Prólogo
Prólogo
O Rei
O rei ouvia enquanto a chuva falava.
Ela batia nas janelas altas do grande salão com toques pacientes e deliberados, como se o próprio céu exigisse uma audiência. Abaixo das janelas, estandartes pendiam rígidos no frio — lobos, cervos, harpas — cada um sendo a marca de um clã que jurava lealdade e praticava a rebeldia na mesma medida.
A Irlanda nunca estava em silêncio. Mesmo na paz, ela murmurava com antigas mágoas.
Ele descansou uma das mãos pesadas no braço do trono. Anéis de ouro pressionavam a pele envelhecida, lembretes de alianças feitas e desfeitas. Daquele assento, ele esmagara rebeliões, sancionara derramamentos de sangue e casara nobres crianças o suficiente para saber que o afeto era uma ferramenta pobre para governar.
O medo era útil, mas passageiro.
A ordem exigia arranjo.
— Tragam-nos para mais perto — disse ele.
O conselho silenciou instantaneamente. Os lordes abaixo do estrado inclinaram-se para frente, com os rostos cuidadosamente controlados. Decretos nunca eram ditos de ânimo leve, muito menos casamentos.
O olhar do rei caiu sobre o mapa espalhado na mesa de carvalho. Seu dedo traçou a costa oeste antes de seguir para o interior, parando em uma passagem estreita marcada por pedra.
Stonehaven Keep.
Ronan MacCarthy a detinha agora. Jovem. Controlado. Um homem inclinado demais à honra para ser confiável com poder ilimitado.
E então havia a garota.
Ava Niruane. Dezessete anos. Quieta o suficiente para passar despercebida. Afiada o suficiente para ser perigosa. As terras de sua família ficavam sobre uma falha que a coroa nunca selara totalmente. Se deixados em paz, poderiam perdurar. Se pressionados demais, iriam se partir.
O rei aprendera que problemas separados perduram. Unidos, eles se resolvem — ou destroem uns aos outros.
— Os proclamas serão lidos — disse ele, com a voz firme e sonora. — Nas terras de MacCarthy e nas de Niruane. Não haverá pressa. O tempo adequado será observado.
Seguiu-se uma pausa. Medida. Deliberada. Misericórdia, concedida.
— Quando esse tempo passar — continuou ele —, Ava Niruane se casará com Ronan MacCarthy. Esta união é decretada pela coroa. Ela será mantida.
Ninguém objetou. Objeção era traição. Silêncio era sobrevivência.
O rei recostou-se, estudando os rostos abaixo dele. Alguns mostravam alívio. Outros, cálculo. Um ou dois já antecipavam o lucro.
Bom.
Que especulem sobre quem este casamento deveria salvar.
Que debatam se a garota temperaria o lorde, ou se o lorde a consumiria inteiramente. Que falem de paz e unidade.
O rei sabia melhor.
Casamentos não traziam paz. Eles revelavam falhas. Eles forçavam a lealdade a vir à tona e exigiam escolhas onde antes vivia a ambiguidade.
E quando essas escolhas levassem à ruptura — quando o amor, a ambição e o medo separassem homens e mulheres — a coroa estaria esperando para reivindicar o que restasse.
A chuva batia com mais força contra o vidro.
O rei sorriu, levemente.
— Certifiquem-se de que os emissários partam ao amanhecer — disse ele. — Não permitirei que o destino seja adiado.