Capítulo 1: Rotina Destroçada
Era 2035, e Marcus arrastava-se para fora do escritório com o corpo doendo e a mente entorpecida. Aos trinta e oito anos, a vida parecia um ciclo sem fim: cubículo, metrô lotado, apartamento vazio. Cinco anos antes, sua namorada tinha ido embora sem quase nenhuma explicação. Desde então, os encontros ocasionais que conseguia em aplicativos não davam em nada. Ele já não tinha ideia de como preencher o silêncio em sua casa.
Quando chegou em casa, jogou as chaves na mesa, afrouxou a gravata e ligou o computador. Como todas as noites, passou os olhos por vídeos sem sentido para relaxar: compilações de gatos, falhas épicas, transmissões de jogos aleatórios — qualquer coisa para forçar um riso sem vontade.
Foi então que o anúncio apareceu.
Eternal Life.
Um MMORPG de nova geração. O trailer revelava um mundo despedaçado: o Céu e o Inferno tinham colidido com a Terra em algum cataclismo antigo. Cidades medievais em ruínas, campos de batalha onde anjos alados lutavam lado a lado com humanos contra bestas mitológicas — quimeras, dragões menores, grifos furiosos. A promessa era direta: ajude os anjos a restaurar o equilíbrio e escreva sua própria lenda em um mundo à beira do caos.
Requisito: Capacete de VR de imersão total Extreme 3500.
Marcus possuía exatamente esse modelo. Tinha comprado por impulso dois anos atrás e quase não o tinha usado desde então. O anúncio terminava com um botão brilhante: Download Now.
Ele clicou sem pensar muito.
Ele criou seu primeiro personagem: um humano cavaleiro, alto e musculoso, em uma armadura de placas pesadas. Nome: Marcus. Ele entrou no jogo... e sentiu-se tão invisível quanto na vida real. Jogadores passavam por ele correndo, subindo de nível, formando grupos, ignorando completamente seus pedidos de entrada em grupos. Depois de morrer três vezes seguidas para lobos básicos, ele saiu do jogo frustrado.
Ele encarou a tela de criação de personagem.
"Vou tentar outra coisa", murmurou para si mesmo.
Ele selecionou a raça: elfo. Pelos bônus de agilidade e precisão, disse a si mesmo. Embora, no fundo, soubesse que não era só por isso.
Ele ajustou a altura: não muito alta, mais pequena e delicada. Seios pequenos, tamanho A, naturais. A bunda não podia ser personalizada — permaneceu fixa no modelo élfico padrão: redonda, firme, provocantemente arrebitada. Cabelo longo até a cintura, verde-esmeralda vibrante. Olhos do mesmo tom marcante, grandes e expressivos. O equipamento inicial era uma túnica curta de arqueiro com detalhes em couro: cobria o essencial, mas deixava as pernas longas e claras expostas. Sexy, sem chegar a ser vulgar.
Ele sorriu enquanto o modelo de pré-visualização girava lentamente na tela.
Nome: Elara.

No momento em que ele entrou com ela, algo mudou. A mecânica era idêntica, mas a sensação... diferente. Mais leve. Mais notada.
Ela estava praticando arco e flecha na zona inicial quando um grifo menor a emboscou por trás. Sua barra de vida despencou; a tela de morte já estava começando a aparecer.
Então, uma espada enorme cortou o ar e decepou a cabeça da besta.
"Precisa de ajuda, gracinha? Essa coisa estava prestes a te transformar em tiras. Aceita o convite para o grupo — estou aqui para te proteger."
O nome flutuando acima dele: Ryx. Um guerreiro humano com armadura preta, escudo grande, e uma voz profunda e ressonante que preencheu o fone de ouvido de Marcus.
Elara (Marcus) aceitou na hora.
Eles limparam a área juntos. Ryx era paciente, explicava as mecânicas, contava piadas. Pela primeira vez em muito tempo, Marcus não se sentiu como um fantasma.
Eles alcançaram um subchefe: um minotauro corrompido guardando um altar angelical. Foram necessárias várias tentativas intensas e suadas — gritando ordens pelo chat de voz — antes que finalmente o derrotassem. Um item brilhante caiu do cadáver.
"Nossa, Ryx! Olha isso!" A voz de Elara saiu aguda e suave, com o modulador automático dando a ela um toque involuntariamente sedutor, quase um ronronar. "Um arco raro... muito melhor que o meu!"
Ryx soltou uma risada profunda e grave que vibrou direto pelos fones de ouvido de Marcus como um toque físico.
"Belo drop, arqueira. Mas para melhorá-lo, vamos precisar de pedras de afinidade. Tem uma masmorra ali perto onde elas caem. Quer continuar comigo? Peças de armadura leve costumam cair lá também..." Ele pausou, a voz ficando mais baixa, mais íntima. "...e você bem que precisa. Essa sua túnica não deixa muito para a imaginação quando você se move, mas não vai proteger porra nenhuma contra o que vem pela frente."
Um calor subiu pelo pescoço de Marcus no mundo real, mesmo sendo apenas código. Ele olhou para o modelo de Elara na pequena janela da interface: o tecido grudava em suas curvas modestas, porém perfeitamente moldadas; o decote baixo revelava as clavículas pálidas, e as pernas ficavam nuas até o meio da coxa. Aquela bunda élfica padrão balançava a cada passo — firme, redonda, impossível de ignorar — e Ryx tinha notado, com certeza. Obviamente.
Marcus engoliu em seco, sentindo o capacete mais apertado.
"Claro", respondeu ele, tentando evitar que a voz sintética soasse ofegante. "Vamos direto para lá."
Enquanto corriam para a entrada da masmorra, Ryx se posicionou ao lado dela, com o escudo erguido para protegê-la. Em um corredor estreito, seus ombros se tocaram. O contato virtual enviou uma faísca inesperada pelo corpo de Marcus: seu pulso real martelava no peito, o calor acumulando-se baixo em seu estômago. Ryx virou a cabeça, o visor preto refletindo os olhos esmeralda de Elara.
"Não se preocupe, gracinha. Estou aqui para te proteger... e qualquer outra coisa que precise de cobertura." Sua voz rouca carregava um tom brincalhão, quase provocante. "Você é rápida com esse arco, mas se algo te agarrar por trás... bem, digamos que eu prefiro ser o cara que te mantém perto."
Elara (Marcus) tropeçou em uma raiz por um segundo. Ryx a segurou pela cintura com uma das mãos enluvadas. O aperto era firme, possessivo, demorando um batimento a mais que o necessário. Marcus sentiu a pressão fantasma nos quadris estreitos de Elara — aqueles dedos grandes quase circundando completamente sua cintura pequena.
"Obrigada..." ela murmurou, a voz caindo para um tom mais suave, quase um sussurro.
Ryx riu baixinho.
"Sem problema. Gosto de proteger coisas que são... frágeis e mortais ao mesmo tempo." Ele a soltou devagar, seu polegar traçando deliberadamente a curva do quadril dela antes de se afastar. "Vamos lá, arqueira. Não quero que você morra antes que eu possa te ver de perto em ação."
E assim, sem nem perceber ainda, Marcus tinha dado seu primeiro passo em direção a algo muito maior do que uma simples missão em masmorra. O jogo tinha acabado de se tornar pessoal. Muito pessoal.