Capítulo 1
CAPÍTULO 1: O Fantasma
Damien Thorne já tinha interrogado assassinos antes.
Capangas de cartel. Assassinos de aluguel. Agentes terroristas que acreditavam em suas causas tão profundamente que morreriam sorrindo.
Nenhum deles jamais o assustou.
Até ela.
A luz fluorescente acima deles oscilou.
Não o suficiente para apagar. Apenas o suficiente para ser notada.
Um zumbido elétrico baixo preenchia a sala — constante, irritante, impossível de ignorar. Ele projetava sombras distorcidas sobre a mesa de aço entre eles, pulsando ligeiramente fora de sincronia com a realidade.
Três semanas.
A mesma sala. A mesma cadeira. O mesmo silêncio.
A mesma garota.
Ela sentava exatamente onde sempre sentava.
Coluna ereta. Mãos espalmadas sobre a mesa. Tornozelos alinhados.
Respirando tão superficialmente que mal era perceptível.
Controle perfeito.
Se não fossem seus olhos, Damien teria pensado que ela já estava morta.
Cinzentos.
Não frios. Não irritados.
Apenas… vazios.
"O sujeito permanece sem resposta", disse Damien ao gravador, com a voz rouca. "Dia vinte e um."
Ele desligou o aparelho.
Forte demais.
O som ecoou pela sala.
Ela não reagiu.
Três semanas.
Três semanas de todos os métodos que o Bureau aprovava — e alguns que não aprovava.
Eles ofereceram liberdade a ela.
Nova identidade. Novo país. Vida nova.
Nada.
Eles a ameaçaram.
Locais secretos. Isolamento. Desaparecimento permanente.
Nada.
Eles destruíram o ambiente dela.
Privação de luz. Ciclos de sono. Isolamento.
Nada.
Não porque ela resistisse.
Porque ela não interagia.
Era como interrogar um sistema que não reconhecia comandos.
Damien inclinou-se para frente, com os antebraços pressionando a mesa de aço fria.
"Você acha que eles virão buscá-la", ele disse calmamente.
Nenhuma resposta.
"Você acha que isso é temporário."
Nada.
"Você acha que ainda faz parte de algo."
O olhar dela permanecia fixo logo atrás do ombro dele.
Não o evitando.
Não o ignorando.
Apenas… não registrando a presença dele de forma alguma.
Damien soltou o ar lentamente.
"Eles não virão", ele disse. "Você é uma ponta solta."
Silêncio.
"Você sabe o que acontece com pontas soltas."
Então —
"Minha designação é Seventeen."
A voz dela cortou a sala.
Plana.
Precisa.
Errada.
Damien não se moveu.
"Eu sou um ativo", ela continuou. "Ativos são descartáveis. Se a eliminação for necessária, estou preparada."
O maxilar dele travou.
"Pare de dizer isso."
Nenhuma reação.
"Você não é um ativo."
Silêncio.
"Você é um ser humano."
Isso funcionou.
Lentamente — de forma deliberada — sua cabeça virou.
Seus olhos encontraram os dele.
Pela primeira vez em três dias.
Algo mudou em seu peito.
Não era alívio.
Algo mais frio.
"Fui criada no Crag", ela disse.
Sem emoção. Sem hesitação.
"Instalação localizada nas Montanhas Urais. Quarenta crianças na minha turma. Idade de seleção: cinco anos."
O pulso de Damien desacelerou.
Ele tinha visto fragmentos no arquivo.
Não o suficiente para acreditar.
Demais para ignorar.
"Sujeitos retirados de orfanatos", ela continuou. "Ou removidos de ambientes domésticos inadequados."
Removidos.
A palavra soou estranha.
"Identidade apagada. Condicionamento iniciado."
Uma pausa.
"Não existe um 'antes'."
A sala pareceu menor.
"Você não se lembra de nada?", Damien perguntou. "Nenhuma família? Nenhuma infância?"
"A fome é uma ferramenta."
Sem piscar.
"O conforto cria fraqueza."
Nenhuma mudança na respiração.
"A memória é um passivo."
Damien a encarou.
Isso não era desafio.
Isso não era lealdade.
Isso era programação.
Ele tentava quebrá-la.
Mas as pessoas quebram porque têm algo a perder.
Medo. Apego. Identidade.
Vantagem.
Ela não tinha nada disso.
Uma percepção se consolidou.
Lenta. Pesada.
Isso não era um interrogatório.
Isso era uma autópsia.
Ele alcançou o arquivo e retirou a fotografia.
Ele não olhou para ela.
Não precisava.
Ele a deslizou pela mesa.
"Olhe."
Ela olhou.
Um relance.
Avaliação.
Nada mais.
"Você o matou."
Os olhos dela subiram de volta para os dele.
"Um alvo foi designado em Praga. Os parâmetros da missão foram executados com sucesso."
A mão de Damien bateu na mesa.
O estalo cortou o silêncio.
Ela nem se mexeu.
“Ele tinha uma esposa”, disse Damien, com a voz tensa. “Ela estava grávida.”
Nada.
“Ele tinha um nome.”
Silêncio.
“Ele tinha uma vida.”
Ainda nada.
Damien inclinou-se para a frente.
“O nome dele era Michael.”
Nenhuma mudança.
“Ele era meu parceiro.”
Silêncio.
“Ele era meu irmão.”
A palavra pairou no ar.
Pesada.
Significativa.
Inútil.
Ela inclinou a cabeça.
Levemente.
Como se estivesse processando um conceito estranho.
“Ele era um obstáculo”, disse ela.
Damien levantou-se tão rápido que a cadeira caiu atrás dele.
“Ele era uma pessoa!”
Nenhuma reação.
“Por que a designação importa?”, perguntou ela.
Aquilo quebrou alguma coisa.
“Porque ele era meu!”, disparou Damien.
As palavras saíram cruas.
Descontroladas.
Ele não queria ter dito aquilo.
Mas estava dito.
“Você o tirou de mim”, disse ele, agora mais baixo. “Isso não significa nada para você?”
Silêncio.
“Se eu sentir”, disse ela, “não consigo funcionar.”
Calma. Clínica.
“Se eu hesitar, o grupo falha.”
Uma pausa.
“Eu não existo.”
Outra.
“O grupo existe.”
Damien congelou.
E, simplesmente assim —
a luta esvaiu-se dele.
Porque ele entendeu.
Aquilo não era um monstro.
Monstros escolhem.
Monstros sentem prazer.
Monstros tiram as coisas.
Aquilo —
era outra coisa.
Aquilo era o que sobrava quando a escolha era removida.
Quando a identidade era apagada.
Quando uma criança era esvaziada e reconstruída para ser apenas uma função.
Ele olhou para as mãos dela.
Pequenas.
Marcadas por cicatrizes.
Nudilhos levemente machucados.
Anos de condicionamento.
Anos sendo quebrada.
Anos tornando-se... útil.
Eles não a treinaram.
Eles a apagaram.
Damien sentou-se lentamente.
O quarto parecia mais pesado agora.
Mais silencioso.
Diferente.
Ele não podia quebrá-la.
Porque ela já estava quebrada.
“Tirem-na daqui”, disse ele.
A porta abriu com um zumbido.
Dois guardas entraram.
Seventeen levantou-se imediatamente.
Conformidade perfeita.
Sem hesitação.
Ela virou-se para a porta.
Então parou.
E olhou para trás.
“O indivíduo na fotografia”, disse ela.
Damien levantou o olhar.
Uma esperança brilhou.
Instantânea.
Indesejada.
“Sim?”
“Ele fazia parte da sua unidade?”
Damien engoliu em seco.
“Sim.”
Uma pausa.
“Ele era minha unidade.”
Ela o estudou.
Apenas uma fração de segundo a mais do que antes.
Então —
ela assentiu.
“Um laço entre agentes introduz vulnerabilidade”, disse ela.
O olhar dela prendeu o dele.
“Para você.”
Então ela se virou e saiu.
A porta fechou.
O silêncio retornou.
A luz fluorescente zumbia no teto.
Inalterada.
Indiferente.
Damien não se moveu.
A fotografia ainda estava sobre a mesa.
Michael ainda sorrindo.
Congelado em um momento que não existia mais.
Ele encarou a foto.
Por mais tempo do que deveria.
Então recostou-se.
Fechou os olhos.
Ele tinha entrado ali para quebrar uma assassina.
Para fazê-la sentir algo.
Para torná-la humana.
Em vez disso —
ele encontrou algo pior.
Algo com que não se podia argumentar.
Que não podia ser punido.
Que nem mesmo podia ser compreendido em termos humanos.
E a pior parte?
Pela primeira vez desde Praga —
ele não estava pensando em vingança.
Ele estava pensando nela.
Sobre o que tinham feito com ela.
Sobre o que seria preciso para desfazer aquilo.
Se é que isso era possível.
Seus olhos abriram lentamente.
Um pensamento surgiu.
Quieto.
Persistente.
Indesejado.
Ele não a estava interrogando.
Ele estava medindo algo.
Uma distância.
Entre o que ela era —
e o que ele estava se tornando.
E, pela primeira vez —
aquela distância não parecia tão grande quanto deveria.
Porque ela não era o único fantasma naquela sala.
Ele estava se tornando um também.
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