Caçador de Fendas

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Resumo

As luzes da cobertura projetavam sombras longas sobre o mármore enquanto Freya Marlowe tremia, vestindo apenas a camisa preta grande demais de Ajax Brogan, seus longos cachos ruivos ainda úmidos pela chuva que a engoliu em 1980 e a cuspiu em 2026. As mãos marcadas por cicatrizes de Ajax nunca paravam. Uma a mantinha firmemente presa em seu colo, a outra testava até onde aquele rubor bonito se espalharia enquanto ele a interrogava com aquela voz baixa e áspera como cascalho. Cada movimento dela arrancava um rosnado de aviso, lembrando-a de que ela não iria a lugar nenhum. Mas, por baixo daquela fome sombria, Ajax já estava calculando. A fenda temporal que a arrancara de seu estúdio na universidade não foi um acidente. Alguém a abriu. E se os antigos arquivos do sindicato estivessem certos, a assinatura tecnológica correspondia a experimentos que um rival, um caçador de fendas, vinha perseguindo há meses: Nox Irvin — frio, implacável e disposto a queimar linhas temporais inteiras para reivindicar poder. Ajax precisava encontrar o ponto de origem antes de Nox. Porque, no momento em que aquele bastardo percebesse que uma garota de 1980 tinha atravessado a fenda, ele viria atrás dela. Não para mandá-la para casa. Mas para usá-la como arma. Para escancarar a fenda e reescrever o passado com sangue. Freya ainda não sabia, mas tinha acabado de se tornar o prêmio em uma corrida mortal através do próprio tempo. E o assassino moralmente cinzento que a mantinha presa já havia decidido: ele incendiaria a cidade antes de deixar que Nox Irvin encostasse um dedo sequer no que agora lhe pertencia.

Status
Completo
Capítulos
31
Classificação
5.0 1 avaliação
Classificação Etária
18+

Prólogo

A chuva era uma cortina fria e inclemente, transformando o beco em uma aquarela borrada de neon e sombras. Ajax Brogan movia-se através dela como se tivesse nascido ali — silencioso, letal, com todos os sentidos ajustados ao leve zumbido eletromagnético que o trouxera até ali naquela noite.

O sindicato vinha perseguindo sinais fantasmas há meses: fragmentos de tecnologia temporal antiga, experimentos do mercado negro que podiam reescrever contratos, apagar testemunhas ou abrir portas que nenhum homem são deveria tocar. Ele mesmo rastreara aquele sinal, com uma faca na bota e uma pistola na cintura, esperando outro ponto de entrega ou uma equipe rival tentando se infiltrar.

Ele nunca esperou por ela.

Em um segundo, o beco estava vazio, exceto pela lixeira e o pulso distante do tráfego de 2026. No outro, o ar se abriu com um som como o de seda sendo rasgada e eletricidade gritando. Uma luz violeta sangrou através do rasgo, irregular e errada, e algo — alguém — caiu de lá como uma pintura descartada, arrancada de sua moldura.

Ela atingiu o concreto molhado com força.

Ajax parou no meio do passo, com a mão enluvada já alcançando a arma que, de repente, parecia pesada e inútil.

Cachos ruivos longos e em camadas espalhavam-se pelo chão como sangue e fogo derramados, encharcados pela chuva. Um top curto grudava em seu torso, subindo para revelar uma faixa de pele pálida em sua cintura. A saia rara brilhante — algo absurdamente, dolorosamente anos 80 — tinha se aberto durante a queda e agora subia por suas coxas, com as leggings pretas rasgadas em um dos joelhos. Ela se empurrou para cima com os braços trêmulos, olhos avelãs arregalados e desorientados, a boca entreaberta em um suspiro que fez uma única gota de chuva escorregar por seu lábio inferior.

Ela parecia… suave.

Suave de um jeito que nada em seu mundo tinha sido por anos. Suave como as garotas em fotografias desbotadas que sua mãe costumava guardar antes de o sindicato queimar o passado dela. Suave como o tipo de inocência que levava pessoas à morte em seu ramo de trabalho. E ainda assim, havia algo teimoso na maneira como ela levantou o queixo, na forma como aqueles cachos emolduravam seu rosto como uma auréola que ele queria arruinar.

Seu peito apertou. Não por pena. Por fome.

Um pensamento único e vicioso cortou o distanciamento profissional que ele usava como armadura desde os dezesseis anos:

Minha.

Não para o sindicato. Não para a fenda da qual ela tinha acabado de vomitar. Nem mesmo para a tecnologia que poderia torná-lo intocável.

Apenas… minha.

Ele a observou afastar as mechas molhadas dos olhos, um movimento inocente e ingênuo, e algo sombrio se desenrolou no fundo de seu ventre. O tipo de possessividade que não tinha cabimento em um homem que lidava com cadáveres e contratos. Ele imaginou aqueles cachos enrolados em seu punho. Imaginou pressioná-la contra a parede do beco até que aquele pequeno suspiro ingênuo se transformasse em seu nome. Imaginou mantê-la trancada, longe de cada bala, cada rival, cada mão imunda que tentaria tocar o que tinha acabado de cair em seu território.

Ela não era dali. Isso era óbvio pelo jeito que ela encarava os painéis holográficos piscando acima, como se nunca tivesse visto a própria luz antes. Quarenta e seis anos, talvez mais. A fenda a cuspiu ainda vestida para uma década diferente, ainda carregando o cheiro de terebintina e esperança.

Ajax deu um passo à frente, depois outro, com as botas silenciosas no pavimento molhado.

Ela olhou para cima. Aqueles olhos avelãs travaram nos dele, arregalados de medo e com aquela confusão terrena de partir o coração, e a mudança aconteceu de uma vez — limpa, irreversível, como uma bala encontrando o osso.

O assassino que passou anos construindo uma reputação com sangue, de repente, não dava a mínima para fechar a fenda.

Ele queria manter o rasgo aberto se isso significasse que ela ficaria.

Ele queria queimar cada linha do tempo que tentasse levá-la de volta.

Ele queria ouvi-la dizer seu nome enquanto ele arrancava aquela saia ridícula dela e a ensinava exatamente como era a sobrevivência em 2026.

"Calma, querida", ele disse, com a voz saindo mais rouca do que pretendia enquanto diminuía a distância. Uma mão enluvada agarrou seu cotovelo — suave o suficiente para não machucar, mas firme o bastante para que ela sentisse a posse naquilo. De perto, ela cheirava a chuva, carvão e algo doce que ele não conseguia nomear. Os cachos dela roçaram seu pulso, úmidos e pesados.

Ela tentou se afastar. Ele não a deixou.

Seu polegar limpou uma gota de chuva da bochecha dela, lento, deliberado, já memorizando a maneira como a respiração dela falhava.

Qualquer que fosse o nome dela, não importava ainda.

Ela era Freya agora.

Sua Freya.

A garota que caiu fora do tempo usando uma saia rara e todas as coisas suaves que ele tinha esquecido como desejar.

E Ajax Brogan — o homem que nunca guardou nada que pudesse ser usado contra ele — tinha acabado de decidir que nunca a deixaria ir.