Capítulo 1
Aurora
O vento de outono corta meu casaco fino enquanto me apresso pelo campus, segurando meus livros contra o peito como um escudo. Minha respiração sai em pequenas nuvens brancas, e eu abaixo a cabeça por causa do frio, observando meus tênis gastos enquanto caminho pela calçada rachada. Eu deveria ter comprado um casaco mais quente semanas atrás, mas a escolha entre me aquecer e comer tornou-se fácil de fazer ultimamente.
Estou tão focada em chegar à biblioteca; meu santuário, meu segundo lar, o lugar onde posso fingir que está tudo bem, que quase passo direto por ele.
Um toque de cor contra o cinza sem graça do mural chama minha atenção. Rosa. Rosa choque, quase neon. Não deveria me atrair, mas algo nele me faz parar. Faz-me virar. Faz-me dar três passos para trás para olhar mais de perto. CONTRATANDO AGORA!
As palavras estão impressas em letras pretas e grossas no topo do panfleto. Abaixo delas, um endereço que não reconheço e um horário para entrevistas: de segunda a sexta, das 18h às 21h. É só isso. Sem descrição da vaga. Sem nome da empresa. Nenhuma indicação de que tipo de trabalho oferecem ou quais qualificações exigem.
Meus dedos pairam perto do panfleto, tremendo levemente. Pode ser qualquer coisa. Pode não ser nada. Pode ser... "Aurora!"
Dou um pulo, com o coração saltando pela boca enquanto me viro. Jenna está trotando em minha direção, seu cabelo castanho-claro balançando no rabo de cavalo, um sorriso brilhante no rosto que a faz parecer que não tem preocupação nenhuma na vida. Talvez ela não tenha. Os pais da Jenna ajudam com a mensalidade. Ela não fica acordada à noite calculando quantas refeições pode pular para fazer seu dinheiro da comida durar mais uma semana.
"Ei", digo, forçando um sorriso que parece que vai rachar meu rosto. "Pensei que você tivesse aula."
"Cancelada. O professor Carmicheal está doente de novo." Ela me alcança um pouco sem fôlego, e seus olhos cor de avelã estreitam-se imediatamente com preocupação. "Você está bem? Você está pálida."
"Estou bem", minto automaticamente. As palavras saem tão fácil agora. Tive muita prática. "Só estou com frio."
Jenna não parece convencida, mas não insiste. Ela nunca insiste, o que é uma bênção e uma maldição. Às vezes eu queria que ela insistisse. Às vezes eu queria que alguém me forçasse a admitir que estou me afogando, que a água está acima da minha cabeça e não consigo mais tocar o fundo.
"Quer tomar um café?", ela pergunta. "Por minha conta."
A oferta é tentadora; muito tentadora mesmo, mas balanço a cabeça. "Não posso. Preciso estudar."
"Você está sempre estudando." Não há julgamento em sua voz, apenas uma observação gentil. "Quando foi a última vez que você fez uma pausa?"
Não respondo porque não me lembro. Os dias se misturam agora, um ciclo interminável de aulas, estudos e o emprego de meio período na livraria do campus que paga pouco acima do salário mínimo. Não é o suficiente. Nunca é o suficiente.
A carta da secretaria ainda está dobrada na minha mochila, as palavras gravadas na minha memória, mesmo que eu só a tenha lido uma vez. Saldo devedor... plano de pagamento... desligamento do curso se não resolvido até...
Três semanas. Tenho três semanas para arrumar dois mil dólares ou estou ferrada. Acabou! Todas as noites em claro, todos os sacrifícios, todos os sonhos de ser a primeira pessoa da minha família a se formar na faculdade, perdidos.
"Aurora?" A voz da Jenna me traz de volta. "Sério, você tem certeza de que está bem?"
"Sim, eu só..." Olho de relance para o panfleto, para aquelas letras grossas que parecem pulsar com possibilidades. Ou perigo. Ou ambos. "Você sabe algo sobre isso?"
Jenna chega mais perto, semicerrando os olhos para o panfleto. Seu nariz se enruga. "Sem nome de empresa? Sem descrição de vaga? Isso é muito suspeito."
"Talvez", admito. "Mas talvez seja legítimo."
"Ou talvez seja um golpe. Ou pior." Ela se vira para mim, com a expressão séria agora. "Promete que não vai fazer nada estúpido."
A palavra "estúpido" ecoa na minha cabeça. É estúpido estar desesperada? É estúpido considerar qualquer opção, não importa o quão misteriosa, quando a alternativa é assistir a tudo pelo que lutei escapar pelas minhas mãos?
"Eu prometo", digo, mas as palavras soam vazias.
Jenna me observa por um longo momento, e consigo ver a preocupação em seus olhos. Ela sabe que algo está errado. Provavelmente sabe há semanas, mas está esperando que eu conte. Esperando que eu peça ajuda.
Mas eu não posso. Não posso sobrecarregá-la com meus problemas. Não posso admitir que estou fracassando na única coisa que deveria ser boa: sobreviver. "Eu preciso ir", digo abruptamente. "Eu realmente preciso estudar."
"Ok." Jenna se aproxima e aperta meu braço gentilmente. "Mas me manda mensagem mais tarde? Podemos pedir uma pizza e assistir a alguma coisa terrível na Netflix."
"Claro", concordo, sabendo que provavelmente não farei isso. Pizza custa um dinheiro que não tenho, e não consigo ficar parada tempo o suficiente para assistir a um filme. Minha mente está sempre acelerada, sempre calculando e sempre buscando uma solução que não existe.
Jenna segue em direção ao centro estudantil, e fico ali por mais um momento, encarando o panfleto. Meu celular está no bolso. Eu poderia tirar uma foto do endereço. Eu poderia aparecer para uma entrevista. Eu poderia, pelo menos, descobrir que tipo de emprego eles estão oferecendo.
Mas a Jenna tem razão. É suspeito. Nenhuma empresa legítima faria propaganda assim, com tão pouca informação. Pode ser qualquer coisa. Pode ser perigoso.
Por outro lado, abandonar a faculdade também parece perigoso. Voltar para casa parece perigoso. Admitir a derrota parece a coisa mais perigosa de todas.
Antes que eu possa me convencer do contrário, pego meu celular e tiro uma foto do panfleto. O clique da câmera soa alto demais na tarde silenciosa, como se eu tivesse acabado de fazer algo irreversível. Porra, talvez eu tenha feito mesmo.
Guardo meu celular no bolso e me apresso em direção à biblioteca, com o coração batendo mais forte do que deveria. É apenas uma foto. Apenas informação. Não tenho que fazer nada com isso. Não tenho que aparecer para uma entrevista.
Mas, mesmo enquanto digo isso para mim mesma, sei que estou mentindo. Sei que hoje à noite, quando estiver sozinha no meu dormitório, com a Jenna dormindo e a escuridão parecendo pressionar por todos os lados, vou olhar aquele endereço de novo. Vou considerar. Vou me perguntar se, talvez, só talvez, esse emprego misterioso possa ser a resposta que busco desesperadamente.
As portas da biblioteca se abrem, e entro no calor, no cheiro familiar de livros antigos, café e um desespero silencioso. Encontro meu lugar habitual no canto dos fundos, espalho meus livros e tento focar nas palavras à minha frente.
Mas tudo o que consigo ver é aquele panfleto. Aquelas letras pretas em negrito. Aquele endereço que pode levar a qualquer lugar. CONTRATANDO AGORA! Duas palavras que podem me salvar. Ou me destruir. Não saberei até tentar.