Dez Anos Entre Batidas

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Resumo

Alguns amores não desaparecem. Algumas memórias não pertencem a você. E algumas segundas chances têm um custo devastador. Dez anos atrás, Elara Quinn desapareceu — deixando para trás perguntas sem resposta e uma história de amor que nunca teve um fim. Agora ela está de volta. Diferente. Reservada. Carregando segredos que se recusa a explicar. Julian Reyes nunca aprendeu a ficar. Nem pela sua cidade natal. Nem pela mulher que amava. Nem mesmo pelo seu casamento. Mas, quando ele retorna e fica cara a cara com Elara novamente, o passado colide com o presente — e, desta vez, ir embora não é uma opção. Porque Elara não está apenas se escondendo do seu passado. Ela está fugindo de algo muito mais perigoso. Algo que não apenas salva vidas… Ele as rouba. À medida que Julian e Elara são forçados a se reaproximar, feridas antigas se reabrem e emoções não resolvidas incendeiam. Mas, por baixo da sua segunda chance, reside uma verdade arrepiante: Elara faz parte de algo que não deveria existir — um sistema onde memórias persistem, identidades se confundem e os mortos se recusam a permanecer em silêncio. Com a ajuda de Mara — a ex-esposa ferozmente inteligente de Julian — e de Rowan, um investigador implacável, eles descobrem uma rede construída sobre poder, controle e experimentação humana. E Elara pode ser a chave para destruí-la. Mas quanto mais fundo eles vão, maiores se tornam os riscos. Porque o amor já não é a única coisa em jogo. A sobrevivência é. E desta vez… salvar a todos pode significar perder tudo.

Status
Completo
Capítulos
41
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Intro

Algumas histórias não começam pelo início.

Elas começam no momento em que tudo se quebra.

A primeira vez que Elara Quinn morreu, não houve barulho.

Não houve gritos.

Nem últimas palavras dramáticas.

Ninguém segurando a sua mão, prometendo que ela não estaria sozinha.

Houve apenas silêncio.

Frio.

Clínico.

Final.

Ela lembrava das luzes.

Brilhantes demais.

Brancas demais.

Limpas demais para algo tão errado.

E ela lembrava da voz.

“Fique comigo.”

Não era gentil.

Não era cruel.

Era algo pior.

Interessada.

Elara tentou se mexer.

Tentou falar.

Mas o seu corpo não lhe pertencia mais.

Essa foi a primeira coisa que ela percebeu.

A segunda foi que ela não estava sozinha.

Havia outros.

Não no quarto.

Não fisicamente.

Mas em algum lugar mais profundo.

Uma presença.

Um sentimento.

Um peso pressionando os seus pensamentos como algo tentando vir à tona.

“Você consegue me ouvir?”

A voz novamente.

Mais próxima desta vez.

Elara queria dizer que sim.

Queria gritar.

Mas tudo o que saiu foi um suspiro fraco.

“Bom”, a voz disse suavemente.

“A consciência é importante.”

Consciência.

A palavra ecoou.

Porque ela estava consciente.

Dolorosamente consciente.

Do modo como o seu coração lutava.

Do modo como os seus pulmões buscavam ar.

Do modo como algo dentro dela estava... escorregando.

“Você entende o que está acontecendo?”

Não.

Não, ela não entendia.

Mas ela sentia.

O fim.

E, por baixo dele,

Algo mais.

Medo.

Não apenas o dela.

Essa era a parte que não fazia sentido.

Porque o medo era grande demais.

Avassalador demais.

Em camadas demais.

Como se não pertencesse a apenas uma pessoa.

A visão de Elara ficou turva.

As luzes acima dela piscando enquanto a escuridão se arrastava pelas bordas.

“Fique comigo”, a voz repetiu.

Mas desta vez,

Não soou como um pedido.

Soou como uma ordem.

E então,

Nada.

Dez anos depois,

A cidade não tinha mudado.

Ainda tinha cheiro de chuva e asfalto.

Ainda carregava o zumbido silencioso de um lugar que nunca seguiu em frente.

As pessoas ficavam aqui.

Ou iam embora.

E as que iam embora,

Raramente voltavam.

Julian Reyes não deveria estar ali.

Ele soube disso no momento em que desceu do ônibus.

No momento em que os seus sapatos tocaram o pavimento conhecido.

No momento em que o ar pareceu pesado demais nos seus pulmões.

Lar.

A palavra já não parecia certa.

Não parecia há muito tempo.

Ele ajustou a alça da sua mala no ombro e examinou a rua.

Os mesmos prédios.

As mesmas calçadas rachadas.

O mesmo silêncio que parecia mais alto do que deveria.

Nada mudou.

Exceto que tudo mudou.

Julian exalou lentamente.

Ele não tinha planejado voltar.

Não realmente.

Mas os planos costumam desmoronar quando a vida para de lhe dar opções.

E Julian,

Julian tinha ficado sem elas há muito tempo.

Um carro passou.

Rápido demais.

Alto demais.

O motorista não olhou para ele.

Ninguém olhava de verdade.

Essa era a coisa sobre cidades pequenas.

Elas lembram de você.

Mas fingem que não.

Julian começou a caminhar.

Cada passo mais pesado do que deveria ser.

Porque cada esquina guardava algo.

Uma lembrança.

Uma versão de si mesmo que ele já não reconhecia.

Ou, pior,

Uma que ele reconhecia.

Ele passou pela lanchonete antiga.

Ainda aberta.

Ainda com as luzes piscando.

Ainda exatamente igual.

Ele quase sorriu.

Quase.

Então ele continuou andando.

Porque só havia um lugar aonde ele precisava ir.

E ele já tinha adiado isso tempo demais.

O lago.

Ficava no limite da cidade.

Silencioso.

Imóvel.

Inalterado.

Como se estivesse esperando.

Julian diminuiu o passo ao se aproximar.

Sentindo o peito apertar levemente.

Porque aquilo

Aquilo era onde tudo começou.

E onde terminou.

Ele parou na beira da água.

Com as mãos enfiadas fundo nos bolsos.

Os olhos fixos na superfície.

Parecia igual.

Mas não trazia a mesma sensação.

Nada trazia.

“Você voltou.”

Aquela voz não deveria estar ali.

Julian congelou.

Não porque não a reconhecesse.

Mas porque reconhecia.

Lentamente,

Ele se virou.

E por um segundo

Ele esqueceu como respirar.

Porque ela não deveria estar aqui.

Porque ela não deveria existir.

Porque dez anos atrás

Ela desapareceu.

“Elara?”

O nome soou estranho em sua boca.

Como algo que ele não dizia há anos.

Como algo que ele tinha enterrado.

Mas ela estava lá.

Real.

Imóvel.

Observando-o como se nunca tivesse ido embora.

Elara Quinn.

Só que

Não a mesma.

Seu cabelo estava mais comprido.

Mais escuro.

Seu rosto mais marcado.

Mais velha.

Mas não era isso.

Era outra coisa.

Algo nos olhos dela.

Algo que não pertencia ali.

“Você parece surpreso”, disse ela.

Sua voz era suave.

Familiar.

Mas errada.

Julian encarou-a.

“Você...”

Ele parou.

Começou de novo.

“Você desapareceu.”

Elara inclinou a cabeça levemente.

“Eu sei.”

A simplicidade daquilo doeu mais do que qualquer outra coisa.

Julian deu um passo à frente.

“Para onde você foi?”

Uma pausa.

Algo brilhou no rosto dela.

Não hesitação.

Não medo.

Outra coisa.

“Para algum lugar onde eu não deveria ter sobrevivido”, disse ela.

O peito de Julian apertou.

“O que isso significa?”

O olhar de Elara desviou brevemente para o lago.

Depois voltou para ele.

“Significa”, disse ela calmamente, “que não era para eu estar aqui”.

O silêncio caiu entre eles.

Porque aquilo não era uma resposta.

Era um aviso.

Julian balançou a cabeça levemente.

“Você está bem na minha frente.”

Elara sorriu.

Mas o sorriso não chegou aos seus olhos.

“Isso não significa o que você pensa.”

Algo frio percorreu sua espinha.

Porque ele se lembrava daquele tom.

Daquela distância.

Ela costumava desaparecer dentro de si mesma assim.

Mesmo naquela época.

Mas isto

Isto era diferente.

“Há quanto tempo você voltou?”, ele perguntou.

Elara hesitou.

Então,

“Há algum tempo.”

Julian franziu a testa.

“E você não...”

Ele parou.

Não terminou a frase.

Porque ele já sabia a resposta.

Ela não ligou.

Ela não estendeu a mão.

Ela não voltou por ele.

Assim como antes.

Elara o observava atentamente.

“Eu não sabia se devia”, disse ela.

As palavras saíram baixas.

Mas carregavam peso.

Julian soltou um suspiro curto.

“Você poderia ter tentado.”

Um lampejo de algo cruzou o rosto dela.

Arrependimento.

Ou algo parecido.

“Eu tentei”, disse ela.

Julian paralisou.

“O quê?”

Elara olhou para ele.

Olhou de verdade.

“Você simplesmente não estava lá.”

As palavras bateram mais forte do que deveriam.

Porque uma parte dele sabia

que ele não estivera.

Não naquela época.

Não quando importava.

Não quando ela precisava que ele ficasse.

O silêncio se estendeu entre eles.

Pesado.

Mal resolvido.

“Você está diferente”, disse Julian, por fim.

Os lábios de Elara se curvaram levemente.

“Você também.”

Uma pausa.

Então

“Não das maneiras que importam.”

O maxilar de Julian se contraiu.

“E o que isso significa?”

Elara não respondeu imediatamente.

Em vez disso,

ela se aproximou.

Perto o suficiente para que ele pudesse ver claramente agora.

Aquilo nos olhos dela.

Aquilo que não pertencia ali.

“Você continua indo embora”, disse ela suavemente.

As palavras não eram uma acusação.

Eram um fato.

Julian engoliu em seco.

“Eu voltei.”

Elara sustentou seu olhar.

“Sim”, disse ela.

Um tempo.

“Mas por quanto tempo?”

A pergunta pairou no ar.

Sem resposta.

Porque nenhum dos dois sabia.

Porque esse sempre fora o problema.

Julian desviou o olhar primeiro.

Para o lago.

Qualquer coisa para quebrar aquela intensidade.

“Por que você está aqui?”, perguntou ele.

Elara seguiu seu olhar.

“É aqui que tudo começou”, disse ela.

O peito de Julian apertou.

“E terminou.”

Elara balançou a cabeça lentamente.

“Não”, disse ela.

Uma pausa.

“Não terminou.”

Julian franziu a testa.

“Parecia que sim.”

Elara olhou para ele novamente.

Algo mais suave desta vez.

Algo quase familiar.

“Não para mim.”

As palavras se acomodaram entre eles.

Porque aquilo significava algo.

Algo que ele ainda não entendia.

Mas entenderia.

Em breve.

Cedo demais.

Um som distante quebrou o momento.

Um carro.

Vindo rápido.

Rápido demais.

Julian se virou por instinto.

Os faróis cortaram a penumbra.

Ofuscantes.

Então,

tudo aconteceu de uma vez.

Um grito.

Não era o dele.

Era o de Elara.

“Julian!”

Ele não teve tempo de reagir.

Não teve tempo de pensar.

Apenas tempo para sentir

o impacto.

O mundo girou.

O som desapareceu.

A luz se fragmentou.

E por uma fração de segundo,

Julian viu algo impossível.

Elara.

Sem se mover.

Com os olhos arregalados.

Não de medo.

De reconhecimento.

Como se ela já tivesse visto aquilo antes.

Como se ela soubesse o que viria a seguir.

E então,

a escuridão.

Algumas histórias não começam pelo início.

Elas começam

no momento em que tudo quebra.

E desta vez,

ambos estavam prestes a lembrar o porquê.