Prológo
A noite cheirava a ferrugem.
Ferrugem e chuva — o tipo de mistura que gruda no ar e não sai nem com um bom cigarro mentolado.
O corpo estava estendido no beco, encostado contra a parede de tijolos úmidos, como se tivesse sido deixado ali com cuidado. A pele — pálida demais, quase translúcida — denunciava o óbvio: ele estava completamente drenado.
Nada de sangue nas veias.
Nada de cor no rosto.
Um boneco humano abandonado depois do espetáculo.
Maldita hora pra assassinarem um mortalis!
Por um segundo cogitei pedir pra ser remanejada de caso ,mas os braços da vitima roubaram toda minha atenção.
Dos ombros até os pulsos, havia cortes finos, precisos, formando um padrão de xadrez. Não eram arranhões de defesa nem de uma luta — aquilo era metódico. Um trabalho frio, quase artístico.
O tipo de crueldade que exige tempo, técnica... e prazer.
Me agachei, o casaco rangendo sob meu joelho molhado.
O sangue — o pouco que restava — escorria em linhas finas, como se o corpo ainda tentasse oferecer o que não tinha mais.
Toquei o chão.
Gelado.
Sem qualquer sinal de cheiro ou pistas , quem quer que tenha feito isso foi muito cuidadoso pra deixar vestígios.
A patrulha chegou tarde, como sempre. Giroflex cortando a neblina, o som dos rádios chiando. Eles cercaram o perímetro, nervosos, trocando olhares que diziam o que ninguém ousava admitir: Isso não é coisa de humano.
De fato , não era , isso estava nítido , mas os anos na policia me ensinaram uma coisinha muito importante , evitar pânico seja qual for a espécie e porra da diplomacia funcionava nessas horas.
Gostaria de dizer que humanos não correm mais por ai com forcados e nem queimam mais ninguém na fogueira , mas infelizmente mortalis e as outras espécies não tem uma boa relação, humanos ainda são humanos não importa a era!
— Diga que não é o que eu estou pensando... — murmurou o sargento, ajeitando a gola do casaco, sem coragem de olhar direito.
— Depende — respondi, ainda ajoelhada. — O que você está pensando?
Ficamos alguns segundos em silêncio, tentando imaginar quem poderia ter cometido aquilo. E então, uma voz rouca — quase entediada, mas carregada de uma estranha autoridade — cortou o ar entre nós:
— Que não foi um de nós.
Levantei devagar, os músculos tensos, a mão próxima ao coldre. Ele estava parado na sombra, como se a escuridão e ele fossem velhos amigos.
Alto — alto o suficiente pra me fazer parecer pequena, e olha que eu tenho um metro e setenta e quatro. Um “homem” cuja voz me acordou os ossos estava ali, imóvel. Com um rosto de quem provavelmente acabou de fazer trinta...Trajado num terno negro que absorvia a pouca luz que restava.
E por um instante, podia jurar, que ele olhou pro meu quase mínimo decote.
— Quem é você? — perguntei, sem tirar a mão da arma. Afinal, sou a porra de uma agente da lei.
Ele sorriu. Um daqueles sorrisos que não chegam aos olhos — o tipo que eu chamo de risinho de sacanas.
— Seth. Agente Seth Greves, do DCE.