Capítulo 1
O Trono Congelado (Aurora)
O mundo estava queimando, mas a Imperatriz Aurora nunca se sentira tão viva.
Ela estava sentada em um trono de gelo, no coração de um palácio que não deveria existir. Paredes congeladas erguiam-se como dentes afiados contra um céu sufocado por cinzas.
Seu cabelo era branco prateado, penteado em tranças elaboradas; sua pele era clara; seus lábios eram cheios, pintados de um rosa suave; e seus olhos cativantes eram de um azul claro que, às vezes, tornava-se cinza.
Além do seu palácio congelado, a terra gritava. Florestas eram incendiadas pelo fogo de dragão como palitos de fósforo. Os rios ferviam.
O ar tremulava com o calor, denso com o fedor de carne queimada e a podridão purificadora dos campos de batalha. O mundo inteiro era purificado pelas chamas.
Aurora observava tudo com olhos tão frios e azuis quanto o próprio inverno.
Ela havia vencido.
Fortuna tinha ido embora. A Podridão tinha ido embora. O mundo era uma ferida cauterizada, vermelha e em carne viva, mas finalmente limpo.
O povo lá embaixo, aqueles que ficaram em Muntenia e sobreviveram à fome, inundou as ruas manchadas de fuligem, com seus rostos iluminados pela pira distante de seus inimigos.
Eles cantavam músicas sobre ela.
“Imperatriz Aurora!” gritavam eles, “A Salvadora! A Portadora das Chamas!”
Ela foi a primeira realeza nos anais do tempo que se sacrificou pelo povo, e não o contrário.
Os bardos já estavam compondo os versos. "A Épica da Rainha de Gelo."
Aquele pensamento deveria ter lhe trazido alegria, ou alívio, ou pelo menos algum tipo de satisfação. Em vez disso, ela sentiu apenas um vazio imenso.
Ela fez o impossível. Ela sobreviveu quando a sobrevivência parecia uma piada cruel. Ela defendeu um reino à beira da aniquilação e o transformou em um império.
A Rainha Aurora agora era uma Imperatriz. Uma Conquistadora. Uma Matadora de Deuses. Mas ela também era uma escrava.
A ironia não passou despercebida por ela. Na verdade, ela achou isso sombriamente hilário.
Ela havia se oferecido — seu corpo e sua alma — a um monstro em troca de proteção, e o monstro entregou o que prometeu. Ou, para ser exata, ele entregou mais do que o esperado.
Ele cumpriu cada promessa que fez.
Os lábios de Aurora se curvaram em um sorriso sem calor. Seus dedos, pálidos e elegantes, com pontas de unhas azul-gelo, agarraram os braços de seu trono.
Em algum lugar distante, uma torre desabou. O som chegou até ela como um gemido baixo e lúgubre, como o estertor de morte de alguma grande besta finalmente sucumbindo aos seus ferimentos.
O exército de mortos-vivos que assombrou seus pesadelos por tanto tempo havia desaparecido. Queimado. Purificado.
Cada cadáver em decomposição que se erguera sob o comando de Malak, cada soldado infestado pela praga que marchara sob a bandeira do Rei Philip, todos eram cinzas agora. Espalhados pelos ventos que cheiravam a enxofre.
Malak, o próprio Deus da Podridão, estava morto. Finalmente morto. Não apenas derrotado, não apenas banido, obliterado.
Seus gritos ainda ecoavam em sua memória, uma sinfonia de agonia que ela repetia em momentos de silêncio, quando precisava se lembrar de que até deuses podem ser mortos.
Seu segundo marido, o único que importava, tinha garantido isso.
Como se invocado por seus pensamentos, ela o sentiu antes de vê-lo. A temperatura na sala do trono caiu mais dez graus.
Ele se materializou a partir de uma coluna rodopiante de centenas de corvos estridentes, seu estilo característico de chegar e partir. Sua forma era como um pesadelo que ganhara carne.
A geada se espalhou pelo chão em padrões geométricos, belos e mortais. As chamas além dos muros do palácio tremeluziram e diminuíram, como se até o fogo se acovardasse em sua presença.
Void.
Seu rei. Seu general. Seu amante. Sua perdição e salvação envoltas na armadura de um Cavaleiro das Trevas. Mesmo agora, depois de tudo. Ele ainda a deixava sem fôlego.
“Está feito”, disse Void. Sua voz era como o primeiro estalo de gelo em um lago congelado. Linda e aterrorizante.
Ele parou diante do trono dela, pairando sobre ela, e por um momento nenhum dos dois falou.
Aurora inclinou a cabeça, estudando-o. Havia sangue em sua armadura, já congelando em um gelo cor de ferrugem. Ele esteve matando. Claro que esteve.
“Todos eles?” ela perguntou, embora já soubesse a resposta.
“Sim.” Uma pausa. “A podridão se foi. Queimada. O dragão cuidou disso.”
O dragão. Sim. Ela quase se esqueceu do dragão. A criatura que estava morta há mil anos... Exceto que ele não estava morto. Não realmente. Apenas... espalhado. Esperando. Ficando mais forte dentro do mais improvável dos receptáculos, até que o momento fosse certo para renascer em fogo e fúria.
“E a garota?” Aurora perguntou. “Juliet?”
“Livre.” Algo cintilou no rosto de Void.
“Ela e o padeiro retornaram do Inferno e terão seu final feliz.”
O sorriso de Aurora aumentou.
“Um amor que sobreviveu ao inferno na terra e depois ao inferno sobre o inferno. Não é romântico?”
“Sim.”
Void deu um passo à frente e, de repente, ele estava bem ali, pairando sobre o trono dela, sua presença engolindo todo o espaço no recinto.
Uma mão se estendeu lentamente e a agarrou pela garganta. Seus dedos eram tão frios que queimavam, mas ela não se encolheu. Não mais.
“E você?” ele perguntou, sua voz baixando para algo quase gentil. “Você conseguiu seu final feliz?”
Aurora olhou para cima, para aquele monstro lindo que a destruíra e a refizera. Ela pensou em seu primeiro marido. Pensou no torneio, em se oferecer como prêmio para o guerreiro mais forte.
Ela pensou no momento em que Void venceu, quando ele olhou para ela com aqueles olhos negros insondáveis e ela soube que tinha encontrado exatamente o que procurava.
Seu mestre.
“Você salvou meu povo”, ela disse finalmente. “Você me deu um império”, ela pausou, deixando o peso daquelas palavras se assentar entre eles.
“Você está satisfeita?” Void respondeu estoicamente.
“Nosso trato era que você protegesse meu reino. Agora Malak está morto e meu reino não apenas sobreviveu, mas venceu. Então... você vai me deixar agora?”
Por um longo momento, Void não disse nada. Sua mão permaneceu em sua garganta, seus olhos perscrutando os dela, e Aurora sentiu seu coração martelar.
Essa era a pergunta que a assombrava há tanto tempo. Ele ficaria? Ou ele desapareceria de volta para seu reino congelado, deixando-a sozinha para governar um império de cinzas?
Finalmente, os lábios de Void se curvaram em algo que poderia ter sido um sorriso em uma criatura menos aterrorizante.
“Deixar você?” Ele se inclinou, sua respiração fria contra os lábios dela. Seu aperto se fortaleceu, o suficiente apenas para lembrá-la de quem detém o poder.
Quem sempre teve o poder...