Capítulo 1
Camille entrou a passos firmes na galeria mal iluminada. O sussurro suave das conversas se misturava à música ambiente, que vinha de alto-falantes escondidos. O ar estava pesado com o cheiro de perfume caro e tinta fresca.
Ela parou na entrada. Sua identidade foi rapidamente conferida por uma recepcionista, que assentiu com educação. Ao entrar um pouco mais, seus olhos percorreram a multidão rapidamente.
O salão estava repleto da elite de Paris — artistas, colecionadores e críticos —, todos circulando entre grupos de pinturas abstratas e esculturas banhadas por uma luz suave e elegante.
Camille sentiu um frio na barriga de pura expectativa enquanto caminhava pelo local. Seu olhar se deteve em uma tela grande à sua frente; as cores vibrantes e os traços fortes já exigiam atenção.
Ela estava acostumada a esses eventos: o zumbido baixo da expectativa, o clique seco dos saltos altos e os sussurros de elogios e críticas.
O fato de estar acostumada não significava que gostava de comparecer. Ela preferia estar em seu estúdio, cercada por tintas e telas. Mas aquilo era uma inauguração de arte; ela não conseguiria ficar longe, nem se tentasse.
Ela vivia pela arte, respirava por ela. Teria enlouquecido anos atrás sem isso; e então, aqui estava ela. Pegou uma taça de champanhe de uma bandeja que passava e caminhou mais para dentro da galeria.
O cheiro de tinta no ar a envolvia como um abraço. Talvez, se ela focasse apenas naquelas coisas, se focasse o suficiente nas artes, pudesse abafar aquelas vozes e fingir que era a única pessoa naquele espaço amplo.
“Senhorita Lefevre?” E lá se foi seu plano de se desligar.
Ela se virou na direção da voz, certificando-se de que seu sorriso educado estava no lugar.
Um homem a observava com olhos brilhantes. Ele era alto e esguio, com uma bagunça de cabelos loiros emoldurando seu rosto incrivelmente bonito e óculos grossos apoiados na ponta do nariz.
“Nossa, é você mesma”, ele disse, com um sorriso largo no rosto e a voz carregada de deslumbramento e empolgação. “Camille Lefevre, em carne e osso.”
Seu sorriso era contagiante, cheio de calor e admiração genuína. Apesar da formalidade do evento, ele exalava uma energia quase juvenil, como se o mundo ainda não tivesse descoberto como torná-lo sério.
Camille sentiu uma ponta de inveja dele. Ela ofereceu um sorriso polido, acostumada a esses encontros. “Suponho que sim. E você seria?”
Ele se endireitou, oferecendo-lhe a mão com uma graça confiante, mas despretensiosa. “Julien Moreau”, disse ele, com a voz suave e apenas um toque de empolgação. “Admiro seus trabalhos há anos. Mas ‘admirar’ parece uma palavra tão pequena... Acho que estou apaixonado por eles.” Havia uma sinceridade em seu tom, um respeito claro por ela enquanto ele aguardava o aperto de mão, ainda sorrindo como se não pudesse acreditar na própria sorte.
O sorriso que Camille tinha estampado no rosto tornou-se real enquanto ela deslizava sua mão enluvada na dele e a sacudia gentilmente.
Ela gostava de conhecer pessoas que conheciam e apreciavam seu trabalho. Sempre sentia que se conectava com essas pessoas através de sua arte.
Sua arte era sombria, perturbadora — como as pessoas diziam inúmeras vezes — e deprimente. Nem todo mundo olhava para o seu trabalho e via a beleza nele. Então, quando ela encontrava alguém que via, isso a preenchia com um tipo de calor.
“É um prazer conhecê-lo, Moreau”, ela disse suavemente. “Fico feliz em saber que alguém vê a beleza no meu trabalho, em vez de apenas chamá-lo de perturbador.”
“Por favor, me chame de Julien. E eu acho que coisas perturbadoras podem ser bonitas, você não acha? É isso que as torna inesquecíveis. Eu daria qualquer coisa para ver como seu cérebro funciona para você pintar essas obras-primas.”
Ela soltou uma risadinha. Ah, ela gostou dele. Isso era uma novidade para ela: gostar de alguém que ela acabara de conhecer.
Eles se lançaram em conversas sobre arte. Ele caminhava ao redor dela, contando detalhes sobre diferentes pinturas. Em pouco tempo, Camille nem sabia mais por que não queria ter vindo.
Depois de um tempo, ele teve que se desculpar, dizendo que tinha um compromisso e que a encontraria logo. A sensação de leveza em seu peito evaporou assim que ele saiu, e ela sentiu vontade de sair correndo daquele lugar.
Ela pegou o celular na bolsa e checou a hora. Esperaria por Julien por trinta minutos e, se ele não voltasse até lá, ela iria embora.
Ela pegou outra taça e a esvaziou antes de sair do salão para procurar o banheiro. Estava quase chegando quando um barulho a parou.
Ela se virou para um canto e viu um homem segurando uma mulher, a boca dele colada ao pescoço dela. A mulher gemeu novamente, suas mãos apertando o paletó do homem.
Camille poderia ter simplesmente virado as costas e dado privacidade àquelas pessoas, mas descobriu que não conseguia se mexer. Talvez fosse pelo som dos gemidos da mulher. Não parecia prazer, parecia dor. Ou talvez fosse o sangue que escorria pelo pescoço delicado dela.
O homem levantou os olhos e eles pousaram nos de Camille.
Camille ficou chocada com o que viu. Os olhos do homem brilhavam em vermelho, com as pupilas rodeadas pela cor. Ele afastou a boca do pescoço da mulher lentamente, e Camille juraria que viu presas antes que elas desaparecessem.
Ele lambeu o sangue do pescoço da mulher, fazendo-a soluçar, sem desviar os olhos de Camille.
Camille não deveria estar apenas parada ali, testemunhando seja lá o que fosse aquilo. Ela deveria se virar agora mesmo, gritar por ajuda, ligar para a polícia, denunciar aquele homem.
Mas ela não conseguia se mover, não conseguia piscar. Não tinha nem certeza se estava respirando. Ela estava hipnotizada.
O homem deu um sorriso de lado, como se soubesse o que ela estava pensando, seus lábios pecaminosos curvados para cima. Ele soltou uma das mãos da cintura da mulher e apalpou o seio dela por cima da roupa.
Dessa vez, o gemido que escapou dos lábios da mulher foi de prazer. Ela arqueou as costas e se pressionou contra ele, como se eles já não estivessem perto o suficiente.
A mão dele foi para o outro seio e ele fez o mesmo.
Ele não quebrou o contato visual com Camille. Ele nem sequer piscou. E ela também não.
E então ele abriu a boca e... ali estavam. Presas. Camille tinha visto corretamente antes.
Sem aviso, ele cravou aquelas presas no pescoço da mulher, que arfou de dor. As presas permaneceram ali, e Camille o viu engolir.
Ele engoliu?
Meu Deus, ele estava bebendo o sangue dela?
O vermelho ao redor de seus olhos brilhou mais intensamente e ele finalmente fechou os olhos enquanto puxava a mulher para mais perto. Ela tentou lutar. Ela empurrou, arranhou as costas dele, mas ele nem sequer afrouxou o aperto.
A luta dela foi ficando mais fraca até que, finalmente, ela parou e seu corpo ficou inerte nos braços dele.
Ela estava morta. Morta.
Camille tinha acabado de testemunhar um assassinato.
O homem retirou as presas do pescoço dela e lambeu a última gota de sangue, antes de lamber os lábios, com um brilho perigoso nos olhos.
Ele suspirou, satisfeito, antes de ajeitar o terno e seus olhos pousarem em Camille novamente.
Essa era a parte em que ela deveria sair correndo e gritar por ajuda. Por que, então, seus pés ainda estavam pregados no chão?
O homem colocou as mãos nos bolsos e caminhou lentamente em sua direção, como se estivesse dando a ela tempo para correr na direção oposta.
Corra, Camille! Droga! Por mais que tentasse, ela não conseguia ouvir aquela voz e permaneceu onde estava.
O homem parou a poucos metros de distância e seu sorriso aumentou. Senhor, ele era lindo.
“Bem, o que temos aqui?”
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