O Valor de Sua Segunda Vida

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Resumo

Uma mulher que morre tragicamente desperta com uma segunda chance na vida. Em sua vida passada, ela foi abusada e explorada por sua madrasta, seu meio-irmão e suas meio-irmãs, que a forçavam a entregar seu salário enquanto a tratavam com crueldade e desprezo. Após reencarnar, ela ganha um misterioso sistema de jogo e uma habilidade rara: ela consegue detectar o valor real de qualquer item que toca. O que começa como uma ferramenta de sobrevivência logo se torna a base de sua ascensão ao poder.

Gênero
Drama
Autor
cloudxy
Status
Completo
Capítulos
47
Classificação
5.0 1 avaliação
Classificação Etária
16+

Acordei no Meu Próprio Funeral

Acordei porque alguém estava chorando.

Não era um choro suave. Nem um choro bonito. Era o tipo feio — o tipo que rasgava o corpo em soluços entrecortados e sufocados.

Por um segundo de vertigem, pensei que fosse eu.

Então percebi que estava deitada em algo duro.

Seda fria tocou meus dedos. Meu corpo inteiro parecia leve e estranho, como se tivessem me despejado de volta nos meus ossos rápido demais.

Minhas pálpebras se abriram com esforço.

Flores brancas.

Velas.

Um retrato emoldurado de mim, sorrindo com uma blusa social azul-marinho que eu detestava.

E logo acima de mim, meu próprio rosto morto refletido na tampa polida de um caixão.

Meu grito escapou antes que eu pudesse contê-lo.

O choro parou.

Um vaso se quebrou.

Alguém gritou: “Fantasma!”

Sentei-me tão rápido que minha cabeça bateu na tampa entreaberta do caixão, e uma dor explodiu pelo meu crânio. O quarto girou. Fileiras de coroas de flores se misturaram. O incenso sufocava o ar. Três senhoras de preto quase caíram umas sobre as outras tentando fugir.

Na frente, ajoelhada ao lado de uma pilha de oferendas de papel, minha madrasta ficou pálida como um lençol.

“Não”, ela sussurrou.

Sua mão ainda estava pressionada dramaticamente contra o peito, mas as lágrimas em suas bochechas já haviam secado.

Claro.

Mesmo no meu funeral, ela não conseguia chorar de verdade.

Eu conhecia aquele rosto.

Liu Mei. A segunda esposa do meu pai. A mulher que me chamava de filha em público e de parasita no particular.

Atrás dela estavam seus preciosos filhos — meu meio-irmão Jian, minha meia-irmã Lili e a mais nova, Anya — todos me encarando como se eu tivesse saído do inferno só para arruinar o dia deles.

Provavelmente era isso mesmo.

A última coisa que lembrei foi da chuva.

O som estridente de uma buzina.

Meus saltos baratos escorregando da calçada enquanto eu corria após sair de mais um turno noturno. Minha madrasta tinha me enviado trinta e sete mensagens em uma única noite perguntando onde estava minha transferência de salário. Jian precisava de dinheiro para uma “oportunidade de negócio”. Lili precisava de procedimentos estéticos. Anya queria uma bolsa de marca porque todas as suas amigas tinham uma.

Eu tinha trinta e dois anos e ainda vivia como uma serva.

Todo mês eu trabalhava. Todo mês eu entregava quase tudo para eles.

Porque, depois que meu pai morreu, Liu Mei pegou a casa, as contas, as ações da empresa — tudo. Ela me disse que papai tinha deixado dívidas. Ela disse que, se eu não sustentasse a família, o banco tomaria a casa e todos nós ficaríamos nas ruas.

Ela chamava isso de dever filial.

O que era, na verdade, uma coleira.

Lembrei dos faróis do caminhão.

O impacto violento.

Minhas costelas estalando como galhos secos.

Depois, a escuridão.

E agora —

Viva.

Ou não viva. Não totalmente. Algo mais estranho.

Uma tela azul brilhou na frente dos meus olhos.

[Sistema ativado.]

Prendi a respiração.

A tela era translúcida, suspensa no ar como luz em vidro.

[O anfitrião atingiu as condições de reencarnação.]

[Nível de ressentimento: Crítico.]

[Desejo de sobrevivência: Extremo.]

[Índice de carência financeira: Fora das paradas.]

Uma pausa.

Então:

[Parabéns.]

[Você obteve uma habilidade inicial: Detecção de Valor.]

[Agora você pode perceber o valor de mercado estimado, autenticidade, defeitos ocultos e potencial de lucro latente de objetos selecionados.]

Eu encarei aquilo.

Depois, o quarto.

Então, de volta às palavras flutuantes.

Eu tinha enlouquecido.

Isso, honestamente, seria menos chocante do que acordar no meu próprio funeral.

“V-você...” Lili apontou para mim com uma unha vermelha trêmula. “Você estava morta!”

“Eu estava”, disse com a voz rouca.

Minha garganta ardia. Minha voz soava estranha aos meus ouvidos — mais áspera, mais fria.

Olhei para mim mesma.

Eu usava o vestido creme que Liu Mei certa vez disse que era “decente demais para ser desperdiçado comigo”. Minhas mãos estavam pálidas e finas, mas com as articulações arranhadas. Meu pulso martelava sob a pele.

Este era meu corpo.

Meu antigo corpo.

Meu corpo morto.

Um padre no canto se benzeu tão rápido que quase se deu um tapa no rosto.

Então Liu Mei se recuperou primeiro, porque cobras sempre fazem isso.

Seus olhos brilharam, calculistas.

Se eu estava viva, então não haveria seguro a receber. Nem doações de condolências. Nenhuma chance de vender minha morte para as amigas dela como uma trágica viuvez por associação.

Ela se levantou cuidadosamente, alisando sua saia de seda preta.

“Xinyi”, ela disse, forçando a voz a soar doce. “Graças aos céus. Você nos assustou. Você deve ter desmaiado, só isso. Desça agora. Não faça um escândalo na frente dos convidados.”

Fazer um escândalo.

Eu quase ri.

Saí do caixão descalça, com os joelhos tremendo. Todos se afastaram de mim. O chão era de mármore frio. Meus dedos dos pés se contraíram contra ele.

A tela piscou novamente.

[Tarefa de tutorial inicial disponível.]

[Toque em um objeto para detectar o valor.]

Recompensa: 10 EXP, 1 Ponto de Habilidade, subsídio inicial de 500 RMB.]

Engoli em seco.

Se eu estava alucinando, era melhor levar isso até o fim.

O objeto mais próximo era o pingente de jade pendurado no pescoço de Liu Mei — aquele que ela costumava se gabar ser uma herança que meu pai comprou para ela em Hong Kong.

Estendi a mão.

Ela deu um tapa na minha mão instantaneamente. “O que você está fazendo?”

Mas foi o suficiente.

Um zumbido agudo vibrou atrás dos meus olhos.

Palavras surgiram na minha visão ao lado do pingente.

[Pingente de jade nefrita de baixa qualidade.]

Valor estimado: 480 RMB.]

Autenticidade: Jade real, baixa qualidade.]

História de compra alegada pela proprietária: “Uma herança rara que vale mais de 300.000.”]

Classificação de verdade: Falsa.]

Potencial de lucro: Nenhum.]

Eu a encarei.

Minha risada saiu antes que eu pudesse impedir.

Um som pequeno e quebrado. Perigoso.

“O quê?” Liu Mei disparou.

“Aquele pingente”, eu disse, com a voz tremendo de algo mais sombrio que o medo. “Vale menos de quinhentos.”

O quarto ficou em silêncio.

Liu Mei congelou.

Lili zombou. “Você perdeu o juízo?”

Eu me aproximei, porque agora que tinha começado, não conseguia parar. “E não é uma herança. Papai não comprou em Hong Kong. Você mesma comprou em um quiosque de shopping em promoção e mentiu sobre isso por dez anos.”

O rosto dela empalideceu.

Ao nosso redor, os convidados murmuravam.

“Como você sabe disso?” Jian latiu.

Eu olhei para ele.

O mesmo relógio caro. O mesmo cabelo engomado. O mesmo rosto que costumava zombar enquanto tirava o cartão de salário da minha mão.

Toquei o relógio em seu pulso antes que ele pudesse me impedir.

[Réplica de relógio de luxo.]

Valor estimado: 1.300 RMB.]

Valor alegado pelo usuário: 210.000 RMB.]

Autenticidade: Falso.]

Nota oculta: Comprado com dinheiro transferido da conta de salário do anfitrião há 14 meses.]

Meus pulmões travaram.

Meu salário.

As horas extras que trabalhei com febre. Os fins de semana que sacrifiquei. As refeições que pulei.

Ele comprou um relógio falso com o meu sangue.

“É falsificado”, eu disse baixinho.

A expressão de Jian se desfez. “Cala a boca.”

“E você comprou com o meu dinheiro.”

A mão dele vacilou, como se quisesse me bater.

Pela primeira vez na vida, eu não recuei.

Talvez porque eu já tivesse morrido uma vez.

Talvez porque uma parte de mim ainda estivesse deitada sob os faróis, na chuva.

Ou talvez porque eu finalmente entendi que o medo era do que eles sempre se alimentaram.

Liu Mei forçou uma risada. “Ela está desorientada. Xinyi, pare de passar vergonha.”

Vergonha.

Essa palavra de novo. Sempre usada contra mim. Nunca contra eles.

Olhei além dela, para a mesa funerária.

Minha fotografia.

O incenso.

Os presentes de pêsames falsos.

Então eu vi — uma caixa de madeira laqueada perto das oferendas, provavelmente trazida por algum parente distante. Comum. Empoeirada. Fácil de ignorar.

Mas, aos meus olhos, ela brilhou como ouro.

Pisquei com força.

O sistema destacou o objeto.

[Detectado: Objeto com valor potencialmente subestimado.]

Meu coração disparou.

Sem pedir licença, caminhei até lá e peguei a caixa.

“Larga isso!”, gritou uma tia.

Eu a abri.

Dentro, havia um antigo selo de aparência rudimentar, escurecido pelo tempo, enrolado em um tecido desbotado.

Imediatamente, um painel mais brilhante explodiu diante da minha visão.

[Item Detectado: Selo de estudioso em madeira Huanghuali, final da dinastia Qing.]

[Valor de mercado estimado: 2.800.000 RMB.]

[Autenticidade: Alta.]

[Condição: Boa.]

[Canais de venda ideais bloqueados até o Nível 3.]

[Nota histórica: Proprietário original ligado à família de um magistrado provincial.]

Prendi a respiração.

Dois milhões e oitocentos mil.

Minhas mãos tremeram.

Aquela quantia era mais dinheiro do que eu tinha visto em anos. Mais do que jamais me permitiram guardar. Mais do que o suficiente para escapar.

A parente que trouxe o objeto — uma tia-avó curvada, usando óculos grossos — piscou para mim. “Ah? Aquilo? Encontrei no depósito do seu pai. Achei que fosse tralha e trouxe como recordação.”

O depósito do meu pai.

Um calafrio percorreu meu corpo.

Porque Liu Mei tinha me dito que meu pai não deixou nada.

Nada além de dívidas. Nada além de fardos. Nada além de motivos para eu obedecer.

Mas se algo assim tinha sido deixado para trás...

O que mais ela tinha escondido?

Liu Mei viu meu rosto e avançou. “Dê isso aqui.”

Desviei da mão dela.

“Não me toque”, eu disse.

Ela parou.

Todos os outros também pararam.

Por causa da minha voz.

Eu nunca tinha falado com ela daquele jeito antes.

Nem uma vez.

A vida inteira, eu pedi desculpas. Me curvei. Aguentei.

Agora, algo frio e feroz se desenrolava dentro de mim.

Levantei o olhar e encarei o dela.

“Você me disse que meu pai morreu falido”, falei calmamente. “Disse que não sobrou nada. Disse que eu tinha que entregar meu salário porque estávamos nos afogando.”

A boca dela se abriu.

Nenhum som saiu.

A sala ficou em um silêncio aterrorizante, como uma floresta antes da tempestade.

“Xinyi...”, ela começou.

“Não”, eu disse. “Você fala demais todos os dias. Hoje, você escuta.”

Jian deu um passo à frente. “Chega disso.”

Eu sorri para ele.

Isso o fez parar na hora.

Porque não era meu sorriso antigo.

Era o tipo de sorriso que se dá antes de enfiar uma lâmina.

“Eu estava morta dez minutos atrás”, eu disse. “Você realmente quer testar minha paciência agora?”

Até o padre fez um barulho de espanto.

A tela azul soou um aviso.

[Tutorial Concluído.]

[EXP +10.]

[Ponto de Habilidade +1.]

[Subsídio Inicial Desbloqueado: 500 RMB.]

[Subir de Nível: Nv. 1 → Nv. 2.]

Outra linha apareceu.

[Nova Característica Passiva Desbloqueada: Micro-Insight.]

[Agora você pode receber informações importantes ocasionais relacionadas a pessoas próximas, transações e oportunidades.]

Então, abaixo do rosto atônito de Liu Mei, um texto vermelho cintilou.

[Informação Importante: A sujeita Liu Mei transferiu fundos ocultos da conta empresarial do pai falecido para nomes de terceiros ao longo de 9 anos.]

[Testemunha principal ainda viva.]

Meu sangue congelou.

Testemunha?

Viva?

Todos esses anos...

Olhei para Liu Mei, realmente olhei, e pela primeira vez não vi uma madrasta cruel, nem uma mulher que me desprezava, mas uma ladra parada sobre um túmulo.

Meu pai não tinha simplesmente morrido e me deixado desamparada.

Ele tinha sido roubado antes.

E, de repente, uma memória se abriu bruscamente em minha mente —

Meu pai ao telefone, duas semanas antes de morrer, com a voz tensa.

“Se algo acontecer comigo, não confie...”

A memória cortou ali, abafada por anos de exaustão e medo.

Meus joelhos quase cederam.

Eu tinha esquecido.

Ou me forcei a esquecer.

Liu Mei viu a mudança no meu rosto e soube, de alguma forma, que algo tinha mudado para sempre.

A expressão dela endureceu.

Não era luto. Não era alívio. Era pânico.

O que significava que eu estava certa.

Meu pai não tinha sido apenas enganado.

Havia mais.

Muito mais.

Fechei lentamente os dedos em torno do selo do estudioso.

Ao meu redor, os convidados do funeral sussurravam como folhas secas.

Alguém disse: “Chamem a polícia.”

Outra pessoa murmurou: “Sempre achei aquela mulher estranha.”

Os lábios de Lili se curvaram. “Você acha que acordar uma vez te faz especial?”

Me virei e olhei para ela.

O sistema brilhou sobre o rosto dela também.

[Informação Importante: A sujeita Lili está negociando casamento com um noivo rico sob identidade falsa e dívidas ocultas.]

Interessante.

Muito interessante.

Meu pulso se acalmou em algo assustadoramente sereno.

Eu tinha morrido pobre, obediente e sem amor.

Eu tinha acordado dentro do meu próprio caixão.

E agora o mundo estava cheio de preços, mentiras, segredos e portas.

Pela primeira vez na vida, eu podia vê-los.

Não apenas o valor das coisas.

O valor das pessoas. Seus pontos fracos. Suas máscaras. Seu desespero.

Desci da plataforma funerária e deslizei o tesouro escondido do meu pai para dentro da minha bolsa.

Ninguém ousou me parar.

Quando cheguei à porta, fiz uma pausa sem olhar para trás.

“Vocês deveriam ter me tratado melhor”, eu disse.

Minha voz ecoou pelo salão carregado de incenso.

Calma. Letal.

“Porque este é o último dia que qualquer um de vocês estará acima de mim.”

Então, saí do meu próprio funeral e entrei na minha segunda vida.

Atrás de mim, Liu Mei finalmente gritou meu nome.

Mas, a essa altura, eu já estava sorrindo.

Porque, em algum lugar desta cidade, a verdade do meu pai ainda estava viva.

E eu cansei de morrer por pessoas que mereciam perder tudo.