Capítulo 1: O Bartender
A garrafa escorregou da prateleira mais alta às 21h47, bem entre o Maker’s Mark e o Bulleit Rye. Dominic Thorne a pegou sem olhar — com a mão esquerda, dois dedos, a três centímetros do chão — e a colocou de volta na prateleira como se estivesse posicionando uma peça de xadrez.
Ninguém no The Dusty Barrel percebeu. Esse era o objetivo.
“Outra rodada para a mesa seis”, chamou Ray Dutton da abertura da cozinha, sua voz carregando a autoridade rouca de um homem que passou vinte anos no Exército e outros quinze servindo bebidas. “E pare de fazer malabarismo com o meu estoque.”
Dominic acenou com a cabeça. Ele tirou dois copos de IPA, preparou um gin tônica com um toque de pepino e os levou à cabine do canto, onde três bombeiros de folga discutiam sobre as escolhas do draft dos Seahawks. Ele se movia pelo bar da mesma forma que fazia tudo — silenciosamente, com eficiência e uma economia de movimentos que a maioria das pessoas confundia com timidez.
Cedar Falls, Oregon. População de 4.200 habitantes. Um semáforo, duas igrejas, um posto de gasolina que fechava às nove e o The Dusty Barrel, que ficava aberto até o último cliente ir embora ou até as costas de Ray não aguentarem mais, o que acontecesse primeiro.
Dominic estava ali há vinte e três meses. Ele sabia disso porque contava os dias da forma como outras pessoas contam calorias — automaticamente, compulsivamente, com uma ansiedade de baixo nível que nunca ia embora totalmente.
Vinte e três meses desde Belgrado.
Ele limpou o balcão do bar com movimentos longos e precisos; sua mão direita estava firme naquela noite. Na maioria das noites, ela ficava firme. Em outras, não. Nessas noites, ele mudava para a esquerda e torcia para que ninguém notasse o tremor na direita, a forma como seus dedos se contraíam como se estivessem tentando alcançar algo que não estava mais lá.
A porta abriu às 22h15. Dominic notou antes mesmo do sino tocar — uma mudança na pressão do ar, o cheiro suave de chuva e diesel, o rangido das dobradiças que ele propositalmente deixou sem óleo, porque dobradiças que rangem dão meio segundo extra de aviso.
Passos de mulher. Leves, medidos, o toque da bengala branca precedendo cada passo em exatamente quinze centímetros.
Sophie Grant.
Ela vinha toda terça e quinta depois de sua última aula de piano, pedia uma água com gás com limão e sentava na ponta do bar mais próxima da porta. Ela tinha vinte e oito anos, era cega há cinco e possuía o tipo de compostura silenciosa que deixava a maioria das pessoas desconfortável, porque elas não conseguiam descobrir se ela era corajosa ou apenas teimosa.
Dominic deixou a bebida dela pronta antes que ela alcançasse o banco.
“Você está adiantada”, disse ele.
“O filho da Sra. Patterson teve um jogo de futebol. Ela cancelou.” Sophie dobrou a bengala com facilidade e a guardou na bolsa. Seus dedos encontraram o copo sem hesitação. “Como está o movimento hoje?”
“Devagar. Três bombeiros. Um casal em um encontro perto da janela — ele está nervoso, ela não está impressionada. Ray está lá no fundo xingando a fritadeira.”
Sophie sorriu. Era o tipo de sorriso que chegava aos olhos, mesmo que seus olhos não pudessem ver nada de volta. “Você nota muita coisa para um bartender.”
“Bartenders devem notar as coisas.”
“A maioria dos bartenders nota as gorjetas e o horário de fechar. Você nota o namorado nervoso e a namorada desinteressada.”
Dominic não disse nada. Ele poliu um copo que já estava limpo.
Às 22h32, ele acompanhou Sophie até o estúdio dela ao lado — uma loja convertida com uma placa pintada à mão que dizia “Grant Piano Studio” em letras levemente tortas, porque a amiga de Sophie tinha pintado e Sophie não podia verificar o alinhamento. Ele esperou enquanto ela abria a porta da frente, pegava suas coisas lá dentro e então a trancava novamente.
“Você não precisa fazer isso toda vez”, disse ela, da mesma forma que dizia toda vez.
“Fica no meu caminho”, disse ele, do mesmo jeito que dizia toda vez. Não ficava no caminho dele. Seu apartamento era a três quarteirões na direção oposta.
Ele a levou até a porta dela, a quatro quarteirões a leste. Ela morava acima de uma livraria fechada, subindo uma escadaria estreita que ele tinha decorado na primeira semana — dezessete degraus, o terceiro range, o corrimão está solto do lado esquerdo.
“Boa noite, Dominic.”
“Boa noite, Sophie.”
Ele esperou até ouvir o clique da tranca. Depois a corrente. Então o som dela colocando a bolsa na mesa logo após a porta.
Só então ele se virou e caminhou de volta para o bar, seus olhos já escaneando a rua. O Suburban preto que estava estacionado a dois quarteirões ao sul há três dias tinha ido embora hoje. Tinha placas da Virgínia. Alugado. O tipo de veículo que agências governamentais compram em lote.
Ele tinha notado no primeiro dia. No segundo dia, ele já tinha decorado o padrão de rodízio — estacionado das 6h às 14h, depois substituído por um Nissan Altima cinza até as 22h. No terceiro dia, ele verificou as placas através de um método que não deveria ter mais acesso.
As placas pertenciam a uma empresa fantasma. A empresa fantasma levava a um grupo de investimentos em Arlington, Virgínia. O grupo de investimentos dividia um prédio de escritórios com uma empreiteira de defesa que não existia em nenhum registro público.
Dominic conhecia aquela empreiteira. Ele tinha trabalhado para eles.
Ele parou no beco atrás do The Dusty Barrel e se agachou para colocar uma tigela pequena com sobras de frango. Um gato malhado de um olho só surgiu por trás da lixeira, olhou para ele com suspeita e começou a comer.
“É”, disse Dominic baixinho. “Eu também não confio em mim.”
Ele subiu para seu apartamento acima do bar. Cento e doze metros quadrados de nada — uma cama, uma cadeira, um fogareiro elétrico e uma estante com quarenta e três livros que ele realmente tinha lido. Sem televisão. Sem fotos. Sem itens pessoais que não pudessem caber em uma única mala em menos de noventa segundos.
Ele sentou na beirada da cama e olhou para sua mão direita. Firme. Esta noite ela estava firme.
Ele estava quase dormindo quando o sino da porta da frente do bar tocou. 23h48. Ray cuidaria disso — ele ainda estava lá embaixo fazendo o inventário.
Mas então ele ouviu a voz. Não as palavras — as paredes eram grossas demais para isso — mas a cadência. Curta. Controlada. A dicção de alguém que foi treinado para remover a emoção da linguagem como se retira a gordura da carne.
Os olhos de Dominic abriram no escuro.
Ele estava lá embaixo em quatorze segundos, movendo-se de uma forma que teria confundido qualquer um que estivesse observando — completamente silencioso, descalço, cada passo colocado nas partes do piso que não rangiam, que ele tinha mapeado durante sua primeira semana.
Através da abertura da cozinha, ele viu Ray atrás do bar, conversando com um homem de sobretudo cinza. Quarenta e poucos anos. Postura militar suavizada por roupas civis. Uma cicatriz no lóbulo da orelha esquerda onde um ponto eletrônico de comunicação tinha ficado por muitos anos.
O homem pediu uma bebida. Dominic não conseguiu ouvir o nome.
Ray preparou — ele teve que procurar a receita no celular, o que significava que era algo obscuro. O homem pagou em dinheiro, bebeu em dois goles e foi embora.
Quando a porta fechou, Dominic saiu.
“O que ele pediu?” Sua voz estava calma. Seu coração não estava.
Ray olhou para cima. “Jesus, garoto, você se move como um fantasma. Algum coquetel que eu nunca ouvi falar.” Ele deu uma olhada no celular. “Um Belgrade Sunrise. Tive que pesquisar no Google — bourbon, laranja sanguínea e uma dose de Chambord. Bebida estranha. Quem pede algo assim à meia-noite em Cedar Falls?”
Dominic não respondeu.
Belgrade Sunrise. Não era um coquetel de verdade. Não existia em nenhum cardápio, site de receitas ou guia de bartender no mundo. Era uma frase — um código de reconhecimento — usado por exatamente uma organização.
Uma organização da qual Dominic passou vinte e três meses acreditando que tinha escapado.
Ele olhou para a porta. O homem tinha ido embora. Mas no bar, ao lado do copo vazio, ele tinha deixado uma nota de vinte dólares e um guardanapo de coquetel.
No guardanapo, em letras de forma nítidas: BEM-VINDO DE VOLTA, WRAITH.
A mão direita de Dominic começou a tremer.