Capítulo 1
A clínica deveria estar vazia.
Evelynn sabia disso com certeza; ela conferira a escala duas vezes. Ainda assim, ao dobrar o corredor em direção à Sala 4 com a última paciente, um leve desconforto apertou seu peito, daquele tipo que surge quando a rotina escapa por entre os dedos.
“Você se importaria de fechar a clínica hoje, Enfermeira Evelynn?”, o Dr. Heartman havia perguntado mais cedo, já quase sem o jaleco. “Meu filho tem um jogo, e se eu perder, minha esposa diz que as joias da família vão voltar para o cofre.”
“Sim, Dr. Heartman”, ela dissera, porque era o que ela sempre dizia. Porque alguém precisava manter as coisas funcionando.
Agora, as luzes do corredor zumbiam suavemente acima dela, projetando sombras longas sobre o linóleo. A sala de espera estava vazia. Sem passos. Sem vozes.
A Sra. Johnson estava sentada na Sala 4, com o braço imobilizado em uma tipoia.
“Você está ficando até tarde de novo”, disse a Sra. Johnson enquanto Evelynn terminava a última parte da papelada.
“Faz parte do trabalho”, respondeu Evelynn com um sorriso. “Apenas lembre-se: descanse esse braço e não levante peso até que o médico a libere.”
A Sra. Johnson sorriu, agradeceu e saiu arrastando os pés; a porta da frente se fechou com um clique atrás dela. O som ecoou por mais tempo do que deveria.
Evelynn pausou, com a caneta pairando sobre a ficha. Ela esperou, ouvindo. Nada veio depois; nem passos, nem murmúrios no corredor. Apenas o silêncio novamente.
Ela sacudiu a cabeça para espantar o sentimento e terminou de fechar tudo. As luzes diminuíram. Os equipamentos foram desligados. O rádio parou no meio de uma música, deixando a clínica imersa em total quietude. Seus passos soavam altos demais enquanto ela percorria as salas, conferindo novamente as trancas que já tinha verificado.
Quando chegou à porta da frente, seus ombros relaxaram. Mais um dia terminado. Ela trancou a porta e virou-se para o corredor —
“Água… por favor…”
A voz vinha do fundo da clínica. Da sala de consulta escura no final do corredor — aquela que Evelynn não tinha verificado. Porque ninguém nunca a usava.
Ela se virou bruscamente na direção do som.
Um homem estava parado logo na entrada da sala, com um ombro apoiado na parede. Ele era alto, sua estrutura larga quase preenchendo o espaço estreito. Sua camisa — amassada, mas inequivocamente bem feita — estava aberta no colarinho, como se ele a tivesse afrouxado por desespero. Cabelos escuros caíam desordenados ao redor de seu rosto.
Ele era mais velho. Mais velho que ela, certamente — mas não marcado pela idade. As linhas gravadas em suas feições falavam de experiência, não apenas de anos.
“Meu Deus, senhor.” Evelynn apressou-se até ele, o instinto superando a surpresa. “Eu não o vi aí. Você está bem?”
Ele ergueu a cabeça lentamente. Seus olhos encontraram os dela, nublados de exaustão, entrelaçados com alívio.
“Água”, ele sussurrou novamente. “Por favor.”
Seus olhares se cruzaram — e algo em Evelynn parou. Por um batimento cardíaco, a sala pareceu desaparecer. O olhar dele prendia o dela, âmbar e dourado, firme apesar da dor estampada em seu rosto. Havia tristeza ali, sim — mas por baixo dela, inconfundível e viva, havia algo mais gentil. Algo que a via.
Ela desviou o olhar primeiro, com o calor subindo às bochechas, e sua visão caiu sobre os ferimentos que marcavam a pele dele.
Arranhões. Abertos. Inflamados. O que quer que o tivesse trazido ali, não tinha sido por escolha — e não podia esperar.
“Vou pegar um pouco de água para você”, disse Evelynn. “Por favor, venha comigo.”
Ela estendeu a mão para ele. O toque de seus dedos contra os dele enviou um leve choque através dela, inesperado e inegável, e ela apertou o contato, guiando-o para frente.
Ele se inclinou para ela imediatamente. Seu peso era sólido, instável, muito mais pesado do que ela esperava, e ela se preparou instintivamente, sua estrutura esguia mantendo-se firme. Ela se recusou a deixá-lo cair. O ar ao redor dele trazia o rastro rico de colônia, mas abafado pelo suor e pelo sangue. A respiração dele roçou a curva do pescoço dela — quente, irregular — e a sensação provocou um leve clarão de calor em sua calma cuidadosamente mantida.
Juntos, eles seguiram pelo corredor até a sala de exames mais próxima.
Ele desabou na mesa com um baque surdo, o som ecoando. Ao se recostar, suas mãos subiram para proteger os olhos, fosse da luz fluorescente forte ou de algo mais pesado, ela não conseguia dizer. Seus ombros caíram, a exaustão se instalando nele como se cada respiração fosse arrancada de seu peito.
Evelynn correu para a pequena copa e encheu um copo de papel com água fresca. Quando retornou, ela o segurou firme enquanto a mão dele se fechava ao redor da borda.
Seu olhar caiu sobre os dedos dele — e ela travou. Suas unhas estavam irregulares, cruas, como se tivessem sido arrancadas e apenas metade tivesse crescido novamente. Um calafrio percorreu sua espinha.
Ele bebeu rapidamente, rápido demais, esvaziando o copo em longos goles. Quando ele o baixou, sua respiração estava mais regular, embora sua voz permanecesse áspera. “Obrigado.”
“De nada”, ela disse, pegando o copo vazio dele.
Sob as luzes brilhantes, suas feições ficaram mais nítidas. A força de seu maxilar. A largura de seus ombros, mesmo caídos pela exaustão. Seus olhos prenderam a atenção dela novamente — firmes, atentos — e por um momento fugaz ela se perguntou como seriam se estivessem suavizados por um sorriso. O pensamento a surpreendeu. Ela o afastou.
“Você está com muita dor”, ela disse suavemente. “Meu nome é Evelynn. Sou enfermeira.” Ela encontrou o olhar dele. “Posso examinar seus ferimentos de perto e tratá-los?”
“Eu ficarei bem. Só precisava da água”, disse ele.
“Mas, senhor...”
Ele exalou lentamente, com os olhos voltando para os dela. Qualquer resistência à qual ele estivesse se apegando pareceu esvair-se, seus ombros relaxando conforme ele cedia. “Tudo bem”, disse ele. “Vá em frente. Tente.”
Evelynn franziu a testa. Um formigamento silencioso de desconforto instalou-se em seu peito. Ela tratara incontáveis ferimentos ao longo dos anos, mas algo naqueles cortes crus e inflamados parecia diferente. Antinatural. A tensão no ar parecia pressionar, pedindo cautela. Ainda assim, ela não hesitou.
“Você poderia, por favor, tirar a camisa?”, ela pediu, com o tom firme e profissional.
Ele assentiu levemente e levou a mão aos botões. Seus dedos tremiam, desajeitados e pouco colaborativos, e cada pequeno movimento arrancava uma careta de dor de seu rosto.
Sem pensar, Evelynn deu um passo à frente.
“Você tem algum Painex?” A interrupção rouca a parou. Ela congelou no meio do passo, então recuou lentamente, reconhecendo o limite que ele havia desenhado sem palavras.
“Os analgésicos? Sim, mas estamos ficando sem. O palácio tem estocado Painex há eras.” Ela balançou a cabeça. “Na verdade, enviei dezenas de cartas, mas sem resposta. Não consigo entender por que precisariam de tudo isso. Meu único palpite é que o casamento do Rei está chegando, e talvez a noiva tenha um temperamento difícil...”
Ele pausou, e quando olhou para cima, um sorriso torto puxou o canto de sua boca. “Ou talvez eles estejam se preparando para a lua de mel.”
Evelynn bufou, tapando a boca com a mão. “O quê, tipo romance, deveres reais e um suprimento vitalício para amortecer a dor?”
Uma risada seca escapou dele, mas desvaneceu-se em um chiado de dor enquanto ele puxava outro botão. “Painex é mais barato que o divórcio. Ou foi o que ouvi dizer.”
“É”, disse Evelynn, “talvez eles estejam pensando nos contribuintes pela primeira vez — nos poupando do trabalho.”
“Ou eles estão apenas apostando que ela vai nocauteá-lo primeiro”, disse ele. “Pular a separação complicada e salvar o reino das taxas judiciais.”
O sorriso dela desapareceu enquanto ela o via lutar com os botões, cada puxão claramente custando-lhe caro. Suas sobrancelhas se uniram. “Aqui”, ela disse, aproximando-se. “Deixe-me. Painex ou não, você vai acabar rasgando algo se continuar assim.”
“Tudo bem, mas se eu sangrar em você, a culpa é sua por bancar a heroína.” Ele parou, olhos cautelosos encontrando os dela, então deu de ombros levemente. Quase nenhum movimento — mas o suficiente.
Os dedos de Evelynn trabalharam o próximo botão. “Sangre o quanto quiser. Só não espere que eu o costure com meu último curativo. Vou guardá-lo para quando a noiva invadir aqui exigindo Painex.”
“Melhor escondê-lo então”, disse ele. “Ouvi dizer que ela tem um balanço terrível — e uma pontaria ainda pior.”
Uma risada suave escapou dela enquanto ela lhe entregava alguns comprimidos de Painex e um copo novo de água assim que terminou de desabotoar sua camisa. “E um par para a viagem”, ela acrescentou, colocando os extras no bolso dele com um tapinha gentil.
Enquanto ele engolia os comprimidos, Evelynn voltou para seus suprimentos. Antisséptico. Gaze. Pinças. Panos. Suas mãos moviam-se por instinto — firmes, treinadas. Mas seus pensamentos eram tudo menos isso.
“Deixe-me adivinhar”, disse ele. “Suas cartas para o palácio diziam algo como: Solicito respeitosamente a alocação imediata de Painex adicional para pacientes em necessidade crítica de controle da dor.”
Os olhos de Evelynn se arregalaram — então ela soltou uma risada. “Isso é... quase palavra por palavra. Como você sabia?”
“Não sabia. Só imaginei que esse seja o tipo de carta que uma enfermeira como você escreveria.”
“Bem, é verdade”, disse ela. “As pessoas sentem dor todos os dias. Ninguém deveria ter que suportar isso quando a medicina existe e simplesmente... fica fora de alcance. Tenho muito pouca paciência para quem se coloca entre meus pacientes e o cuidado de que precisam — seja realeza ou não.”
Enquanto dizia essas palavras, Evelynn tornou-se agudamente consciente de quanto espaço ele parecia dominar. Mesmo sentado na mesa de exames, seus ombros largos e sua estrutura poderosa diminuíam o metal estreito abaixo dele. Sua mão pairava logo acima da pele rasgada dele.
Ele olhou para o antisséptico em uma mão e a pomada na outra, estreitando os olhos. “Isso não vai ajudar muito”, disse ele. “Confie em mim — eu saberia.”
“Ah, cale a boca e beba sua água”, ela rebateu. “Não me faça medir sua temperatura do jeito antigo.”
Os olhos dele enrugaram nos cantos, um sorriso passageiro puxando seus lábios antes que ele o escondesse atrás de um gole lento do copo. Quando ele olhou para ela novamente, seu olhar perdurou — vigilante, curioso. E aquele breve vislumbre de um sorriso enviou um tremor indesejado através de seu peito.
Evelynn inclinou-se, o foco aumentando, e despejou antisséptico em um pano limpo. Seus dedos permaneceram firmes apesar do desconforto rastejando sob sua pele. Ela já tratara cortes profundos, feridas infectadas, queimaduras — mas esses ferimentos eram diferentes. Os arranhões eram irregulares, suas bordas estranhamente precisas, como se tivessem sido feitos por algo mais afiado do que uma lâmina.
Seus olhos desviaram para as mãos dele. Suas unhas estavam cruas, gastas quase até a carne viva. Ele não tinha feito aquilo sozinho.
Então, o que — ou quem — tinha?