Capítulo 1 - E tudo começou...

O vento assobiava pelas antigas vigas de madeira da casa, encontrando caminho por cada fresta que os anos haviam esculpido na construção. Na lareira, o fogo tremeluzia fracamente, seu estalar cansado sendo o único calor que restava naquele pequeno cômodo.
Aldric estava sentado no banco de madeira bruta junto à mesa, com os cotovelos pesados sobre os joelhos e o rosto escondido entre as mãos. Por um longo momento, ele não se moveu.
Seren estava parada diante dele. Sua irmã mantinha os braços cruzados sobre o peito, os dedos finos apertando as mangas do vestido desgastado, como se precisasse de algo a que se segurar. Ela o observava em silêncio, e a preocupação em seu rosto era impossível de ignorar.
Era como em quase todas as noites. Depois de terminarem o trabalho do lado de fora — se é que aquilo ainda podia ser chamado de trabalho —, sentavam-se ali, na pequena casa na beira do vilarejo, o lugar que sempre fora seu lar.
Mas, nas últimas semanas, algo havia mudado. O ambiente tornara-se mais frio e vazio. Um silêncio que parecia errado.
Seren estudava o irmão mais velho, e Aldric sabia muito bem o que ela via.
Um rosto que definhara. Sombras profundas sob os olhos que não podiam mais ser ignoradas. Um homem marcado por dias demais sem comida adequada e noites demais sem dormir.
Naquela manhã, ele vira seu reflexo no barril de água e mal reconhecera o homem que o encarava de volta.
Mas o que ele deveria fazer?
A terra ao redor do vilarejo nunca fora fácil de cultivar. O solo era duro e estéril e, mesmo nos anos bons, cada saco de grãos precisava ser conquistado com um trabalho exaustivo.
Mas este não era um ano bom.
Era pior do que qualquer coisa de que Aldric pudesse se lembrar.
As colheitas haviam secado nos campos muito antes de amadurecerem. Os animais estavam fracos, e alguns já tinham morrido, apesar de todo o esforço deles. O pouco que restava precisava durar cada vez menos a cada dia que passava.
O pior de tudo era que não eram só eles. Em toda parte, as mesmas histórias eram contadas. Uma fome devastadora se espalhava.
E não havia ajuda à vista. A capital não respondia aos pedidos de socorro, e o governador do vilarejo se recusava a liberar qualquer suprimento dos estoques. Ninguém sabia ao certo se ainda restava alguma reserva.
E, vindo de lá também, eles não recebiam nada além de silêncio.
Por fim, Aldric ergueu a cabeça.
"Isso não pode continuar, Seren", disse ele, com a voz baixa e rouca de exaustão. "A fazenda não nos dá mais nada, e eu não consigo tirar dinheiro do nada."
Ele soltou um suspiro amargo e contido.
"Se continuarmos assim, vamos morrer de fome."
Seren apertou os lábios. Ela sabia que ele tinha razão. Eles haviam tentado de tudo. Revolveram a terra novamente, mesmo exausta. Conversaram com os vizinhos, trocaram mantimentos, aproveitaram cada pequena oportunidade para encontrar algo que fosse comestível.
Mas nada ajudou.
Os campos permaneciam estéreis. O celeiro, vazio.
"Então precisamos ganhar dinheiro de outra forma", disse ela, finalmente, em voz baixa. "Posso ir trabalhar na cidade."
Aldric levantou a cabeça. Seu olhar atingiu a irmã com força, quase com raiva.
"Não. Você é mulher. Ninguém vai te contratar. E se contratarem... será por um preço que eu jamais permitirei."
Seren ergueu o queixo com teimosia, embora uma sombra de exaustão ainda pairasse em seus olhos.
"Eu não sou mais uma criança, Aldric. Eu posso ajudar. Eu quero ajudar!"
"Não desse jeito!"
Ele se levantou de um salto, como se tivesse sido picado.
Em uma terra como aquela, o trabalho honesto era raro. As fazendas não tinham condições de pagar por trabalhadores. Cada pessoa extra significava mais uma boca para alimentar — e a comida já era escassa. Aqueles que buscavam trabalho raramente o encontravam de forma honesta.
E as mulheres... mulheres eram necessárias para coisas completamente diferentes em tempos como aqueles. Apenas o pensamento fez a raiva subir ao peito de Aldric.
"Eu sei exatamente o que você está pensando", disse ele, bruscamente. "E isso não é uma opção."
Seren não desviou o olhar.
"Temos que fazer alguma coisa."
"Mas não isso."
Sua voz endureceu. Ele se lembrava muito bem da promessa que fizera no leito de morte do pai. Ele jurara proteger sua irmã, garantir que nada de terrível acontecesse com ela. E ele jamais quebraria aquela promessa.
Ele sabia que, nas terras vizinhas, algumas famílias já haviam feito escolhas diferentes. Crianças desapareciam de casa. Meninos eram vendidos como mão de obra, e meninas... para outros fins. Aldric mal podia culpá-los. Quando a fome chega, muitos não veem outra saída.
Mas, para ele, uma coisa era certa.
Seren jamais seria vendida por tal preço só para sobreviver mais algumas semanas.
Não enquanto ele estivesse respirando.
Seren continuava a encará-lo e, apesar das palavras firmes, havia um desespero em seu olhar que correspondia ao dele. Ela só queria ajudar, encontrar uma solução — exatamente como ele.
Mas Aldric já sabia que aquela conversa não levaria a lugar nenhum.
Ambos eram teimosos demais.
E ambos estavam desesperados demais.
Aldric encarou o fogo em silêncio por vários minutos enquanto as brasas queimavam fracamente. As chamas lambiam a madeira semicarbonizada, sua luz tremeluzindo sobre as pedras fuliginosas da lareira.
Até mesmo um fogo à noite logo se tornaria um luxo.
A lenha tornara-se escassa. A comida, ainda mais. E se o inverno fosse tão rigoroso quanto diziam, eles acabariam congelando sem calor.
As noites já estavam frias demais.
Seus dedos cavaram inconscientemente a pedra esfarelada da borda da lareira. Um pedaço de argamassa se desprendeu sob a pressão e escorreu pelo chão.
A certa altura, ele soltou um suspiro pesado.
"Eu poderia pedir trabalho ao governador."
Seren paralisou.
"Ele sempre precisa de homens fortes", continuou Aldric, ainda fitando as brasas como se buscasse uma resposta nelas. "Posso me tornar útil."
A respiração de Seren falhou. Ela encarou o irmão, incrédula.
"Você não pode estar pensando seriamente em entrar a serviço daquele homem!"
Sua voz soou áspera.
"Aldric, você sabe o que acontece com as pessoas que trabalham para ele. Esqueceu que a maioria delas nunca volta?
E, se voltam... não são mais as mesmas."
"Isso são apenas boatos", rosnou Aldric.
Mas, mesmo para seus próprios ouvidos, sua voz soou oca. Ele sabia, tão bem quanto ela, que havia algo mais por trás daquelas histórias.
"Não posso simplesmente ficar aqui sentado e ver você se sacrificar enquanto não faço nada", continuou ele. "Sou o homem desta casa, Seren. Preciso encontrar uma solução."
"E você realmente acha que o governador lhe dará um trabalho honesto?"
Seren se aproximou, a voz tremendo de medo contido.
"Ele vai te quebrar, Aldric. Ele vai transformar você em algo que você não é. E então não perderei apenas nossa fazenda... perderei você também."
Seus olhos brilharam à medida que as lágrimas se acumulavam.
Aldric balançou a cabeça lentamente e passou a mão pelos cabelos despenteados.
"Eu não tenho escolha."
"Sim, você tem!"
Seren manteve-se firme.
"Vamos encontrar outro jeito. Talvez eu possa trabalhar para uma família rica. Costurando, limpando, qualquer coisa. Ou talvez ainda encontremos uma maneira de salvar a colheita."
Aldric fechou os olhos por um momento. Aqueles pensamentos não lhe eram estranhos. Ele os conhecia bem demais, havia repassado tudo isso incontáveis vezes durante as longas noites em que o sono não vinha e ele só tinha as dúvidas girando em sua mente.
E, ainda assim, chegava sempre à mesma conclusão.
Não havia outro jeito.
Não eram apenas Seren e ele que estavam à beira do abismo. As pessoas ao redor do vilarejo sofriam da mesma forma — vizinhos, amigos, famílias inteiras que viveram naquela terra por gerações e agora não sabiam como sobreviveriam ao inverno que se aproximava. Para Aldric, eles não eram apenas moradores. Eram parte de sua vida. E, com isso, parte de sua responsabilidade.
Talvez não houvesse mesmo outro caminho.
"Você mesma se ouve?", perguntou ele, rouco, sem erguer o olhar. "Você realmente acha que pode ganhar o suficiente consertando roupas ou lavando pisos para nos manter vivos?"
As mãos de Seren se fecharam em punhos, o tecido do vestido esticando sob seu aperto.
“E você realmente acha que é mais forte do que todos os outros homens que se submeteram ao governador?”
Os olhos dela brilharam para ele, cheios de raiva — e de algo por baixo que pesava mais do que a fúria.
“Você acha que pode simplesmente trabalhar para ele por alguns anos e voltar sendo o mesmo homem?”
A voz dela ficou mais baixa, mas isso só a tornou mais intensa. Cada palavra cortava mais fundo.
“Eu te conheço, Aldric. Você não vai se curvar a ele. Você é teimoso demais para isso.”
Ela engoliu em seco e, por um breve momento, algo na expressão dela se quebrou.
“Mas, se você resistir a ele... então ele vai te destruir.”
Um tremor surgiu em sua voz, quase inaudível, mas inconfundível.
“E então... não sobrará nada de você que possa voltar para mim.”
O silêncio tomou conta do quarto.
O fogo na lareira tinha quase se apagado por completo. Apenas brasas incandescentes restavam entre a madeira carbonizada, lançando uma luz avermelhada fraca no ambiente cada vez mais escuro.
Aldric respirou fundo, sentindo o peito subir e descer devagar enquanto as palavras da irmã ecoavam dentro dele.
Ele sabia que ela tinha razão.
Mas o que ele deveria fazer?
Ficar parado e assistir enquanto ela se sacrifica?
“Eu não posso deixar este mundo levar você, pequena estrela”, disse ele por fim, em voz baixa.
Sua voz soava cansada e pesada.
“Você está segura aqui na fazenda.”
Lentamente, ele levantou o olhar para ela.
“E você é importante, Seren. As crianças das fazendas vizinhas precisam de você.”
Por um momento, ele hesitou, como se a próxima confissão fosse difícil para ele.
“Eu preciso de você aqui.”
Seren deu um passo à frente, com a voz não passando de um sussurro.
“Então, deixe-me estar aqui por você também.”
Com cuidado, ela colocou a mão sobre os dedos calejados dele que ainda repousavam na lareira. O toque dela era suave, quase hesitante, como se ela temesse que o menor movimento pudesse afastá-lo dela.
“Deixe-me ajudar.”
Aldric fechou os olhos.
Por um momento, ele teve que lutar contra algo dentro de si. Seus ombros ficaram tensos, sua respiração ficou mais pesada, como se tivesse que tomar uma decisão que drenaria toda a sua força.
Então, ele puxou a mão lentamente.
“Vamos conversar sobre isso amanhã”, murmurou ele por fim, e virou-se de costas para ela.
Ele estava cansado demais para outra discussão.
Seren permaneceu onde estava. A dor ainda brilhava em seus olhos — junto com uma frustração crescente que ela mal conseguia esconder. Ela sabia, tão bem quanto ele, que o tempo estava acabando, mas Aldric não queria alimentar o medo que já tomava conta dela.
Lá fora, o vento uivava e batia contra as venezianas, como se tentasse destruir o silêncio tenso dentro do quarto. As tábuas de madeira da casa rangiam sob a força das rajadas.
Aldric encarou o brilho fraco das brasas. As últimas faíscas vermelhas tremeluziam entre as cinzas cinzentas, como se lutassem tão desesperadamente contra a extinção quanto ele lutava contra os pensamentos em sua mente.
Ele podia sentir Seren atrás dele, sentir a decepção dela como um peso enorme em seus ombros.
Ele odiava momentos como este.
Odiava discutir com ela quando só restavam os dois. Mas, acima de tudo, odiava essa sensação de impotência que cavava cada vez mais fundo em seu peito.
Uma batida surda quebrou o silêncio de repente.
A cabeça de Aldric se ergueu rapidamente e uma sombra cruzou seu rosto.
“Quem poderia ser a esta hora?”
Seren recuou, inquieta.
Aldric, instintivamente, esticou a mão para o lado, onde seu velho machado estava encostado na parede. Seus dedos envolveram o cabo com força, e a madeira rangeu baixinho sob a pressão.
Normalmente, ele não teria hesitado em abrir a porta. Ele conhecia todos os homens, mulheres e crianças da região. Em uma aldeia como aquela, ninguém continuava sendo um estranho por muito tempo, e os rostos eram tão familiares quanto os campos onde trabalhavam.
Mas, desde que a fome começou a ameaçá-los, algo havia mudado.
Estranhos apareciam com mais frequência. Pessoas que ninguém conhecia, com olhares famintos e mãos vazias, tentando se agarrar ao pouco que os outros ainda tinham.
Com um olhar rápido para Seren, dizendo silenciosamente para ela ficar atrás dele, ele finalmente caminhou em direção à porta e a abriu.
O ar frio da noite invadiu o ambiente.
Na escuridão lá fora, a figura de um homem se formou, envolto em um casaco velho e sujo, com o tecido marcado pela chuva e pelo sofrimento. Seu rosto parecia pálido sob a luz fraca da lua, a pele marcada pelo vento e pelo trabalho duro. Seus olhos estavam arregalados, cheios de pânico.
Aldric reconheceu imediatamente um de seus vizinhos — Stefan. Lentamente, ele afrouxou um pouco o aperto no machado.
“Aldric... você precisa vir... rápido...”
A voz do homem tremia, quebrada e rouca, como se ele mal tivesse fôlego para chegar até ali, e até aquelas poucas palavras pareciam exigir um esforço imenso.
“Eles... eles o levaram... ele...”
“Calma, Stefan. O que aconteceu?”, respondeu Aldric, tentando manter a voz calma, mesmo enquanto seu corpo ficava tenso novamente e sua mão, inconscientemente, apertava o machado.
Stefan inclinou-se levemente, ofegante, como se tivesse que juntar as palavras com dificuldade.
“Eles levaram Garren...!”
Ele inspirou profundamente e, então, forçou as próximas palavras, como se elas pesassem em sua língua.
“Os homens do governador... eles o levaram, Aldric. Quando ele não conseguiu pagar as taxas hoje, eles simplesmente o levaram.”
Aldric sentiu algo se contrair dentro de si quando o significado daquelas palavras o atingiu com força total.
“Droga...”, ele murmurou, com a voz baixa e áspera.
Garren nunca tinha sido apenas um vizinho para ele.
O velho moleiro o havia ajudado muitas vezes — mais do que Aldric jamais admitiria abertamente — e Stefan sabia disso muito bem, ou não teria vindo ali no meio da noite.
Desde o acidente que destruiu a perna de Garren anos atrás, cada tarefa havia se tornado um fardo para ele, e ainda assim ele nunca tinha desistido. Ele sempre continuou em frente, mesmo quando já não havia mais motivos para isso.
Aldric e Seren tinham ajudado como podiam, tentado devolver nem que fosse uma fração do que ele já tinha lhes dado, mas todos sabiam que suas forças eram limitadas — que não podiam carregar o peso de uma vida inteira.
E, ainda assim, não podia terminar daquele jeito.
Para Aldric, Garren era mais que um vizinho, mais que um amigo — era o que mais se aproximava de um irmão mais velho. E a ideia de simplesmente deixá-lo partir, sem fazer nada, era insuportável.
Com um movimento firme, Aldric pegou seu casaco velho na parede.
“Reúna os outros, Stefan”, disse ele com calma, mas havia uma determinação em sua voz que não permitia argumentos.
Stefan assentiu imediatamente, como se esperasse exatamente aquela resposta, e desapareceu de volta na escuridão e na chuva forte, sem dizer mais nada.
Até pouco tempo atrás, eram apenas boatos — nada mais que histórias sussurradas de que os homens do governador levavam as pessoas quando elas não podiam mais pagar as taxas. Ninguém queria realmente acreditar, porque parecia cruel demais, até mesmo para tempos como aqueles.
Mas, agora, tinha se tornado realidade.
O povo dali sempre lutou para sobreviver, suportou anos difíceis e seguiu em frente através da fome e do frio — e, de alguma forma, até agora, as coisas sempre continuaram.
Mas, aparentemente, a cidade já tinha visto o suficiente.
E Aldric sabia que eles não poderiam simplesmente aceitar aquilo — não quando nenhuma ajuda vinha de cima, mesmo que precisassem dela mais do que nunca.
Ele pegou seu machado e estava prestes a se virar, quando sentiu a mão de Seren em seu pulso, segurando-o.
“Aldric...”, ela disse suavemente, e quando ele se virou para ela, havia pânico em seus olhos. “O que você vai fazer?”
“Você vai ficar aqui”, ele respondeu, calmo, mas firme. “Tranque a casa e não saia, está me ouvindo?”
Por um momento, ele a abraçou, segurando-a mais forte do que pretendia, antes de soltá-la e olhar diretamente em seus olhos.
“Você vai ver. Tudo ficará bem”, disse ele baixinho, e embora sua voz estivesse calma, havia uma promessa naquelas palavras.
“Nós vamos trazer Garren de volta.”
Olá, pessoal,
Espero que o capítulo 1 tenha deixado vocês curiosos!
Sintam-se à vontade para deixar um like ou um comentário – eu agradeceria muito.
Boa leitura! 🖤
Com amor, Luna