HERDEIRA DO LUAR (EDIÇÃO ÚNICA)

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Uma bartender de língua afiada salva um alfa à beira da morte — e desperta um destino poderoso o suficiente para abalar a cidade inteira.

Gênero
Fantasy
Autor
MITHUN
Status
Completo
Capítulos
100
Classificação
4.5 4 avaliações
Classificação Etária
16+

Capítulo 1

O primeiro sinal de que a noite estava errada foi o silêncio.

O Moonline nunca ficava silencioso.

Não em uma sexta-feira.

Não com uísque barato queimando pelo salão, clientes rindo alto demais nos reservados escuros, garotas se debruçando no balcão por mais uma rodada e música antiga tirando a poeira dos letreiros de neon. O silêncio não pertencia àquele lugar.

No entanto, quando Vaelira Thorn saiu pela porta dos fundos com um saco de lixo em uma mão e um cigarro que ela nunca planejou acender na outra, o beco parecia ter feito a cidade parar de respirar.

O vento soprava frio entre as paredes.

Suas botas arrastaram no concreto molhado.

Então ela viu o sangue.

Um rastro grosso e negro se arrastava pelos degraus, brilhando sob a luz amarela da segurança.

Vaelira congelou.

Por um batimento cardíaco, ela pensou em lutar.

No segundo, pensou em chamar a polícia.

No terceiro, já tinha largado o saco de lixo e alcançado a faca presa com fita em sua coxa, por baixo do avental.

“Quem está aí?” ela chamou.

Nenhuma resposta.

Apenas o gotejar. Ping. Ping. Ping.

Sua mão apertou o cabo da faca.

Ela deu um passo lento para baixo, depois outro, até que o cheiro a atingiu.

Cobre.

Chuva.

Algo selvagem.

Não era cachorro. Não era humano.

Algo entre os dois.

“Droga”, ela murmurou.

Ele estava deitado na sombra, ao pé da escada, com um joelho dobrado e um braço apoiado contra a parede, como se uma teimosia pura o impedisse de cair de vez. Ele era enorme. Ombros largos. Camisa preta rasgada nas costelas. O sangue encharcava um dos seus lados, escuro e denso, como se a própria noite o tivesse ferido.

Sua cabeça estava baixa.

Seu peito mal se movia.

Vaelira já tinha visto homens serem espancados fora de bares antes. Já tinha visto facas, garrafas quebradas, lábios cortados, dentes faltando. O Moonline colecionava problemas da mesma forma que o veludo colecionava fumaça.

Mas aquilo era diferente.

Aquele homem não parecia espancado.

Ele parecia caçado.

Ela se aproximou antes que o bom senso pudesse detê-la.

“Ei.”

Nada.

“Ei, se você morrer nos meus degraus, vou te cobrar taxa de limpeza.”

Ainda nada.

Ela se agachou, cautelosa, com a faca em uma mão e a outra estendida para o ombro dele.

No segundo em que seus dedos o tocaram, a mão dele disparou e fechou em torno do pulso dela.

Vaelira prendeu a respiração.

Ele se moveu rápido demais para um homem moribundo.

Rápido demais para qualquer homem.

O aperto dele era quente. Violento. Absoluto.

Então, ele levantou a cabeça.

Olhos dourados.

Não avelã. Não castanhos. Não âmbar.

Ouro.

Brilhantes e terríveis na escuridão.

Vaelira esqueceu a faca em sua mão.

Esqueceu o beco.

Esqueceu o próprio nome por um segundo estúpido.

O rosto dele estava cortado na sobrancelha, com sangue escorrendo pela têmpora. O cabelo escuro colava na testa. A boca era rígida, quase cruel, como se nunca tivesse aprendido a pedir algo com gentileza. Ele a encarava como se estivesse decidindo se ela seria a salvação ou o próximo corpo a cair.

“Solte-me”, ela disse, porque o medo sempre a deixava grosseira.

O olhar dele desceu para o pescoço dela.

Não para o seu rosto. Para o pescoço.

Um arrepio estranho percorreu seu corpo.

Então, passos ecoaram da rua, além do beco.

Não apenas um par.

Vários.

Vozes.

Masculinas.

Próximas.

“Verifiquem os fundos!”

O coração de Vaelira disparou.

O homem também os ouviu. Seu aperto apertou uma vez e depois afrouxou. Sua força oscilava como uma luz prestes a apagar.

Ele estava perdendo sangue demais.

Ela deveria deixá-lo.

Qualquer garota sensata o deixaria.

Qualquer garota esperta voltaria lá para dentro, trancaria a porta e fingiria que não viu nada.

Em vez disso, Vaelira olhou para a entrada do beco e depois voltou para aqueles olhos impossíveis.

“Você consegue ficar de pé?”

Os lábios dele se abriram, mas nenhum som saiu.

“Ótimo”, ela disparou. “Adoro isso.”

As vozes se aproximaram.

Ela guardou a faca sob o avental, passou um braço sob o dele e quase praguejou quando o peso do corpo dele caiu sobre o seu.

Ele era feito de puro músculo, calor e sangue.

Homem demais para uma garota depois de um turno de doze horas.

“Ande”, ela sibilou no ouvido dele. “Ou eu juro que te deixo aqui.”

Um som grave saiu da garganta dele. Poderia ter sido uma risada. Poderia ter sido um aviso.

Ela o arrastou escada acima, mesmo assim.

Cada centímetro queimava.

As botas dele batiam no concreto com um peso morto. O ombro dela protestava. A porta dos fundos estava a poucos passos, mas parecia estar arrastando uma tempestade ladeira acima.

“Porta dos fundos!” um dos homens gritou.

Os olhos de Vaelira se arregalaram.

Ela o puxou para dentro, bateu a porta com o pé e passou o trinco no momento em que algo atingiu o outro lado.

Toda a estrutura estremeceu.

Dentro do corredor de estoque, a música do bar chegava como um pulsar abafado. Ninguém lá fora sabia que a morte estava golpeando a entrada dos fundos.

“Vael?” gritou um dos ajudantes da cozinha. “Tudo bem aí?”

“Sim”, ela respondeu, ofegante. “Um rato.”

“Um rato grande?”

“O maior de todos.”

Ela arrastou o estranho pelo corredor estreito até o depósito vazio no final. A lâmpada no teto piscou uma vez. Duas. O sangue do homem manchava o chão atrás deles.

Perfeito. Nada suspeito nisso.

Ela empurrou a porta do depósito com o quadril e entrou.

Prateleiras com caixas de bebidas, cardápios velhos, banquetas quebradas.

Sem janelas.

Bom.

Ela o empurrou contra a parede. Ele bateu com força, a cabeça tombando para trás e expondo a garganta por um segundo perigoso. Mesmo quase morto, ele parecia o tipo de homem que as pessoas atravessam a rua para evitar.

Vaelira se ajoelhou e puxou uma toalha de bar velha de uma caixa.

“Segure isso.”

Ele não se moveu.

“Eu pareço uma fazedora de milagres para você?”

Os olhos dourados dele caíram para a boca dela.

Então, lentamente, como se estivesse atendendo a um pedido, ele pressionou a toalha contra o ferimento.

Uma batida ecoou na porta dos fundos novamente.

“Abra!” uma voz rugiu do lado de fora. “Estamos procurando alguém.”

O coração de Vaelira martelava contra as costelas.

Ela olhou para o estranho.

Ele a observava com a imobilidade de um predador, o sangue escorrendo sobre sua mão.

“Você os conhece?” ela sussurrou.

O maxilar dele contraiu uma vez.

Isso foi resposta o suficiente.

Vaelira levantou-se e foi em direção à porta.

“Fique quieto”, ela disse.

O olhar dele se tornou mais agudo, quase ofendido.

“Sim, porque você parece tão fácil de controlar.”

Outra batida forte.

Vaelira saiu para o corredor, fechou a porta do depósito atrás de si e limpou as mãos ensanguentadas em sua saia preta. Seu rosto tornou-se inexpressivo. Calmo. Irritado. A expressão que garantia gorjetas e acabava com problemas.

Quando ela alcançou a entrada dos fundos, já estava sorrindo.

Ela abriu a porta apenas o suficiente para ver três homens do lado de fora.

Todos de preto.

Todos limpos demais para clientes comuns.

Um deles tinha um brilho prateado no cinto.

Uma faca.

Não eram bandidos de rua, então.

Algo mais frio.

“Estamos procurando um homem”, disse o da frente.

“Quem não está?” Vaelira respondeu.

O olhar dele endureceu. “Alto. Cabelo escuro. Ferido.”

Vaelira se encostou no batente da porta como se estivesse ali a noite toda.

“Você acabou de descrever metade dos idiotas que bebem aqui.”

O segundo homem inspirou, de forma brusca e estranha, como se estivesse farejando o ar.

Vaelira sustentou o olhar dele e rezou para que seu pulso não estivesse óbvio.

“Ninguém passou por aqui”, ela disse. “Só eu, o lixo e decepções.”

A boca do primeiro homem se contraiu.

De algum lugar no corredor atrás dela, muito fracamente, veio o ranger de madeira.

O estranho estava se movendo.

Cada músculo no corpo de Vaelira se travou.

Os homens lá fora não ouviram nada.

Ou talvez não tenham tido a chance.

Porque, naquele mesmo segundo, um som ecoou pelo corredor do estoque atrás dela.

Não foi um gemido.

Não foi um homem se arrastando.

Um rosnado.

Grave.

Profundo.

Inumano.

Os três homens lá fora ficaram imóveis.

E o homem com a faca prateada sorriu.

“Ah”, ele disse suavemente. “Ali está ele.”