Onde os Afogados Retornam

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Resumo

Em uma ilha amaldiçoada onde mergulhadores funerários resgatam afogados de antigos túneis marítimos, uma jovem desperta sem memória de quem é. Os habitantes da cidade a temem, pois ninguém sobrevive ao redemoinho que devora navios além de sua costa. Mas, à medida que mais corpos são trazidos das profundezas, fragmentos de seu passado começam a retornar e, com eles, uma verdade aterrorizante ligada à ilha, ao redemoinho e aos pais desaparecidos do mergulhador que a salvou.

Gênero
Mystery
Autor
cloudxy
Status
Completo
Capítulos
33
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

The Girl Beneath the Sea

Ela acordou engasgada com sal.

Por um momento terrível, pensou que ainda estava se afogando. Ela se sentou abruptamente, tossindo muito, com uma das mãos pressionada contra o peito enquanto o ar arranhava seus pulmões. Tudo doía. A garganta, as costelas, a nuca. O vestido estava colado à pele, encharcado de água salgada e frio o suficiente para fazê-la tremer.

Então, ela olhou para cima.

E esqueceu como respirar.

Um oceano pairava sobre ela.

Água salgada e escura pressionava um teto curvo de vidro grosso, transformando o túnel acima em um céu negro e movediço. Luzes âmbar brilhavam fracas ao longo das paredes e do chão, seus reflexos tremulando no mar acima. Sombras vagavam pela água — formas grandes e silenciosas que desapareciam antes que ela pudesse entender o que eram.

Ela congelou.

O túnel estendia-se em ambas as direções, longo e escuro, com as paredes cobertas de umidade. Canos enferrujados corriam por um dos lados. Água pingava constantemente em algum lugar à frente. O ar cheirava a sal, metal e pedra molhada.

Onde estou?

A pergunta surgiu primeiro.

A segunda foi pior.

Quem sou eu?

Ela buscou uma resposta e não encontrou nada.

Sem nome. Sem rosto. Sem lembrança de casa. Sem motivo para estar ali, deitada sob um oceano em um túnel de vidro. Sua mente lhe deu apenas vazio e, sob esse vazio, pânico.

Então, ela viu um movimento.

No fim do túnel, três figuras em trajes impermeáveis amarelos surgiram da luz fraca. Seus rostos estavam escondidos atrás de viseiras escuras. Eles se moviam com o ritmo calmo e praticado de quem faz um trabalho que conhece muito bem.

Eles arrastavam fardos longos embrulhados em tecido preto.

A princípio, sua mente se recusou a entender o que estava vendo.

Então, um dos fardos bateu em uma emenda no chão e rolou levemente.

O tecido se esticou sobre a forma abaixo.

Um ombro.

A curva romba de um crânio.

Um corpo humano.

Seu grito ecoou pelo túnel.

Os mergulhadores pararam.

O mais alto deles soltou a corda que segurava e olhou imediatamente para ela. Mesmo à distância, sem rosto por trás da viseira preta, sua atenção parecia afiada e imediata.

Então, ele começou a vir em sua direção.

Lentamente. Com cuidado.

Ela correu.

Seus pés descalços batiam contra o chão de metal frio. O vestido molhado prendia em seus joelhos, mas ela se forçou a seguir em frente. As luzes âmbar passavam como um borrão. Acima, o mar mudava em ondas lentas e esmagadoras.

Atrás dela, vinha o som constante de botas batendo no chão.

Sem pressa.

Sem pânico.

Com certeza.

“Fiquem longe de mim!”, ela gritou, com a voz embargada. “Não me toquem!”

Nenhuma resposta veio.

Apenas aquelas botas diminuindo a distância.

O túnel fez uma curva inesperada. Ela escorregou no chão molhado e bateu o ombro contra a parede. Uma dor lancinante percorreu seu braço. Ela se impulsionou e continuou, tropeçando agora.

Uma mão enluvada agarrou seu pulso.

Ela gritou e se contorceu com força, arranhando a luva de borracha grossa, tentando se soltar. O mergulhador a segurou facilmente, forte o bastante para contê-la sem esforço, mas não a jogou no chão nem a arrastou para trás. Ele apenas a manteve em pé enquanto ela lutava.

“Me solta!”

Ele ergueu a mão livre, com a palma voltada para fora.

Calma.

Ela não conseguia.

Ele disse algo, mas as palavras saíram abafadas pelo capacete, baixas e distorcidas. Ela não entendeu nada.

Então, ele olhou por cima do ombro e sinalizou para os outros.

Um dos outros mergulhadores passou por eles apressado em direção a uma porta de aço na parede do túnel. Um teclado brilhou em verde. A trava abriu com um chiado, e um ar quente inundou o corredor.

O mergulhador alto afrouxou o aperto e mudou a mão para o cotovelo dela.

Não a arrastava.

Ele a guiava.

Isso a assustou de uma forma diferente.

Ela arriscou um único olhar para trás.

Havia quatro sacos mortuários de tecido no chão do túnel agora, escuros de água salgada. Um deles havia se movido o suficiente para que o contorno de uma cabeça ficasse evidente sob o tecido. Outro estava manchado de um tom mais escuro no peito. Quando um dos sacos foi puxado para o lado, o peso morto lá dentro rolou com uma inércia terrível.

Seu estômago revirou.

O mergulhador pausou, esperando até que ela pudesse ficar de pé novamente.

Então, ele a guiou para a porta aberta.

Ela odiava ter se deixado levar.

A sala adiante estava clara o suficiente para machucar seus olhos depois do túnel. Mesas de aço ficavam sob lâmpadas suspensas. Bancos, cordas, lanternas e equipamentos de mergulho revestiam as paredes. A água escoava por ralos no chão.

E, ao longo do lado oposto da sala, havia mais corpos.

Alguns estavam selados em sacos de tecido preto, como os do túnel. Outros haviam sido abertos. Ela viu um pé pálido, cinzento de frio. Cabelo molhado saindo de um tecido rasgado. Uma mão caída, com os dedos meio dobrados.

Ela parou bruscamente.

O mergulhador ao seu lado a segurou antes que seus joelhos cedessem.

Acima das macas, havia fileiras de placas de madeira escura esculpidas com nomes.

Dezenas.

Talvez centenas.

Um lugar para os mortos.

Uma voz feminina veio do fundo da sala. “Ela acordou?”

Um momento depois, uma mulher de meia-idade vestindo um casaco de oleado surgiu. Seu rosto era marcado e curtido, do tipo que aprendeu a carregar o luto sem demonstrar muito. Ela olhou primeiro para o mergulhador.

Depois, para a garota.

Algo na expressão dela mudou.

Não era choque.

Era algo mais próximo de pavor.

“Ela não deveria estar de pé”, disse a mulher.

A garota encontrou sua voz. “Que lugar é este?”

A mulher não respondeu. Ela se aproximou, lenta e cuidadosa, como quem se aproxima de um animal ferido.

“Pode me dizer o seu nome?”

A pergunta caiu como um golpe.

A garota abriu a boca.

Nada saiu.

Sem nome. Nem sequer o vislumbre de um.

O rosto da mulher se contraiu. “Você não se lembra.”

Não foi uma pergunta.

A garota balançou a cabeça.

O medo surgiu novamente, mais agudo agora porque tinha contornos. Corpos. Pessoas estranhas. Um quarto abaixo do mar. Nenhuma memória.

“Quem é você?”, ela exigiu. “Por que estou aqui?”

Antes que a mulher pudesse responder, uma buzina soou lá fora.

Grave. Longa. Lúgubre.

O ambiente todo mudou de uma vez.

Um dos mergulhadores praguejou e foi buscar lanternas novas. A mulher virou-se para uma estante e calçou luvas. O mergulhador alto ao lado da garota soltou o braço dela e virou-se para a porta.

“O que é isso?”, a garota perguntou.

“A buzina de resgate”, disse a mulher.

A garota franziu a testa. “Resgate de quê?”

A mulher calçou a segunda luva. “Outro corpo.”

As palavras pareceram esvaziar a sala.

Outro corpo.

Significando que aquilo acontecia com frequência.

A garota olhou em volta novamente — as macas, as placas, os sacos de corpos, a água do mar ainda pingando através da porta aberta.

“Isso é um necrotério”, ela sussurrou.

“Não”, disse a mulher. “Uma estação de recuperação. Os mergulhadores trazem os afogados pelos túneis inferiores. Então, nós os levamos para casa.”

Casa.

A palavra se contorceu dolorosamente dentro dela.

O mergulhador alto tinha virado meio caminho para a porta quando ela notou o sangue em suas luvas, seco e escuro nas costuras da borracha amarela.

Ele seguiu o olhar dela.

Pela primeira vez, ele hesitou.

Então ele levou as mãos ao pescoço e desfez os fechos.

A mulher olhou bruscamente para ele. “Arin—”

Tarde demais.

Ele removeu o capacete.

Cabelos pretos molhados grudavam em sua testa. Ele era mais jovem do que ela esperava, talvez apenas alguns anos mais velho que ela. Seu rosto era magro e pálido, marcado por uma fina cicatriz através de uma das sobrancelhas. Seus olhos eram cinza-azulados, como a água do mar sob nuvens de tempestade, e pesados de exaustão.

Ele não parecia cruel.

Ele parecia exausto.

“Você foi encontrada no túnel de vidro inferior”, disse ele. Sua voz, sem o capacete, era baixa e áspera. “Sozinha.”

Ela o encarou.

“Havia destroços acima da trincheira”, ele continuou. “Madeira de um mastro. Caixas quebradas. Lona de vela.”

Algo rasgou sua mente.

Água escura.

Madeira estilhaçando.

O vento uivando sobre as ondas.

Uma voz gritando—

Ela arfou e cambaleou para trás, com uma das mãos voando para a têmpora. As imagens desapareceram tão rápido quanto vieram, deixando apenas dor.

Arin deu um passo em sua direção, mas se conteve. “O que você lembrou?”

“Eu não sei”, ela sussurrou. “Eu não sei.”

A buzina soou novamente.

A mandíbula de Arin se contraiu. O dever o chamava. Os outros mergulhadores já estavam se movendo em direção à porta com macas e lanternas.

Ainda assim, antes de se virar, ele olhou para ela.

“Eu sou o Arin”, disse ele. “Fique nesta sala.”

“Por quê?”

Desta vez, a mulher respondeu.

“Porque ninguém sobrevive ao redemoinho.”

A frase caiu pesada.

Ninguém sobrevive.

Então, por que ela estava ali?

Seu olhar vagou, desfocado, até se fixar em algo sobre uma mesa de aço perto da parede. Alguém o colocara ali para secar sob uma lâmpada.

Um pingente.

Prata. Em forma de crescente. Pendurado em uma corrente quebrada.

Ela ficou imóvel.

O quarto pareceu desaparecer ao seu redor. Os corpos, a buzina, os mergulhadores, o mar acima — tudo desmoronou diante da força de um reconhecimento repentino.

Ela conhecia aquele pingente.

Ela ainda não sabia seu próprio nome.

Mas ela conhecia aquele pingente.

As mãos de uma mulher prendendo o fecho.

Uma voz calorosa.

Um sorriso que ela quase conseguia lembrar—

A memória desapareceu antes que pudesse se formar por completo.

A garota soltou um som baixo e dolorido.

Ele tinha pertencido à sua mãe.

Um frio percorreu seu corpo.

Lá fora, no túnel, ouviu-se o arrastar de outro saco de corpo de lona sobre o metal. Vozes se elevaram acima do som, urgentes e tensas.

Uma palavra ecoou claramente na sala.

“Comerciante!”

Seus joelhos quase cederam.

Se o pingente tinha vindo dos destroços—

Então os mortos que eles estavam trazendo podiam ser sua família.

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