Tem algo de errado comigo
POV Hayden
—
Tem algo de errado comigo.
Recostei-me na cadeira e vi meu melhor amigo, Dalton, erguer sua taça.
O ambiente ficou silencioso daquela maneira que só acontece quando algo importa. Luzes douradas suaves. Música baixa o suficiente para ser sentida em vez de ouvida. Todos os olhares estavam nele, como se ele fosse o centro de algo maior do que apenas um casamento.
Ele parecia… certo.
Essa era a única forma de descrever. Como se tudo em sua vida tivesse finalmente se encaixado. Como se todo o caos que eu sabia que habitava dentro dele tivesse se transformado em algo estável.
— À minha esposa — disse ele, com a voz rouca de um jeito que fez algumas pessoas rirem e outras se emocionarem.
Olhei ao redor do salão.
Sloane sorria para ele como se já conhecesse cada versão dele e o tivesse escolhido mesmo assim. As pessoas se inclinavam umas para as outras. Mãos se tocavam. Alianças brilhavam sob a luz.
Era fácil. Natural.
O esperado.
E eu me senti…
Inveja.
Não do Dalton… Da Sloane.
Como se eu estivesse assistindo a tudo através de um vidro.
Ajeitei-me na cadeira, girando os ombros para trás, tentando me forçar a estar presente naquele momento. Algo que as pessoas passam a vida inteira buscando.
Então, por que parecia que eu estava do lado errado disso tudo?
—
Um ano depois, foi a vez do Marc.
Cenário diferente. Mesmo resultado.
Mais barulhento. Mais bagunçado. Menos polido, mas que de alguma forma terminou exatamente no mesmo lugar.
Feliz, papéis tradicionais.
Encontrei ele e mais alguns amigos no clube que ele possuía, logo depois de ele voltar de seu casamento em Vegas para comemorar.
Marc estava encostado no balcão como se fosse o dono do lugar — o que, tecnicamente, era metade do tempo — e sorriu de algo que alguém disse.
— Ei, Hayden — chamou ele, apontando para mim com a taça. — Você é o próximo, né?
Algumas cabeças se viraram.
Dei uma risada contida. — Duvido.
— Ah, qual é — insistiu ele, com o sorriso aumentando. — Ou o quê, vai pular direto para a crise de meia-idade?
Isso gerou uma reação.
Algumas risadas. Algumas sobrancelhas arqueadas.
Balancei a cabeça, tentando disfarçar. — Você assume que eu me casaria primeiro.
— Ponto justo — ele retrucou na hora. — Então, só um harém, é?
Mais risadas.
Até Dalton deu um sorriso, balançando a cabeça como se já tivesse ouvido aquilo mil vezes.
Eu também sorri. O suficiente para convencer.
Essa era a questão… Eu sabia como parecer que me encaixava em momentos assim. Dizer a coisa certa. Reagir da maneira certa. Manter tudo superficial e fácil.
Eu tinha uma carreira. Um título. Uma vida que parecia boa no papel.
Todo mundo fazia parecer liberdade. Para mim, parecia entediante.
Porra, eu precisava me distrair de tudo isso.
Peguei meu uísque no balcão e virei tudo antes de dar um aceno rápido para o Marc.
— Parabéns, cara! Vou cedo para casa hoje, mas me avisa se quiser fazer festa de novo. — Menti enquanto caminhava em direção à porta.
Eu deveria ter ido para casa depois do casamento, mas as luzes da cidade me puxaram para outro clube.
Ela me encontrou sem precisar de esforço.
Ou talvez eu só não estivesse me dando ao trabalho de procurar.
Ela ria com facilidade. Me tocava rápido. Ficava perto o bastante para deixar claro o que queria.
E eu deixei acontecer, mesmo sabendo qual seria o resultado.
O apartamento dela era exatamente o que eu esperava.
Iluminação baixa. Música suave.
Ela chutou os sapatos e olhou para trás, esperando.
Lá estava.
Aquela expectativa.
Aquela submissão que eu desejava, mas da qual eu seria apenas um observador.
Dei um passo à frente, diminuindo a distância, e minha mão pousou na cintura dela, guiando-a para trás apenas o suficiente para assumir o controle.
A respiração dela falhou. Bem na hora. Cada movimento respondia ao meu antes mesmo que eu terminasse. Era como se eu estivesse desempenhando um papel em vez de fazer uma escolha. Ela queria que eu liderasse. Ficava óbvio em cada gesto, em cada pausa, em cada suspiro de espera. Tudo o que ela desejava era ser dominada.
Eu deveria ter desejado aquilo.
Em vez disso, sentia como se estivesse seguindo um roteiro, não tomando uma decisão.
Não notei o espelho a princípio.
Só quando me movi e capturei um movimento que não parecia ser meu.
Olhei para cima.
E lá estava eu.
Músculos contraídos se enrolavam em volta dos meus braços enquanto eu segurava os quadris dela.
Meu pau entrava nela em um ritmo forte, porém constante.
Os gemidos dela provavam claramente que ela gostava.
Dominante.
Preciso.
Ensaido.
Fiquei imóvel por um segundo.
O foco dela estava em mim, mas eu não conseguia desviar o olhar. O homem no espelho parecia exatamente como deveria parecer.
Foi isso que me deu nojo.
Como se ele fosse um lobo em pele de cordeiro.
Minha pegada apertou levemente.
E ela respondeu instantaneamente.
Na hora certa.
Exalei lentamente.
Parecia ensaiado.
Tudo aquilo.
Como se eu estivesse interpretando um papel em que não acreditava.
Para uma pessoa que eu desejava substituir.
—
Lá fora, o ar parecia mais cortante. Mais limpo.
Real de uma forma que nada lá dentro tinha sido.
Caminhei em direção ao meu carro, passando a mão pelo cabelo.
Sentei-me no banco do motorista por um segundo antes de ligar o motor.
A imagem do espelho ficou presa na minha cabeça.
Aquela versão de mim.
Dominante.
Tradicional.
Errada.
O caminho de volta para casa foi um borrão.
Quando cheguei, o silêncio foi imediato.
Deixei minha bolsa perto da porta, com as chaves logo atrás no balcão. O som ecoou mais do que deveria.
Tudo estava exatamente onde deixei esta manhã.
Limpo. Organizado. Intocado.
Balancei a cabeça, passando a mão pela nuca enquanto entrava mais.
Isso deveria ter sido o bastante.
Um lugar como este. Uma vida como esta.
Sem complicações. Sem imprevistos.
Nada que eu não pudesse controlar.
E, ainda assim—
Meu celular vibrou contra o balcão.
O som cortou o silêncio, agudo o suficiente para me tirar daquilo instantaneamente.
Olhei para baixo.
Número desconhecido.
Quase ignorei.
Mas algo em mim, talvez por hábito, me forçou a atender mesmo assim.
"Aqui é Hayden Scott."
"Dr. Scott", respondeu uma voz polida e profissional. "Aqui é o Dr. Keller, da Veridan Labs. Disseram-me que talvez o senhor estivesse disponível para uma parceria de pesquisa externa."
Apoiei-me levemente no balcão, com os olhos desfocados.
"Eu não costumo aceitar projetos externos."
"Estou ciente", disse ele calmamente. "É por isso que oferecemos total discrição. E financiamento completo."
Aquilo chamou minha atenção.
O silêncio perdurou por meio segundo.
"Que tipo de pesquisa?", perguntei.
"Um novo composto que está na fase final de testes", respondeu ele. "Regulação de peso. Aceleração metabólica muito superior à dos concorrentes. Efeitos colaterais mínimos relatados até agora. Vamos lançá-lo com o nome Averon."
Não respondi.
Não porque não estivesse ouvindo.
Pelo contrário, estava.
Prestando muita atenção.
Já ouvi falar de Averon. Minha mãe tem cogitado usar o próprio.
Se o que dizem for verdade, esse remédio pode ser revolucionário.
"Estamos buscando uma verificação independente", continuou ele. "Alguém que possa provar que nossos dados correspondem às nossas alegações, sem viés."
Uma pausa.
"Alguém que checa tudo."
Meu maxilar travou levemente.
"Eu precisaria de acesso total", disse eu.
"Você teria. Você e a faculdade estariam envolvidos em todo o processo."
Sem hesitação.
É claro que eu teria.
Fiquei encarando o nada por um segundo, já pensando no que aquilo significaria. Tempo. Recursos. Controle.
Dei uma risadinha para mim mesmo.
O laboratório era a única hora em que eu realmente gostava de ter o controle.
Supervisão dos dados.
Controle sobre os resultados.
Controle sobre se era realmente o que diziam ser.
Uma chance de salvar minha família se isso for uma merda oculta.
"Vou pensar a respeito", eu disse.
"Precisamos de uma resposta em breve."
"Eu disse que vou pensar a respeito."
Uma pausa.
"Entendido."
A linha ficou muda.
O silêncio tomou conta do espaço quase imediatamente de novo.
Mas não parecia o mesmo.
Coloquei o celular no balcão lentamente, com minha mente já avançando, querendo eu ou não.
Um projeto como esse não aparece com frequência.
Financiamento alto.
Riscos altos.
Sem espaço para erros.
E sem espaço para as pessoas erradas envolvidas.
Afastei-me do balcão, andando de um lado para o outro antes de parar de novo.
O zumbido do apartamento preenche o silêncio.
Averon. O nome, por si só, prometia uma revolução.
Se esse composto entregasse o que prometia, não seria apenas um avanço para a empresa... Poderia mudar tudo para minha família.
Passei a mão pelo cabelo, exalando baixinho.
Este semestre seria puxado.