O Segredo de Demarco

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Resumo

Demarco Carter sempre soube quem era sua alma gêmea. Só existe um problema: Storm Underwood, um dos homens mais QUENTES e inalcançáveis de Atlanta, é hétero. O desejo transforma-se em obsessão. A obsessão transforma-se em desespero. E quando oferecem a Demarco uma pílula rosa misteriosa com uma promessa impossível — tornar-se tudo o que Storm deseja —, ele não hesita. Mas a transformação tem um custo. Lady Richardson é linda. Confiante. Irresistível. E ela não é apenas um corpo novo. Ela é algo completamente diferente. À medida que Storm se sente atraído pela mulher em que Demarco se transformou, uma força sombria começa a surgir. Uma força que se alimenta de desejo, ciúme e controle. Agora, Demarco precisa decidir: isso era amor... ou era possessão?

Gênero
Lgbtq/Drama
Autor
Doll
Status
Completo
Capítulos
13
Classificação
4.7 3 avaliações
Classificação Etária
18+

1

E se você fosse um homem gay? E se a sua alma gêmea fosse um homem hétero? E se existisse uma pílula capaz de te transformar na mulher dos sonhos dele? Mesmo que fosse apenas temporário. Você tomaria? Você o enganaria? O que acontece quando a sua mentira se torna muito mais real do que a sua própria realidade? E se a sua mentira se tornar perigosa?

Se eu soubesse o que sei agora, eu nunca teria tomado aquela pílula rosa.

Minha história começou como um romance.

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Eu era apaixonado por Storm Underwood.

Quando você está apaixonado, você não brinca em serviço. Não. Você se entrega de corpo e alma. Você sente a pele do amor. Sem precisar de lubrificante. Você se entrega ao amor. De novo e de novo. Cada vez mais fundo, até que seu corpo estremeça de prazer. Você goza no amor. Você nunca, jamais, interrompe. É isso que o amor é. E era assim que eu me sentia em relação ao Storm Underwood.

“Ei, você...”

Storm Underwood estava olhando para mim.

Ele vestia uma jaqueta de couro D Squared, jeans rasgados e botas Timberland. Ele usava uma trança masculina no topo da cabeça, mas as laterais estavam aparadas e bem delineadas com uma navalha. A barba dele era perfeita, como se tivesse sido desenhada com precisão matemática.

“Eu?”

Minha voz falha. Você já sentiu um medo paralisante? Digo, não apenas um medinho qualquer. De repente, soou como se eu fosse uma garota branca de San Francisco. Soa como se meus pais tivessem uma conta bancária milionária. Eu esqueço onde estou. Esqueço quem sou quando ele olha para mim. Eu viro outra pessoa. Do nada, soa como se meu nome fosse Daisy em vez de Demarco.

“É, lil’ nigga,” ele me diz, “Você mesmo. Não tem mais ninguém por perto, tem?”

“Não.”

“Exato. Vem cá.”

Porra.

“Hum. Ok,” eu respondo.

Eu me aproximo. Storm Underwood era puro sexo. Ele era chocolate. E não era só chocolate ao leite, não. Storm era chocolate amargo. Sua pele tinha a textura de veludo. Não havia um único defeito à vista. Não dava para fingir uma porra dessas. Ele era um homem negro, uma beleza bronzeada, um deus radiante e um Adonis de âmbar, tudo em um só. Ele tinha 1,93 m. Seus músculos eram dignos de lendas. Seus olhos eram amendoados, ovais perfeitos. Seus lábios eram grossos, assim como suas mãos. Você sabe o que dizem sobre homens com mãos grandes.

Eu engoliria a porra dele e usaria como dieta. Ele provavelmente nem gozava. Provavelmente, mel escorria do pau dele. Eu deixaria ele fazer coisas profanas comigo. Estou falando de coisas nível ritual satânico. Ele poderia fazer TUDO isso. Porra, eu deixaria ele foder cada buraco que eu tenho. Se isso não fosse o bastante para o Storm Underwood, ele poderia criar suas próprias entradas. Eu queria ser o furador pessoal dele. Queria ser o pano para limpar a porra dele.

Apenas faça o que tiver que fazer comigo, Sr. Underwood. Eu não vou abrir a boca para reclamar.

Apenas me use, Daddy.

“Eu te conheço? Você me parece familiar.”

“Eu não sei.”

Mentira. Por que caralhos eu estava mentindo para o Storm Underwood?

“Ah,” ele responde.

Storm Underwood vai à alfaiataria do meu melhor amigo, Cupid, todo domingo para lavar suas roupas a seco.

Todo domingo eu encaro o Storm como se ele fosse a segunda vinda de Jesus. A verdade é que ele bem que poderia ser, porque eu definitivamente queria testemunhar no pau dele.

“Suas calças estão prontas,” Cupid diz ao Storm, “Quer provar?”

“Com certeza. Valeu, cara.”

Storm mandou ajustar as calças. Ele vai dar uma festa temática toda branca neste fim de semana. Storm segue para os fundos e Cupid quase desmaia pelo segundo em que seus dedos roçaram nos de Storm. Cupid e eu temos uma queda enorme pelo Storm desde que éramos bem mais novos. Não fiquei surpreso ao ver Cupid fingindo desmaiar atrás do balcão assim que o Storm foi para os fundos.

“Ele falou comigo,” eu comento, abanando-me naquele momento.

“Bicha, foda-se as palavras. Ele tocou na minha mão,” diz Cupid.

Cupid estava acostumado a me chamar de bicha. Ele era muito mais feminino do que eu. Somos melhores amigos desde pequenos. Estudamos no ensino médio com o Storm. Ele era melhor amigo do meu primo Malachi, na época em que o Malachi morava na cidade.

“Ótimo, lá vêm os ratos para estragar o meu dia,” diz Cupid, balançando a cabeça.

Ele se refere a um grupo de garotas que está entrando. Elas trazem esboços de vestidos que precisam que sejam feitos.

“Você precisa ser legal com suas clientes, cara,” digo ao Cupid.

“O que eu disse sobre me chamar de cara?” Cupid me pergunta, “Eu sou uma dama. Que tipo de viado é você, garota?”

“Do tipo que não gosta de ser chamado de garota,” eu respondo.

“Ok, trade. Vai terminar o serviço lá atrás enquanto eu cuido dessas maloqueiras,” Cupid me manda.

Trade era o nome dado ao homem que fica com outros homens, mas ninguém saberia disso apenas olhando ou conversando com ele. Acho que uma parte de mim sempre soube que eu era um pouco mais masculino. Eu não estava no armário, de forma alguma. Eu era gay e orgulhoso. Só nunca me encaixei muito na 'cena gay'. Cupid era meu único amigo gay, e o único motivo de nos darmos bem é que ambos gostávamos de moda.

Eu era estilista e Cupid sabia costurar. Eu desenhava as roupas e ele as confeccionava. Essa alfaiataria era apenas uma fachada até que a gente fizesse sucesso.

“Seja educado,” eu aviso o Cupid antes de ir para os fundos.

Vou para os fundos e começo a desenhar meu próximo look. É um vestido elegante para uma garota. Estou falando de um vestido armadura com pedrarias e uma cauda longa. Não, eu não estava desenhando para uma Drag Queen. Isso é Atlanta. Muitos se referem a ela como a Hollywood Negra. E fazem isso por um motivo. As pessoas gostam de tratar Atlanta como a nova Hollywood. Quando você vive aqui, ser normal não basta. Você tem que ser grandioso. Tem que chamar a atenção. Tem que ser incrível.

“Isso é muito bom,” diz uma voz.

Viro-me na hora.

Minha boca seca. Storm Underwood está nos fundos da loja. Ele acabou de sair do provador e está pairando sobre mim. Ele está sem camisa. Seus peitorais são grandes, sua barriga é definida e seu torso é esculpido. Ao se inclinar sobre mim, sinto um cheiro natural de almíscar. O perfume dele tem notas profundas e masculinas. Um calor emana do corpo dele que faz minhas partes íntimas formigarem.

“Isso? É apenas um vestido que estou criando.”

“Você desenha?” ele pergunta.

“É, cara.”

“Isso é demais,” ele responde, “Então você entende de roupas, hein? Que bom. Preciso da sua opinião sobre essas calças. O que você acha delas?”

Ele fica em frente ao espelho. Naquele momento, eu me volto para a religião. Percebo que Deus existe e Ele é incrível. Ele me cura quando estou quebrado, me dá força onde sou fraco. Ele será um deus misericordioso. Ele criou algo tão belo que me permite contemplar.

“Louvado seja...” eu sussurro baixinho.

“Hã?” pergunta Storm Underwood.

“Quer dizer, ficou ótimo, cara. Você quer que as calças vistam exatamente assim. Nem muito apertadas. Nem muito largas. Que façam a curva no seu rabo... do jeito certo.”

Que rabo perfeito o Storm tinha, aliás. Estou falando de algo firme. Um bundão redondo.

“Sem ofensa, cara, mas não estou preocupado com a parte de trás. Estou pensando na frente. Se é que me entende,” ele responde, “O que você acha? Se não se importar...”

Ele se vira, me mostrando a frente da calça. Há um volume ali. Nada exagerado, mas o suficiente para saber que esse homem carrega algo pesado ali embaixo. Eu me ajeito na cadeira. Engulo em seco.

Levanto-me da cadeira naquele instante. Caminho até ele e puxo a calça. Ele deixa. Passo os dedos ajeitando a cintura. Consigo sentir seu abdômen rígido pressionado contra minhas mãos. Estão duros como pedra. Ele provavelmente passa a noite toda na academia garantindo que aquele corpo de chocolate enlouqueça as garotas.

“Perfeito,” digo a ele, examinando sua calça, “Você está nota 20.”

“Nota 20. Tive um amigo antigamente que vivia dizendo isso,” ele ri.

Hesito por um momento.

“Eu não fui totalmente honesto quando disse que você não sabia quem eu era,” admito para o Storm, “Você era amigo do meu primo Malachi, antes de ele se mudar da cidade.”

“Malachi Carter, aquele que vendia drogas? Malachi, o Mixer?”

É triste que meu primo fosse conhecido como Malachi, o Mixer. Antigamente, ele era um grande traficante. Em Atlanta, caras como meu primo Malachi eram figuras importantes. Ele costumava andar com o Storm, que também era um peixe grande. Storm e Malachi eram as figuras de destaque da vida noturna de Atlanta. Isso foi antes de eles se desentenderem por algum motivo e o Malachi ir embora. Malachi se tornou um cidadão legítimo e o Storm continuou nas ruas.

“É. Eu sou o Demarco Carter.”

Storm abre a boca, surpreso. Ele parece completamente chocado, para dizer o mínimo. Ele me encara fixamente. Seus olhos se arregalam.

“Ah, para de fuder, lil’ homie,” Storm responde, chocado e perplexo, “Você é o Demarco Carter?”

“Sim. Sou eu.”

“O Ducky Demarco? O Demarco dos beiços grandes, meio feinho, dente saltado, que nunca deixava a gente em paz e escondia pornô gay debaixo do colchão?” Storm pergunta.

Meu rosto fica vermelho. O apelido Ducky definitivamente não era algo bom. Eu parecia um pato maldito naquela época. Acho que era assim que eu era conhecido. Lembro-me de quando Malachi e Storm encontraram o pornô gay quando eu era mais novo. Eu achei que eles iam me zoar para caralho, mas nunca fizeram isso de verdade. Eles não me expuseram para a escola toda. Guardaram meu segredinho, até da minha mãe. Foi aí que comecei a me apaixonar pelo Storm. Ele sempre foi tão relaxado e legal. Nunca foi de julgar. Além de ser o homem mais sexy que já conheci, era também o mais gente boa.

“Sou eu mesmo,” respondo, nervoso.

“Malachi ainda está se metendo em encrenca?” Storm me pergunta.

Mal consigo me concentrar no Storm. Ele está chegando mais perto. O sorriso dele é deslumbrante. Quando ele ri, seus músculos ficam tensos e seus peitorais pulam. É uma distração do caralho.

“É, é,” respondo, olhando para o peito dele, “Digo. Não. Desculpa. Ele está... na vida correta agora. Ele me mandou mensagem hoje de manhã dizendo que estava na cidade. Vou falar para ele que você perguntou dele.”

“Não precisa. A gente se estranhou. Mas, tenho que contar para minha irmã Tempest que te encontrei. Lembra que você e a Tempest costumavam sair? Espera só até eu contar para ela. Você cresceu. Ela vai ficar surpresa ao ver que você se ajeitou. Porra, você não é mais aquele moleque feio. Ha.”

O fato de o Storm não me achar mais feio coloca um sorriso no meu rosto. Você diria que sou uma criancinha pelo jeito que reajo a algo tão simples e estúpido.

“Ouvi dizer que a Tempest é uma figurona agora. Ouvi dizer que você também é.”

Tenho que ser realista. “Figurona” era pouco. Tempest e Storm comandavam Atlanta.

“Eu não diria figurona. Somos apenas promotores de festas,” diz Storm, “Na verdade, vamos organizar uma festa toda branca hoje à noite na ATL LIVE. Você deveria ir...”

A humildade dele me faz apaixonar ainda mais. Ele é tão humilde, porra. Você já conheceu alguém que não faz ideia de que é "o cara"? Tipo, ele literalmente não fazia ideia de que eu chuparia o pau dele até travar o maxilar. Ele não fazia ideia de que tinha garotas que vinham na loja pedindo vestidos que o Storm Underwood pudesse gostar.

Ele não fazia ideia de que comandava Atlanta.

Ele estava me contando sobre uma festa na ATL LIVE como se eu não soubesse. Todo mundo sabia das festas do Storm. Atlanta girava em torno da cena noturna. Eu não queria contar ao Storm que tinha desenhado cinco vestidos para cinco garotas diferentes para a festa dele. Na verdade, nos últimos 5 anos, eu ganhei a maior parte do meu dinheiro quando o Storm dava festas. As pessoas vinham de fora da cidade apenas para comparecer a uma festa do Storm Underwood.

“Não é muito minha praia,” admito para ele.

Eu desenhava vestidos para garotas que iam a essas festas. Nunca compareci a nenhuma delas. Dizer que eu sou caseiro é pouco. Eu não tinha vida social. Quando você tem mais gatos do que amigos, sua vida é oficialmente um fracasso.

Eu era o cara mais fracassado de Atlanta.

“Qual é, cara. A Tempest vai estar lá. Sua antiga namorada,” ele ri.

Ele está apenas me provocando. Tempest está muito fora do meu nível, mesmo se eu fosse hétero.

“Uh... isso também não é muito a minha praia.”

“Como assim? As garotas?” ele pergunta.

Eu balanço a cabeça negativamente.

“Eu sou um pouco diferente,” admito para ele.

“Você não vai me dizer que aquela fase toda com as revistas não foi uma fase, né?” ele me pergunta.

O clima fica estranho. Storm parece captar o que estou dizendo.

“Eu sou gay.”

Há uma pausa.

É aí que Storm dá de ombros: “Eu não me importo, cara. Por mim, tudo bem.”

“É mesmo?”

Não havia muitos caras em Atlanta que lidavam bem com isso. Ele estava dando de ombros e sorrindo como se não pudesse se importar menos com a minha sexualidade. Era isso que era tão sexy no Storm. Storm era tão... porra, gente boa. Eu o amava à distância. Eu tinha visto como ele ajudava senhoras a atravessar a rua. Tinha visto ele dar dinheiro a todos os pedintes que encontrava pelo caminho. Tinha ouvido falar de como grande parte dos lucros das boates ia para eventos de caridade.

Storm Underwood não era apenas sexy. Ele era um santo do caralho.

“Escuta,” ele me diz naquele momento, “Eu te convidei para vir. Não vou retirar o convite por causa de quem você escolhe foder. Isso é ignorante — pra caralho! Então é isso. Aparece por lá! Quem sabe? Você pode acabar encontrando um cara?”

Ele me dá um tapinha amigável no ombro.

Ele segue em direção ao provador. Continuo olhando para ele. Storm me fazia derreter. E ele tinha razão em uma coisa. Quem sabia? Eu podia muito bem encontrar um cara...

~

“Dá o fora daqui”, o Cupid está me dizendo, “Você é tipo um Moisés Gay. Você tem que abrir o oceano para que eu possa te seguir até a terra prometida”.

Acho que Storm Underwood deveria ser a terra prometida. Já é fim do dia e acabei de contar ao Cupid sobre o fato de o Storm ter me convidado para essa festa. O Cupid saía bastante, mas nada parecido com isso. Ele ia muito a bares gays e coisas do tipo.

“Não sei não”, respondo, “Meu primo Malachi está na cidade. Ele pode querer sair...”

“Sem ofensas. O Malachi é gostoso pra caralho, mas você não pode foder seu primo”, o Cupid responde naquele momento, “Você pode foder o Storm”.

O Cupid não estava ajudando muito na situação agora.

“Nem foi esse tipo de convite.”

“Como porra você sabe?”

“Porque ele é hétero. Você sabe que metade dessas garotas para quem fazemos vestidos já namorou o Storm”, respondo.

O Cupid dá de ombros naquele momento: “E todas elas disseram que ele não as comeu”.

“Isso não significa que ele seja gay.”

“Você está falando sério?”, pergunta o Cupid, balançando a cabeça, “Caras héteros fodem garotas. Eles fodem muitas garotas. Storm Underwood poderia ter qualquer garota que quisesse. Olha para ele. Quer dizer... OLHA para ele. Ele é o equivalente humano da Godiva. Ele deveria estar enfiando a rola em cada Jane, Jill e Janet num raio de 80 quilômetros o tempo todo”.

“Talvez ele seja um cavalheiro”, respondo, “Ele é simpático pra caralho. Ele entra aqui todo dia sorrindo. Você sabe que o Storm não é desse tipo”.

“Bom, talvez esteja na hora de você descobrir que tipo de cara ele é...”

“O convite foi só por amizade. Ele é amigável com todo mundo”, balanço a cabeça, “Não vou criar esperanças de que eu tenha alguma chance com o Storm—porra—Underwood. Isso não é um conto de fadas e meu nome não é Cinderela”.

“Você nunca sabe”, afirma o Cupid, “Até ir. Você é todo másculo, né? Então para de ser uma bichinha e vai. O quê, vai ficar brincando com seus gatos pelo resto da vida? Você precisa sair. Todos nós sabemos que você não gosta de xoxota”.

Eu rio naquele momento.

O Cupid tinha razão.

Ainda assim. No fim do dia, eu não me encaixava naquele público. Eu era um perdedor. Sempre tinha sido um perdedor. Meu primo Malachi era o popular. Eu era aquele que apenas ficava sentado por aí fingindo que estava tudo bem quando não estava.

“Não faz muito o meu tipo.”

Não havia nada de Hollywood em mim...

~

Vou para casa. O Cupid fecha a loja para mim. Eu sabia que ele estava vivendo através de mim. Ele provavelmente daria qualquer coisa para ter sido o convidado para a festa.

Vou para casa e abro a porta. Uma das minhas gatas, Titi, corre para fora. Eu a pego. Assim que a seguro, esbarro em alguém e solto um suspiro rápido.

“Ei, para de ficar assustado o tempo todo”, diz a voz.

Olho para cima naquele momento e vejo alguém. É um rosto familiar. Ele tem 1,85m. Tem a pele bronzeada cor de castanha. Ele é bonito. Ele aperta os olhos sem motivo. Tem um rosto liso, sem o menor sinal de pelos faciais. Tem olhos grandes que são de um castanho claro.

“Malachi, que diabos você está fazendo aqui?”

Meu primo tinha me dito que estava na cidade, mas imaginei que ele estivesse ficando em um hotel ou algo assim. O fato de ele estar parado na frente da minha porta com uma mala é definitivamente uma surpresa.

“Preciso de ajuda.”

“De novo?”, pergunto, balançando a cabeça, “Ei... eu pensei que você tivesse se tornado certinho”.

Malachi levanta as mãos. Ele faz isso com frequência. Meu primo tem um jeito de deslumbrar as pessoas. É difícil de descrever. Ele tinha aqueles olhos com aparência inocente e sobrancelhas grossas. Malachi tinha cara de bebê. Ele me olha com aqueles olhos enormes naquele momento.

“Eu me tornei. Juro. Trabalho para uma grande corporação farmacêutica.”

“Farmacêutica?”, pergunto balançando a cabeça, “Malachi, você ainda está vendendo drogas, não está?”

“Não exatamente.”

Meu primo tem um jeito de levantar as sobrancelhas quando está culpado por algo ou tentando esconder alguma coisa.

“MALACHI!”

“Escuta. Posso explicar. Não estou vendendo drogas do jeito que você pensa. Eu estava trabalhando para uma empresa. Eles não são exatamente a empresa mais legalizada. Eles estavam lidando com umas merdas perigosas. E eu estava ajudando eles em um projeto especial....”

“Malachi...”

Malachi me ignora: “Bom... algo deu meio errado com o projeto e eu meio que preciso ficar na minha por um tempo....”

“Malachi, olha para mim”, respondo, “Não quero saber. Não vou para a cadeia. Quanto tempo você tem que ficar dessa vez?”

Malachi se inclina e me dá um abraço. Ele sabe que não consigo dizer não para ele quando ele me dá um daqueles abraços. Ele não responde à minha pergunta antes de entrar no meu apartamento com sua mala. Malachi sempre precisou de ajuda. Ele sempre se meteu em problemas.

Veja, Malachi era químico. Ele tinha um talento incrível. Quer dizer, desde jovem ele criava suas próprias drogas e essas merdas. Ele era literalmente um Cientista de Rua. Passei anos tentando ensinar o Malachi a transformar seu conhecimento de química em algo legítimo. Malachi era do tipo inteligente que poderia encontrar a cura para o câncer, mas, em vez disso, estava criando drogas que deixavam as pessoas tão chapadas que elas pensavam que tinham superpoderes.

“Você sempre cuida de mim”, afirma Malachi, “Você sabe que eu te amo, né?”

Sigo Malachi para dentro de casa. Honestamente, estou irritado.

“Precisamos estabelecer algumas regras. Da última vez você quase queimou minha casa com seus experimentos. Não quero que você faça experimentos na minha cozinha. De jeito nenhum. Malachi.”

“Claro que não. Eu mudei”, diz Malachi, sorrindo para mim, “Você vai ver. Eu prometo. Você sabe que sente minha falta.”

Eu suspiro.

Até que sentia.

“Vou arrumar o sofá para você...”

“Sofá. Você desenvolveu um senso de humor, Demarco. Gostei disso. Você sabe muito bem que eu vou dormir do lado esquerdo da cama.”

Estou irritado. Estávamos velhos demais para dormir na mesma cama. Quando éramos mais novos, nossas mães faziam tudo juntas. Como nossas mães eram muito próximas, Malachi e eu nos tornamos próximos. Tomávamos banho juntos. Malachi me levou ao meu baile de formatura porque eu não tinha namorado. Por anos, ele tinha sido o único homem a dormir na mesma cama que eu.

Ele vai direto para o quarto. A parte triste é que eu já tinha um espaço designado no meu armário para o Malachi desde a última vez que ele saiu da cidade. Eu nem tinha ocupado. Porra... eu ainda tinha a escova de dentes dele aqui. Nunca tive um homem na minha vida.

“Como você sabe que eu não tenho um homem agora?”

Malachi ri da ideia: “Um homem? É mais provável que você tenha outro gato. Quantos você tem agora? 10?”

“Não... que porra eu pareço? O cara dos gatos?”, pergunto a ele, “Eu só tenho cinco...”

Malachi revira os olhos: “Vem aqui. Mais perto. Ok. Fica parado aí. Olha no espelho, primo. Olha bem mesmo? Não. Não reclama. Só olha no espelho. O que você vê?”

“Um cara básico pra cacete”, respondo.

Ele suspira: “Você não é básico. Você é especial. Olha para você. Olha para esse sorriso. Você tem essa pele marrom bonita, esses olhos castanhos profundos e essa bunda grande.”

Ele dá um aperto forte na minha bunda. Eu o empurro.

“Malachi, para.”

“Sério. Se eu fosse gay e você não fosse meu primo, eu comia essa bunda. Você precisa ganhar confiança com quem você é. Você está prestes a fazer 30 anos e nunca teve um namorado. Isso é ridículo. Precisamos te tirar de casa...”

Malachi estava me fazendo sentir patético.

“Tem essa festa... hoje à noite.”

Isso foi tudo que o Malachi precisava ouvir.

“Se veste.”

“Eu nunca disse que ia.”

“Quem te disse que você tinha escolha?”, pergunta meu primo, levantando a sobrancelha.

~

A fila no ATL Live é ridícula. Ficamos na porra da fila por quase uma hora. Sinto-me tão desconfortável. Eu não tinha roupas brancas, então tive que pegar emprestado as roupas do Malachi. Ele era mais alto e maior que eu, então as roupas ficaram um pouco largas. A camisa social branca é muito comprida e sinto-me tão desconfortável que quero colocá-la para dentro, mas toda vez que tento, Malachi puxa para fora e me diz que preciso parar de agir como uma rainha.

Faz quase uma hora e meia antes de chegarmos na fila.

“Desculpa, nada de rapazes por agora”, diz o segurança quando chegamos na frente.

Graças a Deus. De repente, sinto um peso enorme. O clube está lotado demais e estou tendo ansiedade. Começo a voltar naquele momento, mas Malachi me segura e me puxa de volta.

“Você está falando sério? Estamos parados nessa fila há mais de uma hora”, afirma Malachi.

“Veja... eu tenho que manter a proporção de rola para xoxota equilibrada. Então, a menos que um de vocês dois tenha uma xoxota, não entra mais nenhum homem nessa porra de clube”, diz o segurança.

“Você só pode estar brincando comigo!”, diz Malachi.

Malachi está ficando alto. Ele definitivamente consegue ficar um pouco louco às vezes quando fica puto da vida. Eu conhecia o temperamento dele. Sabia que precisaria acalmar meu primo para que ele não começasse a me envergonhar, especialmente sendo um evento lotado com pessoas olhando para nós, imaginando o que estava nos segurando por tanto tempo.

Justo nesse momento, vemos essa comitiva de Bentleys brancos encostar.

O segurança para de falar conosco. Ele está ignorando o Malachi completamente. Poxa... a essa altura eu também estou ignorando o Malachi.

As portas dos Bentleys se abrem.

“Quem porra são eles?”, sussurra Malachi para mim.

É quando vejo essas garotas saírem dos dois primeiros carros. Conto 4 delas. Cada uma delas é linda pra caralho. Todas pareciam estar “no 20”, como o Malachi diria. De 1 a 10, todas elas eram definitivamente 20. Elas sabem que são fodas também. Elas sabem que toda a fila de pessoas parou de falar para assistir essas quatro garotas chegarem ao clube.

Era como ver Jennifer Lopez, Kim Kardashian ou qualquer outra grande estrela. Você não conseguia evitar de encarar.

“Alta Sociedade de Atlanta”, digo ao Malachi, “Tempest Underwood, Ebony e Ivory Carter e Savannah Washington...”

Malachi está olhando diretamente para Tempest Underwood. É difícil dizer que Tempest é mais bonita que as outras garotas. Cada uma das garotas é bonita à sua própria maneira. Todas elas parariam o trânsito sozinhas. Elas tinham corpos como garrafas de Coca e rostos como modelos de passarela. Faziam algumas celebridades como Beyoncé parecerem as mulheres mais básicas do planeta. Essas quatro mulheres estavam em um nível totalmente diferente.

Malachi suspira: “Minha rola acabou de ficar dura...”

Elas nem ficam na fila. Elas vão direto para a porta e entram. Sem espera. Sem espera de uma hora. Nada disso.

Enquanto elas passam, mais caras saem dos Bentleys. Ficou claro que essa era uma raça diferente de homens do que estávamos acostumados também. Era o Storm Underwood e seus garotos. Eles entram no clube parecendo nada menos que dinheiro, popularidade e fama.

“Achei que você disse que não era permitida a entrada de mais homens?”, pergunta Malachi.

O segurança revira os olhos para Malachi: “Aquela é a Equipe Underwood”.

Equipe Underwood? O problema disso é que esses não eram apenas homens normais. Esses caras comandavam Atlanta. Atlanta girava em torno da cena dos clubes. Os promotores de clubes eram deuses aqui.

Não consigo tirar os olhos do Storm Underwood. Não sei o que me dá. Percebo que provavelmente não serei deixado entrar a menos que eu diga algo a ele.

Dou por mim acenando para ele.

“STORM! EI, STORM!”

Quando chego muito perto, alguns de seus parças me bloqueiam de uma forma defensiva. Provavelmente estou a um segundo de levar uma surra. Felizmente, Storm os para.

“Yo... Ducky Demarco”, ele diz, “Você está entrando, né?”

“Na verdade... nós não podemos...”

“Nós?”

Olho para o meu primo Malachi. Storm e Malachi dão um aceno de cabeça estranho um para o outro, como se se reconhecessem. No ensino médio, eles eram melhores amigos, mas agora era como se fosse apenas um cara aleatório que eles conheciam. Havia definitivamente uma tensão negativa no ar naquele momento. Eu não entendi.

Storm volta a olhar para mim: “Sigam-nos. Vou garantir que vocês entrem. E garantam de colocar as bebidas na minha conta também. Quero que vocês se divirtam hoje à noite...”

~

Dizer que o clube estava lotado seria um eufemismo. Sinto-me deslocado o tempo todo. Não bebo, mas Malachi já está meio alto. Fico observando enquanto ele fala um milhão de palavras por minuto com cada garota que passa. Tento fingir que não importa.

Existem dois andares no clube. O clube principal era para entrada geral, mas havia uma varanda imensa em cima.

Aquilo era a área VIP.

Dentro da área VIP, havia uma área ainda mais elite. Estava iluminada com luzes brancas. Parecia uma porra de um Monte Olimpo dentro do clube. E se a seção era o Monte Olimpo, então Storm Underwood e sua comitiva eram os deuses do Monte Olimpo.

“Você está olhando para lá a noite toda”, afirma Malachi.

Sinto-me mal. Eu realmente não estava me divertindo. Malachi tinha razão. Eu estava deslumbrado por qualquer coisa que fosse Storm Underwood. Tinha uma garota. Savannah Washington, que estava lá em cima com ele. Ela era a melhor amiga da Tempest. Ela dançou em cima do Storm. Tive que desviar o olhar. Não podia assistir. Savannah era deslumbrante. Ela era o tipo de garota com quem Storm ficava bem. Ela era asiática, de alguma ilha exótica que eu provavelmente não conseguiria pronunciar. O cabelo dela era longo e liso. O corpo dela, porém, era cheio de curvas, como se ela provavelmente tivesse que ter sido projetada em algum tipo de laboratório.

“Você já se perguntou como seria ser um deles?” pergunto a Malachi.

“Um de quem?”

“Da alta sociedade?” pergunto a ele.

Malachi ri: “Eles são apenas pessoas normais...”

Eu reviro os olhos: “Não tem nada de normal neles. Eles flutuam acima do resto de nós. Como uns anjos do caralho sentados em nuvens e essa porra toda.”

“Bem, acho que os anjos desceram dos céus para atender às suas preces. Vire-se...”

Malachi faz um sinal para trás de mim. Percebo que, com certeza, Storm desceu da área VIP. Ele caminha na minha direção. Fico um pouco confuso a princípio. Penso que talvez Storm queira colocar o papo em dia com Malachi, mas, quando ele volta, Malachi não está em lugar nenhum. Vejo Malachi do outro lado da boate paquerando umas garotas.

Isso não impede Storm de vir até mim, no entanto.

“Seu primo está me evitando?” Storm me pergunta.

Ele é tão bonito. As luzes batem em sua pele escura como salpicos em chocolate meio amargo. O branco que ele veste cria um contraste incrível nele.

“Posso ir buscá-lo se você quiser.”

Storm ri: “Não, mano. Na verdade, vim falar com você.”

“Comigo?”

“É. Eu andei pensando em como você é talentoso. E nem estou falando só dos designs. Estou falando de como você fez os designs. Não consigo tirar isso da cabeça.”

“Você curte moda?” pergunto.

Ele levanta uma sobrancelha: “Claro, cara. Você já desenhou para homens antes?”

“Eu desenho para qualquer um.”

“Você precisa me dar uma força, cara”, Storm responde, “O Halloween está chegando. Estou tentando aparecer com uma fantasia do Petty P.”

“Espera... você gosta de Petty P?” pergunto.

“Claro”, ele responde, “Você sabe quem é Petty P?”

A referência era um programa que eu costumava assistir quando era criança.

Eu rio disso: “Era o meu programa favorito.”

Storm me encara fixamente, como se estivesse descrente: “Ninguém que eu conheça já ouviu falar desse programa. Toda vez que falo em usar um terno verde-limão, as pessoas olham para mim como se eu fosse louco.”

“Nem ferrando. Eu amo o Petty P. Você lembra da música de abertura? A pimp named Petty P. Jumping on the Scene. With that Gangsta Lean, Looking Real Mean---”

“In his Lime Green”, ele completa, “Não conta para ninguém, mas eu tenho a trilha sonora inteira do Petty P no meu carro. E não estou falando de download. Tenho a porra da fita cassete...”

Nós rimos nesse momento. Fita cassete? Estou chocado. Estou rindo tanto que acabo soltando uma risadinha anasalada. Não consigo acreditar depois que acontece.

“Porra...”

“Você acabou de bufar?” ele me pergunta.

“Não...” eu respondo.

Ele balança a cabeça rindo: “Ei, não se desculpe. Acho que nunca ouvi alguém rir e bufar assim antes. Isso foi meio fofo...”

Fofo? Essa era uma maneira estranha de descrever o comportamento de outro homem. Mas esse era o Storm. Não consigo fazer nada além de sorrir. Meus dentes aparecem de orelha a orelha.

“Bem, fico feliz que você não ache que eu sou um porco.”

“Não, só um pato”, ele ri.

Nós rimos de novo. Estou tão concentrado nele que não percebo que outra pessoa se aproxima de nós. É Savannah Washington. Ela não me conhece, mas eu a conheço. Todo mundo em Atlanta que tem rede social conhece Savannah Washington, mesmo que você não queira. Observo como ela se aproxima dele por trás. Ela coloca as mãos nas costas de Storm, deslizando-as lentamente enquanto encosta seus seios nos bíceps dele. Storm não reage.

“É por isso que eu te amo, Storm”, Savannah diz a ele, “Sempre se misturando com negros comuns.”

O uso do termo ‘negros comuns’ me atinge em cheio. Paro de rir. Paro de sorrir. Ela estava me chamando de básico. Ela tem esse tom de desprezo. Ela quase poderia estar se perguntando o que alguém como Storm estava fazendo conversando com plebeus.

“Esta é minha... amiga Savannah”, Storm diz, apresentando-me a ela, “Savannah, este é o Demarco. Eu era amigo do primo dele antigamente.”

Estendo a mão para cumprimentar Savannah.

Savannah não aperta minha mão. Em vez disso, ela me dá um sorriso, seguido de um breve aceno antes de colocar os braços em volta de Storm.

“Stormy. Vamos lá para cima, amor. Sinto sua falta”, ela diz.

“Eu estava conversando com o Demarco.”

“E daí?”

Ela olha para mim. Posso ver que ela está confusa. Inferno, eu também estou confuso. Se ele tinha a atenção de alguém como Savannah, por que diabos ele se importaria em falar comigo? Era simplesmente estranho. Primeiro ele disse que minha bufada era fofa e agora ele estava me dando mais atenção do que para Savannah?

“Então, eu não vou a lugar nenhum”, Storm diz.

Savannah revira os olhos: “Cara, tanto faz.”

Ela vai embora naquele momento, provavelmente voltando para o VIP. Storm não tira os olhos de mim. Eu não entendo. Savannah Washington era a garota do momento em Atlanta. Ela era a garota que todos queriam conhecer, ou foder, ou ser, ou estar por perto. Você não conseguia evitar olhar para Savannah Washington. Então por que ele estava olhando para mim?

“Quer sair daqui?” ele me pergunta, “Apenas sentar no meu carro, ouvir música e bater papo? Por algum motivo, não estou a fim de ficar aqui.”

Levanto a sobrancelha, mas não hesito nem por um minuto: “Claro.”

~

A noite passa rápido. Ficamos chapados e ouvimos música. Não paramos de conversar. Não paramos de rir. O mundo ao nosso redor parece ter se afastado muito.

Eu estava apaixonado por Storm Underwood.

Eu sempre estive apaixonado por Storm Underwood.

Não acredito que Storm pulou a festa inteira para ficar sentado no carro. Seu Bentley é tudo. Os assentos de couro marrom fazem o carro parecer valer um milhão de dólares. O carro tem o cheiro dele também. Eu afundo nos assentos e sinto como se tivesse sido transportado para longe.

“Lembra quando o Petey P entra naquele salão de beleza em um episódio e alguém grita ‘eu fico com ele!’?” Storm me pergunta.

“Ah, porra, sim. Petey P era o cara.”

Começamos a rir naquele momento.

“Nunca conheci um cara gay como você”, Storm diz, “Eu não achei que vocês gostassem de programas assim. Achei que vocês gostassem das mesmas coisas que as garotas gostam. Sem ofensa.”

Eu dou de ombros: “Nem todos os caras gays são iguais. Eu jogo futebol americano. Gosto de programas de cafetões dos anos 70. Gosto de filmes de gângster. Adoro videogame.”

“Não, sério?” ele pergunta, “Cara, esse sou eu o tempo todo.”

“Você é Storm Underwood”, eu digo, “Você dá as melhores festas da cidade. Tenho certeza de que esse não é você o tempo todo...”

“Isso é trabalho”, Storm me explica, “Pessoalmente, sou diferente. Eu faço essa coisa de festa, mas, honestamente, um bom momento para mim é isso. Apenas sentar em um carro, fumar com uma pessoa legal e falar de baboseiras de programas antigos.”

“Você acha que eu sou uma pessoa legal?” pergunto.

Storm pega a maconha de mim. Ele fuma. Não consigo parar de olhar para os lábios dele. Eles pressionam o mesmo lugar onde meus lábios estavam há poucos segundos. O baseado ainda está úmido com a minha saliva. É a coisa mais próxima que cheguei de beijar Storm Underwood.

Ele levanta as sobrancelhas: “Cara, passamos 4 horas conversando neste carro. Tenho certeza de que, a essa altura, acho que você é foda para caralho. Aqui. Vamos tentar uma coisa.”

“O quê?”

“Já fez um shot gun?” ele me pergunta.

“Não...”

“Aqui, chega mais. Vou virar o baseado ao contrário para a parte acesa ficar na minha boca, assim. Agora você só suga na outra ponta enquanto eu sopro.”

O baseado é pequeno. Muito pequeno. Nossos lábios estão a apenas uns oito centímetros de distância um do outro. Ele sopra a fumaça na minha boca. Eu inalo. Continuo olhando para ele. Continuo olhando para aqueles lábios.

“Você é muito legal...”

“Você também é”, ele responde, “Cara. Nunca vibrei com alguém assim antes. É estranho. Eu nem te conhecia direito quando éramos mais novos. Eu teria saído com você muito mais se soubesse que você era tão legal... em vez do seu primo.”

“O que aconteceu entre você e meu primo?”

“Coisa de criança. Nós nos afastamos”, ele responde antes de dar de ombros, “Você já se perguntou se existe essa coisa de destino?”

“Como assim?”

“Quero dizer, talvez eu só fosse amigo do seu primo naquela época para que eu pudesse te conhecer agora...” ele pergunta.

Ele está sendo profundo. Ele está sendo muito profundo, na verdade. Não sei como reagir. Talvez eu esteja chapado. Talvez, por anos, eu só tenha observado Storm Underwood e não consigo aceitar o fato de que estou tão perto dele.

Seja qual for o motivo, eu arrisco.

Eu me inclino para beijá-lo.

Storm me bloqueia.

“Epa, que porra é essa?” ele pergunta.

“Desculpa, eu estava... eu...”

“Ei, eu sou hétero”, ele me corta, “Achei que tivéssemos deixado isso claro.”

Ele parece ofendido. Porra. Eu estraguei tudo. Eu estraguei tudo naquele momento. Não consigo acreditar em mim mesmo.

“Porra, eu devia ir. Foi só porque você estava falando sobre essa coisa de destino...”

“Espera.” Storm me impede, “Eu sou hétero, mas não queria que você fosse embora. Isso foi culpa minha.”

“Como?”

“Nunca vibrei com alguém assim antes. Por um minuto, esqueci que você era um cara. Estou ficando mais velho, cara. Estou tentando sossegar, e é como se eu quisesse que a química que tenho com você fosse a mesma que tenho com a Savannah.”

Ouvir Storm dizer isso deveria me fazer sentir feliz. Não faz. Sinto um embrulho no estômago em vez disso.

“Eu gostei do meu tempo com você também. Acho que é uma merda eu não ser uma garota, né?”

Ele olha para mim. Ele levanta as sobrancelhas.

“É. É uma merda. Se você fosse uma...”

“Se eu fosse uma o quê?”

Ele dá de ombros: “Não. Deixa pra lá. Soa meio gay.”

“Bem, você não é gay, então não vou levar para o lado pessoal.”

Ele ri por um momento, mas depois olha para mim: “Que se foda. Vou te contar. Eu ia dizer que, se você fosse uma garota... cara, você seria a esposa ideal, especialmente com a química que temos. Seria amor à primeira vista, tipo essa porra toda.”

Bem nesse momento, vejo meu primo. Ele estava caminhando em direção ao carro. É hora de ir. Olho para Storm. Storm olha para mim. Nossos olhos fazem essa conexão. É mais profundo do que atração. Eu senti isso e sei agora que é mútuo. Sei agora que isso não é uma baboseira que eu inventei todos esses anos.

Eu estava apaixonado por Storm Underwood.

E Storm Underwood estava apaixonado por mim.

Uma conexão de almas só acontece raramente. Uma vez na vida. Tinha acontecido agora.

“Pena que não sou uma garota”, eu explico a ele.

“Pena que não sou gay”, ele responde.

“Outra vida, Storm?” eu pergunto a ele.

Storm faz um sinal de positivo: “Outra vida...”

~

Eu choro naquela noite. Sinto-me como uma menininha chorando assim por um garoto que eu nem conheço. Sinto-me como uma menininha, mas a conexão que tive com Storm era algo que eu não conseguia explicar. Você já soube que pertencia a alguém? Eu sabia que pertencia a Storm. Eu pertencia a ele. Ele pertencia a mim.

Mas, de alguma forma, a orientação sexual ficou no nosso caminho.

De alguma forma, o gênero ficou no nosso caminho.

“É ele... não é?” ele me pergunta, “Storm...”

Meu primo sabia o que eu sentia por Storm. Eu tinha contado a ele anos atrás. Meu primo se move no quarto. Ele acaricia minhas costas. Ele me abraça. Eu estava cansado de meu primo ser o único homem na minha vida que me amava assim. Eu queria um amor de verdade.

“Nunca vai acontecer. Preciso deixar pra lá... mas... ele é simplesmente minha alma gêmea, cara. Sei que essa porra soa estúpida. Sei que pareço fraco.”

“Eu não disse nada disso.”

“Ninguém entende.”

“Não cabe a ninguém entender”, meu primo me defende antes de se levantar, “Você sempre cuidou de mim, primo. Você sempre esteve lá por mim. E se houvesse algo que eu pudesse fazer por você e por essa situação em que você está?”

Meu primo sai. Ele volta. Ele traz um frasco. Estou confuso. Sento-me na escuridão do quarto e olho para o frasco. Ele esvazia comprimidos nas mãos. São comprimidos verdes. Olho para os comprimidos e fico um pouco confuso.

“O que são esses?”

“Lembra que eu disse que estava trabalhando em algo? É nisso que eu estava trabalhando. É por isso que tenho que me esconder por um tempo. É uma porra séria. Algo que muitas pessoas importantes querem. Um avanço...”

“Um avanço em quê?”

“E se eu te dissesse que existe um jeito de você ser exatamente o que Storm queria? E se você pudesse deixar o cabelo crescer em questão de segundos? E se você pudesse mudar seu pau para uma vagina? E se eu te dissesse que você poderia mudar seu gênero? Temporariamente, é claro. E se eu te dissesse que existe uma maneira de você mudar seu gênero por algumas horas por dia tomando um comprimido? E se eu estivesse segurando esse comprimido na minha mão agora mesmo?”

Meu Deus.

Eu olho para os comprimidos verdes.

“Impossível.”

“E se não fosse impossível? Você tomaria? Você tomaria o comprimido?”