Capítulo 1
O controle climático mantinha a cobertura em sufocantes vinte e um graus. Sem correntes de ar. Sem poeira. Sem som, exceto pelo zumbido de baixa frequência do sistema de ventilação do prédio. Um silêncio condicionado pressionava os tímpanos como água profunda. Pesado. Inflexível. O ar não tinha gosto. Filtrado. Purificado. Morto. Era o tipo de silêncio que custava dinheiro. O tipo de silêncio que deixava a pessoa surda.
Renzo Sato sentava-se atrás de uma mesa esculpida em uma única placa de ébano africano. Mais densa que água, foram necessários quatro homens para carregá-la. Agora, ela refletia as luzes do teto como um espelho escuro. Renzo olhou para o seu reflexo. Pálido. De traços marcantes. Desconhecido. A fotografia de um homem que ele costumava conhecer. A superfície polida mostrava um estranho usando o seu rosto — olhos encovados por três anos de noites de quatro horas, pele esticada sobre os ossos.
Suas mãos descansavam sobre uma folha de papel de arquivo. As linhas desenhadas nela eram perfeitas. Geométricas. Mortas. Um esquema para uma nova torre residencial. Pessoas viveriam dentro daquelas linhas. Acordariam, tomariam café, olhariam pelas janelas projetadas pelos algoritmos de Renzo. Ele pressionou a palma da mão contra o vidro ao lado da mesa. Nenhum calor foi transferido. Nenhum frio rebateu. Apenas uma resistência lisa e morta. Elas sentiriam a gravidade, o calor, o frio. Ele não sentia nada disso. O ar zumbia. Uma vibração nos dentes. Um vazio zumbidor que vinha crescendo há três anos. Começava no peito. Um espaço oco onde um coração deveria estar batendo com mais força.
Uma lembrança surgiu. Não uma imagem. Uma sensação. O cheiro de tabaco barato. Café queimado. Casca de limão.
Hana.
Não estava aqui. Não há três anos. Mas, de repente, estava no ambiente. Não ela por completo. Apenas sua mão. Seu polegar arrastando-se por uma mancha úmida de café em um desenho, borrando uma linha de tinta perfeita em um cinza desfocado. Nesta mesma mesa. Três anos atrás, quase no mesmo dia. Ela estava lhe mostrando uma falha nas linhas de visão do saguão, e seu café — aquele café terrível de deli que ela adorava — tinha deixado uma marca. Ele a observou pressionar o polegar na marca e depois arrastá-la pelo seu desenho técnico imaculado. O papel ondulou. A tinta escorreu.
“Viu?” A voz dela era áspera, arranhada pelos cigarros. “Agora está vivo. Suas linhas são mortas demais, Renzo. Elas simplesmente ficam ali paradas.”
Ele tinha dito a ela que aquilo era antiprofissional. Pediu uma nova impressão. Escolheu a linha reta em vez da mancha. A carreira em vez da mulher.
Agora, a linha no papel parecia um corte. A vibração intensificou-se, instalando-se em seus dentes como areia. O peito apertado. O ambiente não estava em paz. Era o silêncio de uma máquina parada. O silêncio filtrado era barulhento. Deixava-o surdo.
Renzo olhou em volta. Prêmios de vidro na prateleira — o Pritzker, a Medalha de Ouro da AIA, três prêmios internacionais de design. Uma escultura de metal retorcido no canto — um Calatrava genuíno. Janelas do chão ao teto segurando a noite da cidade. Apenas coisas. Trinta e oito anos. Um bilionário com uma cobertura, uma empresa, um nome. Um vazio no estômago que nenhum sucesso conseguia preencher. Os prêmios acumulavam poeira. Ele não os limpava há meses. Uma fina camada cinzenta cobria a base do Pritzker. Ele estendeu a mão. Tocou-a. Limpou um traço. O vidro embaixo estava frio.
Sua mão moveu-se sem permissão. Deslizou a gaveta superior. Trilhos silenciosos e lubrificados. Dentro: canetas, um abridor de cartas, papel de alta gramatura e uma ferramenta. Um bisturi para cortar maquetes arquitetônicas. Usado duas vezes em cinco anos. O metal brilhou sob a iluminação embutida. Frio.
Ele o pegou. O metal estava fresco. Pesado. Real. Mais real que o celular vibrando na mesa. Mais real que a cidade lá embaixo. O cabo era de borracha texturizada. Uma empunhadura feita para precisão. Para controle.
Renzo colocou a mão esquerda espalmada sobre a mesa de ébano. Mais lisa que a pele. Fechou o punho. Apertou até que os nós dos dedos ficassem da cor de osso velho. Colocou a ponta da lâmina a dois centímetros de distância dos dedos cerrados. Pôs seu peso sobre ela. Hesitou. A lâmina pairou. Uma fração de segundo em que ele poderia parar. Onde ele poderia escolher o silêncio filtrado novamente.
Ele não o fez.
Ele pressionou com mais força.
O som foi terrível. Um guincho de fibra rasgando. Agudo. Violento. Ecoou pelas paredes de vidro. Uma cena de crime em um quarto estéril.
A madeira resistiu. Escolhida pela perfeição. Selada sob camadas de verniz para resistir ao tempo. Renzo pressionou mais forte, colocando o ombro na força. Os músculos do antebraço saltaram como cordas. Veias surgiram ao longo do pulso. A lâmina trepidou, deslizou de lado por um momento, depois mordeu mais fundo e rasgou para frente. Uma ferida crua e pálida abriu-se no acabamento escuro. Serragem espirrou no ar condicionado. Tinha cheiro de floresta. De algo vivo. O perfume era tão deslocado que foi um choque. Cheirava a resina de pinho e terra. Cheirava a erro.
Ele não parou.
Arrastou a lâmina por quinze centímetros. Um cânion irregular. Vinte centímetros. Um desfiladeiro bruto e furioso. O suor brotou em sua têmpora, traçando uma linha fria pela bochecha. A lâmina atingiu um nó — uma falha escondida na madeira perfeita — e saltou, cortando um segundo sulco paralelo ao primeiro. Uma ferida dupla. O som mudou. Mais profundo. A madeira cedendo.
Quando ele parou, seu peito arfava. O ar entrava e saía de seus pulmões com dificuldade. A vibração tinha sumido. Desaparecido. Substituída por um silêncio zumbidor, sólido e pesado. Ele olhou para a cicatriz. Profunda. Feia. Lascas curvavam-se para fora das bordas. Serragem cobria sua mão, sua manga, a superfície polida ao redor da ferida. Uma ruína.
Ele soltou o bisturi. Ele tilintou contra os prêmios de vidro na prateleira abaixo — um som agudo e acusador. Um dos prêmios balançou. Não caiu.
Lentamente, ele abriu a mão esquerda. Os dedos doíam. Os tendões protestavam. Virou a palma da mão. Pressionou o polegar diretamente no coração cru e rasgado do sulco. A dor foi imediata. Uma mordida surda e amadeirada. Uma farpa — de quase um centímetro — entrou em sua pele, enterrando-se sob a almofada do polegar. Ele pressionou com mais força. Queria a mancha. Queria seu sangue e seu suor no objeto. Uma falha que nunca poderia ser polida. Ele enterrou a farpa mais fundo. Deixou-a alojada ali. Um lembrete permanente.
Ele sentou-se ali no escuro zumbidor, seu polegar sangrando na cicatriz de ébano. Esculpida não em tinta, mas em dano.
O sangue secou, ficando pegajoso. A mesa estava arruinada. Ele deixou o bisturi onde caiu. Levantou-se. Caminhou até a janela. A cidade brilhava lá embaixo. Fria. Distante. Uma grade de mentiras elétricas. Seu polegar latejava. Um batimento cardíaco pequeno e focado. Pulsando no ritmo das luzes da cidade.
Ele pensou em Hana. Não na lembrança. Na ausência. Por que ele tinha pedido aquela nova impressão? Porque a mancha dela era um erro. Ele não permitia erros. A linha reta. O ângulo perfeito. A transação limpa. Ele tinha construído um mundo em cima disso. O mundo estava silencioso. Pesado. Vazio.
A cicatriz na mesa era uma boca escura. A coisa mais honesta no quarto. Mais honesta que os relatórios financeiros. Mais honesta que o horizonte. Ele passou os dedos pela borda áspera. Sentiu as farpas. Prenderam-se em sua pele. Era isso que ela tentara lhe mostrar: a vida na falha.
Ele precisava encontrá-la.
Não para tê-la de volta. Essa ponte já virara cinzas. Para ver o que ela tinha construído em vez disso. Como era uma vida fora do vidro. Ele abriu uma gaveta. Pegou uma garrafa. Serviu dois dedos de Scotch. Não bebeu. Apenas observou o líquido. Âmbar. Viscoso.
Cansado da luz. Cansado da perfeição. Cansado de ser Renzo Sato. Ele queria sentir a aspereza do mundo. Olhou para a cicatriz. Era um começo. Ele bebeu. Queimou. A garganta arranhada.
Uma decisão. Não um plano. Uma direção. Para baixo.
Para dentro dos registros. O passado. Seguir a trilha da ausência dela.
Pela primeira vez em anos, ele sentiu algo. Não esperança. Propósito. Rachado e desesperado. Mas um propósito.
Ele ficou de pé. Tocou a cicatriz mais uma vez. Saiu sem olhar para trás. O elevador desceu. A gravidade esqueceu-se dele. Ele flutuou dentro do terno, sem amarras. A cobertura ficou acima. Ele já estava abaixo.
O elevador privativo desceu. O saguão de mármore estava vazio. O segurança noturno assentiu com olhos sem vida. Renzo atravessou as portas pesadas em direção à cidade.
Barulho. Cheiro. Caos.
A buzina de um táxi soou. Graxa e concreto úmido. Um homem bêbado cantando desafinado contra uma parede de tijolos. Renzo começou a andar. Sem destino. Seus sapatos estalavam na calçada. Limpos demais. Passou por portões fechados. Passou por bares iluminados. Passou por pessoas conversando, brigando, vivendo. Uma sombra. Um nada bem-vestido movendo-se por um mundo que tinha textura e cheiro. Um mundo que ele tinha pago para evitar.
Um pequeno parque. Concreto e algumas árvores finas. Um sem-teto dormia em um banco enrolado em um cobertor mofado. Renzo sentou-se em um banco oposto. Observou o homem dormir. Olhou para suas próprias mãos. Macias. Limpas. Elas nunca tinham construído nada com músculo. Elas assinavam. Apontavam. Apertavam outras mãos macias e limpas.
O bisturi. A madeira resistindo. A tensão em seu braço. Aquilo era trabalho.
Ele pegou seu celular. Rolou por centenas de nomes. Nenhum que ele quisesse ligar. Ninguém que entenderia a cicatriz na mesa. Guardou o celular. O sem-teto mexeu-se, abriu olhos leitosos. Olhou para Renzo.
“Tem um trocado?” Voz rouca de catarro.
Renzo enfiou a mão no bolso. Tirou seu clipe de dinheiro grosso. Destacou uma nota de cem. Estendeu-a. Os olhos do homem focaram. Ele não pegou.
“Qual é o jogo?”
“Não tem jogo.”
“Sempre tem um jogo.”
Renzo deixou a nota cair no banco. Levantou-se. Foi embora. Continuou andando conforme a noite ficava mais fria. Seu terno era fino. Ele não voltou para a cobertura. Não conseguia encarar o espaço vazio e as coisas perfeitas.
Ele voltou para o escritório.
A cicatriz ainda estava lá. Ele sentou-se à mesa arruinada. Colocou a cabeça entre as mãos. O zumbido estava de volta. Um som profundo, nos ossos. Ele tinha passado a vida construindo torres, fortunas, um legado. Tudo o que ele tinha era uma cicatriz em uma mesa e um silêncio filtrado tão completo que estava o afogando.
Ele levantou-se. O painel do elevador acendeu. Não o saguão. Não a cobertura. O botão marcado como MECH.
O elevador deu um solavanco. Afundando no ventre do prédio. As luzes piscaram. O ar ficou mais frio. Renzo estava no centro da caixa de aço, seu polegar latejando, observando os números dos andares contarem para baixo em direção ao negativo.
Ele ia cavar.