1 - Uma Estranha nas Sombras
Talia
Um cão de terapia ganhe.
A guia fica tensa na mão de algum doador rico, o animal crava as patas no mármore e se estica em direção a um dos cantos mais escuros do museu.
Estranho.
Mas meus pés estão latejando, minhas costas estão tensas e a bandeja equilibrada sobre minha cabeça parece mais pesada a cada segundo. Por isso, não perco energia tentando entender por que um cachorro de repente parece sentir cheiro de morte.
Eu serpenteio entre vestidos que brilham como lustres e homens que cheiram a colônia e dinheiro antigo.
Uma mulher coberta de diamantes levanta sua taça vazia. Ao lado dela, um homem de barba grisalha me lança o tipo de olhar que as pessoas reservam para chiclete grudado na sola do sapato.
“Água”, diz a mulher, sorrindo do jeito que mulheres ricas sorriem quando estão acostumadas a serem obedecidas. “E rápido, querida.”
Forço um sorriso educado e puxo meu cartão plastificado de dentro do avental.
Nele está escrito: “Sim, trarei imediatamente.”
Os olhos da mulher se suavizam com pena no segundo em que ela lê.
O homem ao lado dela não se suaviza nem um pouco. Seu olhar percorre meu corpo — meu uniforme de serviço preto barato, meu cabelo preso, meu rosto — como se ele estivesse procurando saber exatamente o que deu errado no mundo para me colocar em seu campo de visão.
“Hum”, ele murmura para a mulher, alto o suficiente para eu ouvir. “Se este lugar tem dinheiro para festas, você pensaria que poderiam contratar funcionários competentes.”
O calor sobe pelo meu pescoço.
Sorrio mesmo assim, porque é isso que garotas como eu fazem quando pessoas como eles nos lembram qual é o nosso lugar.
Então, viro-me e sigo em direção ao corredor de serviço antes que a ardência atrás dos meus olhos se torne óbvia.
Ele não é o verdadeiro problema.
Sou eu.
Minha pele escura nunca foi o problema aqui. Esta noite, é o hematoma sob o corretivo, a falta de dinheiro, os segredos, a vergonha.
Atravesso a última parte da multidão. Então, algo muda.
Os pelos da minha nuca se arrepiam.
Um calor percorre minha pele — repentino, invasivo, íntimo.
Eu paro.
Sinto como se alguém estivesse me observando. Como se olhos tivessem se fixado em mim com um objetivo.
Olho por cima do ombro.
Nada além de risadas, luz de velas, taças de cristal e riqueza polida. Ainda assim, a sensação não desaparece.
Ela cresce.
Acelero o passo e entro no corredor de serviço. A porta se fecha atrás de mim com um clique, transformando a música em um zumbido distante e abafado.
Finalmente, silêncio.
Solto o ar e abaixo minha bandeja.
Então ouço... passos.
Eu me viro.
Um homem está parado no fim do corredor, na penumbra, vestido de preto de uma forma tão séria e elegante que ele parece menos um convidado e mais uma ameaça que alguém esqueceu de manter do lado de fora.
Ele está com as mãos nos bolsos. Sua postura é relaxada. Confiante.
E seus olhos estão em mim.
Meu corpo todo paralisa.
Ele não deveria estar aqui. Convidados não têm permissão no corredor de serviço.
Coloco a bandeja no chão com cuidado e tateio atrás do meu molho de cartões, procurando pelo azul. O de Perdida? Precisa de ajuda? Área errada? Qualquer coisa que possa tirá-lo de perto de mim antes que meu pulso rompa minhas costelas.
Ele começa a caminhar.
Lentamente.
Sem pressa.
E cada passo em minha direção parece errado e certo de uma maneira que não consigo explicar.
Ele entra na luz.
Cabelo escuro, mais curto nas laterais, mais longo no topo, caindo sobre a testa o suficiente para fazê-lo parecer perigoso de propósito. Tatuagens sinuosas desenham-se sob as laterais raspadas de seu cabelo, desaparecem atrás de uma orelha, seguem sob o maxilar e somem sob a gola do seu terno preto impecável. Seus traços são afiados demais para serem gentis — maçãs do rosto fortes, boca firme, um rosto feito para comandar em vez de demonstrar bondade.
Mas são os olhos que me atingem com mais força.
Dourados. Dourados e âmbar, acesos por dentro como se algo estivesse queimando atrás deles.
Eles me prendem no lugar.
Ele é lindo da mesma forma que um raio é lindo à distância.
Ele para a poucos passos de distância, o olhar focando por um instante no cartão azul em minha mão.
Ele o ignora. Em vez disso, ele me estuda.
Com suspeita.
Como se ainda não confiasse no que vê.
Sua voz, quando surge, é baixa, suave e carregada com algo ancestral.
“Vire-se.”
Meus dedos apertam o cartão azul.
Ele dá mais um passo. “Eu disse, vire-se.”
O medo espeta minha espinha, e não porque ele tenha aumentado o tom de voz. Mas porque ele não o fez.
Não me movo.
Seu olhar se estreita, e lá — finalmente — eu vejo. Uma paciência predatória.
“Você é uma presa”, ele murmura, “ou apenas finge ser?”
Prendo a respiração.
Ele se aproxima, perto o suficiente para eu sentir cheiro de chuva, fumaça e algum tempero mais escuro que não pertence a um corredor de museu. Perto o suficiente para que cada nervo do meu corpo comece a disparar de uma vez.
Recuo.
Meus ombros batem na parede.
Ele abaixa a cabeça ligeiramente, estudando meu rosto como se tentasse me comparar a uma memória. Ou a uma profecia. Ou a uma mentira que ele conta a si mesmo há tempo demais.
Então, seu olhar desliza para a minha garganta.
Lentamente.
Meu pulso começa a bater forte ali.
“Interessante”, diz ele.
Ergo o cartão azul entre nós.
Ele agarra meu pulso antes que eu possa erguê-lo totalmente.
O contato é elétrico. Um choque real percorre meu braço, tão forte que ofego.
Sua expressão muda.
Faminta, porém controlada.
“O que é você?” ele pergunta.
A pergunta é silenciosa e perigosa.
Puxo meu braço para tentar soltá-lo, mas ele não me deixa ir. Ele olha para o meu cartão, depois para a minha boca, e volta aos meus olhos.
“Muda”, diz ele.
Eu me encolho discretamente.
O polegar dele se move contra o interior do meu pulso, e eu odeio o fato de que esse toque envia um calor até o meu estômago.
Ele se inclina mais e inala o ar perto do meu pescoço.
A reação nele é imediata.
Sua mandíbula trava.
Seus olhos escurecem.
Seu aperto quase aumenta.
“Deuses”, ele murmura. “Será possível?”
Meu corpo me trai na hora. Um calor surge, baixo e rápido, líquido e humilhante. Não entendo. Não estou usando perfume. Não fiz nada. E, ainda assim, estar aqui com ele parece chegar perto demais do fogo e, de alguma forma, querer ser queimada.
Seu olhar desce. Ele me observa com uma lentidão brutal, não como um homem admirando uma mulher, mas como um guerreiro avaliando se algo vale a pena matar... ou manter.
Então, meu celular vibra.
Alto.
Agudo.
Terrível.
Maximus.
O som corta o vasto corredor.
Antes que eu possa pegá-lo, o estranho enfia a mão no bolso do meu avental e o tira de lá.
Assim mesmo.
Como se tudo em mim pertencesse a ele, caso decida que sim.
Um pânico gelado me inunda.
A tela ilumina o rosto dele, realçando seus traços.
Facetime.
Meu estômago gela.
Se Maximus vir...
O estranho atende.
Eu me lanço em direção ao telefone, mas ele o levanta, fora do meu alcance. Sua expressão muda, tornando-se mais fria. Mais cortante.
Um segundo se passa.
“Que porra é essa?”, rosna Maximus.
Com certeza vou levar outra surra por conta desse desastre. Não sei o quanto Maximus consegue ver.
Apenas a escuridão.
Meu ombro.
Um relance de um terno preto.
Um olho dourado inclinado perto demais.
Um homem.
Então, salto e arranco o telefone da mão dele, encerrando a ligação tão rápido que quase o derrubo.
Minha respiração fica ofegante.
O estranho está olhando para mim.
Não — me cheirando.
Suas narinas se dilatam uma vez. Sua cabeça se inclina.
E então, um sorriso lento e perigoso surge em sua boca.
“Lycan”, diz ele.
Eu congelo.
Cada músculo trava.
O olhar dele carrega uma satisfação cruel, como se uma suspeita que ele mal ousava alimentar tivesse acabado de se provar correta.
“Bem”, murmura ele. “Existem coisas piores, suponho.”
Eu balanço a cabeça, tentando passar por ele, mas ele coloca uma mão na parede ao meu lado.
“Aquele era seu macho marcado?”, ele pergunta. “Espero que ele tenha visto o suficiente para saber que outro homem está prestes a reivindicar você.”
Engulo em seco, pasma de horror.
Ele se inclina e diz, quase para si mesmo: “Bom. Quero derramar sangue esta noite.”
Meu corpo treme.
O olhar dele desce para minha boca, depois volta para os meus olhos. “Você me teme?”
O jeito que ele pergunta torna a resposta perigosa.
Porque sim.
Mas não o suficiente.
É isso que me apavora. Eu deveria querer distância. Eu deveria querer ajuda. Eu deveria querer que ele sumisse. Em vez disso, minha pele dói de tanta consciência. Meu sangue vibra como se o reconhecesse antes da minha mente. O ar entre nós está carregado, íntimo demais, vivo demais.
Ele levanta a mão.
Desta vez, quando ele fecha a mão ao redor da minha garganta, não é gentil. É pressão suficiente para me deixar imóvel. Para me fazer sentir o quanto ele é mais forte. Para me lembrar que, se ele quiser controle, pode tomá-lo.
Cada nervo dentro de mim incendeia.
Ele observa minha reação com uma atenção predatória.
“Fale”, diz ele.
Eu pisco para ele, assustada, amedrontada e, de repente, furiosa.
O polegar dele pressiona levemente abaixo do meu queixo.
“Vá em frente”, murmura ele, com os olhos queimando. “Se você é a escolhida, fale. A menos que você também não consiga ouvir.”
Não sei o que ele quer dizer, mas algo se rasga dentro de mim mesmo assim.
E as palavras vêm.
“Eu não sou surda, seu maníaco. Eu sou muda.”
Minha própria voz me atinge como um golpe.
Eu ofego e tapo a boca com as duas mãos.
Ele me solta imediatamente.
O corredor gira.
“Meu Deus”, sussurro, ouvindo a mim mesma como nunca antes. “Essa sou eu. Essa é minha voz.”
O homem me encara e, pela primeira vez, algo em sua compostura se quebra.
Sua mão se levanta como se quisesse tocar meu rosto, mas ele se contém.
“O que você fez?”, pergunto, com a voz trêmula.
Seus olhos se fixam nos meus.
“Te dei palavras.” Ele dá um passo à frente, me encurralando.
Eu me pressiono ainda mais contra a parede. “Pare. Eu tenho um macho marcado.”
A expressão dele endurece na hora. Não é exatamente ciúme. É algo mais antigo e mais possessivo.
“Então ele roubou o que nunca foi dele.”
Meu pulso dispara.
Ele dá um passo lento em minha direção, o calor emanando dele. “Diga-me”, diz ele, com a voz baixa e afiada, “quando ele toca você, seu corpo desperta para ele da mesma forma?”
Meu rosto queima.
Ele vê a resposta ali.
Sua boca se curva com uma aprovação sombria. “Não. Hum. De fato, o meu também desperta.” Então, ele sussurra para si mesmo: “É impossível. Ainda assim, você deve ser dele. Tem que ser. Sinto isso nos meus ossos.”
“Do que você está falando? Eu te disse, sou comprometida.”
Seus olhos escurecem. “Eu prometo a você. Ele não conhece seu corpo. Ele não sabe quem você é.”
Ele está perto o suficiente agora para que cada respiração pareça compartilhada.
“Quem é você?”, sussurro.
Ele me estuda em silêncio por um momento. O dourado em seus olhos brilha mais forte. Então ele diz: “Um homem decidindo se o destino finalmente nos uniu, ou se caí em uma armadilha.”
Antes que eu possa responder, a voz de Isa corta o corredor.
“Afaste-se dela!”
Ela vem surgindo furiosa na esquina, pequena e brava, com a varinha já em mãos.
“Uma feiticeira”, murmura ele.
Isa levanta a varinha. “Afaste-se.”
Ele não se move.
Ela dispara.
Uma luz explode pelo corredor em um clarão violento.
Ele fecha os olhos e um escudo irrompe ao nosso redor — translúcido, imenso, com veios de fogo azul onde a magia dela o atinge. O ar esquenta. Meu cabelo chicoteia meu rosto.
Quando ele abre os olhos novamente, eles queimam.
Ele olha para Isa.
Depois volta para mim.
Ele levanta uma mão e toca meu queixo, agora mais gentil. Quase reverente.
“Qual é o seu nome?”
Minha voz está fraca de choque, mas sai.
“Talia.”
O orbe crepita, mas persiste. A expressão dele se transforma, ficando subitamente impaciente.
“Lindo”, diz ele. “Talia. Você é linda, Talia. Muito linda. Eu queria que tivéssemos mais tempo.”
Então, uma fumaça negra começa a sair de seus ombros.
Eu recuo.
Ele não.
Ele permanece perfeitamente calmo enquanto seu corpo começa a se dissolver em sombras, como se essa fosse apenas mais uma forma que ele veste quando lhe convém.
“Você quer manter sua voz, pequena luz das estrelas?”, ele pergunta.
Eu aceno antes de conseguir me impedir.
Então, ele hesita antes de baixar seus lábios sobre os meus.
E essa é, de alguma forma, a coisa mais perigosa que ele fez até agora. Porque é, ao mesmo tempo, curioso e uma reivindicação.
Seus lábios permanecem apenas o tempo suficiente para gravar aquele momento em mim. O calor inunda meu corpo. Seu perfume preenche meus pulmões. Por um batimento cardíaco vertiginoso, entendo exatamente como uma mulher perde uma guerra antes mesmo de ela começar.
Quando ele se afasta, seu olhar dourado prende o meu.
“Se isto for uma armadilha...”, ele murmura. Ele se retrai, como se o pensamento fosse insuportável.
Isa grita novamente. A luz brilha.
O corredor treme.
E ele se foi.
Em um momento ele está lá.
No outro, nada além de fumaça e sombras se desfazendo na escuridão.
Fico paralisada, respirando fundo, encarando o corredor vazio.
Então, tento falar.
Nada.
Ele desapareceu na escuridão.
E levou minha voz com ele.