The Eyes
Já passava do meio da tarde e centenas de batidas rítmicas de machados contra a madeira ecoavam pelos bosques. Enxugando o suor da testa, Onyx se apoiou no machado e olhou para a posição do sol no céu. “Mais três horas”, ela murmurou para si mesma.
Com sua pele escura e o estranho cabelo branco preso em tranças, Onyx pegou seu machado. No momento em que estava prestes a golpear a casca da árvore, ouviu um tilintar suave. Olhou ao redor, mas não viu nada de errado. Ninguém mais parecia ter ouvido o ruído estranho. Ela balançou a cabeça, um pouco desconcertada. Pegando o machado de volta, continuou seu trabalho até o anoitecer.
Caminhando de volta para sua tenda, Onyx ouviu alguém gritar seu nome. Ao se virar, viu Rigel correndo atrás dela. *Maravilha*, pensou ela. Rigel era bonito o suficiente para as outras garotas, com sua pele castanho-dourada e cachos sedosos, mas, para Onyx, ele era apenas irritante. Seus pais o adotaram depois de encontrá-lo em uma cesta na floresta, dezenove anos atrás. Desde então, ele não parava de importuná-la.
“Eu vi você olhando ao redor da floresta feito uma anta”, ele disse com um sorriso presunçoso. Onyx revirou os olhos. “E você cheira como uma, mas eu não disse nada sobre isso.”
Rigel franziu a testa, aparentemente despreparado para aquela resposta, e saiu trotando com um meneio de cabeça, deixando os cachos balançarem.
Ela e Rigel nem sempre tiveram o melhor dos relacionamentos. Ele parecia instável demais para ela. Num momento estavam rindo e brincando, no outro ele a dedurava por algo que ela fizera na semana anterior. Por isso, Onyx fazia o possível para evitá-lo, o que era quase impossível já que eram irmãos.
Assim que Onyx entrou em sua tenda, ouviu o tilintar novamente. Virando-se num salto, agarrou o objeto mais próximo — um livro — e preparou-se para arremessá-lo contra o intruso. Não havia ninguém lá. Uma sensação estranha tomou conta dela e ela abaixou o livro lentamente, perguntando-se se estava ficando louca.
*Seria magia?* Ela se perguntou. Logo afastou a ideia de sua cabeça. A magia não era usada nem vista há quase cem anos. Mas, por algum motivo, ela se sentia atraída...
“ONYX!”
Rigel invadiu sua tenda, tirando-a de seus pensamentos. “Todo o gado foi massacrado. O chefe convocou uma reunião e exige que todos estejam lá em quinze minutos.” Ele encarou o livro em sua mão e ergueu uma sobrancelha. “O que é esse livro?”
“Não importa”, rosnou Onyx, jogando o livro em seu catre e saindo da tenda. Ela nunca poderia revelar ao irmão que estava ouvindo sons de tilintar. Ele não a deixaria em paz nunca mais. Ao sair, viu sua mãe no meio da multidão de aldeões apressados. Abrindo caminho por entre o povo, ela perguntou à mãe o que estava acontecendo.
“Parece que, enquanto todos trabalhávamos nos bosques, algum lunático veio e massacrou todas as ovelhas e vacas. Agora só temos lã para durar alguns meses e nada de leite. O chefe convocou toda a aldeia para uma reunião para discutir os detalhes e os próximos passos.”
A Sra. Windward era uma mulher baixa, mas bonita, apesar das marcas do trabalho em seu rosto. Ela tinha a mesma pele escura de Onyx e cabelos escuros ficando grisalhos. Ela se virou para Rigel e explodiu. “Se eu descobrir que foi você, juro pelos céus que você vai passar seis meses limpando bosta de cavalo dos estábulos.”
Rigel levantou as mãos com um olhar inocente no rosto. “Eu nunca faria isso!”, disse ele em tom de deboche. Aquilo irritou Onyx. Havia hora para brincadeiras e hora para ser sério, e aquela era a hora da segunda opção.
O salão da aldeia era um prédio precário que mostrava bem a pobreza do lugar. As paredes úmidas cediam com vigas lascadas. O chão estava rachado e pequenas ervas daninhas cresciam nas frestas. Ela não conseguia se lembrar de uma época em que sua aldeia tivesse sido próspera. Nem conseguia se lembrar de ter visto livros de história. Ela sabia que era por causa da pobreza, mas Onyx tinha a sensação de que era por outro motivo. Algo cutucava o fundo de sua mente que ela não conseguia ignorar.
A batida do martelo do chefe a trouxe de volta à realidade. “Convoquei esta reunião hoje para tratar de uma tragédia que ocorreu enquanto trabalhávamos diligentemente pelo sucesso de nossa comunidade...”
“Lá vem ele com seu discurso interminável”, murmurou Rigel. Onyx conteve um sorriso.
“...Não é apenas um ataque aos nossos meios de subsistência, é também um ataque à nossa paz... a pessoa responsável por essa monstruosidade de crime não era humana.”
Houve um burburinho coletivo na multidão. *Isso tem a ver com o som do tilintar?* Onyx se perguntou.
“As marcas que essa besta deixou no gado só poderiam ter sido feitas por uma criatura com garras. As marcas das garras tinham o tamanho de uma criança pequena, e ouso dizer que nenhuma criatura que eu conheça poderia causar ferimentos desse tamanho. Essa criatura está atrás de sangue. Eles deixaram as carcaças intocadas. Estou decretando que ninguém deve sair de suas tendas após o anoitecer.”
Um homem maltrapilho levantou a mão calejada e disse: “Como podemos garantir nossa segurança se tudo o que temos como abrigo é uma tenda velha e frágil?”
Murmúrios de concordância encheram a sala. O chefe coçou a barba espessa, parecendo perdido em pensamentos. Um momento se passou antes que ele respondesse. “Para aqueles que estão preocupados com sua segurança, vocês podem ficar aqui durante a noite. Não é o lugar mais resistente, mas é totalmente fechado e mais firme que as tendas. Este decreto será imposto até que o problema seja resolvido. Mais alguma pergunta?”
A sala ficou em silêncio. Com uma batida de seu martelo, o chefe dispensou a todos. “Reunião encerrada.”
Onyx caminhou de volta para a tenda com sua mãe e Rigel. Todos estavam em silêncio, com a sensação de um destino fatídico pairando sobre eles. Assim que Onyx abriu a aba de sua tenda, ouviu o tilintar novamente e parou onde estava.
“Você está bem?”, perguntou sua mãe.
“Sim, estou bem”, ela respondeu distraída. “Tenho certeza de que esqueci algo no salão da aldeia. Posso ir buscar?”
“Seja rápida, logo vai escurecer.”
Onyx acenou com a cabeça e caminhou na direção do salão. Assim que viu Rigel e sua mãe entrarem na tenda, ela rapidamente se virou e começou a caminhar na direção de onde ouvira o tilintar. Apesar do perigo óbvio, ela não conseguia evitar se sentir atraída por aquilo. Seguiu seu instinto e caminhou de volta para os bosques onde estivera trabalhando mais cedo.
Inicialmente, vasculhou o local, mas não encontrou nada. Não querendo demorar por medo de sua mãe descobrir, ela se virou para voltar à aldeia quando ouviu o tilintar novamente, desta vez mais perto.
Em alerta, ela vasculhou tudo mais uma vez e encontrou, espiando por trás de uma árvore a cerca de cem metros de distância, um par de olhos azuis brilhantes.
Ela sentiu algo sondar sua consciência, como se lhe dissesse que estava segura. Cada músculo de seu corpo se tensionava para correr, mas seu cérebro não permitia que o sinal fosse registrado.
A criatura emergiu de trás da árvore. Onyx se preparou para ser mutilada pela mesma criatura que massacrou o gado. Para sua total surpresa e desalento, um homem surgiu.
Ele era o ser mais lindo com quem ela já tinha cruzado na vida. Não usava camisa, tinha faixas enroladas nos braços com símbolos estranhos e carregava uma espada magnífica na cintura. Suas calças eram largas, com um envoltório estranho na cintura que retratava uma série de runas em suas dobras. Ele era alto e definido, com cada músculo marcado e suave. Seu cabelo era longo, com tranças que caíam sobre uma testa pesada. Era como se seu rosto tivesse sido esculpido com perfeição, cada linha nítida e definida. Sua pele era do mais rico tom de marrom, com lábios cheios e arredondados. O que mais impressionava Onyx, no entanto, era sua presença forte. Ele irradiava puro poder, o ar ao seu redor carregado de eletricidade. Ele não parecia humano; era quase sobrenatural. Ela estava hipnotizada por sua presença.
Assim que ela ganhou coragem para dizer algo, ouviu um galho estalar atrás dela. Ela se virou e, naquele segundo, o estranho desapareceu. Rigel apareceu atrás dela com um sorriso presunçoso.
“Eu sabia que você estava mentindo.”
“Você viu isso?”, perguntou Onyx.
“Vi o quê?”
“O homem... ele estava aqui há um segundo.”
“Não...? Você parece louca. Precisamos ir para casa agora antes que a mamãe tenha palpitações. Você sabe que o coração dela não é bom.”
Desapontada, Onyx caminhou com seu irmão para fora do bosque. “Por favor, não conte à mamãe que eu menti.”
“Fazer minhas tarefas por uma semana *pode* me convencer”, disse Rigel com um sorriso travesso. Gemendo, Onyx relutantemente concordou com seus termos.
Ao entrar na tenda, encontrou sua mãe dormindo no catre. Onyx se virou furiosa para o irmão e sussurrou: “Você sabia que ela estava dormindo, não sabia?”.
Rindo, Rigel disse: “Sim, eu sabia. Mas você ainda me deve tarefas por uma semana, senão eu a acordo e conto sobre suas inverdades”, disse ele em tom de deboche.
Furiosa, Onyx foi se deitar em seu catre. Eram momentos como aqueles que a faziam desejar que seus pais tivessem deixado o irmão na floresta.
Caindo em um sono inquieto, a última coisa que ela viu antes de tudo ficar escuro foram aqueles olhos azuis brilhantes.