A ALIANÇA DOURADA: A Lua Acidental

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Resumo

Elara nunca deveria se destacar. Sua missão era apenas sobreviver a uma noite reluzente, servir drinques em um baile de bilionários e voltar para casa sem ser notada. Mas um acidente mudou tudo. Um frasco quebrado. Um aroma impossível. Um Alfa implacável que a encara como se o destino finalmente o tivesse encontrado. Kaelen Vane é temido por todos em seu mundo — frio, poderoso e perigosamente no controle. Porém, no momento em que Elara irrompe em sua vida, esse controle começa a ruir. O que deveria ter sido um encontro passageiro se transforma em uma obsessão da qual nenhum dos dois consegue escapar. Arrastada para um mundo oculto de lobos, linhagens ancestrais e segredos mortais, Elara descobre que é mais do que uma simples garota humana. Ela é a chave para um poder enterrado por gerações — e o centro de uma aliança que pode salvar a todos ou destruir tudo. Agora, caçada por inimigos, aprisionada pelo desejo e ligada a um Alfa que nunca deveria se apaixonar, Elara precisa decidir se foge da escuridão... ou se torna a Lua que o destino exige que ela seja. Porque, nesse mundo, o destino não pede. Ele toma. Perfeito para leitores que amam: heróis Alfa perigosos, *mate bonds* acidentais, magia oculta, *forced proximity*, química intensa e romance paranormal sombrio. Versão mais curta e impactante: Ela era uma ninguém em um baile. Ele era o Alfa que dominava a noite. Um acidente os uniu — e despertou uma aliança poderosa o suficiente para incendiar o mundo deles.

Gênero
Romance
Autor
MITHUN
Status
Completo
Capítulos
24
Classificação
5.0 1 avaliação
Classificação Etária
16+

1

O corredor de serviço atrás do salão de festas cheirava a vapor, água sanitária e desespero.

Elara estava encostada na parede, revestida de tinta creme que alguém havia riscado com um carrinho de bandejas, uma mão pressionada sobre o nó que se formava abaixo das costelas. A gola do uniforme arranhava seu pescoço. As mangas eram meio centímetro curtas demais. A saia preta fora ajustada na cintura por Mina, da agência, com dois alfinetes de segurança prateados e um aviso para não respirar fundo se quisesse que ela ficasse no lugar.

Do outro lado das portas vaivém, cristal e dinheiro faziam barulho juntos.

Ela conseguia ouvir até através das paredes: o tilintar fino das taças de champanhe, o estrondo suave de risadas ensaiadas, o deslizar de um quarteto de cordas em algum lugar sob o teto do salão nobre. A riqueza sempre soava como se tivesse aprendido a se comportar em público. Até as risadas em lugares assim vinham polidas.

“Elara.”

Ela ergueu a cabeça.

O chefe de salão, Joren, veio marchando pelo corredor com um tablet numa mão e uma expressão que parecia permanentemente ofendida com a existência dos outros. A gravata estava tão apertada que parecia puxar sua boca para baixo.

“A ordem das bandejas mudou”, ele disparou. “A mesa sete agora é com os canapés de figo defumado. Os investidores perto das janelas do leste recebem o cordeiro primeiro. E, pelo amor de Deus, pare de parecer que está num velório.”

Elara piscou para ele. “Estou carregando coisas mortas em bandejas de prata. Achei que era respeitoso.”

Mina, que arrumava taças no balcão de aço, engasgou com uma risada e disfarçou com uma tosse quando Joren olhou para ela.

“Estou falando sério”, ele disse.

“Eu também.”

Joren lançou a Elara aquele olhar que as pessoas usam quando estão decidindo se ela é burra ou insolente. Ela já estava acostumada com esse olhar. Costumava usá-lo nos outros. Depois de um instante, ele enfiou o tablet debaixo do braço, baixou a voz e disse: “Isso aqui não é um casamento de beira de cais nem uma festa de vinícola. Metade dessa sala tem dinheiro suficiente para comprar o resto de nós e depois esquecer onde nos guardou. Mantenha a cabeça baixa. Sorria só se falarem com você. E não comece nada.”

“Começar o quê?”

“O que quer que essa sua cara faça.”

Mina bufou. Joren lançou um olhar fulminante para as duas, então virou nos calcanhares e sumiu pelas portas de serviço.

Assim que ele saiu, Mina se inclinou e murmurou: “Um dia desses, vou acertar ele com uma bandeja e dizer pro juiz que foi um ato espiritual.”

Elara pegou a pilha mais próxima de guardanapos de linho. “Use a de prata pesada. Vale a pena ir presa.”

“É por isso que gosto de você. Você sempre pensa em soluções.”

Mina tinha sobrancelhas afiadas e um humor ainda mais afiado, o cabelo escuro preso num penteado que de alguma forma sobrevivia a turnos de dez horas e ao calor da cozinha. Era a única razão pela qual Elara tinha aceitado metade dos trabalhos que fizera naquele mês. Mina sabia quais agências mentiam sobre os pagamentos, quais lugares sonegavam o salário dos funcionários, quais convidados beliscavam, gritavam ou tentavam enfiar chaves de quarto nos aventais.

O local daquela noite era o Halcyon Crown, um hotel construído para pessoas que achavam que luxo comum era coisa de gente sem instrução.

O salão de festas ficava no topo do prédio, envolto em vidro bem acima de Oakhaven. A cidade se estendia lá embaixo, um mar de luzes molhadas e ruas escuras, o porto além dela negro como óleo. Elara tinha dado uma olhada quando chegou pela entrada dos funcionários. A chuva deixara as ruas brilhantes. As janelas dos prédios ardiam em dourado. Vista de cima, até as partes quebradas da cidade pareciam caras.

Ela se abaixou, abriu o armário na fileira estreita reservada para a equipe temporária e tirou o pequeno frasco de vidro embrulhado num lenço dobrado.

Mina viu na hora. “É da sua avó?”

Elara assentiu.

O frasco não era maior que seu dedo, tampado com um pedaço de cortiça envelhecida por anos de reuso. Dentro, o líquido tinha a cor de um chá fraco de âmbar. Quando ela o inclinava, algumas folhinhas finas grudavam no vidro como fios verdes afogados.

“Chá de concentração”, ela disse.

“Parece água de brejo.”

“E tem gosto pior.”

“Por que as velhas sempre fazem remédio como se estivessem castigando a sua linhagem?”

Elara sorriu apesar de si mesma.

Sua avó acreditava que duas coisas salvavam quase qualquer situação: ervas fervidas e a recusa em morrer no horário marcado.

A receita do chá existia na família havia mais tempo que o hábito das mulheres de falar com educação com homens que não mereciam. Hortelã-da-lua seca. Casca amarga. Uma pitada de algo que a avó guardava numa lata sem rótulo e nunca deixava Elara cheirar de perto. Bom para os nervos, dores de cabeça, mau tempo, luto e gente que fala demais.

Elara tirou a cortiça com os dentes e tomou um gole cuidadoso.

A amargura veio na hora — verde, cortante, quase metálica —, seguida por uma sensação fresca descendo pela garganta. Uma calma estranha se espalhou por ela, nunca pesada, nunca sonolenta. Não era relaxamento, mas como se uma mão firme a segurasse pelas costas e a mantivesse de pé.

Mina fez uma careta. “Isso devia ser proibido.”

“Provavelmente é em três distritos.”

Elara tampou o frasco e o guardou no bolso escondido costurado na bainha interna do avental. Sua avó tinha lhe ensinado a costurar aos oito anos, quando ela estava brava o suficiente para furar o tecido de propósito.

A expressão de Mina mudou. “Como ela está?”

Lá estava. A pergunta que as pessoas faziam quando queriam ser gentis, mas temiam que a resposta virasse um problema prático.

Elara fechou o armário com cuidado. “Ela gritou com o farmacêutico ontem.”

“Parece saudável.”

“Ele mereceu. Chamou ela de ‘querida’ três vezes em menos de um minuto.”

Mina sorriu. “Uma guerreira.”

“Ela diria tirana.”

“E a clínica?”

Elara desviou o olhar para as portas vaivém, com suas maçanetas de latão e vidros foscos. Através do vidro, a luz passava em fitas borradas.

“A clínica ainda quer o saldo até o fim da semana.”

Mina inspirou fundo entre os dentes. “Quanto falta?”

“Demais para um turno de catering. De menos para um milagre. Um número irritante. Daqueles que parecem pessoais.”

Mina apoiou o quadril no balcão. “Você podia me pedir.”

“Prefiro mastigar pregos.”

“Você diz isso como se fosse um não.”

“É um não.”

Mina a observou por um segundo, então assentiu uma vez. Entendia orgulho porque carregava o seu próprio como uma faca escondida na bota.

“Tudo bem”, ela disse. “Então hoje você conquista uma viúva rica para te adotar.”

“Tenho vinte e quatro anos.”

“Melhor ainda. Menos burocracia.”

A voz de Joren ecoou pelo corredor. “Posições!”

A área de preparo entrou em movimento.

Cozinheiros de jaquetas brancas empurravam bandejas com petiscos sob cloches. Dois carregadores trouxeram outro carrinho de champanhe. Alguém xingou porque um molho tinha talhado. Outro xingou porque alguém tinha xingado alto o suficiente para os convidados ouvirem através das portas. Elara se movia no ritmo daquilo porque precisava, porque, uma vez que o serviço começava, não havia espaço para hesitação, e hesitação em eventos como aquele aparecia como sangue em linho branco.

Ela pegou sua primeira bandeja.

Era redonda, de prata, mais pesada do que parecia, forrada com torradinhas cobertas de queijo cremoso, figos pretos e fios de tomilho cristalizado. O cheiro subia doce e terroso sob o calor do salão.

Mina pegou a segunda bandeja ao lado. “Se alguém disser alguma coisa insuportável, faça contato visual e imagine a pessoa nua e falida.”

“Por que falida?”

“Fica mais fácil de aturar.”

As portas se abriram.

Luz e barulho jorraram sobre elas.

O salão de festas se abria como o interior de uma caixa de joias.

Candelabros de cristal pendiam em camadas descendentes, cada prisma carregando o fogo de centenas de pequenas lâmpadas. O teto fora pintado com nuvens pálidas e deuses meio apagados. Arranjos altos de galhos brancos se erguiam dos centros de mesa como se o inverno tivesse sido aprisionado em urnas de prata. Ao longo da parede oeste, as janelas iam do chão ao teto, olhando para a linha do horizonte molhada de Oakhaven. A chuva arrastava linhas prateadas pelo vidro. A cidade além parecia perto o suficiente para tocar, se você tivesse o tipo de mão que as portas abriam.

Os convidados deslizavam pelo salão em seda preta, veludo escuro, sapatos engraxados e a arrogância discreta de quem espera que todos os objetos sobrevivam à sua proximidade. Joias brilhavam em pulsos e gargantas. Os homens usavam relógios que custavam mais que o aluguel do apartamento de Elara. As mulheres tinham expressões capazes de reduzir um garçom a cinzas.

Um quarteto tocava numa plataforma elevada perto das janelas. Nada alto, nada vulgar. Música para gente que não queria admitir que precisava preencher o silêncio.

Elara endireitou os ombros e entrou na corrente.

O serviço tinha sua própria forma de invisibilidade. Mova-se no ritmo certo, abaixe os olhos no ângulo certo, antecipe o movimento de uma mão antes que aconteça, e as pessoas param de te ver como pessoa. Você vira função. Uma bandeja viva com sapatos confortáveis.

Normalmente, isso não a incomodava.

Naquela noite, o salão deixava sua pele apertada demais.

Ela se aproximou primeiro de um grupo de convidados perto de um arranjo de orquídeas brancas. Uma mulher mais velha, com o pescoço cheio de diamantes, pegou dois canapés sem olhar para o rosto de Elara. Um homem com fios de prata nas têmporas perguntou se os figos eram importados. Elara respondeu que sim. Ele pegou um e disse: “Bom”, como se tivesse providenciado aquilo pessoalmente.

No grupo seguinte, um rapaz de jaqueta safira pegou uma torradinha e deixou o olhar percorrer o corpo de Elara de um jeito que fez seus dedos se apertarem sob a bandeja.

“Obrigado, querida.”

Ela sorriu do jeito que sua avó sorria antes de estabelecer limites. “De nada, enfeite de mesa.”

Os amigos dele riram. Ele corou. Elara seguiu em frente antes que ele decidisse se ofender.

Perto do centro do salão, duas mulheres discutiam território de mercado em vozes revestidas de mel e veneno.

“Não, querida, uma aquisição não é hostil se eles só percebem que perderam quando a tinta das assinaturas seca.”

“Diz isso para o conselho.”

“O conselho”, disse a primeira mulher, pegando um canapé, “é uma doença decorativa.”

Elara quase sorriu. Os ricos sempre estavam a um palmo de se tornarem interessantes quando esqueciam de fingir que eram civilizados.

Deu a volta pela esquerda, passando por uma escultura de vidro negro, e se viu refletida nela por meio segundo. Cabelo escuro preso às pressas. Alguns fios já se soltando por causa da umidade. Olhos cinzentos que não herdara de ninguém em especial, a menos que cansaço contasse como ancestral. Boca expressiva demais. Uniforme simples o suficiente para passar despercebida. Mãos firmes porque ela as treinara para isso.

Sua avó teria estalado a língua e ajeitado aquele fio solto atrás da orelha de Elara. Endireita a postura. Nunca peça desculpas antes de cometer o erro. Se um lugar quer te fazer sentir pequena, ocupe espaço na sua cabeça, se não for em outro lugar.

Elara ajeitou a bandeja e seguiu em frente.

No fundo do salão de baile, um grupo se formara perto do tablado elevado, onde os anfitriões deveriam fazer discursos. A segurança estava ali, de ternos escuros, ombros largos e atentos, usando fones de ouvido do tamanho de mentiras. Não eram seguranças do hotel. Muito controlados. Muito imóveis. Homens assim não pertenciam a um prédio. Pertenciam a uma pessoa.

As conversas pelo salão haviam se inclinado levemente naquela direção, como se o próprio ambiente estivesse se curvando.

“Elara”, um dos bartenders sibilou quando ela passou.

Ela virou a cabeça só o suficiente.

Ele acenou com a cabeça na direção do cordão de segurança, fingindo polir um copo. “É ele.”

“Quem?”

Ele pareceu escandalizado. “Você não sabe?”

“Eu trabalho para pagar o aluguel, não para fofocar.”

“É o Alpha Kaelen.”

Ela o encarou. “Alpha?”

O bartender sorriu sem humor. “Não o tipo que fica na porta de escritórios.”

Lançou um olhar rápido para o grupo de novo, depois se inclinou mais perto. “Ele é dono de metade do norte da cidade. Navios. Tecnologia. Segurança privada. Energia. Uma dúzia de empresas de fachada e três prédios sem nome. Dizem que, se ele quer alguma coisa, de manhã já é dele.”

“As pessoas dizem muita coisa depois de dois drinques.”

O bartender deu de ombros. “Então tome dois drinques e olhe.”

Joren berrou perto das portas da cozinha: “Nada de ficar parado!”

Elara voltou a circular, mas agora sua atenção se prendia no canto mais distante do salão.

No começo, só via fragmentos.

Um ombro de terno preto. O ângulo duro de um maxilar. Uma mão recebendo um documento de um dos homens ao seu lado. A multidão se mexia e o escondia, depois o revelava aos pedaços, como um quadro sendo carregado diante de uma janela.

Tentou não encarar e falhou com sinceridade crescente.

Havia algo errado com o ar ali.

Nada visível. Nada que alguém apontaria. Mesmo assim, cada vez que chegava a uns seis metros daquele canto do salão, a nuca formigava. Os pelinhos do braço se eriçavam. O vidrinho no bolso parecia frio de repente, depois quente, depois frio de novo, como se tivesse ganhado um batimento.

Diminuiu o passo perto de uma coluna espelhada.

O quarteto começou outra música. Os convidados continuavam conversando, rindo, bebendo. Nada no salão mudava.

E ainda assim Elara teve a sensação absurda de que algo acabara de erguer os olhos.

Fez mais uma volta com a bandeja. Vazia agora. Dirigiu-se ao balcão de serviço perto do aparador, onde bandejas novas esperavam em fileiras disciplinadas. Ao pegar uma, Mina apareceu por trás de uma torre de pratos de sobremesa empilhados.

“Você está com cara de quem viu o leão da Receita vindo na sua direção.”

Elara manteve a voz baixa. “Quem é Kaelen?”

As sobrancelhas de Mina se ergueram. “Você ouviu o nome.”

“Isso não é resposta.”

Mina arriscou um olhar na direção do grupo protegido, depois voltou a atenção para Elara. “Aquele homem é o motivo de metade do salão estar aqui. A fusão é dele. Os anfitriões estão praticamente lambendo o chão na direção dele. Por quê?”

Elara ajustou a bandeja. “Porque meu chá está agindo de um jeito estranho.”

Mina a encarou.

“Seu chá”, repetiu.

“É.”

“Seu veneno de pântano agora tem opiniões?”

Elara deveria ter rido. Em vez disso, passou o polegar pela borda da bandeja. “Não sei. É só que…” Procurou palavras que não a fizessem parecer doida. “Toda vez que chego perto daquele lado do salão, sinto como se tivesse um temporal debaixo da pele.”

A expressão de Mina mudou de divertida para alerta.

“Precisa de ar?”

“Não.”

“Água?”

“Não.”

“Então para de olhar para ele.”

“Eu nem o vi direito.”

“É assim que as más ideias se anunciam.”

Joren apareceu como se tivesse sido invocado só pela irritação. “Por que vocês duas estão paradas aí? Circulem.”

Mina revirou os olhos no segundo em que ele virou as costas.

Elara pegou a bandeja nova. Esta tinha canapés de cordeiro em torradas redondas, brilhantes e cravejadas de sementes de romã. O cheiro subiu, rico e apetitoso. Voltou para o meio da multidão, dizendo a si mesma que, assim que atravessasse o salão de novo, a sensação passaria e ela se lembraria de que estava cansada, mal paga e propensa a dramatizar quando estava com fome.

Passou por um grupo de investidores perto das janelas. Um pediu dois canapés “para minha esposa” e comeu os dois antes que ela se virasse. Uma mulher de vestido prateado parou Elara para perguntar se o cordeiro era local, mas não esperou pela resposta. Perto do tablado, um grupo de homens de ternos caros discutia baixinho sobre rotas de navegação. A palavra *sindicato* flutuou até ela, seguida de porcentagens e de uma risada que parecia uma faca sendo testada no polegar.

Quanto mais se aproximava do cordão de segurança, mais o resto do salão parecia silenciar.

Não era real, disse a si mesma. Era só o foco se estreitando. Só isso.

Faltavam uns três metros agora.

Um dos seguranças virou a cabeça, examinando o movimento dos funcionários e convidados com frieza eficiente. Elara mudou de direção com naturalidade. Não estava tentando se aproximar. Estava, na verdade, tentando muito não fazer isso.

Dois metros.

O vidrinho no bolso queimava.

Parou ao lado de um casal que discutia aquisições de vinícolas e estendeu a bandeja. A mulher a dispensou com um gesto. O homem pegou um canapé sem olhar. Elara se virou.

E a multidão se abriu.

Não de forma dramática. Um simples reajuste de corpos, um convidado dando um passo para o lado, outro se virando na direção do palco. Foi o suficiente.

Ela o viu.

Estava perto das janelas, uma mão no bolso, a outra descansando ao lado do corpo, como se seu corpo nunca esquecesse que podia se tornar violência mais rápido do que qualquer um ali. Era alto o bastante para desequilibrar a simetria dos homens ao redor. Terno escuro. Sem gravata à vista. Cabelo preto penteado para trás, um rosto que parecia esculpido, não nascido: boca severa, maçãs do rosto afiadas, olhos fundos sob uma quietude profunda demais para ser chamada de calma.

A silhueta da cidade, iluminada pela chuva, ardia atrás dele em ouro fragmentado.

Falava com um homem mais velho que segurava uma pasta, mas a conversa não parecia tocá-lo. Sua atenção parecia dividida entre o salão e algo abaixo dele. Algo mais antigo. Algo impaciente.

Elara já servira políticos, herdeiros, atrizes, homens cujos rostos apareciam nas telas dos prédios do centro. Sabia como o poder costumava se apresentar. Relógios caros. Sorrisos fáceis. Calor ensaiado. Performances para convencer o salão de que o poder era benevolente, se admirado do jeito certo.

Aquilo era diferente.

Nada nele pedia para ser gostado.

Ele parecia, com uma clareza assustadora, alguém que nunca precisara levantar a voz.

Então ele virou a cabeça.

Foi tão rápido que Elara quase acreditou ter imaginado. Num instante, o olhar dele estava no homem da pasta. No seguinte, pousou diretamente nela.

A bandeja quase escorregou.

O salão não desapareceu. A música não parou. Os convidados continuaram se movendo, conversando, bebendo. E ainda assim algo no ar mudou com tanta força que Elara sentiu nos dentes.

De perto, os olhos dele não tinham uma cor incomum. Escuros, talvez âmbar sob as luzes. Mas o foco deles acertou como uma mão fechando em sua nuca.

Não era reconhecimento.

Não exatamente.

Era mais perigoso que isso.

Interesse.

Cru e imediato, completamente fora de lugar em um rosto tão severo.

A garganta de Elara secou.

Disse a si mesma para desviar o olhar primeiro. Era o que pessoas sensatas faziam quando homens como aquele as notavam. Elas se tornavam menores, mais borradas, em outro lugar. Mas seu corpo se recusou. Cada nervo parecia sintonizado na linha esticada entre os dois.

O vidro no bolso do avental queimava contra o quadril.

A expressão dele não mudou. Nenhum sorriso. Nenhuma carranca. Nada tão comum. Mas ela viu — o leve tensionar dos ombros, o quase imperceptível endurecer do maxilar, como se algum mecanismo interno tivesse acabado de travar no lugar.

O homem ao lado continuou falando.

Kaelen não respondeu.

Ele continuava olhando para ela.

“Elara”, a voz de Mina veio de algum lugar à sua esquerda, distante e baixa, “não fica parada no meio do salão.”

Tarde demais.

Porque do outro lado do salão, sob os lustres, as risadas caras e as luzes da cidade manchadas de ouro pela chuva, Alpha Kaelen deu um único passo na direção dela.

E o ar ficou pesado.