The Severance Package
O problema com os lobisomens não era a agressividade, os pelos soltos ou as disputas territoriais por mijo. Era a falta total de responsabilidade fiscal.
Eu estava parada na borda do salão, bebericando um copo de água com gás morna — o champanhe era do barato, rotulado como um importado vintage, mas, na verdade, comprado no atacado de um distribuidor que eu sabia estar sendo investigado por fraude fiscal. Eu sabia disso porque fui eu quem sinalizou a auditoria.
"Você está linda, Vesper", uma voz zombou à minha esquerda.
Não me virei. Ajustei a seda do meu vestido esmeralda, alisando um vinco inexistente. "Eu pareço cara, Clara. Existe uma diferença. E você está pisando na barra de um vestido que custa mais do que a contribuição de toda a sua linhagem para o dízimo da alcateia este ano. Saia."
Clara, uma Delta de alto escalão com mais ambição do que neurônios, bufou, mas se afastou. "Aproveite enquanto dura. Hoje à noite tudo muda. Todos sabem o que o Julian vai fazer."
"Eu certamente espero que sim", murmurei, checando meu relógio de pulso. "Se ele atrasar o cronograma mais um pouco, vamos ter hora extra com a equipe de buffet, e eu me recuso a autorizar o pagamento extra."
Clara me olhou como se eu fosse uma alienígena. Para a Alcateia da Lua de Prata, eu basicamente era. Eu era Vesper Vane, a órfã acolhida pelo antigo Alfa por pena. A garota que nunca se transformou. A Wolfless. Para eles, eu era um beco sem saída genético, um erro da natureza que deveria estar lavando o chão.
Eles não pareciam entender que quem lava o chão não faz o balanço financeiro. Quem lava o chão não negocia tratados comerciais com os clãs de vampiros vizinhos para garantir que nossas exportações de madeira não iniciem, acidentalmente, uma guerra sobrenatural.
Eu fazia.
Eu estava fazendo vinte e um anos hoje. Pelas leis da nossa espécie, esse era o prazo final. Se meu lobo não se manifestasse até o nascer da lua no meu vigésimo primeiro aniversário, eu seria oficialmente designada como 'Humana' e despojada dos direitos da alcateia.
Normalmente, isso seria uma tragédia. Um evento cheio de lágrimas, onde a pobre garota quebrada é expulsa para o frio.
Dei um tapinha na pasta de couro preta e grossa que estava sob meu braço. Não era uma bolsa de mão. Era um dossiê.
Por favor, Julian, pensei, observando o garoto-rei de cabelos dourados subir no palco à frente do salão. Faça isso. Me liberte.
O salão silenciou quando Julian bateu no microfone. Ele era bonito daquele jeito tedioso e previsível que a maioria dos Alfas era — ombros largos, maxilar afiado o suficiente para cortar vidro e olhos que brilhavam com uma autoimportância não merecida. Ele herdou o título de Alfa três meses atrás, quando seu pai faleceu, e nesses três meses, os ativos líquidos da alcateia caíram quatorze por cento.
Ele sorriu, mostrando dentes brancos perfeitos. As fêmeas na primeira fila suspiraram. Era constrangedor.
"Minha família. Minha alcateia", a voz de Julian ecoou, reforçada pelo timbre de Alfa que forçava os lobos no salão a prestar atenção. Aquilo os atingiu como uma onda física.
Para mim, soou apenas como um subwoofer com o grave alto demais.
"Nos reunimos esta noite para celebrar o aniversário de uma integrante da alcateia", continuou Julian, seus olhos varrendo a multidão até pousarem em mim. Ele não parecia afetuoso. Parecia um homem prestes a levar o lixo para fora. "Vesper Vane."
A multidão se abriu, criando um corredor largo entre mim e o palco. O holofote me atingiu, cegante. Não recuei. Não abaixei a cabeça. Caminhei em frente, meus saltos batendo ritmicamente contra o piso de mármore. Eu podia ouvir os sussurros — Humana. Fraca. Desperdício de espaço.
Cheguei ao pé da escada e parei, olhando para ele.
"Vesper", disse Julian, sua voz pingando uma falsa simpatia. "Esta noite é o seu vigésimo primeiro aniversário. A lua nasceu."
"Nasceu", concordei, minha voz firme. "Nota dez pela observação, Alfa."
Uma onda de choque percorreu o salão. Você não falava com um Alfa daquela maneira. Não a menos que tivesse desejo de morte.
O olho de Julian tremeu. Ele odiava quando eu falava. Ele odiava que eu usasse palavras difíceis e não tremesse quando ele rosnava. "Sendo assim, está claro que a Deusa da Lua não a abençoou com um lobo. Você está... vazia."
"Wolfless", corrigi. "Vamos usar a terminologia correta. É melhor para a papelada legal."
"Silêncio!", ele latiu.
O comando atingiu o salão. Metade dos convidados estremeceu. Eu apenas levantei uma sobrancelha.
"Tenho um dever com esta alcateia", anunciou Julian, estufando o peito. "Preciso de uma Luna que possa estar ao meu lado. Uma Luna que carregue a força do lobo. Alguém que possa me dar herdeiros fortes, não... fraqueza humana."
Ele esticou a mão e puxou uma garota das sombras do palco. Tiffany. Claro. Uma loba loira e animada que achava que 'macroeconomia' era um tipo de massa.
"Eu, Julian Blackwood, Alfa da Alcateia da Lua de Prata", ele declarou, sua voz crescendo para um clímax, "rejeito você, Vesper Vane, como minha companheira destinada."
O suspiro no salão sugou todo o ar do espaço. Era isso. O momento da humilhação suprema. O vínculo destinado — a coisa mais sagrada em nossa cultura — quebrado publicamente. Normalmente, a companheira rejeitada entrava em colapso, gritando de agonia enquanto o vínculo se rompia.
Esperei.
Senti uma pequena fisgada no peito. Como uma leve azia.
Só isso.
"E", continuou Julian, olhando para mim com um sorriso triunfante, esperando que eu estivesse de joelhos, "eu a bano da casa da alcateia. Você vai embora esta noite. Você não tem nada a nos oferecer."
O silêncio se estendeu. Todos me observavam, esperando pelas lágrimas. Esperando pelas súplicas. Ah, Alfa, por favor, me deixe ficar! Eu vou servir você! Eu farei qualquer coisa!
Limpei a garganta.
"Você terminou?", perguntei.
O sorriso de Julian vacilou. "O quê?"
"O discurso. A rejeição. O banimento. Terminamos com a parte teatral da noite?" Abri o zíper da pasta de couro preta.
"Você... você foi rejeitada", gaguejou Julian, confuso com minha falta de colapso emocional. "Você claramente está em choque."
"Na verdade, estou no meio de uma auditoria." Tirei uma pilha de documentos, grampeados cuidadosamente no canto. Subi as escadas, ignorando os rosnados dos seus guardas, e joguei os papéis contra o peito dele.
Ele instintivamente os pegou. "O que é isso?"
"Isso", disse eu, minha voz projetando-se claramente pelo salão silencioso, "é o meu pedido de demissão. Com efeito imediato. Junto com uma fatura pelos serviços prestados nos últimos cinco anos."
"Serviços?", Tiffany guinchou, agarrando-se ao braço de Julian. "Mas você é apenas um caso de caridade!"
Virei meu olhar para ela. Foi um olhar frio e vazio que a fez recuar. "Tiffany, cala a boca. Os adultos estão conversando."
Virei-me novamente para Julian. "Servi como Tesoureira, Estrategista e Gerente de Logística não oficial desta alcateia desde os dezesseis anos. Eu equilibrei o déficit que seu pai deixou. Negociei o tratado de paz com os Conventos do Sul. Estruturei pessoalmente a carteira de investimentos da alcateia para garantir que você não perdesse a escritura das terras para o banco no inverno passado."
Dei um passo à frente, baixando a voz para que apenas as primeiras fileiras pudessem ouvir, mas a intensidade se manteve.
"Você acha que eu fiquei porque estava esperando que você me amasse? Julian, eu fiquei porque estava esperando minhas opções de ações serem liberadas. E à meia-noite..." Toquei o mostrador do meu relógio. "...elas acabaram de ser."
Julian olhou para os papéis, seu rosto empalidecendo ao ver os números. "Você não pode... você não pode cobrar a alcateia por morar aqui! Nós te alimentamos!"
"E eu salvei vocês da falência três vezes. Deduzi moradia e alimentação do total final. Você me deve cento e cinquenta mil dólares em taxas de consultoria. As instruções para transferência bancária estão na página dois. Se o dinheiro não estiver na minha conta até as 9h de amanhã, denuncio a alcateia ao Fisco pelas empresas de fachada que seu pai criou nas Ilhas Cayman. Eu tenho os arquivos, Julian. Todos eles."
O salão estava em um silêncio mortal. Se um alfinete caísse, teria soado como um tiro.
Julian estava tremendo. Não de poder, mas de raiva. Sua narrativa estava desmoronando. Eu deveria ser a vítima e, em vez disso, eu era a credora.
"Sua traidora", ele sibilou, seus olhos brilhando em dourado. O lobo estava vindo à tona. "Você acha que pode me ameaçar? Eu sou um Alfa!"
"E eu sou um passivo que você não tem condições de manter", disse eu friamente. "Você me rejeitou, lembra? O vínculo está quebrado. Não sou da alcateia. Sou uma prestadora de serviços civil. E eu me demito."
Virei nos calcanhares e comecei a descer as escadas.
"Pare!", rugiu Julian.
Ele usou a Voz de Alfa. Com toda a força. Ela foi projetada para forçar a submissão, para congelar um lobo em seu caminho, para fazê-los curvar-se até que suas testas tocassem o chão.
Pelo salão, as pessoas caíram. Tiffany caiu de joelhos. Guardas tropeçaram. Até os anciãos estremeceram.
Eu não parei.
Senti a onda de seu poder atingir minhas costas, mas ela apenas... escorregou. Foi como alguém jogando um balde de água em uma capa de chuva. Era irritante, mas não penetrava.
Cheguei às portas duplas do salão e pausei, a mão na maçaneta de latão. Olhei de volta por cima do ombro.
Julian estava parado lá, ofegante, olhando para mim com olhos arregalados e aterrorizados. Ele tinha acabado de usar sua potência máxima, e eu nem sequer pisquei.
"Feliz aniversário para mim", disse eu.
Empurrei as portas e saí para o ar fresco da noite.
Meu sedã surrado estava esperando nos fundos, o motor já frio. Joguei a pasta no banco do passageiro e tirei os saltos, dirigindo descalça. Eu odiava aqueles sapatos.
Não corri. Correr atraía policiais, e policiais faziam perguntas. Dirigi no limite de velocidade, observando o espelho retrovisor até que as luzes da propriedade da Lua de Prata desaparecessem na escuridão.
Só então soltei o ar. Minhas mãos tremiam levemente no volante — não de medo, mas pela descarga de adrenalina. Era um jogo perigoso que eu tinha acabado de jogar. Se Julian tivesse me atacado fisicamente em vez de tentar usar a voz, eu estaria morta.
Mas eu tinha apostado no ego dele. Alfas sempre confiavam na Voz primeiro. Era a muleta deles.
E era minha arma secreta.
Por anos, eu a escondi. O fato de que o Comando não funcionava em mim. Todos presumiam que eu era apenas uma humana fraca, imune à magia dos lobos porque eu não tinha nada da minha. Mas isso não era verdade. Humanos se encolhiam quando um Alfa rugia. Humanos sentiam o medo primitivo.
Eu não sentia nada.
Eu não era apenas wolfless. Eu era um vazio. Um buraco negro onde a autoridade morria.
Estiquei a mão e toquei o GPS no meu telefone. O destino já estava programado.
Destino: Fronteiras do Território Blackwood. Distância: 64 quilômetros.
Meu telefone vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido.
Contrato recebido. Você está atrasada.
Sorri, algo afiado e perigoso no reflexo do espelho retrovisor.
Eu não estava fugindo. Isso era para vítimas. Eu estava indo em direção ao único lugar no estado que Julian tinha medo demais de ir.
A alcateia da Lua de Prata era um navio afundando, e eu tinha acabado de pular fora. Mas eu não planejava nadar. Eu planejava comandar um encouraçado.
Pisei no acelerador, o carro avançando em direção ao território de Silas Thorne — o Alfa conhecido como o Açougueiro do Norte.
Diziam que ele matava todos que entravam em suas terras sem permissão. Diziam que ele era um monstro com quem não se podia negociar.
Ótimo.
Homens razoáveis tentavam te pagar menos do que você merece. Monstros? Monstros só querem o trabalho feito.
Entrei na rodovia, a escuridão engolindo a estrada à frente. A auditoria da alcateia da Lua de Prata estava concluída.
A auditoria do Açougueiro estava apenas começando.