Capítulo 1 A Herança
Capítulo 1 – A Herança
Evelyn Rhodes odiava Manhattan em março.
Não por causa do frio — ela já tinha aguentado invernos de Boston suficientes para lidar com isso —, mas por causa da umidade, aquele frio rasteiro que se infiltrava nos ossos e fazia cada rajada de vento parecer uma lâmina. Ela estava parada diante de um arranha-céu de vidro no Distrito Financeiro, seu reflexo um fantasma pálido contra as janelas fumê: sobretudo caramelo, gola alta preta, um rosto que tinha perdido a suavidade cedo demais.
Vinte e cinco anos, mas parecia que já tinha vivido uma vida inteira.
Ela respirou fundo e atravessou a porta giratória. A recepcionista lhe deu um sorriso polido demais, ensaiado demais — do tipo que avaliava o valor antes de oferecer cordialidade.
“Srta. Rhodes? Por favor, siga-me. O Sr. Wayne está aguardando.”
Wayne. Não o advogado do seu pai, o Sr. Greene. Wayne.
O coração de Evie martelou contra as costelas, mas seus passos não vacilaram. Cinco anos afastados. Quatro anos de terapia. Três anos se jogando no trabalho até suas mãos sangrarem de tanto desenhar projetos. Ela tinha se convencido de que tinha enterrado aquele nome, aquele rosto, aquelas memórias, bem no fundo do Rio Charles.
Mas um sobrenome foi o bastante para abalar as estruturas.
Ela seguiu a recepcionista por um corredor de carpete cinza e arte abstrata cara. Pararam diante de uma porta de nogueira. Dois toques, e ela se abriu por dentro.
O homem que estava lá não era o advogado.
Callum Wayne estava mais alto do que ela se lembrava, mais magro, seus ombros mais largos sob um terno azul-marinho perfeitamente ajustado. Seu maxilar estava mais marcado, as maçãs do rosto mais proeminentes. E seus olhos — aqueles olhos cinza-azulados que outrora riam quando ele olhava para ela no auditório da escola — agora eram pedras polidas, duras e indecifráveis.
Ele a viu, e sua expressão não mudou. Ele apenas se afastou.
“Evie.” Sua voz era baixa, monótona, como se o nome dela fosse apenas mais uma palavra qualquer.
“Callum.” O dela saiu mais firme do que ela esperava.
Ela passou por ele e entrou na sala. Duas outras pessoas já estavam lá: um homem de cabelos grisalhos com óculos de aro dourado — o Sr. Greene — e uma jovem de terninho com uma pilha de papéis à sua frente.
“Srta. Rhodes, por favor, sente-se.” O Sr. Greene apontou para uma cadeira.
A cadeira ficava ao lado de Callum. Ela sentou sem hesitar, os joelhos a centímetros da coxa dele. Ela não olhou para ele.
“Sr. Greene, estou com a agenda apertada. Por favor, me diga o que meu pai deixou.”
O Sr. Greene ajeitou os óculos e deslizou um documento grosso em sua direção. “O patrimônio do seu pai — a Rhodes Properties, vários edifícios comerciais e a casa da família em Nantucket — está avaliado em aproximadamente quarenta e sete milhões de dólares. No entanto, ele impôs uma condição incomum à herança.”
Os dedos de Evie apertaram seus joelhos. “Que condição?”
“Envolve o Grupo Wayne.” A voz do Sr. Greene baixou, como se as palavras pudessem queimá-lo. “Seu pai e o Sr. Wayne — o pai de Callum — eram sócios. Com o passar dos anos, suas empresas tornaram-se profundamente interligadas por meio de participações cruzadas e garantias de dívidas. Em resumo, nem a Rhodes Properties nem o Grupo Wayne podem sobreviver sozinhos.”
O sangue de Evie esfriou. Ela finalmente se virou para olhar para Callum. Ele a observava também, o rosto ainda de pedra, mas seus dedos estavam curvados contra o apoio de braço.
“E daí?” ela perguntou.
O Sr. Greene pigarreou. “Então, o testamento do seu pai estipula que, para você herdar a totalidade do espólio, você deve... firmar um contrato de casamento com Callum Wayne, o único herdeiro do Grupo Wayne, e permanecer casada por no mínimo um ano.”
Silêncio.
Evie encarou o Sr. Greene como se ele tivesse falado um idioma que ela não entendia. Depois, virou-se para Callum, buscando no rosto dele qualquer rachadura — um sorriso de canto, uma careta, um pedido de desculpas.
O que encontrou foi resignação. Uma resignação cansada e difícil de aceitar.
“É uma decisão de negócios”, disse ele, com a voz sem emoção. “O testamento do meu pai tem a mesma condição. Nós dois assinamos, as empresas se fundem, a estrutura da dívida é reorganizada e os patrimônios são liberados. Se recusarmos, ambas as empresas serão fatiadas por Wall Street em questão de meses. O trabalho de uma vida inteira do seu pai. E do meu também.”
Suas mãos começaram a tremer. Ela as enfiou nos bolsos do casaco. “Então vocês decidiram nos amarrar como se fôssemos... ativos financeiros?”
“Essa não foi a minha decisão.” Pela primeira vez, a voz dele falhou — apenas uma pequena rachadura no gelo.
“Foi a decisão dos seus pais”, interveio o Sr. Greene gentilmente. “Tanto o Sr. Rhodes quanto o Sr. Wayne acreditavam — plenamente cientes do relacionamento passado de vocês — que essa condição garantiria a sobrevivência de tudo o que eles construíram.”
“Eles acreditaram em quê?” Evie se levantou, a cadeira arrastando no chão. “Que depois de cinco anos poderíamos fingir estar apaixonados por dinheiro? Eles nos trancaram em uma jaula e jogaram a chave fora.”
“Evie.” Callum levantou-se também. Ele era uma cabeça mais alto, postado à frente dela como uma parede que ela não conseguia escalar. “Você pode me odiar. Pode odiar esse acordo. Mas você sabe o que a empresa do seu pai significava para ele. O mesmo que a minha significava para o meu pai.”
Ela olhou para cima, seus olhos ardendo, mas secos. Lembrou-se de seu pai — um homem que usava macacões sujos de tinta nos canteiros de obra, que lhe deu um livro de arquitetura de presente de dezesseis anos e disse: “Você projeta, eu construo.” Ele morrera de ataque cardíaco um ano atrás, sem aviso, sem uma despedida adequada.
E agora, do túmulo, ele a tinha prendido à única pessoa que a destruíra.
“E se eu recusar?” ela perguntou baixinho.
O Sr. Greene suspirou. “Então, conforme o testamento, a Rhodes Properties será forçada à liquidação por falência. Todos os bens serão vendidos para quitar as dívidas. Você, pessoalmente, não receberá nada.”
Evie fechou os olhos.
Quando os abriu, ela estava olhando para Callum. Ele a observava de volta. Abaixo do gelo em seus olhos, algo estava mudando — lentamente, como uma geleira se partindo.
“Isso é um acordo de negócios”, disse ela, com a voz rouca.
“Sim.” A voz dele acompanhou a dela. “Um acordo de negócios.”
Ela sentou-se novamente. Pegou a caneta pesada sobre a mesa. A mão tremia, mas ela a forçou a ficar firme. Virou a última página do documento e parou sobre a linha da assinatura.
“Um ano”, disse ela, sem olhar para cima. “Depois disso, nos divorciamos. Seguimos caminhos separados. As empresas... nós resolvemos isso depois.”
“Eu já pedi ao meu advogado para redigir o acordo de divórcio.” Callum pegou um documento mais fino da jovem e o colocou ao lado do dela. “Exatamente um ano depois, o casamento será dissolvido. A divisão de bens já está definida. Você não perderá nada.”
Evie encarou o segundo contrato. Ela assinava um para se tornar esposa dele e outro para se tornar sua ex-esposa, tudo de uma só vez.
Ela assinou seu nome: Evelyn Rose Rhodes.
Depois, entregou a caneta para Callum. Seus dedos se tocaram. Uma faísca — breve, elétrica — que fez ambos congelarem por um instante.
Callum assinou: Callum James Wayne.
No momento em que a tinta secou, Evie sentiu algo quebrar dentro de si. Não o coração — esse já tinha sido estraçalhado cinco anos atrás —, mas algo mais duro, mais teimoso. A última ilusão de que ela tinha qualquer controle sobre seu futuro.
O Sr. Greene recolheu os papéis e deu um sorriso aliviado. “Parabéns. O casamento está marcado para o próximo sábado em Nantucket. Tudo já foi providenciado.”
Nantucket. A ilha onde eles passavam todos os verões juntos. Onde deram o primeiro beijo, o primeiro eu te amo.
Evie levantou-se e caminhou até a porta sem olhar para trás. Sua mão estava na maçaneta quando a voz de Callum veio de trás dela, baixa, dirigida apenas a ela:
“Evie. Pelo que vale a pena... eu sinto muito.”
Seus dedos apertaram a maçaneta de bronze. Ela não se virou.
“Seu pedido de desculpas veio cinco anos tarde demais.”
Ela saiu, e a porta se fechou atrás dela com um clique suave e definitivo. No corredor, ela finalmente deixou as lágrimas caírem — silenciosas, uma após a outra, encharcando a gola de seu casaco.
Ela estava voltando para a ilha para se casar com o homem que a destruíra, e ela sorriria durante cada segundo daquele pesadelo.
Desta vez, ela jurou, ela nunca o deixaria vê-la desmoronar.