A LUNA SEPULTADA DESPERTA: LIVROS 1 A 12

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Resumo

Enterraram o seu nome. Apagaram a sua verdade. Acharam que o túmulo a manteria em silêncio. Nira Vane viveu toda a sua vida como nada — uma serva em uma fortaleza brutal, governada pelo poder, linhagens e lobos que nunca a consideraram digna de ser algo mais. Ela sobrevive em silêncio, escondida sob as cinzas, o trabalho árduo e as leis cruéis de um mundo construído para esmagar garotas como ela. Mas, na noite do rito sagrado do acasalamento, tudo muda. Diante dos olhos da corte, a Lua faz o impossível. Ela a escolhe. Não uma filha da nobreza. Não uma noiva cuidadosamente preparada. Não uma mulher nascida para a coroa. Uma garota enterrada. Uma garota esquecida. Uma garota que o mundo tentou manter sob seus pés. Agora, toda a alcateia mergulha no caos. Porque, no momento em que Nira é escolhida, leis antigas começam a ruir. Segredos mortos começam a emergir. A corte torna-se cruel. Inimigos poderosos movem-se para destruí-la. E Kael Draven — o perigoso herdeiro alfa, ligado a um futuro escrito em sangue — vê-se atado à única mulher que ninguém deveria reclamar. Mas a ascensão de Nira não é apenas um escândalo. É uma ameaça. Algo ancestral está despertando sob o vínculo. Algo enterrado muito antes de ela nascer. E se a verdade sobre o seu sangue vier totalmente à luz, não mudará apenas a alcateia — Trará um reino inteiro de joelhos. Em um mundo de lobos, coroas, traição e um destino proibido, uma luna sepultada está prestes a despertar… e o túmulo não a levará de volta.

Gênero
Fantasy
Autor
MITHUN
Status
Completo
Capítulos
367
Classificação
1.0 1 avaliação
Classificação Etária
16+

1

Quando a aurora começou a preocupar as janelas negras de Draven Keep, as mãos de Nira Vane já estavam cinzentas de fuligem.

A sujeira se instalava nas linhas de suas palmas, sob as unhas e ao longo dos punhos do vestido simples de criada, que ela remendara tantas vezes que o tecido original já não era reconhecível. A fuligem se agarrava a tudo no Moon Hall. Ela vivia nas rachaduras das lajes, nas bocas esculpidas das antigas estátuas de lobo e nas dobras dos estandartes cerimoniais que pendiam, como tiras de sangue seco, das vigas altas. Cobria os anéis dos braseiros de prata, as tigelas de oferendas e o longo estrado onde a família alfa se sentava quando queria ser vista como se tivesse sido escolhida por algo maior que eles mesmos.

Nira passara metade da noite de joelhos, esfregando tudo para remover a sujeira.

A outra metade ela passou decidindo não pensar muito sobre o motivo de o Moon Hall ter sido varrido, limpo e varrido de novo, por que as lâmpadas de prata tinham sido reabastecidas e por que os criados tinham sido acordados antes mesmo que os galos do pátio inferior tivessem coragem de cantar.

Ritual anual de acasalamento.

As palavras tinham a textura de um hematoma.

Ela arrastou o pano úmido sobre uma mancha teimosa de fuligem, seu ombro reclamando a cada movimento. A água da bacia no balde esfriara há uma hora. Ela também. Mas o frio era útil. O frio mantinha as coisas afiadas. O frio impedia que ela imaginasse calor onde não existia nenhum.

“Tente não parecer tão infeliz”, murmurou Sella, agachada no braseiro ao lado com seu próprio pano. “Isso faz parecer que você está prestes a morder alguém.”

Nira bufou, sem levantar a cabeça. “Eu estou prestes a morder alguém. Me pergunte daqui a uma hora.”

Sella riu baixo, depois fez uma careta e baixou a voz. “Cuidado. A lua pode ouvir e decidir que você é feral.”

“Tarde demais.” Nira torceu o pano. Água suja de fuligem pingou entre seus dedos e escureceu as pedras. “Eu sou praticamente uma lenda. A criada feral. Aterrorizante. Fedendo a lixívia e a más decisões.”

“Isso só acontece porque você lavou o sangue das cortinas de Lady Tessa na semana passada.”

“Aquilo não era sangue.” Nira olhou de lado, impassível. “Aquilo era paixão da nobreza.”

Sella pressionou os lábios com tanta força que eles ficaram brancos pelo esforço de não sorrir. Essa era a vantagem do salão dos criados ao amanhecer: até a miséria se tornava suportável se alguém a dissesse de um jeito engraçado.

Nira os amava por isso. Ela amava a linguagem rápida e silenciosa que os funcionários de baixo escalão criaram entre si. Um movimento de olhos. Uma careta compartilhada. O humor negro que passava por prece. Nos aposentos superiores da fortaleza, as pessoas falavam em mentiras polidas. Lá embaixo, eles falavam em sobrevivência.

Ela esfregou com mais força.

O Moon Hall estava vazio agora, exceto pelos criados e pelas sombras. Sem os nobres presentes, ele parecia maior e mais cruel do que durante os banquetes, quando a seda, o perfume e a prata polida podiam fingir que a pedra pertencia a mãos humanas. Na penumbra, as esculturas antigas do salão se destacavam em relevo — lobos e luas, cenas de caça, rainhas com pescoços longos curvados sob coroas lunares, todas desgastadas pelo tempo e pelo toque repetido dos fiéis que queriam que a Lua os notasse.

As histórias antigas diziam que a Lua já caminhara entre as matilhas e escolhera abertamente, sem a necessidade de registros, testemunhas ou livros selados com sangue. As histórias antigas diziam que uma luna podia ficar no centro de um salão e o recinto inteiro sentiria seu poder como uma mudança no clima.

Nira nunca acreditou em histórias.

Não porque fosse amarga. Mas porque acreditar em milagres exigia o luxo de esperar ser vista.

Ela estava de pé na fortaleza porque coisas invisíveis eram úteis. Coisas invisíveis podiam carregar mensagens, limpar mesas, fechar venezianas, esvaziar penicos e manter a boca fechada. Coisas invisíveis não eram convidadas para rituais, a menos que fossem necessárias para polir o chão depois.

Ela se endireitou e girou os ombros doloridos, observando o salão para ver o que ainda faltava fazer. Correntes de prata para as cordas de bênção pendiam de ganchos perto do nicho do altar. As tigelas cerimoniais foram dispostas em simetria perfeita. Alguém já havia espalhado sal lunar em uma meia-lua ao redor do estrado, e o pó cristalino captava a luz nascente como geada.

Um tremor de inquietação tocou a nuca dela.

Não por causa do rito em si. A fortaleza tinha uma cerimônia anual de acasalamento, e todo criado conhecia a rotina. Acordar cedo. Limpar tudo duas vezes. Evitar que as candidatas a noiva desmaiassem se o incenso ficasse muito forte. Fingir não encarar quando os supervisores da Moon Court chegassem com suas túnicas formais escuras e suas opiniões.

Não, a inquietação era mais antiga que isso.

Começara quando ela era pequena o suficiente para se esconder debaixo das mesas e ouvir os adultos falarem em voz baixa sobre laços, reivindicações e a crueldade de ser escolhida para algo que você não entendia. Aprofundou-se a cada ano que o rito se aproximava, deixando suas costelas estranhamente ocas. Não era esperança. Nunca esperança. Era algo mais estranho. Um puxão na borda de seu sangue, como uma porta que estivera fechada com força demais por tempo demais.

Ela odiava essa sensação.

Querer era perigoso. Querer tornava as pessoas fáceis de usar.

Então ela não queria. Ela esfregava.

Um movimento na entrada distante do salão a fez olhar para cima.

Dois pajens entravam trazendo linho branco fresco envolto em varas de prata. Atrás deles vieram dois guardas da casa com aquele olhar duro de homens que foram instruídos a manter as mãos visíveis e a boca fechada. Nira reconheceu o mais alto, embora desejasse não ter reconhecido.

Bren.

Ele era um dos guardas do castelo que acreditava que o mundo existia principalmente para lisonjear seu temperamento. Ele tinha uma cicatriz que dividia sua sobrancelha esquerda e o talento de olhar para os criados como se eles fossem algo que o chão tinha confundido com móveis.

Os olhos dele encontraram Nira, e sua boca se curvou.

“Ainda esfregando, Vane?”

Ela pousou o pano cuidadosamente. “Ainda respirando, Carrow? Nós dois temos nossas decepções.”

Um dos pajens engasgou com o riso. A expressão de Bren azedou. “Você tem língua demais para alguém que dorme na ala dos criados.”

“Eu tenho língua porque ela está presa à minha boca”, disse Nira. “Se você está com inveja, não sei o que te dizer.”

Sella murmurou: “Lá vai ela. Direto na jugular.”

Bren ignorou a risadinha do pajem e se aproximou, com as botas soando contra a pedra. “Um conselho. Mantenha essa boca fechada hoje.”

Nira inclinou a cabeça. “Por quê? A Lua é parcial ao silêncio, ou você está apenas com medo de que eu melhore a conversa?”

O olhar dele ficou frio, e por um momento ela se perguntou se tinha calculado mal. Então ele sorriu de novo, mostrando todos os dentes. “Você verá.”

Ele seguiu em frente antes que ela pudesse decidir se o esfolaria verbalmente ou com um cabo de vassoura.

Nira o viu desaparecer pelo corredor lateral com o linho branco e sentiu o recinto se apertar ao seu redor. Ela conhecia aquele tom. O aviso casual demais. O pequeno ênfase extra que significava que más notícias já tinham sido decididas em algum lugar acima de sua cabeça.

Sella percebeu a expressão dela e desviou o olhar primeiro. “Não comece”, disse ela calmamente. “Seja o que for, não é para nós.”

“Tudo é para nós”, disse Nira.

Sella fez um som rude. “Essa é uma religião sombria.”

“É a única que os criados têm.”

Ela voltou para os degraus do altar e se abaixou para varrer a fuligem da borda esculpida do estrado. Uma pulseira de prata tinha rolado para baixo de um dos bancos, provavelmente deixada cair por uma nobre nervosa na última vez que o salão fora usado. Nira a pegou e reconheceu o trabalho de nós intrincado imediatamente. Prata da família Draven. Ela hesitou apenas o suficiente para sentir o peso dela.

Então ela a guardou em seu avental.

Um criado que encontrava coisas valiosas e as devolvia era elogiado pela honestidade. Um criado que encontrava coisas valiosas e as guardava era alimentado. Nira decidira há muito tempo que elogios eram um substituto ruim para o jantar.

As portas do salão se abriram novamente, deixando entrar uma lâmina de manhã pálida. Um par de candidatas a noiva entrou com seus acompanhantes, tudo em seda farfalhante e postura mantida ereta demais, como flores forçadas em vasos. Nira se endireitou antes que pudesse se impedir.

Mesmo à distância, elas eram bonitas da maneira como coisas caras são bonitas — deliberadas, cultivadas e levemente ameaçadoras. Branco e prata se sobrepunham nelas em dobras macias que captavam a luz. Seus cabelos haviam sido trançados com alfinetes de pedra-da-lua. Seus pulsos estavam nus. Suas gargantas também. A ausência de amuletos de bloqueio de perfume dizia a todos que elas vieram preparadas para serem julgadas.

Nira tinha limpado vestidos nobres o suficiente para saber a diferença entre vaidade e terror. Aquilo era terror fantasiado de etiqueta.

O queixo da primeira garota estava erguido tão alto que parecia doloroso. Os dedos da segunda mexiam na ponta da manga. Ambas tinham o aspecto pálido e excessivamente limpo de mulheres que receberam ordens para se tornarem símbolos antes de decidirem o que queriam ser.

Um criado sussurrou em algum lugar atrás de Nira: “Santa Mãe, são seis.”

“Sete”, corrigiu outro com uma voz fina. “Conte aquela com o véu.”

“Você consegue vê-la através do véu?”

“Não. Mas sempre tem uma que acha que mistério conta como valor.”

Nira manteve o rosto inexpressivo. Ela não tinha motivo para sentir pena das candidatas a noiva. Algumas vinham de linhagens menores, outras de matilhas aliadas, algumas de famílias que negociavam filhas como se tratados comerciais fossem costurados em seus úteros. Elas não eram suas amigas. Também não eram suas inimigas, ainda não. Elas eram participantes de uma máquina que nunca perguntara a nenhuma delas se desejavam ser engrenagens.

Isso não impedia que a inveja a percorresse como um calafrio.

Elas foram escolhidas para ficar na luz.

Ela foi escolhida para limpar depois delas.

No centro do salão, sob a lua esculpida no teto, os atendentes do Alto Vidente começaram a acender o incenso. Uma fumaça doce flutuou para cima. O aroma se enrolou na garganta de Nira e fez seus olhos lacrimejarem. Flor-da-lua. Raiz de prata. Mirra cinzenta. Os preparativos para ritos de união sempre cheiravam como se alguém tivesse tentado engarrafar a obediência.

“Não encare”, sussurrou Sella, dando-lhe uma cotovelada.

“Eu não estou encarando.”

“Você está encarando, com certeza.”

Nira desviou o olhar imediatamente. “Tudo bem. Estou julgando. Existe uma diferença.”

Os ombros de Sella tremeram com uma risada silenciosa. Foi uma pequena misericórdia, o suficiente para evitar que a manhã azedasse em algo afiado.

Então o salão ficou imóvel.

Não silencioso. Imóvel.

Nira sentiu isso primeiro na maneira como os servos ao seu redor ergueram a cabeça, como se um fio os tivesse puxado para cima. Depois, no calor que passou pela sua pele, repentino e inexplicável. Em seguida, no aroma.

Sangue.

Não derramado. Ainda não. Apenas a promessa metálica dele, entrelaçada ao incenso como um aviso.

Ela olhou em direção à entrada dos fundos.

Kael Draven entrou no Salão da Lua com um tipo de força que fez o ambiente se rearranjar ao redor dele antes mesmo que ele falasse.

Hoje ele vestia preto, o tom profundo e escuro como lobo, típico do luto cerimonial ou da prontidão para a batalha; Nira não sabia dizer qual. O casaco era justo nos ombros e caía em linhas retas pelo corpo, enfatizando sua altura, largura e a desenvoltura insolente de alguém que nasceu esperando que as portas se abrissem diante dele. Fechos de prata brilhavam em seu pescoço. O cabelo, escuro e um pouco longo demais no topo, estava puxado para trás sem qualquer suavidade. Ele se movia como uma lâmina que tinha aprendido boas maneiras.

O salão mudou ao redor dele. Os servos baixaram os olhos. As candidatas a noiva tornaram-se estátuas. Até os guardas se endireitaram, não exatamente em sentido, mas perto o suficiente para expor a hierarquia em seus ossos.

Nira o odiava por princípio, por fazer tais coisas parecerem tão fáceis.

Ele era o herdeiro alfa. Sangue Draven. O futuro da fortaleza, do território e das teias de alianças que se estendiam além das passagens das montanhas. Ele era tudo que as pessoas aprendiam a temer e a desejar. Poder com um rosto. Violência em roupas feitas sob medida.

A corte adorava observá-lo porque ele fazia a herança parecer destino em vez de roubo.

A primeira vez que Nira o viu, anos atrás, ele tinha dezesseis anos e ela, treze, carregando roupas por uma escadaria dos fundos. Ele estava ensanguentado por algum acidente de treinamento, com uma bochecha cortada e a mão enfaixada em linho que já estava ficando vermelho; mesmo assim, ele parecia alguém para quem o mundo tinha aberto caminho.

Ele não olhou para ela na época.

Ele ainda mal olhava agora, o que, de certa forma, fazia com que os raros momentos em que ele o fazia parecessem piores.

Kael atravessou o salão e tomou seu lugar perto do estrado, sem se sentar. Ele nunca sentava a menos que pretendesse fazer todos os outros esperarem. Seu olhar percorreu o salão uma vez, eficiente e afiado, e então parou — apenas uma fração, tão leve que ninguém mais teria notado.

Em Nira.

Sumiu tão rápido quanto apareceu. Um erro de atenção, talvez. Ou sua imaginação.

Ainda assim, seu pulso falhou.

Não. Isso também não. Ela não tinha o luxo de falhar.

Ela se curvou sobre o balde com foco renovado e esfregou a pedra a seus pés até que ela brilhasse úmida. Se ela ficasse baixa o suficiente, poderia fingir que aquele salão não continha o homem mais perigoso do território e sete mulheres de branco esperando para serem escolhidas como oferendas.

Um sino soou na galeria superior.

Morvena entrou.

Até as candidatas a noiva pareciam encolher ao vê-la.

Ela vestia o preto da Corte da Lua, não o preto suave de luto de uma viúva, mas o preto severo e imaculado do poder institucional. O tecido caía de seu corpo sem uma ruga, como se o próprio pano soubesse que não deveria desafiá-la. Em seu pescoço brilhava um broche de lua crescente feito de prata lunar. Seu cabelo também era prateado, trançado em uma coroa ao redor da cabeça; não porque ela fosse velha o suficiente para que fosse natural, mas porque decidiu que a idade deveria ser usada como autoridade.

A Alta Registradora. Supervisora da corte. Guardiã dos registros de sangue. Intérprete da vontade da Lua, de acordo com as bandeiras.

O tipo de mulher a quem as pessoas agradeciam pela misericórdia logo antes de ela tirar algo delas.

O olhar de Morvena varreu o salão, leve e preciso. Nira manteve o seu para baixo, embora pudesse sentir o olhar passar sobre ela como uma lâmina fria testando uma costura.

"Tudo em ordem?", perguntou Morvena.

Sua voz carregava sem esforço. Nira sempre suspeitou que isso fosse parte do truque. O poder real não precisa gritar.

O mordomo-chefe curvou-se tanto que sua coluna quase estalou. "Sim, minha senhora."

"Bom." A boca de Morvena se curvou no que poderia ser um sorriso, se contivesse calor. "Odiaríamos começar um rito sagrado com um chão ainda cheirando a cinzas."

Nira olhou para cima antes que pudesse se conter.

Morvena estava olhando diretamente para ela.

Não olhando de relance. Olhando. Medindo.

O ar no salão ficou tenso com a troca de olhares. Nira sentiu isso em seus ombros, na consciência aguda de ser vista onde passou a maior parte da vida sobrevivendo ao ser ignorada.

"Serva", disse Morvena.

Não Nira. Serva.

"Sim, minha senhora?" Nira manteve o tom suave, o que exigiu quase todo o seu autocontrole e um pequeno ato privado de violência contra seu próprio orgulho.

Os olhos de Morvena mudaram para a pedra úmida sob a mão de Nira. "Os degraus do altar. Você deixou passar um canto."

Nira olhou para baixo e, para seu extremo aborrecimento, encontrou uma fina camada de fuligem ainda grudada na borda.

Uma armadilha. Uma pequena. Um teste disfarçado de limpeza.

Claro.

Ela se levantou e passou pela fila de candidatas a noiva em direção ao estrado com seu balde e trapo. Ela tornou-se agudamente consciente do silêncio que a seguia. Nobres sempre estavam ávidos para ver servos sendo corrigidos. Isso os lembrava da forma de seu próprio privilégio.

Ao chegar aos degraus, sentiu os olhos de Kael sobre ela novamente. Desta vez não foi um erro. Ela não olhou para cima, pois não era tola o suficiente para dar a ele a satisfação de notar que ela notou.

Ela se agachou e limpou o canto que Morvena indicara. A fuligem cedeu sob seu pano.

"Você é rápida", disse Morvena.

A mão de Nira parou por um segundo. "Tenho muita prática."

Uma pequena onda percorreu os servos mais baixos. Sella, em algum lugar atrás dela, prendeu a respiração em silêncio. Algumas das candidatas a noiva trocaram olhares assustados, como se não pudessem imaginar uma serva respondendo a uma mulher como Morvena com algo que não fosse um pedido de desculpas.

Morvena, no entanto, apenas inclinou a cabeça. "Pelo visto."

Nira não confiava nem um pouco na suavidade daquela resposta.

Finalmente, ela terminou de limpar o degrau e se levantou. A atenção de Morvena permaneceu nela por mais um segundo, tempo demais para ser acidental, suave demais para ser abertamente hostil. Então, a supervisora se virou com toda a indiferença de alguém que decidiu que uma chama de vela ainda não valia a pena apagar.

Nira soltou um suspiro que nem percebera estar prendendo.

"Se divertindo?", murmurou Sella quando Nira retornou para o corredor lateral.

"Imensamente", sussurrou Nira de volta. "Sempre sonhei em ser avaliada como um cavalo."

"Isso é porque você tem um senso de ambição muito clássico."

Nira quase sorriu.

Quase.

O incenso ficou mais denso conforme o salão se enchia. Mais guardas. Mais atendentes. Alguns membros do antigo conselho chegaram em mantos bordados com o brasão Draven, seus rostos solenes da maneira performática de homens que se preparam para endossar a violência, contanto que fosse conduzida com a cerimônia adequada. As candidatas a noiva foram escoltadas para um círculo ao redor do estrado central. Cada uma tinha um lugar designado. Cada uma estava parada dentro de um futuro cuidadosamente arranjado que ela não controlava.

Nira reconheceu uma delas apenas pela reputação: Lady Rhosyn Vale, sobrinha do alfa da aliança oriental, com a fortuna de sua família polida em cada traço de seu rosto. Outra era, segundo boatos, dos bandos do rio. Uma usava um véu tão fino que parecia tecido de seda de aranha e luar. Outra tinha um maxilar tão rígido e orgulhoso que parecia mais ofendida por estar presente do que assustada.

Em algum lugar além dos arcos, os servos começaram a tocar sinos menores, um aviso da aproximação do rito.

O estômago de Nira deu um nó.

Ela deveria sentir apenas distância. Ela deveria estar acima de tudo isso. Em vez disso, o salão carregava uma pressão que ela não conseguia explicar, como se a própria pedra antiga estivesse prendendo a respiração. Os braseiros emitiam um brilho vermelho baixo. As esculturas da lua acima pareciam observar.

No fundo de sua mente, uma dor latejava.

Não em seu peito.

Mais embaixo.

Mais aguda.

Uma sensação de estar inacabada.

Ela franziu a testa e moveu seu balde, irritada com seu próprio corpo por traí-la com bobagens.

O cotovelo de Sella cutucou o dela. "Você ficou pálida."

"Estou em um salão cheio de gente que quer ser importante e cheira a flores. Isso é o suficiente para testar a constituição de qualquer um."

"Hum. Isso não foi medo."

Nira lançou um olhar para ela. "Não desenvolva talentos."

Mas sua amiga estava certa. Não era medo. O medo tinha uma forma. Medo era quando a governanta da cozinha descia para a ala dos servos com uma bengala. Medo era o som de botas do lado de fora de uma porta trancada à noite. Medo era algo que se conhecia.

Isso era antecipação com dentes.

Um sacerdote entrou.

O salão ficou imóvel tão abruptamente que Nira ouviu o pavio crepitar na lâmpada mais próxima.

Ele vestia a máscara ritual do Salão da Lua, branca e com uma coroa de lua crescente, com a metade inferior de seu rosto escondida na sombra. Atrás dele vinham os assistentes do Alto Vidente carregando o registro de parceiros, um longo livro contábil preto acorrentado em prata. Nira viu a maneira como os rostos das candidatas a noiva se contraíram ao vê-lo. O registro era o verdadeiro altar, se você perguntasse às pessoas que importavam. A Lua podia escolher, mas a corte escrevia o que aquilo significava.

O sacerdote ergueu as duas mãos.

"Pelo luar, pelo sangue, pela linhagem legítima e testemunha sancionada", ele entoou, sua voz ecoando de pedra esculpida em pedra esculpida, "nós nos reunimos sob a lei antiga."

Lei antiga.

Nira tinha ouvido o suficiente sobre isso para saber que poderia significar qualquer coisa, desde uma verdade sagrada até o que quer que os poderosos tivessem conseguido preservar após reescrever todo o resto.

O rito começou com votos. Palavras formais. Frases de resposta das candidatas a noiva, cada uma delas repetindo o roteiro com diferentes graus de compostura. Nira manteve os olhos no chão e ouviu trechos enquanto fingia que não o fazia.