MAJOR DA MEIA-NOITE: LIVRO 2

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Resumo

LIVRO 2

Gênero
Fantasy
Autor
M. M.
Status
Completo
Capítulos
30
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

1


Maya acordou dentro de uma nuvem.

Não uma nuvem metafórica. Uma nuvem real, física e absurdamente macia de cobertores brancos que pareciam ter sido tecidos com dinheiro e arrogância. O tecido roçava sua pele como um sussurro. O calor a envolvia tão completamente que, por um segundo de felicidade, ela esqueceu que a última coisa de que se lembrava era de um monstro negro como a noite transformando três ursos de gangue em uma aula de história.

Então, seu cérebro voltou a funcionar.

A dor veio primeiro — uma pulsação feia e insistente atrás dos olhos, como se alguém estivesse praticando bateria dentro do seu crânio. Sua boca estava seca. Seus membros pareciam pesados; não apenas cansados, mas... carregados, como se ela tivesse corrido uma maratona na neve e depois tentado discutir com as leis da física.

Ela piscou.

O teto acima dela não era o gesso agressivamente triste do dormitório Hawthorne.

Era abobadado.

Alto.

Arquitetônico.

O tipo de teto que pertencia ao saguão de um hotel ou a um prédio de propriedade de pessoas que dizem “foyer” sem ironia.

Maya ficou encarando por um longo momento, esperando que sua mente oferecesse uma explicação racional.

Ela falhou espetacularmente.

Ela virou a cabeça.

Janelas do chão ao teto. Uma vista do horizonte que olhava para Crestwood como se o campus fosse um diorama construído para o entretenimento de outra pessoa. Lá embaixo, os prédios de pedra da universidade permaneciam na escuridão do inverno, quietos, bonitos e mentindo absolutamente sobre tudo.

Uma lareira rugia no canto, lançando uma luz alaranjada sobre móveis pretos elegantes, pedras polidas e um tapete tão espesso que parecia ser possível perder um animal de estimação nele.

O quarto cheirava levemente a fumaça de inverno e café queimado.

E — por baixo disso — algo mais cortante.

Pinheiro. Chuva. Um rastro de algo selvagem.

Seu estômago revirou.

Ela tentou se sentar e imediatamente se arrependeu de estar viva.

Um pequeno gemido escapou dela.

O quarto congelou.

Não o cômodo em si.

As pessoas nele.

Os olhos de Maya dispararam para frente.

Havia uma cadeira perto da cama.

Silas estava sentado nela, como se tivesse sido esculpido ali pela culpa e pela insônia. Calça de moletom. Sem camisa. O cabelo estava uma bagunça. Seus cotovelos estavam nos joelhos, as mãos fechadas com tanta força que os nós dos dedos estavam pálidos. Ele parecia completamente privado de sono, como se alguém tivesse pegado o conceito de descanso e banido da linhagem dele.

Ele levantou a cabeça lentamente.

Seus olhos estavam humanos agora — âmbar, exaustos, concentrados demais.

Como se ele estivesse esperando ela acordar da mesma forma que alguém espera um veredito.

E perto da porta —

A respiração de Maya falhou.

Jax e Liam estavam parados, rígidos como agentes do Serviço Secreto protegendo um chefe de estado.

Ambos cheios de tatuagens. Ambos construídos como se fossem a violência em forma de moletom.

E ambos seguravam uma bandeja.

Uma bandeja de verdade.

Nela havia: um saco amassado de Funyuns, uma banana e um galão de Gatorade azul neon do tamanho de uma criança pequena.

Maya encarou.

O quarto permaneceu em silêncio de uma maneira muito específica: três predadores alfa prendendo a respiração coletivamente porque uma garota humana tinha se mexido debaixo dos cobertores.

Maya piscou uma vez.

Duas.

Então sua voz saiu rouca e ofendida.

“Me diga que alguém colocou um alucinógeno nas mini quiches.”

Silas estremeceu, como se a frase tivesse o atingido no esterno.

Sua cadeira rangeu quando ele se inclinou um pouco para frente.

“Maya,” ele disse, e sua voz era cuidadosa. Suave de uma maneira que parecia antinatural nele. “Você está segura. Nada vai te machucar.”

Maya encarou-o por dois segundos a mais do que o necessário.

Então ela se sentou abruptamente, agarrando os cobertores contra o queixo como se tivesse sido teleportada para um comercial de colchões de bilionários.

Sua cabeça latejou mais forte.

Ela ignorou.

“Você virou um cachorro,” ela disse, cada palavra nítida com descrença. “Um cachorro muito grande e muito bravo. E você arrancou a perna de um cara.”

Jax fez um som estrangulado, metade tosse, metade reza.

Os olhos de Liam se fecharam brevemente, como se ele estivesse tentando sair do próprio corpo.

Silas ficou visivelmente imóvel.

Sua mandíbula travou. Suas mãos se fecharam uma vez, depois se forçaram a relaxar.

“Lobo,” ele corrigiu, com a voz tensa. “Eu sou um lobo, Maya.”

“Parabéns.”

“E eles eram desleais,” ele disse rapidamente, como se estivesse ensaiando essa frase exata por horas. “Metamorfos desleais. Eles estavam tentando te matar.”

Maya olhou para ele.

Seu cérebro tentou montar as palavras para encontrar um sentido.

Desleais. Metamorfos. Lobo.

Te matar.

Ela olhou além dele para a porta novamente.

Jax e Liam ainda estavam lá, ainda rígidos, ainda segurando a bandeja como se fosse uma oferenda a uma divindade frágil.

Maya apontou para eles.

“Eles também são cachorros? A fraternidade inteira é um canil?”

Jax, pela primeira vez na vida, pareceu sem jeito.

Ele levantou o saco de Funyuns levemente, como se aquilo pudesse explicar sua existência.

“Nós trouxemos lanches?” ele disse. “Não sabíamos o que você come. Silas não deixava a gente sair do quarto para ir ao mercado.”

Liam acrescentou, inexpressivo: “Ele ameaçou quebrar o elevador.”

Silas lançou-lhe um olhar que poderia ter estilhaçado vidro.

Maya pressionou as palmas das mãos contra os olhos.

Seus dedos tremiam.

“Okay,” ela disse lentamente. “Okay. Vamos analisar os fatos.”

Ninguém se moveu.

Nem a lareira parecia estalar.

Maya baixou as mãos.

“Eu tenho uma bolsa de estudos integral,” ela disse. “Eu tenho média 4.0.”

Os olhos de Silas permaneceram fixos nela, como se ele estivesse com medo de que ela desaparecesse se ele piscasse.

“E,” Maya continuou, a voz subindo a cada palavra, “eu estou sentada agora em uma cobertura com um lobisomem que destruiu o smoking dele porque esqueceu de abrir o zíper antes de virar um golden retriever.”

O peito de Silas produziu um estrondo baixo e involuntário.

Não um rosnado.

Não exatamente.

Algo que fez o ar parecer mais denso.

Ele engoliu em seco imediatamente, como se aquilo o envergonhasse.

“Lobo cinzento negro como a meia-noite,” ele disse através de uma contenção rígida. “Predador alfa.”

Maya acenou com uma mão. “Tanto faz. Silas, eu tenho um trabalho de história para entregar na segunda-feira. Não tenho tempo para a Twilight Zone.”

A frase deveria ter sido engraçada.

E foi — por pouco.

Mas, por baixo disso, algo frio mudou.

Porque ela se lembrava da floresta.

Ela se lembrava dos olhos errados no escuro.

Ela se lembrava do som que saiu dele quando os monstros avançaram.

E o pior de tudo —

Ela se lembrava de que, no segundo antes de desmaiar, o lobo negro gigante olhou para ela como se estivesse apavorado de que ela o odiasse.

Maya engoliu em seco.

Sua garganta parecia apertada.

Silas levantou tão rápido que a cadeira raspou.

Ele parou no meio do passo como se percebesse que estava se movendo agressivamente demais, então tentou de novo em um ritmo mais lento, como se pudesse se tornar civilizado novamente andando como uma pessoa normal.

“Maya,” ele disse, “você desmaiou. Você estava com frio. Eu te trouxe para cá porque—”

“Porque você é rico?” ela disparou.

O rosto dele ficou tenso.

“Porque seu dormitório não é seguro.”

Maya ficou muito imóvel.

As palavras soaram diferentes de tudo o resto.

Não românticas.

Não possessivas.

Não “eu quero você no meu espaço.”

Seguro.

Um termo prático que implicava ameaça.

Ela o encarou.

“Por quê.”

Os olhos de Silas dispararam brevemente para Jax e Liam.

Eles se endireitaram, como se aquela fosse a permissão para fingir que não estavam ouvindo, mesmo que estivessem ouvindo absolutamente tudo.

Silas olhou de volta para Maya.

Sua voz baixou.

“Aqueles desleais não eram aleatórios.”

O estômago de Maya afundou.

“Silas.”

“Eles te marcaram.”

Silêncio.

Não era um silêncio dramático.

Era o tipo de quietude que acontece quando o mundo humano racha e você pode ouvir o que está por baixo.

Os dedos de Maya apertaram os cobertores.

Ela queria perguntar por quê. Ela queria exigir nomes, razões, regras.

Ela queria gritar.

Em vez disso, ela disse, de forma muito direta: “Então você me sequestrou.”

Silas estremeceu.

“Eu não—”

“Você fez sim,” disse Maya. “Eu acordei em uma cobertura com lanches de posto de gasolina e três lobos de guarda, como se eu fosse as Joias da Coroa.”

Jax levantou a bandeja um pouco mais, como se os Funyuns pudessem servir como aconselhamento jurídico.

“Nós não somos guardas,” ele sugeriu. “Nós somos mais como... decoração agressivamente preocupada.”

A boca de Liam se contraiu. “Ele ameaçou nos jogar pela janela se saíssemos.”

O olhar de Silas cortou na direção deles.

Ambos os homens ficaram imóveis novamente, no mesmo instante.

Maya encarou Silas.

Então, olhou o quarto todo pela primeira vez.

"Obsceno" nem chegava perto de descrever aquilo.

A suíte era enorme. Limpa demais. Cara demais. Decorada demais.

Uma cozinha com bancadas de mármore que ela provavelmente poderia vender para pagar um semestre inteiro de faculdade.

Uma mesa de jantar longa o suficiente para sediar a assinatura de um tratado medieval.

Um sofá que parecia nunca ter presenciado uma decisão errada na vida.

E, através das janelas, a Crestwood University se estendia lá embaixo como um reino.

Maya soltou o ar lentamente.

“Ok”, ela disse. “Então eu estou acordada. Não morri. Estou na cobertura de um... bilionário lobo.”

Silas começou a falar.

Ela levantou uma das mãos.

“Não. Nem pense. Preciso de um minuto de silêncio para processar essa frase sem que você piore as coisas.”

Silas parou.

Parou de verdade.

Só isso já dizia a ela o quão abalado ele estava.

Maya aproveitou o minuto.

Sua cabeça ainda latejava. Seu corpo ainda parecia esgotado. Mas sua mente estava... ficando afiada agora.

Ela olhou para Silas — sem camisa, sem ter dormido, tenso como um fio prestes a arrebentar.

Ele parecia um homem que tinha lutado contra três monstros, vencido e passado o resto da noite apavorado que a verdadeira luta seria ela acordar.

A voz de Maya veio mais baixa.

“Eu... falei alguma coisa?”

Silas piscou, surpreso com a pergunta.

“O quê?”

“Quando eu apaguei”, ela esclareceu, forçando a voz a permanecer casual, o que era difícil porque seu peito estava fazendo algo humilhante. “Eu gritei? Chorei? Como um ser humano normal?”

A garganta de Silas deu um solavanco.

“Não.”

Maya esperou.

Ele hesitou, como se a próxima parte fosse perigosa.

Então ele disse, muito suavemente: “Você disse que não ia pagar pela suíte.”

Jax soltou um som que foi claramente uma risada e depois tentou fingir que era uma tosse.

Liam baixou o olhar para a bandeja como se a banana tivesse se tornado sagrada de repente.

Maya encarou Silas.

Então, contra toda a lógica, ela sentiu sua boca contrair.

“Bom”, ela disse. “Pelo menos eu mantive minhas prioridades.”

Silas não sorriu.

Ele apenas olhou para ela como se aquela frase tivesse salvo sua vida.

E foi então que Maya percebeu algo que não queria perceber:

Ele se importava.

Não de um jeito normal. Não do jeito de “estamos namorando”. Nem de “paixão de faculdade”.

De um jeito que parecia doer.

Maya pigarreou bruscamente.

“Não”, ela disse, mais alto agora. “Nós não vamos fazer contato visual emocional. De volta aos fatos. Você é um lobo. Eles são lobos.” Ela gesticulou para a porta novamente. “Isso é... uma situação de lobo.”

Os ombros de Silas relaxaram um pouco, grato pela estrutura.

“Sim.”

“E essas coisas — os renegados — tentaram me matar.”

“Sim.”

“Por quê?”

O corpo inteiro de Silas ficou rígido.

Lá estava.

Aquele muro.

O velho segredo ensopado de sangue que sempre surgia bem quando ela chegava perto de algo real.

A raiva de Maya explodiu na hora.

“Ah, não”, ela disse. “Não. Você não vai fazer isso. Não depois que eu vi você se transformar em um monstro de verdade para me salvar.”

Silas deu um passo à frente, depois parou, como se não tivesse certeza se se aproximar iria acalmá-la ou causar uma explosão.

“Maya—”

Ela apontou para ele. “Não me venha com ‘Maya’.”

O maxilar dele se apertou.

Então ele disse, baixo: “Eu não sei por que eles escolheram você especificamente. Ainda não.”

Maya pausou.

Não era a verdade completa.

Mas não era nada.

Ela estudou o rosto dele.

Ele parecia exausto de uma forma que não era apenas falta de sono. Como se estivesse segurando uma tempestade.

“E você me trouxe para cá porque acha que eles virão de novo.”

“Sim.”

Maya respirou fundo.

Depois, de novo.

Suas mãos ainda tremiam, mas sua mente tinha entrado totalmente no modo de sobrevivência agora: observar, avaliar, negociar.

“Ok”, ela disse. “Então eu tenho termos.”

Silas piscou. “Termos?”

“Sim. Termos. Como uma negociação de reféns. Como um contrato de colegas de quarto. Como um ser humano que se recusa a ser mudado de lugar como se fosse um móvel.”

Ela observou a expressão dele mudar. Não era raiva — era algo como alívio, porque regras e acordos eram um terreno mais seguro que a emoção.

“Diga quais são”, ele falou.

Maya levantou um dedo.

“Um: eu não sou sua prisioneira.”

“Você não será.”

“Dois: eu vou continuar indo para a aula.”

Silas se sobressaltou. “Maya—”

Ela levantou o segundo dedo. “Eu disse termos. Se você interromper, adiciono um terceiro termo envolvendo eu anunciar publicamente que você solta pelo.”

Jax fez um som estrangulado no cotovelo.

Os olhos de Liam dispararam para a janela como se estivesse imaginando pular.

A boca de Silas se fechou com uma contenção frustrada.

“Tudo bem”, ele disse. “Aula. Mas com escoltas.”

Maya semicerrou os olhos.

“Vamos negociar isso depois que eu terminar de listar os termos.”

Silas assentiu uma vez, tenso.

Maya levantou o terceiro dedo.

“Três: você responde às minhas perguntas.”

Silas ficou imóvel.

Essa pegou.

“Nem tudo”, ele disse com cautela.

“Então nós renegociamos”, Maya respondeu imediatamente. “Porque eu não vou ficar em uma cobertura com um rei lobo e seus guarda-costas comedores de Funyun enquanto você me mantém no escuro como se eu fosse uma planta decorativa.”

Jax levantou os Funyuns novamente na defensiva. “Esses são premium.”

Maya apontou para ele sem olhar. “Você está proibido de falar a menos que seja engraçado.”

Jax calou a boca.

Silas encarou Maya por um longo tempo.

Então, bem baixinho: “Você está tremendo.”

Maya olhou para suas mãos cerradas nos cobertores.

Irritante.

“Sim”, ela rebateu. “Porque minha visão de mundo explodiu.”

Silas deu outro passo cuidadoso para mais perto.

A voz dele baixou.

“Você não precisa ser corajosa agora.”

A frase foi tão suave que a deixou furiosa por princípio.

“Eu sou sempre corajosa”, ela disse. “Eu só estou cansada também.”

Algo mudou nos olhos dele com isso.

Não era orgulho.

Não era dominância.

Algo que parecia perigosamente com ternura.

Maya odiou aquilo.

Ela desviou o olhar rapidamente e se forçou a voltar aos negócios.

“Agora”, ela disse, “por que estou aqui especificamente, e não em um hospital?”

Silas soltou o ar.

“Porque humanos fazem perguntas em hospitais. Câmeras existem. Registros existem. E—” ele hesitou, depois acrescentou, “seus sinais vitais estavam bem. Você desmaiou por choque e frio.”

Maya encarou. “Então você me avaliou medicamente?”

“Eu... tenho experiência”, ele disse tenso.

Maya semicerrou os olhos. “Isso soou como trauma.”

Silas não respondeu.

Maya guardou isso com uma nota mental irritada intitulada mais tarde, quando eu não estiver vivendo no Além da Imaginação.

“E”, ela continuou, “por que esses dois estão guardando a porta?”

O olhar de Silas passou por Jax e Liam.

“Eles estão aqui porque, se alguém chegar perto de você, eles vão impedir.”

Maya encarou.

“Isso não é nada reconfortante.”

“É a verdade.”

Maya respirou fundo.

Então ela disse, porque era a pergunta real e ela estava farta de rodeios.

“Silas.”

O foco dele se voltou para ela instantaneamente.

“O que eu sou para você?”

O quarto ficou tão silencioso que pareceu que a lareira parou por respeito.

Jax e Liam pareciam querer evaporar.

Silas não se moveu.

Seu peito subiu uma vez, devagar.

E então, porque ele era Silas e guardava aquilo desde a cafeteria, sua resposta saiu como se doesse.

“Minha companheira”, ele disse.

Maya piscou.

Uma vez.

Então ela o encarou com a incredulidade morta de uma estudante universitária falida encarando uma violação cósmica de RH.

“...Então”, ela disse lentamente, “deixe-me ver se entendi. É basicamente um casamento arranjado, mas a biologia fez a papelada.”

Silas piscou como se ela tivesse jogado uma cadeira nele.

“Eu—” Ele parou. “Sim. Acho que sim.”

Maya encarou o teto como se pudesse obter orientação.

“E não tem cláusula de rescisão”, ela continuou, “nenhum formulário para preencher, nenhum terapeuta para recorrer—”

“Maya”, Silas disse, com a voz tensa, “é um vínculo sagrado.”

“Certo. Sagrado.” Ela olhou para ele de volta. “Eu tenho direito a plano odontológico?”

Jax soltou um som que era claramente uma risada e, em seguida, tossiu violentamente para disfarçar.

O rosto de Silas fez algo complicado — pânico, frustração e um leve desamparo que fez o peito de Maya apertar.

“Você não precisa fazer nada”, disse ele, rápido demais. “Você não precisa aceitar isso. Você não precisa—”

Maya o interrompeu.

“Eu tenho um trabalho para entregar na segunda-feira.”

Silas a encarou.

Maya continuou, com a voz subindo de tom.

“Eu tenho provas finais. Tenho uma bolsa de estudos. Tenho contas. Eu não tenho inteligência emocional para ser a outra metade de um rei lobo bilionário.”

Os ombros de Silas caíram um pouco, como se ela tivesse acertado o ponto onde seu medo residia: a possibilidade de ela o rejeitar.

Então ela acrescentou, de forma incisiva: “Mas eu também não quero morrer na floresta.”

Silas levantou a cabeça.

Maya apontou para ele.

“Então, se você está dizendo que alguém me perseguiu e que não estou segura no meu dormitório, tudo bem. Trégua temporária.”

Silas parecia estar prendendo a respiração há um ano.

“Temporária”, enfatizou Maya.

Silas assentiu. “Sim.”

Maya levantou o queixo.

“Então o acordo é o seguinte”, disse ela. “Eu fico aqui — temporariamente — se eu ficar com toda a Ala Leste e ninguém tentar monitorar meus horários de banheiro como se eu fosse um tesouro nacional.”

Jax levantou levemente uma mão. “Nós podemos—”

Maya lançou-lhe um olhar. “Nem tente.”

Jax calou a boca.

Silas assentiu uma vez, imediatamente. “Ala Leste.”

“E”, acrescentou Maya, porque ela ainda era ela mesma, “pare de me oferecer leite como explicação para eventos sobrenaturais.”

Os olhos de Silas piscaram. “Combinado.”

Maya respirou fundo.

Então, por não ser estúpida, ela disse: “E você vai me contar o que sabe sobre por que vieram atrás de mim.”

Silas ficou parado novamente.

Aquela barreira tentou se erguer.

Maya o observou lutar contra isso.

O olhar dele desceu por um segundo para os cobertores, para as mãos dela, para o jeito que a manga do paletó de smoking engolia seu pulso.

Então ele disse, com cautela: “Vou te contar o que eu puder.”

Maya estreitou os olhos. “Isso não é um sim.”

“É o sim mais próximo que posso te dar sem te colocar em mais perigo.”

Maya o encarou.

Então, de forma irritante, ela acreditou que ele falava sério.

Ela odiava isso também.

“Tudo bem”, disse ela. “Vamos começar com uma pergunta.”

Silas assentiu, tenso. “Pergunte.”

Maya manteve o olhar fixo nele.

“Por que aqueles rogues chamaram você de Crestwood como se fosse um xingamento?”

O maxilar de Silas travou.

Ele abriu a boca—

—e parou.

Não porque não soubesse.

Mas porque outra coisa o atingiu antes.

Maya viu acontecer.

A cabeça dele inclinou-se levemente, quase imperceptível.

Suas narinas dilataram uma vez.

Não humano.

Lobo.

O olhar dele se voltou para ela com tanta intensidade que parecia que ela tinha sido agarrada.

E, por meio segundo, Maya esqueceu sua raiva porque a expressão nos olhos dele estava… errada.

Não errada como monstruosa.

Errada como surpresa.

Como se ele esperasse uma coisa e encontrasse outra.

Silas inclinou-se um centímetro para frente.

Os olhos dele se fixaram na garganta dela, depois no pulso, e por fim no rosto dela.

O estômago de Maya se contraiu.

“O que foi?”, disse ela, subitamente desconfiada. “Que olhar é esse?”

Silas piscou, como se lembrasse que havia humanos no quarto além dele.

Sua expressão suavizou-se de volta para um controle cauteloso.

“Nada.”

Maya estreitou os olhos. “Isso com certeza não foi nada.”

Silas forçou seu olhar a encontrar o dela.

A voz dele estava firme agora, mas algo nele havia mudado.

“É… só estresse”, ele mentiu.

Maya encarou-o.

“Você é o pior mentiroso que eu já conheci.”

Jax murmurou da porta: “Ele realmente é.”

A cabeça de Silas virou levemente. “Jax.”

Jax fez um gesto de fechar o zíper sobre a boca.

Maya olhou para Silas de volta.

A atenção dele permaneceu nela, como se estivesse lutando contra um pensamento que não queria ter.

Ela sentiu então, levemente — como se o ar ao redor dela tivesse uma nova nitidez. Como uma tempestade se formando, metálica e elétrica, escondida sob sua pele.

Ela estremeceu.

Silas notou.

É claro que ele notou.

Ele guardou isso em sua mente sem dizer uma palavra.

A irritação de Maya surgiu novamente.

“Pare de fazer isso”, ela disparou.

“Fazer o quê?”

“Me olhar como se eu fosse um problema de matemática que você não consegue resolver.”

Silas ficou muito parado.

Então ele disse, calmamente: “Maya… aqueles rogues não foram um caso isolado.”

“Você disse isso.”

“Eles foram enviados.”

A garganta de Maya apertou.

“Por quem?”

Silas hesitou.

Então: “Eu ainda não sei.”

Maya não acreditou nele totalmente.

Mas ela acreditou o suficiente.

E isso era aterrorizante.

Silas deu um passo atrás, como se lhe dar espaço pudesse impedi-la de desmoronar.

Não funcionou.

Maya estava sentada lá sob dez mil dólares em cobertores, encarando um lobisomem bilionário sem camisa que tinha se transformado em um rei lobo na floresta, enquanto dois de seus executores guardavam a porta com pacotes de Funyuns como se fosse um tratado de paz.

Sua vida tinha se tornado absurda.

E perigosa também.

Então ela fez o que sempre fazia quando o mundo tentava engoli-la inteira.

Ela negociou.

Maya levantou o queixo.

“Mais uma condição”, disse ela.

A atenção de Silas voltou-se para ela. “Diga.”

Os olhos de Maya se estreitaram.

“Inclua uma assinatura premium do Spotify”, disse ela, “e temos um acordo.”

O quarto congelou.

Então Jax soltou uma risada única e estrangulada que não conseguiu conter, como se o som tivesse escapado de seu corpo contra a sua vontade.

Liam encarou a banana com profundo respeito, como se fosse a única coisa estável que restava na realidade.

Silas piscou para Maya.

Uma vez.

Então ele assentiu como se estivesse aceitando um voto sagrado.

“Feito.”

Maya exalou, metade em descrença, metade em aceitação exausta.

“Ótimo”, ela murmurou. “Então agora eu moro em um covil de lobos bilionário.”

A voz de Silas veio muito baixa.

“Apenas até eu saber que você está segura.”

Maya olhou para ele.

Olhou de verdade.

Ele parecia devastado. Ainda. Controlado apenas à força. Como se tivesse passado a noite inteira preparado para ela acordar e odiá-lo, e agora ele não sabia o que fazer com o fato de que ela não o fizera.

A voz de Maya suavizou-se acidentalmente.

“Silas.”

Os olhos dele se levantaram instantaneamente. “Sim.”

Ela odiava o quão rápido ele respondia.

Ela odiava ainda mais que isso fizesse algo em seu peito doer.

“Eu não sou sua prisioneira”, ela disse novamente.

Silas engoliu em seco. “Você não será.”

“E você vai me dizer a verdade.”

O maxilar dele travou. “O máximo que eu puder.”

Maya encarou-o.

Então assentiu uma vez.

“Tudo bem”, disse ela. “Então comece por isto: onde está meu telefone?”

Jax levantou a mão. “Oh — boas notícias. Ele está carregando. Más notícias, sua tela de bloqueio é aterrorizante. Tem tipo doze alarmes.”

Maya apontou para ele. “Eu disse para você não falar a menos que fosse engraçado.”

Jax pareceu profundamente ofendido. “Aquilo foi engraçado.”

A voz de Liam, baixa e sombria, cortou o quarto.

“Alfa.”

A cabeça de Silas virou-se para ele instantaneamente.

“O quê?”

Os olhos de Liam moveram-se em direção às janelas — em direção ao campus abaixo.

“A Obsidian House acabou de se iluminar. Movimentação. Rápida.”

Silas ficou parado de um jeito que fez a pele de Maya arrepiar.

O humor de Jax desapareceu.

Maya sentiu seu estômago cair.

“O que isso significa?”, ela exigiu.

O olhar de Silas voltou para ela, afiado com um medo que ele tentou esconder, mas falhou.

“Significa”, disse ele calmamente, “que Asher já sabe que você está aqui.”

E simplesmente assim, o covil do lobo bilionário parou de parecer um sonho ridículo.

Tornou-se o que realmente era:

uma fortaleza.

Uma jaula.

Um campo de batalha.

E Maya Sen — com bolsa integral, nota máxima, trabalho de história para segunda-feira — estava sentada no centro disso, enrolada em cobertores de algodão egípcio, percebendo que a guerra tinha começado, quer ela tivesse consentido ou não.