluna reta, mãos fechadas com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Ela parecia estar se segurando à força.
Tamsin se lembrou dos hematomas em seus joelhos. Da dor entre as coxas. O leve calor persistente que a fazia se sentir solta, leve e impenitente.
Ela não se importava.
“Você pode ser uma loba, mas não é um animal, Tamsin”, sua mãe dissera, com a voz tensa, tremendo apesar do controle. “Você é minha filha.”
As palavras bateram em algo duro dentro dela.
“Eu não consigo evitar, mãe. Eu preciso disso. Você sabe disso!”
Ela dizia a verdade. Cada palavra.
Algo nos olhos de Ilyra mudou então, o choque dando lugar a algo mais sombrio. Talvez porque fosse a primeira vez que Tamsin não tentara negar nada. Ou medo, talvez. Ou um reconhecimento que ela não queria reivindicar.
“Você não sentiu o mesmo?”, Tamsin pressionou, imprudente, amarga. “Você não gostou quando aqueles soldados tiveram você?”
O tapa veio rápido.
Rachou pela sala como um trovão. A cabeça de Tamsin pendeu para o lado. Sua bochecha queimou. Seus ouvidos zumbiram.
Seu coração não vacilou.
“Não, Tamsin.” A voz de Ilyra tremeu, o controle finalmente se estilhaçando. “O que fizeram comigo foi errado. Errado. Contra a minha vontade. Mas você... você está se desvalorizando deliberadamente. Pare de se entregar como se não valesse nada.”
As palavras cavaram fundo.
“Talvez eu não valha.”
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Isso fez sua mãe calar a boca.
Tamsin foi embora então, com a coluna ereta e passos firmes. Ela não olhou para trás.
Mas seu peito permanecia apertado. Contraído. Como se algo vital tivesse sido espremido com força demais e nunca tivesse se recuperado. Ela nasceu bastarda. Audun, era como a Desert Moon chamava seus bastardos. Ela ouvia isso ser sussurrado desde que tinha idade suficiente para entender o tom.
Ninguém sabia quem era seu pai. Nem mesmo Ilyra.
Talvez essa fosse a maldição.
Ou talvez —
Ela encarou a fogueira, os guerreiros circulando mais perto agora, olhos brilhando com a bebida e a vitória.
Talvez ela estivesse apenas quebrada. Ou talvez ela fosse exatamente o que esta alcateia fez dela.
Ela entrou no círculo da luz da fogueira, estampando um sorriso em seu rosto bonito demais.