Capítulo 1
Lucy - Três meses atrás
“Está vendo aquele homem ali?”, pergunta o babaca parado sobre mim, apertando minhas bochechas com tanta força que dói. Ele certamente vai deixar marcas de dedos, mas não ouso mover a mão dele.
Eu balanço a cabeça e uma lágrima escorre pelo meu rosto. Quatro homens parados sobre você cobrando dinheiro fariam qualquer garota reagir assim. Meus olhos se voltam para o homem que ele aponta, e não consigo deixar de notar como ele parece um clichê de chefe da máfia. Terno branco com gravata preta. Cabelo escuro penteado para esconder a calvície. O homem usa óculos e está uns trinta quilos acima do peso. Ele está sentado no meu sofá, parecendo deslocado. Só falta um gato siamês de pelo longo para ele ser um mafioso saído diretamente de um filme.
“Esse homem não gosta de ser deixado na mão quando há dinheiro em jogo. Entendeu?”
Eu balanço a cabeça, outra lágrima rolando pelo meu rosto enquanto o homem solta meu queixo. Eu gostaria que ele ainda estivesse segurando meu queixo, porém, já que a mão dele se move para o decote da minha camisa e desliza para dentro do meu sutiã.
Eu estremeço, mas não ouso me mexer, especialmente porque a faca que o homem segura na outra mão está perigosamente perto da minha costela. Algo em seu sorriso sarcástico me diz que ele não teria problema nenhum em usá-la em mim. As mãos dele tremem de excitação. Esta não é a primeira vez que ele aponta uma faca para alguém.
O homem que aperta meu seio é uns quinze centímetros mais alto que eu e tem um dente de ouro no lugar de um dos caninos. Seu cabelo escuro é comprido e está preso num rabo de cavalo na nuca. Ele está todo de preto, um contraste com seu chefe. Os outros homens na sala vestem camisas e calças pretas. Será que existe um uniforme de capanga para destacar o chefe? Será que eles decidiram isso por e-mail ou em um grupo de conversa?
“Onde está o seu marido?”
“Eu já disse que não faço a porra de uma ideia. Ele foi embora. Sem deixar rastros. Nem consigo encontrá-lo para os papéis do divórcio.”
O homem morde o lábio e arrasta a faca até o seio que ele apalpa sob minha camisa. “Que tipo de homem deixaria uma gostosa dessas? Acho que você está cheia de merda.”
“Totalmente cheia de merda”, ecoa outro capanga. “Talvez a gente deva foder até ela falar.” Ele brinca com o cinto da calça, mas o chefe levanta a mão no sofá. Quando ele a abaixa novamente, o capanga se afasta de mim e coloca as mãos ao lado do corpo.
O fato de o chefe conseguir controlar sua equipe com um simples movimento de mão me assusta muito mais do que a ideia de um estupro coletivo. Penso nos antigos filmes de gladiadores que meu pai gostava de assistir. Será que o chefe fará o sinal de polegar para baixo quando chegar a hora de um de seus homens cortar minha garganta?
“Não há necessidade disso. Vocês podem verificar os registros do meu celular”, eu imploro, procurando meu aparelho nos bolsos. “Eu mandei mensagens e liguei. Nada. Nenhuma resposta. Eu denunciei à polícia, mas eles parecem não se importar. Eu juro pela porra de Deus.”
O terror transforma a sopa de galinha que comi no jantar em um nó no meu estômago. Meu coração dispara, e meu instinto de luta ou fuga, que aumentou assim que esses caras arrombaram minha porta, faz meus dedos tremerem. Fugir não era uma opção, já que havia um cara na minha porta dos fundos. Lutar também não era uma opção. A autodefesa só vai até certo ponto contra três seguranças da máfia e um chefe.
Além do terror, há uma vergonha que toma conta do meu corpo. Vergonha por ter deixado que me forçassem a ficar de joelhos enquanto me interrogavam sobre o paradeiro de Beck. Beck me forçou a ficar de joelhos várias vezes por outros motivos durante nosso casamento, e eu jurei que nunca mais seria forçada a fazer nada de joelhos sem ter controle da situação.
O homem tira a mão do meu seio e a move para o meu queixo dolorido, desta vez inclinando-o até que eu olhe tanto para cima que meu pescoço dói. Ele olha para o chefe, e o chefe estala os dedos. Que porra isso significa? Morte por estrangulamento? Ir embora?
O homem que segura meu queixo balança a cabeça e se abaixa até ficar a poucos centímetros do meu nariz. O hálito dele cheira a cerveja e algo apimentado. Molho de pimenta? Nada como parar para comer um balde de asas de frango no caminho para ameaçar uma mulher inocente que nunca tirou um centavo de você.
“É o seguinte. Preste atenção, porque na próxima vez que voltarmos aqui, não seremos tão amigáveis ou legais. Estamos entendidos?”
Eu balanço a cabeça.
“Seu marido de merda pegou dinheiro emprestado com o meu chefe ali. Ele não gosta quando as pessoas não pagam o que devem, e certamente não gosta quando somem antes de acertar a conta.” A faca do homem desliza pelo meu rosto.
Eu grito mentalmente para o universo, implorando para que ele não a use. Meu rosto, não. Mal consigo pagar pela sopa do jantar e estou quebrada. Preciso do meu rosto para conseguir um emprego. Não vou conseguir nenhum se tiver uma cicatriz de faca esculpida nele.
“Beck nunca deixou de pagar suas dívidas para o meu chefe, e queremos saber onde ele está”, diz o homem, com desdém.
Beck já fez negócios com esses caras antes? Ótimo. Ele não só me batia diariamente durante todo o nosso casamento, como também andava envolvido com a máfia.
Procuro na memória qualquer sinal de que ele estivesse envolvido com o crime organizado. A conta bancária mostrava alguma prova de jogo? Não que eu tivesse acesso a muitas contas. Beck controlava quase tudo, permitindo-me apenas um cartão de crédito para comprar maquiagem, pagar a academia, fazer preenchimento uma vez por ano e comprar roupas. Ele até monitorava isso, provavelmente para garantir que eu gastasse o dinheiro em coisas que me tornassem atraente para ele. Desde que ele desapareceu, vasculhei seu escritório e encontrei um livro-razão, mas não há nada nele que mostre algo incomum.
O homem põe a língua para fora e a passa pelo meu rosto, enquanto tento não ter ânsia de vômito. Vou apenas ficar parada e me preocupar em como vou conseguir o dinheiro deles depois que forem embora. Mantenha a calma. Minhas mãos se tensionam, mas não ouso tentar bater nele enquanto ele termina a lambida na minha testa. Ele se afasta, dá um sorriso maligno e cospe bem na minha cara.
Eu pisco, tentando limpar a saliva dos meus olhos, mas não há nada que eu possa fazer quanto à baba presa nos meus cílios.
“Você nos deve cinquenta mil dólares, sua vadia.”
Cinquenta mil dólares? O que Beck estava planejando? Fugir com Ellen Quarry, sua amante? Eu não consigo nem pagar por frutas frescas. Como esses caras acham que vou conseguir cinquenta mil dólares?
“Se Beck está desaparecido como você diz, podemos ser benevolentes e caridosos. Vamos te dar…” Ele para e olha para o chefe, que levanta três dedos. “Vamos te dar três meses para nos pagar. Entendeu, sua puta idiota?”
Eu balanço a cabeça e tento controlar minha respiração ofegante. O que eles farão comigo se eu não pagar? “Eu entendo”, digo, e minha voz sai como um sussurro rouco; o medo domina minha capacidade de falar.
O homem se afasta de mim e os outros capangas caminham em direção à porta. O chefão levanta-se do assento e limpa a parte de trás das calças com a mão, como se meu sofá as tivesse sujado, mesmo que eu o mantenha impecável.
“Se você não tiver nosso dinheiro quando voltarmos, Beck não será o único a desaparecer. Talvez até comecemos pela sua família e seus amigos.”
Os homens saem, fechando a porta silenciosamente ao passar, e eu caio no chão em um monte de lágrimas e soluços incontroláveis.
Onde vou conseguir esse tipo de dinheiro? Eu não tenho emprego. Beck não me permitia trabalhar, mesmo que eu fosse totalmente capaz. Ele me queria em casa, atendendo a todos os seus caprichos, com uma casa perfeitamente limpa e decorada. Estou fora do mercado de trabalho há anos. Minhas habilidades com computadores estão ultrapassadas e não consigo ganhar cinquenta mil dólares, além das minhas próprias despesas de vida, trabalhando na Target. Tenho vivido do dinheiro da mesada que Beck deixou.
A ironia é que esses caras nem pesquisaram sobre mim antes de virem aqui hoje à noite. Se tivessem, saberiam que não tenho amigos para morrer, já que Beck também os espantou, e a única família que me resta é meu primo picareta, Peter, que foi deserdado pelo resto da minha família — agora morta — há anos, por abrir um clube de strip.
Minha cabeça se ergue e eu aperto o tapete embaixo de mim com uma ambição que eu não tinha uma hora atrás.
Peter é dono de um clube de strip.