Anjo das Sombras

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Resumo

A morte de seus pais foi considerada um acidente. Kiara nunca acreditou nisso. Sete anos atrás, a família criminosa Dahak a acolheu após a tragédia. Sete anos vivendo sob a sombra deles, sentindo na pele que algo estava errado. Então, ela foi embora. Viajou o mundo com sua melhor amiga por quatro anos. Sobreviveu. Esperou. Agora, ela retornou à cidade com um único propósito: descobrir o que os Dahak fizeram e fazê-los pagar por isso. Matricular-se na universidade deles a coloca perto o suficiente para observá-los, reunir provas e, finalmente, descobrir a verdade. Mas os irmãos gêmeos, Ares e Nyx, e o primo deles, Cain, lembram-se dela. E eles não têm a menor intenção de deixá-la partir novamente. À medida que a obsessão deles em tê-la de volta se intensifica, um stalker de uma família mafiosa rival surge das sombras com sua própria agenda distorcida. Presa entre a família que a criou e a que a caça, Kiara precisa decidir: ela pode confiar nos homens Dahak para protegê-la? Ou eles sempre foram a verdadeira ameaça?

Gênero
Romance
Autor
Becca37_rr
Status
Completo
Capítulos
19
Classificação
4.7 3 avaliações
Classificação Etária
18+

Prólogo

A chuva bate contra a janela da sala de aula, e Kiara Morrigan, de catorze anos, observa as gotas correrem pelo vidro, perguntando-se distraidamente qual delas chegará primeiro ao final.

A Sra. Henderson fala monossilabicamente sobre a Guerra da Independência, mas a mente de Kiara está em outro lugar: no trabalho de história que deve entregar na próxima semana, na mensagem de Erin sobre se encontrarem depois da aula, e se a mãe dela se lembrou de comprar seu cereal favorito no mercado. Coisas normais. Coisas banais. Os últimos pensamentos normais que ela terá por um longo tempo.

A porta da sala abre e o diretor Davidson entra, com uma expressão grave. Ele sussurra algo para a Sra. Henderson, que leva a mão à boca. Então, ambos se viram para olhar para Kiara. Seu estômago gela. “Kiara”, diz o diretor Davidson suavemente. “Você pode vir comigo, por favor?”

A caminhada até a sala dele parece ser feita dentro d'água. Tudo é lento demais, silencioso demais, errado demais. E quando ela vê Richard Dahak sentado na área de espera — o melhor amigo de seu pai, o homem que esteve em todas as festas de aniversário e jantares de feriado que ela consegue se lembrar —, ela sabe. Ela sabe antes mesmo de alguém dizer uma palavra. “Não”, ela sussurra, recuando. “Não, não, não!”

“Kiara.” Richard se levanta, e ela vê que seus olhos estão vermelhos, seu rosto abatido. Ele parece ter envelhecido dez anos desde que o viu no último domingo durante o brunch. “Querida, sinto muito.”

“Não.” Ela balança a cabeça violentamente, as mechas loiro-platinadas chicoteando seu rosto. “Não diga. Por favor, não diga.” Mas ele diz.

“Houve um acidente. Um acidente de carro. Seus pais...” A voz dele falha, e ele precisa parar, engolir em seco, tentar novamente. “Lisa e James... eles não resistiram. Eles se foram, Kiara. Sinto muito. Eles se foram.” O mundo vira de ponta-cabeça.

Kiara não se lembra de ter caído, mas de repente ela está no chão, e Richard a segura enquanto ela grita. Ela grita até sua garganta arder, até não restar ar em seus pulmões, até o som se dissolver em soluços cortados que sacodem todo o seu corpo. Foram. Seus pais se foram.

“Foi instantâneo”, diz Richard, com a voz embargada pela dor. “Eles não sofreram. O outro motorista passou no sinal vermelho e... Foi instantâneo. Eles não sentiram nenhuma dor.”

Mas Kiara sente dor. Ela sente como se seu peito tivesse sido aberto, como se alguém tivesse colocado a mão lá dentro e arrancado seu coração. Ela sente como se estivesse se afogando, como se o ar no quarto não fosse suficiente, como se nunca mais fosse respirar direito.

“Eu quero minha mãe”, ela soluça contra a camisa de Richard. “Eu quero meu pai. Por favor. Por favor, eu quero eles de volta.”

“Eu sei, querida. Eu sei.” Mas ele não pode trazê-los de volta. Ninguém pode. Seus pais — Lisa com sua risada calorosa e mãos gentis, James com suas piadas ruins de pai e abraços apertados — estão mortos. Em um piscar de olhos, em um momento de descuido de outra pessoa, eles simplesmente... se foram. E Kiara está sozinha.

O funeral é um borrão de roupas pretas, olhares de pena e pessoas dizendo coisas que não ajudam. Eles estão em um lugar melhor. O tempo cura todas as feridas. Pelo menos eles estão juntos.

Kiara quer gritar com todos eles. Quer dizer que seus pais não estão em um lugar melhor — eles estão debaixo da terra, frios, imóveis e nunca mais voltarão. Que o tempo não vai curar esta ferida, porque não é uma ferida; é uma amputação. Que ela não se importa se eles estão juntos, porque ela não está com eles, e ela foi a que ficou para trás.

Mas ela não grita. Ela apenas fica lá em seu vestido preto, segurando a mão de sua melhor amiga, Erin, e deixa as palavras passarem por ela como chuva.

Richard e sua esposa, Rosemary, permanecem por perto durante a cerimônia. Rosemary, com seus olhos gentis e voz suave, mantém uma mão carinhosa no ombro de Kiara. Ela não diz muito; não oferece frases feitas ou falso conforto, mas sua presença é firme e reconfortante.

“Você não está sozinha”, Rosemary sussurra em um momento, quando os joelhos de Kiara ameaçam ceder. “Eu prometo a você, querida, você não está sozinha.”

Após o enterro, depois que todos foram embora, Richard se ajoelha na frente de Kiara e toma suas mãos pequenas nas dele. “Seu pai era meu melhor amigo”, ele diz calmamente. “Meu irmão em tudo, menos no sangue. E você... você é da família, Kiara. Sempre foi.” Ele faz uma pausa, seu maxilar travado.

“Rosemary e eu... Queremos que você venha morar conosco. Queremos cuidar de você, da maneira que James e Lisa teriam querido.” Kiara olha para ele, tentando processar as palavras. Morar com eles. Deixar sua casa, seu quarto, tudo o que ainda cheira aos seus pais.

“Eu não...”, sua voz sai baixa, quebrada. “Eu não tenho para onde ir, tenho?”

“Você tem a nós”, diz Rosemary, agachando-se ao lado do marido. “Você sempre terá a nós.”

Então, Kiara concorda, porque o que mais ela pode fazer? Ela tem catorze anos e é órfã, e os Dahak estão lhe oferecendo um lar. Ela só queria que isso não parecesse aceitar a derrota.

Naquela noite, a família Dahak se reúne no escritório de Richard; um cômodo de madeira escura e couro que cheira a charutos e livros antigos. Richard fica perto da janela, olhando para o nada, seus ombros pesados pelo luto. Rosemary senta-se no sofá de couro, com as mãos entrelaçadas no colo, olhos vermelhos, mas secos. E perto da lareira estão seus filhos.

Ares e Nyx Dahak, dezesseis anos e já imponentes de uma maneira que deixa homens adultos desconfortáveis. Gêmeos idênticos com cabelos pretos como azeviche que caem logo abaixo das orelhas, olhos azul-gelo que parecem cortar sombras, e corpos feitos apenas de músculo e altura; facilmente com um metro e oitenta e oito e ainda crescendo. Eles são o tipo de adolescentes que parecem homens, que se movem com uma confiança que vem de saber exatamente quem são e do que são capazes. Agora, porém, eles apenas parecem incertos.

“Ela não pode ir para o sistema”, diz Richard finalmente, com a voz áspera. “James era meu irmão em tudo, menos no sangue. Não vou deixar a filha dele se tornar uma estatística, pulando de lar adotivo em lar adotivo.”

“Claro que não”, concorda Rosemary suavemente. “A questão não é se a acolhemos. A questão é como fazemos isso dar certo.”

Ares muda o peso do corpo, braços cruzados sobre o peito largo. “Ela tem catorze anos. Acabou de perder os pais. Isso não vai ser fácil.”

“Nada disso é fácil”, diz Richard, virando-se para encarar os filhos. “Mas James e Lisa eram família. Isso torna Kiara da família. E nós cuidamos dos nossos.”

Nyx passa a mão pelo cabelo, um gesto que espelha o de seu pai quando está pensativo. “Onde ela dormiria? Não temos um quarto de hóspedes pronto.”

“Vamos transformar o quarto ao lado do seu”, diz Rosemary. “É grande o suficiente e tem boa luz. Podemos torná-lo confortável para ela.”

“Ao lado dos nossos quartos?” Ares levanta uma sobrancelha. “Mãe, ela vai precisar de espaço. Privacidade. Não de dois caras adolescentes morando bem ao lado.”

“Ela vai precisar de família”, corrige Richard, em um tom firme. “Ela vai precisar saber que não está sozinha nesta casa. Que ela pertence a este lugar.”

Os gêmeos trocam um olhar; uma daquelas conversas sem palavras que só eles conseguem ter. Finalmente, Nyx assente lentamente.

“Ok”, ele diz. “Mas vamos ter que... não sei, dar espaço para ela respirar. Ela mal nos conhece.”

“Ela conhece vocês a vida toda”, aponta Rosemary gentilmente.

“Em festas de aniversário e feriados”, retruca Ares. “Isso é diferente de morar junto. De sermos... o quê? Irmãos?” A palavra paira no ar, estranha e nova.

Richard se move para ficar na frente dos filhos, colocando uma mão no ombro de cada um. “Sei que é muito pedir. Vocês têm dezesseis anos. Têm suas próprias vidas, suas próprias preocupações. Mas Kiara precisa de nós. De todos nós. E eu preciso saber que vocês vão cuidar dela. Que vão fazê-la se sentir bem-vinda aqui.”

“Claro que faremos”, diz Ares imediatamente, endireitando-se. “Se ela é da família, é da família. Nós damos um jeito.”

Nyx concorda com a cabeça. “Sim. Nós a apoiamos.”

Rosemary se levanta, juntando-se ao marido e aos filhos. “Isso não será fácil para nenhum de nós. Kiara está de luto. Ela perdeu tudo. A melhor coisa que podemos fazer é dar-lhe estabilidade, segurança e tempo para curar.”

“Quando ela se muda?” pergunta Nyx.

“Neste fim de semana”, diz Richard. “Cuidarei da papelada legal, para garantir que tudo esteja oficializado. Mas ela precisa saber que tem um lar. Que não está sozinha.”

Ares descruza os braços, sua expressão suavizando um pouco. “Vamos ajudar a arrumar o quarto dela. Fazer parecer menos... não sei, menos um quarto de hóspedes e mais que é realmente dela.”

“Isso seria maravilhoso”, diz Rosemary, com a voz embargada pela emoção. “Obrigada, meninos.” Os quatro ficam juntos no escritório, unidos em sua decisão. Não é perfeito. Não é o que qualquer um deles teria escolhido. Mas James e Lisa se foram, e Kiara precisa deles. Então, eles estarão lá. Eles serão a família dela agora.

A mansão dos Dahak é linda de uma forma que parece quase agressiva; tetos altos, pisos de mármore e obras de arte que provavelmente custam mais do que a casa de infância de Kiara. É o tipo de lugar que ela visitou dezenas de vezes para festas e feriados, mas mudar-se é diferente. Isso deveria ser um lar agora.

Não parece um lar. Parece um museu onde ela tem medo de tocar em qualquer coisa.

“Seu quarto é no andar de cima”, diz Rosemary gentilmente, guiando Kiara pela escadaria grandiosa. “Segunda porta à esquerda. Tentamos torná-lo confortável, mas se precisar de algo, qualquer coisa mesmo, é só me avisar.”

O quarto é maior que o quarto e o banheiro de Kiara combinados na sua antiga casa. Há uma cama queen-size com um edredom macio, uma escrivaninha perto da janela e uma estante esperando para ser preenchida. É lindo e impessoal, e nada parecido com o espaço que ela deixou para trás.

“Obrigada”, sussurra Kiara, porque sabe que deveria ser grata. Os Dahak não precisavam acolhê-la. Eles escolheram fazer isso. Ela só queria não se sentir tão vazia.

Depois que Rosemary sai, Kiara senta-se na borda da cama e encara suas malas; tudo o que ela conseguiu levar de sua vida antiga, condensado em três peças de bagagem. Parece impossível que toda uma infância caiba em tão pouco espaço. Uma batida na porta faz com que ela olhe para cima.

Dois adolescentes estão no corredor, idênticos em tudo o que importa. Ares e Nyx Dahak, filhos gêmeos de Richard. Kiara os conhece desde sempre, mas de repente eles parecem estranhos. Tudo parece estranho agora.

“Ei”, um deles diz; Ares, ela acha, com base no jeito um pouco mais controlado de seus ombros. “Nós só... queríamos dizer que sentimos muito. Sobre seus pais.”

O outro gêmeo, Nyx, se move desconfortavelmente. “É. É uma merda. Se precisar de qualquer coisa...” Ele para de falar, e os três ficam ali em um silêncio constrangedor. O que você diz para alguém que perdeu tudo? O que você diz para a garota que de repente está morando na sua casa porque os pais dela estão mortos?

“Obrigada”, Kiara consegue dizer finalmente. “Eu só... preciso ficar sozinha agora.” Eles assentem e desaparecem, e Kiara fica grata. Ela não consegue lidar com a pena deles, o desconforto ou a presença deles. Ela não consegue lidar com nada além do peso esmagador de sua dor.

Ela pega seu celular e manda uma mensagem para Erin. Você pode vir aqui?

A resposta é imediata. Já estou a caminho.

Quando Erin chega uma hora depois, entrando pela janela do novo quarto de Kiara como costumava fazer no antigo, Kiara finalmente desaba.

Ela chora nos braços da melhor amiga; soluços grandes e profundos que sacodem todo o seu corpo. Ela chora pelos pais, pela vida antiga, pelo futuro que lhe foi roubado. Ela chora até não restarem mais lágrimas, até estar vazia, exausta e entorpecida.

“Eu não sei como fazer isso”, ela sussurra contra o ombro de Erin. “Eu não sei como viver sem eles.”

“Um dia de cada vez”, diz Erin, seu sotaque irlandês carregado de emoção. “Uma hora de cada vez, se for preciso. E eu estarei aqui. A cada passo do caminho.”

Elas sentam juntas na escuridão do novo quarto de Kiara, duas garotas de catorze anos tentando entender uma tragédia sem sentido. Lá fora, a chuva continua a cair, lavando os últimos resquícios da vida que Kiara costumava conhecer. Seus pais se foram. Sua infância acabou. E tudo o que ela pode fazer é sobreviver.

Sete anos depois...

A fotografia escorrega dos dedos de Kiara enquanto ela está no seu dormitório, encarando a carta de aceitação da Universidade de Saint Augustine. A mesma universidade onde Ares, Nyx e seu primo Cain estão no terceiro ano.

Sete anos ela esperou. Sete anos ela planejou. Sete anos ela interpretou o papel da órfã grata, a doce irmãzinha, a garota que não sabe nada sobre a escuridão que a cerca.

Mas ela tem vinte e um anos agora. Ela viajou o mundo com sua melhor amiga, Erin. Ela aprendeu coisas. Ela se tornou alguém nova. Alguém perigosa.

E agora, finalmente, é hora de cumprir a promessa que ela fez a si mesma aos catorze anos. Hora de descobrir a verdade sobre quem matou seus pais. Hora de destruir quem quer que seja o responsável. Mesmo que seja a família que a criou. Especialmente se for a família que a criou.