Contra Toda la Moral

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Resumo

Se eu tanto quero uma mulher mais velha, por que continuo procurando? Se eu já tenho a minha mãe.

Status
Completo
Capítulos
47
Classificação
4.9 9 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

Sete da manhã e Natali ainda estava com o celular na mão, o quarto no escuro porque as cortinas continuavam fechadas havia dias. O único brilho vinha da tela, iluminando seu rosto, refletindo-se nos olhos inchados de tanto não dormir. O cabelo estava sujo, preso num coque bagunçado de onde escapavam mechas oleosas, e o cheiro do próprio corpo já fazia parte do ambiente, um odor forte que ela nem percebia mais.

Fazia três semanas que não tomava banho. Não via motivo. Para quê? Se ninguém ia olhar para ela, se ninguém entrava ali, se ela não saía. Os momentos especiais eram quando a mãe a obrigava a descer porque tinha visita, ou quando o cheiro ficava tão forte que o irmão batia na porta e dizia: "Natali, você tá fedendo, toma um banho, porra". Aí sim, ela se levantava a contragosto, entrava no chuveiro, se arrumava, até se maquiava. Mas hoje não tinha visita, ninguém tinha batido na porta, e ela podia continuar no seu mundo.

Na tela, um vídeo atrás do outro. Mulheres altas, fortes, de braços grossos e olhares intensos. Natali as observava com uma fixação que ia além do desejo, era uma necessidade, um anseio tão profundo que doía no peito, como um vazio que nada mais conseguia preencher. Queria que uma daquelas mulheres a abraçasse, que a apertasse contra o corpo, que dissesse que tudo ia ficar bem. Queria que cuidassem dela, que a protegessem, que a segurassem se fosse preciso. Uma mulher mais velha, muito mais velha, alta, imponente, que a olhasse de cima com aquela mistura de posse e ternura que imaginava nas séries. Que sentisse ciúmes, que perguntasse com quem ela estava falando, que ficasse brava se alguém olhasse para ela. Uma mulher que a amasse tanto que doesse.

Mas não conhecia ninguém assim. Como ia conhecer? Não saía do quarto. Só descia para a cozinha quando a fome vencia a preguiça, o que acontecia quase sempre, porque o corpo pedia comida mesmo quando a cabeça estava em outro lugar. Abria a geladeira, pegava o que encontrasse primeiro—iogurtes, sobras, pão—e voltava para cima sem olhar para ninguém, sem falar com ninguém. Se cruzasse com o pai ou a mãe, baixava a cabeça e acelerava o passo. Se fosse com algum dos irmãos, ignorava os comentários.

—Você só fica com essa cara no celular, parece um zumbi — disse o irmão mais velho no dia anterior, quando a viu passar. — Quando foi a última vez que viu o sol?

Natali não respondeu. Seguiu em frente com o prato na mão, subiu as escadas e trancou a porta. O irmão ficou lá embaixo, balançando a cabeça, mas não fez mais nada. Já estavam acostumados.

Agora, com os primeiros raios de sol entrando pelas frestas da cortina, Natali sentiu as pálpebras pesadas. Eram sete da manhã, e ela tinha passado a noite toda vendo vídeos, lendo fóruns, procurando algum sinal, algum lugar, alguma forma de encontrar aquela mulher que imaginava. Mas não havia nada. Só a tela, só a solidão, só o zumbido do ventilador do computador e a própria respiração.

Deixou o celular de lado, virou-se na cama e fechou os olhos. O colchão cheirava a ela, os lençóis também, mas não se importava. Ali estava segura. Ali ninguém podia machucá-la. Ali podia imaginar que uma mulher alta, forte, de braços grossos, entrava pela porta e sentava ao seu lado, que acariciava seu cabelo mesmo sujo, que dizia "já estou aqui, não se preocupe mais". E com essa imagem na cabeça, Natali adormeceu.

Em algum momento da manhã, a mãe subiu. Ouviu passos no corredor, depois três batidas secas na porta.

—Natali.

Silêncio.

—Natali, abre.

Natali se mexeu na cama, enfiou o rosto no travesseiro, tentando voltar a dormir. Mas as batidas continuaram.

—Natali, eu sei que você está acordada. São meio-dia. Desce para comer.

—Não estou com fome — mentiu, com a voz rouca de ter dormido só cinco horas.

— Desce mesmo assim. Seu pai quer falar com você.

Isso a fez abrir os olhos. O pai? Para quê? Fazia semanas que mal trocavam palavras. Desde que os tapas tinham acabado, as coisas estavam mais calmas, mas também mais distantes. Como se ninguém soubesse direito como chegar perto dela.

—Para quê? — perguntou sem se mexer.

— Não sei. Desce logo.

Os passos se afastaram. Natali ficou olhando para o teto, para a porta, para a fresta de luz. Podia ficar ali, fazer de conta que não tinha ouvido, esperar a mãe subir de novo ou esquecer. Mas se o pai queria vê-la e ela não fosse, depois podia ter consequências. Não havia mais tapas, mas havia olhares demorados, silêncios constrangedores, dias inteiros sem que falassem com ela.

Suspirou, sentou-se com dificuldade. O corpo parecia de chumbo, a cabeça latejava. Olhou para o celular, a bateria em vinte por cento. Depois para o próprio reflexo na tela apagada: olheiras fundas, pele acinzentada, o coque desfeito. Cheirava mal, sabia disso. Mas não tinha forças para tomar banho. Vestiu um moletom limpo, pelo menos cheirava melhor que o que estava usando, e desceu as escadas arrastando os pés.

A casa era grande, daquelas de dois andares com escada de mármore e quadros nas paredes. A família tinha dinheiro, sempre soube disso. O pai trabalhava com finanças, a mãe não trabalhava, mas cuidava de tudo. Podiam ter o que quisessem: viagens, carros, roupas. Mas nada disso importava para ela. O dinheiro não preenchia o vazio. O dinheiro não tinha impedido que apanhasse. O dinheiro não a protegia de nada.

Na sala de jantar, a mãe estava sentada à mesa, com um café na frente. O pai, em pé perto da janela, as mãos nos bolsos. Os irmãos não estavam, cada um na sua. A mesa estava posta para ela: um prato de comida, talheres, um copo d’água.

— Senta — disse o pai, sem olhar para ela.

Natali obedeceu. Sentou-se, pegou o garfo, começou a comer sem vontade, só para não ter que falar. Sentia os olhares dos dois, desconfortáveis, como se não soubessem por onde começar.

— Faz semanas que você está trancada — disse o pai, finalmente. — Não sai, não fala, não faz nada. O que está acontecendo?

— Nada.

— Não acredito.

Natali deu de ombros, continuou comendo. Não ia contar o que sentia, o que pensava, o que desejava. Nunca tinha contado, não ia começar agora.

— Você podia sair — interveio a mãe. — Ir na piscina, encontrar as amigas. Tem tudo aqui, podia aproveitar.

Amigas. Quais amigas? As que riam dela no colégio, as que a deixavam de fora dos grupos, as que apontavam no corredor. Preferia ficar sozinha.

— Tá bom — respondeu, sem levantar os olhos.

O pai e a mãe se entreolharam. Houve um silêncio longo, pesado, daqueles que sufocam.

— Bom — disse o pai, por fim. — Se precisar de alguma coisa, já sabe onde estamos.

Natali assentiu, mas não disse nada. Terminou de comer, deixou o prato na mesa e se levantou.

— Obrigada — disse baixinho, por hábito, por aquela gentileza automática que usava com todo mundo, mesmo estando vazia por dentro.

E voltou a subir as escadas, para o quarto, para o cheiro, para o celular, para os vídeos de mulheres altas e fortes que nunca a olhariam. Trancou a porta, deitou na cama e abriu o aplicativo de mensagens. Não tinha notificações. Ninguém nunca escrevia para ela.

Mas hoje, pela primeira vez em muito tempo, algo era diferente. Na lista de contatos, ao lado do nome da mãe, havia um pontinho azul. Online.

Natali ficou olhando para a tela. A mãe estava online. A mãe, que nunca mandava mensagem, que mal falava com ela, estava ali, do outro lado. E não sabia por quê, mas aquele pontinho azul de repente pareceu a única coisa real daquela manhã inteira.

Natali ficou encarando aquele pontinho azul ao lado do nome da mãe por mais tempo do que gostaria de admitir. Sabia que era ridículo. A mãe estava lá embaixo, na cozinha provavelmente, ou na sala vendo TV. Por que dar importância a ela estar online no WhatsApp? Mas lá estava, aquele pequeno detalhe quebrando a monotonia de uma tela onde nunca acontecia nada.

Deixou o celular virado para baixo na cama, como se assim pudesse parar de pensar nisso. Virou-se para a parede, fechou os olhos. O sono não vinha. A cabeça girava com imagens soltas: a mãe em pé perto da janela, a mãe servindo café, a mãe batendo na porta. E então, sem querer, a imagem mudava. Já não era a mãe, era outra mulher, mais alta, mais forte, com aquele olhar possessivo que tanto imaginava. Mas o rosto se desfazia, e às vezes, sem que pudesse evitar, voltava a ter os traços da mãe.

Natali apertou os olhos com força. Não. Isso não. Isso era estranho, estava errado. Ela queria uma mulher mais velha, sim, mas não a mãe. A mãe era quem não a tinha protegido, quem tinha feito vista grossa, quem às vezes também batia. Não podia sentir nada por ela. Não devia.

Mas o pontinho azul continuava ali, na cabeça.

As horas passaram. Duas, três, quatro da tarde. Natali finalmente adormeceu, um sono pesado e sem sonhos, do qual acordou assustada quando o celular vibrou no colchão. Eram sete da noite. O quarto estava escuro. E na tela, uma notificação.

Mãe: Comeu alguma coisa?

Natali piscou, sentou-se. A mãe? Mandando mensagem? Leu a mensagem várias vezes, como se pudesse mudar, como se fosse um engano. Fazia meses, talvez anos, que não trocavam mensagens. Para quê, se moravam na mesma casa? Mas lá estava.

Natali: Sim, comi lá embaixo.

Três segundos depois, outra mensagem.

Mãe: Não te vi mais. Tá tudo bem?

Natali mordeu o lábio. Tudo bem? Não. Não estava. Mas não ia dizer.

Natali: Tô, sim. Cansada.

Mãe: Devia sair um pouco no jardim. Tá uma tarde bonita.

Natali: Tá bom.

Mãe: Quer que eu leve alguma coisa? Um chá? Alguma coisa da geladeira?

Aquilo a desestabilizou. A mãe se oferecendo para levar coisas. A mãe se preocupando. Não sabia como se sentir. Uma parte dela queria dizer que não, que a deixasse em paz, que já era grandinha para se virar sozinha. Outra parte, menor e mais profunda, queria dizer que sim, que subisse, que sentasse com ela, que perguntasse de verdade o que estava acontecendo.

Natali: Não precisa. Obrigada.

Largou o celular. Olhou para o teto. O vazio no peito doía mais do que nunca. Levou as mãos ao estômago, apertando, como se pudesse esmagá-lo. Dezessete anos e não tinha nada. Ninguém a amava de verdade. Ninguém a olhava como ela queria ser olhada. Ninguém a abraçava forte. Ninguém a segurava e dizia que ela era sua.

Começou a chorar em silêncio. As lágrimas escorriam pelas têmporas, se perdiam no cabelo sujo. Chorou um tempo, até a garganta doer de engolir os soluços. Depois secou o rosto com a manga, pegou o celular e voltou a olhar a conversa. A mãe não tinha respondido.

Mas o pontinho azul continuava ali. Online.

Natali passou a tela, voltou aos vídeos. Precisava se distrair, precisava imaginar que aquela mulher existia em algum lugar. Assistiu a um atrás do outro, o algoritmo alimentando sua obsessão: mulheres altas, fortes, de braços grossos, mulheres que levantavam peso, que davam ordens, que olhavam para a câmera como se olhassem nos olhos de alguém. Em um dos comentários, alguém escreveu: "Tomara que eu encontre uma mulher assim para me adotar". E Natali sentiu que alguém entendia o que ela sentia. Não queria uma namorada, não exatamente. Queria que cuidassem dela, que a protegessem, que a amassem como uma mãe deveria amar. Mas a mãe dela não fazia isso. A mãe dela nunca tinha feito.

Outro vídeo, outro comentário. "Preciso de uma mulher mais velha para me colocar no lugar". E Natali pensou que também queria isso. Alguém que dissesse o que fazer, que a segurasse quando perdesse o controle, que a castigasse se fizesse algo errado. Alguém que estivesse ali. Sempre. Alguém que não se cansasse dela.

Quando percebeu, eram onze da noite. Fazia quatro horas que assistia a vídeos, lia comentários, imaginava. O celular vibrou de novo.

Mãe: Ainda está acordada?

Natali ficou gelada. Olhou a hora. Onze e dez. A mãe mandando mensagem a essa hora?

Natali: Tô.

Mãe: Desce um pouco. Quero falar com você.

O estômago embrulhou. Falar do quê? O que ela queria? Mil possibilidades passaram pela cabeça: que tinha descoberto alguma coisa, que ia brigar por ela estar trancada, que o pai queria dizer algo. Mas também, num canto escuro da mente, outra possibilidade. Uma que não ousava nomear.

Natali: Agora?

Mãe: Sim. Desce.

Natali hesitou. Olhou para o próprio reflexo na tela do celular. O cabelo oleoso, o rosto inchado de tanto chorar, o moletom amassado. Cheirava mal. Sabia disso. Mas se recusasse, a mãe subiria, e isso seria pior.

Levantou-se, abriu a porta. O corredor estava escuro, só a luz fraca de algum abajur lá embaixo. Desceu as escadas devagar, os pés descalços no mármore frio. Na sala, a mãe estava sentada no sofá, com uma xícara de chá nas mãos. A televisão desligada. A casa em silêncio.

— Senta — disse a mãe, sem olhar para ela.

Natali obedeceu. Sentou-se na outra ponta do sofá, o mais longe possível. Não queria que a mãe sentisse seu cheiro, sua sujeira. Mas a mãe olhou para ela, e nos olhos não havia nojo, não havia rejeição. Havia algo que não soube identificar.

— Faz tempo que você está assim — disse a mãe. — Trancada. Sem falar com ninguém. Seu pai e eu estamos preocupados.

— Não tem nada — respondeu Natali, automaticamente.

— Tem, sim. Eu te conheço.

Isso a fez levantar os olhos. Conhecê-la? A mãe não a conhecia. A mãe nunca tinha querido conhecê-la.

— Não me conhece — disse, e a voz saiu mais cortante do que queria.

A mãe a encarou. Uns segundos longos, desconfortáveis. Depois largou a xícara na mesinha e se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Talvez não. Talvez eu não tenha te conhecido. Mas quero tentar.

Natali não soube o que dizer. Ficou olhando para a mãe, para as mãos dela, para a postura. O cabelo estava solto, algo raro. E estava de pijama, uma camiseta larga e short. Natali reparou nos braços, nas pernas. A mãe era mais alta que ela, sim, mas não era forte, não era como as mulheres dos vídeos. Mesmo assim, havia algo, uma presença, um jeito de olhar que...

Desviou o olhar. Não. Não podia pensar nisso.

— Não precisa — murmurou. — Tô bem.

— Não está. E não quero que continue assim.

Natali apertou os dentes. Queria se levantar, ir embora, se trancar de novo. Mas algo a mantinha ali. Talvez o cansaço. Talvez a solidão. Talvez aquele pontinho azul na tela.

— O que você quer de mim? — perguntou, por fim.

A mãe demorou a responder. Olhou para a janela, para a escuridão do jardim. Depois voltou a encará-la.

— Quero te ajudar.

— Não pode.

— Por que não?

Porque você não sabe, pensou Natali. Porque nunca soube. Porque quando eu precisei, você não estava. Mas não disse. Deu de ombros.

— Deixa pra lá. Tanto faz.

Levantou-se, pronta para ir embora. Mas a mãe esticou o braço e tocou sua mão. Só por um instante, um roçar. Natali ficou parada, olhando para aquele ponto de contato. A mão da mãe era quente, maior que a sua.

— Não é tanto faz — disse a mãe, baixinho. — Você não é tanto faz para mim.

Natali sentiu um nó na garganta. Puxou a mão, deu um passo para trás.

— Vou dormir.

E sem esperar resposta, subiu as escadas correndo, entrou no quarto e trancou a porta. Ficou encostada nela, respirando rápido. O coração batia forte, muito forte. Olhou para a mão, onde a mãe a tinha tocado. Ainda sentia o calor.

O celular vibrou na cama. Pegou.

Mãe: Boa noite, Natali. Amanhã a gente conversa.

Natali leu a mensagem várias vezes. Depois largou o celular, deitou na cama e ficou olhando para o teto até que, finalmente, o sono a venceu.