Além dos Muros Selvagens

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Resumo

Cinco anos após o fim do mundo como ela o conhecia, Shara construiu um santuário no coração da selva — um lugar intocado pelos mortos-vivos lá fora. Sua solidão é destruída quando ela descobre um estranho ferido nas ruínas da cidade. Contra seus instintos, ela o leva para seu santuário, incerta se a confiança é possível. Enquanto o mundo pressiona e o perigo espreita em cada esquina, eles precisam aprender a sobreviver, curar suas feridas e lidar com uma conexão que nenhum dos dois esperava — algo que pode trazer esperança a um mundo moribundo.

Gênero
Scifi
Autor
Misty G.
Status
Completo
Capítulos
53
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1 – O Selvagem Além das Muralhas

Fazia cinco anos desde que o mundo acabou.

Cinco anos desde que as cidades silenciaram. Cinco anos desde que os mortos pararam de ficar mortos. Cinco anos desde que Shara parou de acreditar que ainda restava alguém vivo. O tempo se esticou de formas estranhas desde então; os dias se misturaram à sobrevivência, a sobrevivência se misturou ao instinto, até que o conceito de "antes" parecesse mais algo que ela havia sonhado do que algo que ela havia vivido.


As ruas estavam mais silenciosas agora.


Não seguras — nunca seguras — mas silenciosas de um jeito que parecia não natural, como se o próprio mundo estivesse prendendo a respiração. Shara se movia com cuidado entre carros abandonados, suas botas mal faziam barulho contra o asfalto rachado. Ferrugem cobria o metal, janelas estavam estilhaçadas e trepadeiras começavam a retomar a estrada, serpenteando pelo concreto quebrado como se a própria terra estivesse tentando apagar o que a humanidade um dia foi.


Sua mão apertou levemente a faca na coxa, com os dedos tocando o cabo familiar sem que ela precisasse olhar.


Ela não estava ali por suprimentos hoje.


Estava ali por algo que não encontrava há muito tempo. Algo muito mais perigoso do que qualquer coisa que ela pudesse levar de volta.


Um sinal.


Um rastro.


Qualquer coisa que provasse que ela não era a última que restava.


Foi então que ela o viu.


Ele estava deitado de bruços no meio da estrada, completamente imóvel, com o corpo esticado sobre o pavimento rachado como se tivesse simplesmente desabado no meio do caminho. Imóvel demais.


Shara congelou instantaneamente.


Seu corpo inteiro entrou em alerta enquanto seus olhos escaneavam a área — janelas, telhados, becos, qualquer lugar possível onde algo pudesse estar se escondendo. Nada se movia. Sem sombras mudando de lugar, sem vultos distantes, nenhum som além do sussurro fraco do vento passando por prédios vazios.


Ele não estava ali ontem.


Ela teria visto.


Lenta e cautelosamente, ela alcançou um pedaço de madeira quebrado por perto, com movimentos deliberados e controlados. Cada passo em direção a ele era medido, com o peso equilibrado, pronta para recuar ou atacar ao menor sinal de movimento.


"Não se mexa...", ela sussurrou para si mesma, mais para se acalmar do que para dar uma ordem a ele.


Quando chegou perto o suficiente, ela estendeu o pedaço de madeira e cutucou o ombro dele.


Nada.


Nenhum espasmo. Nenhum rosnado. Nenhum bote repentino e violento.


Ainda assim... nada.


Seu coração não desacelerou.


Ele nunca desacelerava aqui fora.


Com cuidado, ela o contornou, agachando-se, com os olhos nunca deixando o corpo dele. Ela usou o pedaço de madeira novamente, desta vez aplicando mais pressão, virando-o o suficiente para ver seu rosto.


Sem decomposição.


Não estava infectado.


Apenas... humano.


O fôlego de Shara ficou preso na garganta antes que ela pudesse evitar.


Fazia muito tempo que ela não via um.


Soltando a madeira, ela se aproximou, mais rápido agora, mas não menos alerta. Seus dedos pressionaram gentilmente o pescoço dele, procurando, esperando —


Um pulso.


Fraco... mas presente.


"Ei...", ela disse, sacudindo o ombro dele levemente, com a voz baixa, mas urgente. "Ei, você consegue me ouvir?"


Sem resposta.


A pele dele estava quente sob o seu toque, e sua respiração era rasa, mas estável o suficiente para se manter vivo.


Vivo.


Os olhos de Shara se moveram rapidamente, escaneando os braços, o pescoço e as mãos dele, procurando pela única coisa que importava mais do que qualquer outra.


Uma mordida.


Um arranhão.


Qualquer coisa.


Mas não havia nada.


Nenhuma infecção visível.


Ela exalou lentamente, mas a tensão não abandonou seu corpo. Ainda não. Não até ter certeza absoluta.


Levá-lo de volta não foi fácil.


Quando ela chegou à beira da selva, o suor cobria sua pele e seus braços ardiam pelo esforço de arrastar o peso dele pelo terreno irregular. Cada passo mais fundo no verde engolia o mundo atrás dela, e a cidade foi desaparecendo até não passar de uma memória enterrada sob camadas de folhas e sombra.


O ar mudou.


O som mudou.


O perigo... mudou.


E então, como se atravessasse uma linha invisível —


O seu mundo voltou.


Escondido na selva, o seu santuário aguardava.


A sua casa.


Vidro, madeira e pedra misturavam-se perfeitamente ao ambiente, como se tivessem crescido ali em vez de serem construídos. A luz do sol filtrava-se pelo dossel acima, projetando padrões mutáveis sobre os espaços abertos, enquanto o som suave da água a escorrer por perto envolvia toda a estrutura num ritmo vivo e tranquilo.


Paz.


Controlo.


Segurança.


Pelo menos... tanto quanto ela se permitia acreditar.


Ela trouxe-o para dentro cuidadosamente, deitando-o na cama com mais cuidado do que esperava de si mesma. Por um breve segundo, ela apenas ficou ali, a observá-lo na quietude do seu espaço.


Então, o instinto falou mais alto.


Ela começou a trabalhar.


Ela examinou-o novamente — desta vez de forma mais minuciosa. Cada centímetro. Cada possibilidade. Os seus movimentos eram eficientes e treinados, mas, por baixo deles, havia algo mais tenso, algo mais deliberado.


Ainda nada.


Nenhuma mordida.


Nenhum sinal.


Nenhuma certeza.


De um armário embutido na parede, ela tirou um pequeno kit médico — uma das poucas coisas que tinha recolhido anos atrás e que ainda tinha valor real.


O teste.


Ela hesitou apenas por um segundo antes de picar o dedo dele.


Uma gota de sangue.


Um suspiro silencioso.


À espera.


Aqueles poucos segundos pareceram mais longos do que qualquer coisa que ela tivesse enfrentado lá fora, mais longos do que qualquer perigo ou fuga por um triz.


Então —


Negativo.


Shara recuou ligeiramente, a mudança foi subtil, mas inegável.


Não estava infetado.


Não estava morto.


Não estava sozinho.


Mais tarde, depois de ter limpado a sujidade do rosto e das mãos dele, depois de ter tirado as suas botas e deixado água ao seu alcance, ela deu um passo atrás e apenas... ficou a olhar para ele.


Um estranho.


Na sua casa.


No seu mundo.


Ela não tinha planeado isto. Não se tinha preparado para isso. Não sabia o que significava.


O tempo passou em ritmos calmos e familiares. Ela verificou o perímetro. Lavou as mãos. Bebeu água. Fez algo simples — algo quente.


Algo humano.


Quando ela regressou ao quarto, o silêncio parecia... diferente.


Não estava vazio.


Mudou.


Ela pousou a taça suavemente, o som leve quase não ecoou no espaço. Depois sentou-se ao lado dele, com a postura relaxada, mas a atenção aguçada, observando-o como observava tudo — cuidadosa e completamente.


À espera.


E então —


Uma mudança.


Um suspiro.


Movimento.


A sua testa franziu-se ligeiramente, como se ele estivesse a lutar para voltar através de algo pesado, algo que não o queria deixar partir.


Shara inclinou-se um pouco para a frente, a sua voz mais suave agora, mas não menos firme.


"Ei..."


Os seus olhos abriram-se lentamente.


Confuso. Desorientado.


Vivo.


"— Onde estou?" murmurou ele, com a voz rouca, estranha num espaço que só conhecera o silêncio dela durante anos.


Shara manteve o olhar, firme e indecifrável.


"Estás a salvo", disse ela.


Uma pequena pausa instalou-se entre os dois.


Então —


"Quem és tu?"