Prólogo
O porão da Biblioteca Memorial era onde o silêncio vinha morrer. Normalmente, eu adorava aquilo — o cheiro de mofo adocicado dos papéis velhos e o zumbido do sistema de ar-condicionado eram o meu refúgio. Mas hoje, o ar parecia pesado, como se a pressão atmosférica tivesse caído antes de uma tempestade de verão.
Passei a mão pelos cachos, frustrada, sentindo o frizz começar a reagir àquela eletricidade estranha no ar. Já estava no quinto corredor da seção de Civilizações Antigas, procurando um texto complementar sobre governança romana que não me fizesse querer enfiar a cara no latte.
Desiste logo, disse a mim mesma. Fica com o C e vai comer um hambúrguer.
Virei para ir embora, mas uma sensação física — como um gancho prendendo o centro do meu peito — me puxou para trás. Os sapatos chiaram no chão. Meus olhos travaram numa fresta entre dois volumes enormes de couro.
Ali, onde deveria haver um livro, estava uma caixa de vidro.
Prendi a respiração. Eu tinha passado por aquele corredor três vezes nos últimos dez minutos. Aquela caixa não estava ali. Era estreita, o vidro ondulado pelo tempo, e dentro havia um único rolo de papiro gasto.
"Que porra é essa...?" sussurrei. Minha mão se moveu antes que o cérebro pudesse vetar a decisão.
O vidro estava estranhamente quente. Deslizei a caixa para fora da prateleira; era mais pesada do que parecia, a base de madeira entalhada com símbolos que pareciam pulsar sob meu polegar. Voltei correndo para a minha mesa de estudos isolada, o coração batendo acelerado contra as costelas.
Vai que é tua.
No instante em que meus dedos tocaram o pergaminho, o mundo ficou branco.
Uma onda de calor cortante subiu pelas minhas palmas, correu pelos braços e se espalhou pela espinha. Era como se algo me reconhecesse. Meu corpo inteiro vibrou como um diapasão atingido. Soltei um arquejo, caindo na cadeira, a visão turva com manchas roxas.
"Controle-se, Sophie", murmurei, sacudindo as mãos. "Deve ser só... eletricidade estática."
Mas o rolo já estava aberto. A escrita era arcaica, letras latinas afiadas em um tom marrom-avermelhado desbotado. Gemi. "Ótimo. Nem consigo ler essa merda."
Estendi a mão para enfiá-lo de volta na caixa, mas a força voltou, mais forte dessa vez. Me obrigou a baixar o queixo, prendendo meu olhar na página.
Então, o impossível aconteceu.
A tinta começou a se mover. As letras latinas se desprenderam das fibras, girando como uma colônia de formigas perturbadas. Elas borraram, se alongaram e se ajustaram em foco como inglês moderno e nítido.
"Que caralho?" deixei escapar.
"Psiu!" um silvo agudo ecoou de três corredores adiante.
"Desculpa", articulei automaticamente, embora meu cérebro estivesse derretendo. Fiquei olhando para a página, o coração martelando nos ouvidos. Será que eu estava tendo um AVC? Teria inalado algum esporo estranho de mofo do século XIX?
As palavras estavam ali, me provocando em letras elegantes e ousadas.
O ÚLTIMO DESEJO DO GENERAL CLÁUDIO
Franzi a testa enquanto começava a ler, minha voz interna sumindo conforme o peso das palavras me atingia.
Se está lendo este rolo, agora está amaldiçoado — mas não da forma que imagina. Você é quem responderá às minhas preces. Receio que vou morrer em breve, e preciso da sua ajuda.
Engoli em seco. Meu polegar traçou a borda do papel.
Escrevo isto no ano 100, em Roma. O tempo é um ladrão, e o meu está se esgotando. Por anos, derramei sangue por este Império. Construí minha carreira sobre os cadáveres dos meus inimigos e a adoração da plebe, tudo por um único propósito: chegar perto o suficiente do Imperador para arrancar a vida da sua garganta. Ele assassinou minha irmã — a única luz num mundo de ferro — e, para que a alma dela encontre paz, o sangue dele deve regar a terra.
Rezei aos deuses, mas eles estão em silêncio. Voltei-me, então, para a Magia Antiga. Fiz uma bruxa amarrar estas palavras para que buscassem um salvador. Se consegue ler isto, o feitiço funcionou. Consegue entender minha língua porque sua mente já não é mais só sua — está ligada à minha.
"Amarrar?" sussurrei, um calafrio subindo pela nuca. Olhei para cima para ver se a bibliotecária estava por perto, mas a biblioteca tinha... sumido.
O zumbido monótono das lâmpadas fluorescentes havia desaparecido. O cheiro de livros velhos foi substituído por um aroma metálico — terra e cedro. Os corredores foram engolidos por um vazio negro. Eu estava sentada à minha mesa de madeira, flutuando num mar de nada.
Uma voz, profunda e ressonante, de repente preencheu o vácuo. Não estava nos meus ouvidos; estava dentro do meu crânio.
"A essa altura, já deve ter percebido que não está mais no seu mundo", a voz retumbou. Era masculina, cansada, carregando o peso de um homem que já comandara legiões.
No rolo, novas palavras começaram a aparecer em tempo real, acompanhando o ritmo da voz.
"Peço desculpas pelo engano. Mas as bruxas amarraram nossas almas. Enquanto escrevo isto, você está sendo puxada através do véu. Preciso de você, desconhecida. Não posso completar esta vingança sozinho. Perdoe-me pelo que estou prestes a fazer."
Uma luz ofuscante irrompeu a três metros de mim. Fechei os olhos, protegendo-os, enquanto a escuridão se rasgava como um ferimento.
Através da fenda cintilante, vi uma sala iluminada pelo brilho âmbar e trêmulo de lamparinas a óleo. E ali, sentado a uma mesa pesada de carvalho, estava ele.
Era enorme. Mesmo sentado, sua presença preenchia o espaço. A pele era bronzeada, da cor de um pôr do sol, e o peito era um mapa de músculos conquistados, parcialmente coberto pelas dobras elegantes de uma toga bege. Cachos dourados caíam até os ombros, uma mecha solta caindo sobre olhos cor de avelã semicerrados em concentração intensa.
Parecia um deus esculpido em mármore, trazido à vida por uma prece desesperada.
"General Cláudio?" murmurei.
O homem ergueu a cabeça de repente. A pena — um estilete de junco — escorregou de seus dedos. Os olhos cor de avelã cravaram-se nos meus através de dois mil anos de história. Ele parecia completamente atordoado, os lábios entreabertos ao absorver meus jeans, meus cabelos emaranhados e meu rosto moderno.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, o puxão virou um empurrão violento.
A cadeira voou debaixo de mim. Eu não estava mais sentada; estava caindo. A luz do portal se aproximou, um rugido de vento ensurdecedor nos meus ouvidos. Fui lançada através do véu, os membros se debatendo.
Eu era um projétil, arremessada direto no colo musculoso de um dos homens mais poderosos de Roma.