Segunda Chance sob o Luar: Livro 1

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Nyra Sanders passou a vida inteira fugindo. Abandonada por um coven de vampiros que considerou sua existência um erro, ela foi criada entre humanos, escondendo uma fome que mal compreende e um poder que não consegue controlar. Ela aprendeu cedo que não pertence a lugar nenhum... e que confiar nas pessoas erradas pode custar tudo. Kael Draven não é mais o garoto que, um dia, olhou para ela como se fosse o seu mundo inteiro. Ele agora é um Alpha, poderoso, temido e preso pelo dever ao seu bando e ao império que governa. Anos atrás, ele fez uma escolha que destruiu ambos, deixando-a partir quando ela mais precisava dele. Quando o destino arrasta Nyra de volta ao mundo de Kael, nenhum dos dois está preparado para a tempestade que se segue. O laço entre eles não desapareceu; tornou-se apenas mais forte, mais perigoso e impossível de ignorar. Mas velhas feridas são profundas, e a verdade por trás do passado deles ameaça destruir qualquer chance de reconstruir o que foi perdido. À medida que os inimigos se aproximam e o poder oculto de Nyra a torna o centro de uma guerra crescente entre lobos e vampiros, Kael é forçado a escolher entre a vida que construiu... e a mulher que nunca deixou de amar. Desta vez, ir embora não é uma opção. Mas amar um ao outro novamente pode custar tudo o que eles têm.

Status
Completo
Capítulos
62
Classificação
5.0 3 avaliações
Classificação Etária
18+

A Garota Que Não Pertencia

17 de julho de 2009

***

Nyra Sanders tinha seis anos na primeira vez em que entendeu, de um jeito silencioso e irreversível, que não pertencia a lugar nenhum.

A memória não se apagou com o tempo nem perdeu a nitidez. Ela permaneceu inteira, vívida e impiedosa, como se a própria noite a tivesse esculpido em seus ossos. Ela se lembrava da pedra fria sob seus pés descalços, do brilho fraco da luz de velas projetando sombras nas paredes e do cheiro que pairava no ar — algo metálico e denso que fez seu estômago revirar mesmo antes de ela entender o que era. Vozes ecoavam pelo corredor, baixas e controladas, mas com um tom afiado o bastante para cortar.

“Você nunca deveria ter mantido isso.”

Nyra estava bem perto da porta, com seus dedos pequenos agarrados ao batente enquanto espiava para dentro do quarto. Ela não deveria estar ali. Ela sabia disso, mas o tom daquela voz a atraíra, uma curiosidade misturada com algo que ela ainda não sabia nomear.

“Ela não é um ‘isso’.” A voz de sua mãe era firme, mas Nyra conseguia ouvir a tensão por baixo dela, aquele aperto que não estava ali mais cedo naquela noite.

Sua mãe estava no centro do quarto, alta e inabalável, apesar da forma como os outros a cercavam como predadores decidindo quando atacar.

“Ela é minha filha”, continuou sua mãe, com o queixo levemente erguido e um desafio transbordando em cada palavra.

Uma risada suave e sem humor rompeu a tensão. O homem que estava à sua frente deu um passo em direção à luz e, mesmo aos seis anos, Nyra sentiu algo dentro de si recuar. Ele era belo da maneira que todos eles eram: feições marcantes, pele impecável, olhos que brilhavam como pedra polida, mas havia algo errado no jeito como ele olhava para sua mãe.

“Ela é o seu erro”, disse ele calmamente, com a voz suave, porém fria. “Uma criança concebida com um humano. Sem vínculo e sem reivindicação. Você tem noção do que fez?”

Nyra não entendia as palavras, não totalmente, mas entendia o suficiente para saber que falavam sobre ela. Ela se pressionou contra o batente da porta, com o coração batendo mais rápido enquanto seu olhar oscilava entre eles.

“Eu sei exatamente o que fiz”, respondeu sua mãe. “Eu escolhi minha vida.”

“Você escolheu errado”, outra voz cortou bruscamente.

A mulher que falou deu um passo à frente, com uma expressão indecifrável, mas os olhos cheios de um desdém claro ao pousarem sobre a mãe de Nyra. “Você recebeu a promessa e deveria se unir a um dos nossos, para fortalecer a linhagem, para manter a ordem. Em vez disso, você se entregou a um humano e produziu… isto.”

O olhar dela se desviou, pousando diretamente em Nyra, e por um momento, Nyra não conseguiu respirar.

Ela não sabia por que aquele olhar a deixava tão exposta, como se a vissem de um jeito que a fazia querer desaparecer, mas ela sabia que não gostava daquilo. Ela deu um pequeno passo para trás, mas o movimento a traiu.

Todas as cabeças se viraram e um silêncio caiu instantaneamente.

“Nyra”, disse sua mãe suavemente, e o som de seu nome naquela voz fez algo apertado no peito de Nyra relaxar um pouco. “Venha aqui, querida.”

Nyra hesitou por apenas um segundo antes de entrar no quarto, sua mão pequena alcançando instintivamente a de sua mãe. No momento em que seus dedos se tocaram, um calor se espalhou por ela, ancorando-a de um jeito que nada mais poderia.

O homem observava a interação atentamente, com o olhar se estreitando um pouco. Ele se agachou o suficiente para ficar na altura de Nyra, estudando o rosto dela com uma intensidade inquietante.

“Ela tem os seus olhos”, disse ele após um momento.

“E nada de você”, respondeu sua mãe imediatamente, puxando Nyra para mais perto de si.

Algo sombrio surgiu na expressão dele com aquilo, algo que fez Nyra apertar a mão da mãe com mais força.

“Isso”, disse ele lentamente, “é exatamente o problema.”

Nyra olhou para cima, para a mãe, com confusão e medo se misturando em seu peito. “Mamãe… vocês podem ir embora?”, perguntou ela baixinho.

Sua mãe se ajoelhou à sua frente, levando as duas mãos ao rosto de Nyra para segurá-lo. O toque dela era gentil, quente, familiar. “Ainda não, e não há nada de errado com você”, disse ela com firmeza, fixando os olhos nos de Nyra. “Você me ouve? Nada.”

Atrás delas, a mulher soltou o ar bruscamente, claramente não impressionada. “Você acha que negar muda o que ela é? Ela não tem vínculos. É uma criança sem direito de sangue, sem uma linhagem reconhecida pelo Conselho. Você entende o que isso significa?”

“Significa nada”, rebateu a mãe, levantando-se novamente. “Significa que ela é minha.”

“Significa que ela é instável”, disse o homem, com o tom escurecendo. “Imprevisível. Uma ameaça tanto para o nosso povo quanto para o equilíbrio que mantemos. Você criou algo que não pertence a lugar nenhum.”

“Ela pertence a mim”, disse a mãe, com a voz baixando, tornando-se perigosa de uma forma que Nyra nunca tinha ouvido antes. “E isso basta.”

“Nunca bastaria”, respondeu o homem, e agora a amargura já não estava escondida. “Você escolheu um humano em vez de mim. Você rejeitou o vínculo que deveria ser nosso. E agora você espera que o coven aceite as consequências dessa traição?”

Os dedos de Nyra apertaram os da mãe enquanto o ar no quarto mudava, tornando-se mais pesado e mais cortante.

“Eu não espero nada de você”, disse a mãe. “Estou lhe dizendo o que vai acontecer.”

O olhar do homem se endureceu. “Não”, disse ele suavemente. “Não está.”

O movimento que se seguiu aconteceu rápido demais para Nyra processar. Em um momento sua mãe estava à sua frente, forte e desafiadora, e no outro ela foi jogada contra a parede de pedra, o impacto ecoando pelo quarto. Nyra gritou, o som rasgando sua garganta antes que ela pudesse impedi-lo.

“Mamãe!”

Sua mãe lutava, com as mãos agarradas ao pulso dele, o corpo tensionado contra a força enquanto seus olhos encontravam os de Nyra. Não havia medo neles agora, apenas urgência.

“Nyra”, ela ofegou, com a voz tensa, mas clara. “Ouça-me. Não importa o que aconteça, você não é um erro. Você entende? Você não é—”

As palavras dela foram cortadas abruptamente.

Nyra não entendeu o que aconteceu naquele momento. Ela apenas soube que algo mudou, algo definitivo, quando o corpo de sua mãe ficou imóvel.

“Não… não, não, não…” A voz de Nyra quebrou enquanto ela tropeçava para frente, suas mãos pequenas se esticando, agarrando a mãe como se pudesse, de alguma forma, trazê-la de volta. “Mamãe, acorde… por favor, acorde…”

Não houve resposta.

Apenas silêncio.

O homem a soltou, deixando o corpo cair como se não significasse nada. Nyra caiu de joelhos ao lado dela, tremendo, chorando, com seu mundo desmoronando de uma maneira que ela não conseguia compreender.

Atrás dela, a mulher se aproximou, com o olhar frio e calculista enquanto observava a cena.

“Está feito”, disse ela simplesmente.

Nyra olhou para eles, com o rosto banhado em lágrimas e o peito ofegante. “Por quê?”, ela gritou, com a voz pequena e quebrada. “Por que vocês a machucaram? Ela não fez nada!”

“Ela quebrou a lei”, respondeu a mulher, com o tom desprovido de emoção. “Ela escolheu fora da sua espécie. Ela criou uma criança sem um vínculo, sem aprovação. Ela interrompeu a ordem que mantemos.”

“Ela não fez nada”, sussurrou Nyra, com a voz trêmula. “Ela não fez nada de errado…”

O olhar do homem se voltou para ela e, por um momento, algo indecifrável brilhou em sua expressão. Então, desapareceu.

“Não”, disse ele. “Mas você existe.”

“O que fazemos com ela?”, perguntou a mulher, com os olhos se estreitando enquanto estudava Nyra mais de perto. “Uma criança sem vínculos é um risco.”

Nyra paralisou, o medo a travando no lugar enquanto a atenção deles se voltava inteiramente para ela.

“Eu não quero ir a lugar nenhum”, disse ela rapidamente, com a voz trêmula. “Vou ficar aqui. Não vou causar problemas. Eu prometo, vou ser boazinha…”

Suas mãos se apertaram nas roupas da mãe, como se segurar pudesse, de alguma forma, ancorá-la ali.

A mulher se aproximou, agachando-se um pouco, com o olhar afiado enquanto estendia a mão e agarrava o pulso de Nyra antes que ela pudesse se afastar. Nyra arfou com o contato repentino, seu corpo ficando rígido enquanto os dedos da mulher pressionavam sua pele.

Por um momento, nada aconteceu.

Então, a expressão da mulher mudou.

Algo parecido com surpresa passou por seu rosto, seguido rapidamente por algo muito mais perigoso.

“…Interessante”, murmurou ela.

Nyra prendeu a respiração.

“O que é?”, perguntou o homem.

O aperto da mulher se intensificou levemente, com os olhos se estreitando como se estivesse tentando entender algo que não conseguia ver direito. “O sangue dela”, disse ela lentamente. “Ele reage.”

Nyra não entendia o que aquilo significava, mas sentiu. Um calor estranho se espalhou a partir de onde a mulher a segurava, movendo-se por suas veias de uma forma que fez seu coração bater mais forte.

“Não deveria”, continuou a mulher, mais para si mesma do que para qualquer outro. “Não desse jeito.”

O homem se aproximou, com o olhar mais afiado. “Explique.”

“Não é estável”, disse ela.

A palavra pairou no ar, carregada de implicações.

O medo de Nyra aumentou, seus instintos gritando que algo estava muito, muito errado.

“Ela é um risco”, disse o homem após um momento, com o tom decidido. “Vamos acabar com isso agora.”

O coração de Nyra parou.

“Não”, disse a mulher de repente.

Ele olhou para ela, surpreso.

“Ela é mais valiosa viva do que morta”, continuou a mulher, sem tirar os olhos de Nyra. “Se o sangue dela realmente carrega esse tipo de anomalia, ela pode ser… útil.”

Nyra balançou a cabeça, com as lágrimas caindo novamente. “Eu não quero ser útil”, sussurrou. “Eu só quero minha mãe…”

Por um breve momento, algo quase humano brilhou nos olhos da mulher. Então, desapareceu.

“Não”, disse ela. “Você não pode mais querer nada.”

O homem estudou Nyra por um longo momento antes de soltar o ar lentamente. “Então não a manteremos”, disse ele. “Não arriscaremos exposição. Deixe-a aqui. Que o mundo humano lide com o que ela é.”

Nyra perdeu o fôlego.

“Me deixar?”, repetiu ela, com a voz quase inaudível.

“Sim”, disse a mulher, soltando seu pulso. “Você não é nossa responsabilidade.”

As mãos de Nyra se apertaram desesperadamente em sua mãe. “Eu quero ficar com ela”, implorou ela. “Por favor… não me deixem sozinha…”

Mas eles já estavam se virando.

“Não”, disse o homem, com a voz final. “Você nunca foi nossa para começo de conversa.”

A porta se fechou atrás deles com um som suave e silencioso.

E assim, de repente…

Nyra Vale estava sozinha.

Ela não soube dizer quanto tempo ficou ali, agarrada à mãe, com seu corpo pequeno tremendo e sua voz desaparecendo de tanto chorar, até que não restasse nada além do silêncio. O mundo parecia vazio de um jeito que tornava difícil respirar, como se algo essencial tivesse sido arrancado e nada pudesse preencher o espaço que ficou para trás.