Amar, Mentir, Morrer: Proteção à Testemunha

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Resumo

Ela enterrou seu nome verdadeiro no dia em que entrou para o programa de proteção à testemunha. Ele deveria mantê-la em segurança — não fazê-la se sentir viva novamente. Natalia Veranova tornou-se Vera Marsh no dia em que testemunhou contra o homem mais perigoso que já amou. Relocada para as margens enevoadas de Tidewater, Oregon, ela constrói uma vida tranquila com peças emprestadas: um nome que não lhe serve, uma cidade que não a conhece e um vizinho que a observa com olhos que veem demais. Jack Corwin também não é quem diz ser. Como o marechal federal infiltrado em sua órbita, seu trabalho é simples: manter a testemunha viva até o julgamento. O que ele não previu foi ela — o jeito que ela lê as pessoas como se tivesse passado a vida inteira sobrevivendo a elas, a forma como ela nunca hesita, o modo como ela o faz querer revelar seu nome verdadeiro só para ver o que ela faria com isso. Eles sabem que não deveriam. O programa tem regras. E a sobrevivência também. Mas, quando um sindicato russo começa a estreitar as buscas e as paredes de sua cuidadosa ficção começam a ruir, a linha entre o disfarce e a verdade se dissolve — e a única coisa mais perigosa do que querer um ao outro é admitir que eles já se querem. Amar, Mentir, Morrer é um romance slow-burn e high-heat sobre duas pessoas que mentiram por tanto tempo que esqueceram o preço da honestidade — e quanto ela realmente vale.

Status
Completo
Capítulos
28
Classificação
5.0 1 avaliação
Classificação Etária
18+

Pele

A cabana cheirava a vidas alheias — histórias em camadas presas nas paredes como fantasmas.


Vera estava parada na porta do 412 da Rua das Gaivotas com uma mala e um laptop numa bolsa de lona, respirando pela boca. Cheiro de pinho que não disfarçava as manchas de café debaixo do fogão. O perfume da inquilina anterior — algo floral e insistente — tinha impregnado as cortinas de algodão, os móveis estofados, até os ossos do lugar. Precisaria lavar tudo. Precisaria queimar as cortinas, se pudesse. Pintar as paredes com algo neutro, algo que não sussurrasse sobre as vidas de outras mulheres.


Três cômodos, cada um menor que o anterior. Quarto com vista para o mar, que o anúncio chamava de "dramática" e o Agente Falk chamava de "isolada" — bom para ela, significando que não havia vizinhos para notar seus hábitos, ninguém para observar suas idas e vindas. Cozinha com laminado original dos anos 70, cor de abacate e manchado de água, e uma geladeira que zumbia como um insone, um ruído branco constante que a levaria à loucura ou à segurança, não tinha certeza de qual. Sala com um sofá da cor de purê de batata velho, gasto nos cantos onde corpos anteriores haviam se afundado no tecido. Tudo alugado, tudo temporário, tudo falso.


A mala parecia leve em suas mãos — ou ela é que tinha ficado pesada, e a mala apenas flutuava sobre esse peso. Colocou-a na cama sem abri-la. Ainda não. Primeiro, precisava se ver no espelho, precisava confirmar que Natalia Veranova tinha, de fato e irrevogavelmente, desaparecido.


Caminhou até o banheiro e parou diante do espelho.


Cabelo castanho, na altura dos ombros, cortado duas semanas antes num salão de Portland onde a cabeleireira não fizera perguntas. Olhos castanhos — lentes de contato, embora a graduação não mudasse muito, nem precisasse. Maçãs do rosto que poderiam pertencer a qualquer pessoa de uma dúzia de países. Um rosto que aprendera a não ser memorável. Parecia alguém. Não ninguém. Alguém completamente comum. Alguém fácil de esquecer.


— Oi — disse para o espelho, deixando as palavras moldarem sua boca, testando-as como uma língua estrangeira. — Eu sou a Vera Marsh. Sou designer freelancer de sites. Mudei para Tidewater porque queria um ritmo mais lento, porque queria me afastar da cidade, porque precisava de espaço para pensar e a costa parecia… — Parou. Demais. Vera Marsh não se explicaria. Vera Marsh seria chata na medida exata para fazer as pessoas desviarem o olhar. — Sou designer freelancer. Trabalho de casa. Gosto de silêncio.


A mulher no espelho não convencia. O maxilar estava muito tenso, muito controlado. Seus olhos diziam "observando" quando deveriam dizer "vazio", "ninguém". Tentou de novo, relaxando a expressão, deixando os ombros caírem, deixando a tensão escorrer do rosto como se fosse profissional nisso — o que, supôs, era.


— Eu sou a Vera Marsh. — Melhor. Ainda não bom. Melhor.


Virou-se para o espelho e obrigou-se a desfazer a mala. Dentro, roupas que não eram suas — três pares de jeans que serviam, mas pareciam fantasias, cinco suéteres em cores neutras que nunca teria escolhido, roupas íntimas compradas por agentes que a reduziram a estatísticas: tamanho, preferência de tecido, gama de cores. Cada peça tinha costuras invisíveis onde sua vida real costumava estar. Pendurou as roupas no armário e ficou olhando para elas, sentindo a distância entre si mesma e aquele corpo, o que um dia rira, um dia confiara, um dia acreditara em continuidade.


A batida veio exatamente às três da tarde.


Vera passara as horas seguintes fazendo o que fazia de melhor — medindo o espaço. Memorizara as tábuas do piso (oito no quarto, sete e meia na cozinha), os interruptores (quatro no total), os cantos onde o papel de parede borbulhava e descascava (sete lugares, o canto nordeste o pior). Calculou rotas de fuga com a precisão que um dia a tornara valiosa para o sindicato: porta da frente, porta dos fundos, janela da cozinha. Tempo da porta dos fundos até a linha das árvores: quarenta e três segundos, e ela percorrera o trajeto três vezes para ter certeza. Quarenta e dois segundos agora, embora tivesse aprendido que cautela importava mais que velocidade.


O homem lá fora era o Agente David Falk, e estava exatamente tão cansado quanto estivera no único encontro anterior em Portland — um homem para quem o mundo se tornara uma série de quartos de hotel e carros estacionados e o gerenciamento cuidadoso de ativos perigosos. Trazia uma pasta e uma garrafa térmica de café que não ofereceu para dividir.


Sentou-se no sofá cor de purê de batata como se já tivesse sentado em mil outros iguais, o corpo inclinado de um jeito que lhe permitia observar tanto a porta da frente quanto o rosto dela ao mesmo tempo. Vinte anos em proteção a testemunhas, provavelmente. Vinte anos gerenciando pessoas como ela.


— Sem contato — disse, sem se dar ao trabalho de preâmbulos. — Com ninguém da sua vida anterior. Nem sua mãe em Moscou. Nem o irmão que não queria saber de você. Nem a pessoa que cuidava do seu cachorro e sabia que você gostava de café com creme demais. Nem conhecidos de Georgetown, nem primos distantes, nem alguém que você conheceu numa festa há oito anos. Você não tem mais família. Não tem mais história. Esse é o acordo. O único acordo.


Vera assentiu. Era verdade. Sua mãe era Moscou — cidade fria, mulher fria, distância fria medida em três fusos horários. Seu pai, morto havia seis anos. Seu irmão cortara o vínculo com a precisão que ela admirava: um telefonema, cinco minutos, a palavra "traidora" dita tão baixo que quase não ouvira.


— Sem desvios da história — continuou Falk, com a mesma voz monótona e plana que usaria para recitar uma lista de compras. — Você é designer freelancer de sites. Trabalha de casa. Trabalha à noite, em horários estranhos, e isso explica por que os vizinhos não devem esperar vê-la na cafeteria local toda manhã às oito. Você não namora. Não vai a bares. Não se junta à sociedade histórica, nem à aula de ioga, nem ao clube de jardinagem. Não faz trabalho voluntário. Não faz amigos. Não vai à igreja. Você é chata. É a pessoa que ninguém lembra. Esse é o ponto. O único ponto.


— Eu entendo.


— E você não vai — disse Falk, pousando a garrafa térmica com a solenidade de um juiz batendo o martelo —, em hipótese alguma, buscar um relacionamento com alguém nesta cidade. Qualquer tipo de relacionamento. Romântico, sexual, emocional. Você é um fantasma. Fantasmas não se apaixonam. Fantasmas não ficam.


Vera estava sozinha havia tanto tempo que a solidão já parecia verdade, parecia o estado natural da existência. Estar sozinha significava não ter que mentir para ninguém além de si mesma. Estar sozinha significava segurança. Essa parte seria fácil. Assentiu de novo, e Falk pareceu satisfeito por ter gravado os avisos corretos em seu cérebro.


Ele saiu depois de revisar os protocolos de emergência, o botão de pânico, o número de telefone para situações urgentes, o lembrete de que ela seria verificada trimestralmente, que seu uso da internet seria monitorado, que não poderia, sob nenhuma circunstância, usar redes sociais ou qualquer plataforma que deixasse rastros digitais. Agora, ela existia nos espaços entre as coisas — não exatamente uma pessoa, não exatamente invisível, algo no meio.


Passou a tarde desfazendo a mala direito — colocando as roupas que não eram suas no armário que não era seu, arrumando os produtos de higiene que não eram seus no banheiro que não era seu. Quando olhou para a cama, era só uma cama. Quando olhou para o espelho, era só um reflexo. Vera Marsh tinha se mudado para o 412 da Rua das Gaivotas. Vera Marsh tinha uma história. Vera Marsh tinha se tornado.


A cidade se revelou a pé.


Tidewater não era pitoresca como prometiam os cartões-postais. Eles mostravam a luz do verão, pedras quentes, o oceano em tons de azul impossível. Tidewater em março era neblina — densa, quase sólida, com peso e textura. A neblina vinha do mar às quatro da tarde como um relógio e só se dissipava na tarde seguinte, engolindo as ruas, as árvores, a possibilidade de distância. As ruas estavam vazias como só cidades pequenas sabem ficar — não abandonadas, mas vigiadas, observadas, catalogadas em silêncio. Uma loja de ferragens com toldo verde. Um café que fechava às seis, um correio do tamanho de um armário. Vera anotou os locais, as saídas, os ângulos de visão, os lugares de onde se podia ver sem ser vista. Era o treinamento antigo voltando — a mente de contadora forense: reconhecimento de padrões, contingências, o catálogo compulsivo de riscos invisíveis.


A loja de ferragens tinha o nome pintado na vitrine: Turner’s.


O homem estava no estacionamento, carregando madeira na caçamba de uma caminhonete mais velha que ela, e se movia como quem conhece o peso exato de cada gesto. Ombros largos num casaco de trabalho azul-marinho, mangas arregaçadas revelando antebraços marcados — não por um único evento, mas por anos de algo: trabalho, ou tempo, ou uma história de violência que deixa cicatrizes. Havia uma marca que corria ao longo do maxilar, branca contra a pele bronzeada pelo tempo ao ar livre, e o fazia parecer o tipo de homem que sabia quebrar coisas e provavelmente já quebrara mais do que era seguro saber.


Ele olhou para cima. Seus olhos se encontraram do outro lado do estacionamento por uns dois segundos — mais que casual, menos que intencional. Tempo suficiente para que algo a atravessasse: um arrepio elétrico na base da espinha, uma consciência indesejada, como tocar num fio desencapado e descobrir que a mão não obedecia ao comando de soltar.


Ela desviou o olhar primeiro.


Quando olhou de volta, ele já estava de novo olhando para a caminhonete, erguendo a tampa da caçamba com uma facilidade prática, cada movimento econômico e seguro. Não olhou para ela outra vez. Mas ela o sentiu ali — uma presença que seu sistema nervoso registrara e arquivara sob algo que não tinha nome exato. Não exatamente uma ameaça. Não exatamente atenção. Algo que existia no espaço entre desejo e alerta.


Entrou na loja e comprou um martelo e pregos de que não precisava, manuseando as ferramentas com a precisão que a tornara bem-sucedida em seu trabalho anterior — cada detalhe notado, cada ângulo calculado. Pagou em dinheiro. Não fez contato visual com o caixa. Saiu sem deixar os olhos vagarem de volta para o estacionamento, embora cada célula do seu corpo quisesse olhar, quisesse vê-lo mais uma vez, quisesse entender o que a atravessara naqueles dois segundos.


A cabana estava fria quando voltou.


A vista para o mar, que parecera dramática às duas da tarde, agora parecia cinza e indiferente às cinco, menos uma característica e mais um aviso. Ficou parada na janela e observou a água, vendo como a neblina se movia sobre as pedras como algo vivo e faminto, como algo que poderia engoli-la se deixasse se aproximar demais. Essa era sua vida agora. Essa cabana com sua cozinha manchada e o perfume da inquilina anterior. Essa neblina. Essa água cinza. Essa cidade de quatro mil habitantes, dos quais ela se permitiria conhecer exatamente zero.


Mas não conseguia parar de pensar no homem do estacionamento.


A cicatriz no maxilar. O jeito como se movia, econômico e seguro. A cor dos olhos — castanhos, ou talvez mais escuros, não chegara perto o suficiente para ter certeza, mas escuros de um jeito que sugeria ter visto coisas que mudam a gente. As mãos carregando a madeira com uma força casual que a fez pensar em carpintaria, em construir, no que significava trabalhar com algo sólido e real em vez de números que sempre mudavam, sempre sujeitos a manipulação.


Pensou no aviso de Falk: Fantasmas não se apaixonam.


Não estava se apaixonando. Isso era impossível. Estava registrando um risco. Estava arquivando informações. Estava fazendo o que fora treinada para fazer: sobreviver observando, calculando, anotando as coisas que poderiam ser perigosas se deixasse se aproximarem demais.


Mas parada na janela, vendo a neblina encobrir as pedras uma a uma, vendo o oceano passar de cinza a negro conforme a luz se esvaía, entendeu que cometera um erro fundamental em algum lugar — não em ter vindo para Tidewater, não em aceitar o acordo, não na decisão de se tornar Vera Marsh. O erro foi acreditar que dava para cortar tudo e ainda continuar inteira. Que o vazio era possível. Que podia se separar do próprio corpo e ainda assim ser capaz de sentir coisas, de reagir a coisas, de ser afetada pelo maxilar de um desconhecido e pelo jeito como suas mãos sabiam o que fazer com madeira.


A cicatriz passava por sua mente como um aviso que não conseguia explicar, como se seu corpo soubesse de algo que sua mente se recusava a admitir.


Virou-se da janela e preparou chá com atenção cuidadosa à temperatura e ao tempo. A água precisava estar na temperatura exata — não fervendo, o que estragava as folhas, mas quente o suficiente para extrair o sabor. Preparou o chá na ordem certa: folhas, água, tempo. Ritual, medição e controle.


A versão de Vera Marsh que era chata, quieta, sozinha e segura não se permitiria pensar num homem num estacionamento. Essa versão era a que sobrevivia. Essa versão era a que permanecia escondida.


Suas mãos tremiam ao despejar a água quente, e o chá ficou escuro, quase preto, e lá fora a neblina engoliu o último resquício de luz. Segurou a caneca e sentiu seu calor — o único calor disponível, o único toque que se permitiria. Em Moscou, sua mãe lhe ensinara que querer coisas era fraqueza. Em Portland, aprendera que conexão era uma vulnerabilidade que não podia se dar ao luxo de ter. Em Tidewater, aprenderia que saber essas coisas não era o mesmo que conseguir viver com elas.


O oceano mantinha seu ritmo lá fora, indiferente a ela. A neblina pressionava a cabana como um peso. E no escuro, no espaço entre seus pensamentos cuidadosos, a imagem de um maxilar marcado e olhos escuros persistia — um lembrete de que fantasmas, ao que parecia, ainda podiam ver, ainda podiam sentir, ainda podiam querer coisas que lhes custariam tudo.


Tomou seu chá. Não pensou nele de novo. Ou contou essa mentira para si mesma, e quase foi o suficiente.


Quase estava se tornando um estado familiar.


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