Capítulo 1: O Silêncio do Túmulo
O ar no Sapphire Lounge não ficou apenas frio quando as portas duplas se abriram; ele talhou.
Para um olhar destreinado, o lounge era o auge do luxo metropolitano — um santuário de estofados de veludo, luz âmbar baixa e o pulso rítmico e envolvente de um quarteto de jazz ao vivo. Mas, para os homens sentados ali dentro, era um tribunal. E o Juiz tinha acabado de chegar.
Dante Vincenzo não andava; ele rondava. Sua presença era um peso físico, uma pressão atmosférica repentina que fez os pulmões de cada subchefe e mafioso na sala se apertarem. Ele era um homem de vinte e oito anos, mas carregava a gravidade de um século de derramamento de sangue. Seu terno tinha a cor de um eclipse à meia-noite, ajustado tão impecavelmente que parecia que poderia cortar, abraçando seus ombros largos e poderosos e o caimento esguio e letal de sua cintura.
Ao cruzar o limiar, o quarteto de jazz errou as notas, o saxofone terminando em um guincho patético antes de silenciar. O gelo em uma dúzia de copos de cristal chacoalhou contra as laterais enquanto as mãos começavam a tremer. Dante não olhou para ninguém. Ele não precisava. Ele era o sol, e todos ali eram apenas rochas frias presas em sua órbita.
O único som no vácuo da sala era o baque rítmico e constante de seus sapatos de couro italiano feitos à mão sobre o piso de mármore. Era o som de uma contagem regressiva.
Na mesa central sentava-se Rico, sobrinho de Mario Moretti. Rico tinha sido pego vendendo rotas de transporte do Sindicato para um cartel no sul — uma violação direta do Código Vincenzo. Ele tentou se levantar, o rosto em um tom cinzento doentio, com gotas de suor brotando em seu lábio superior.
"Dante", sibilou Rico, a voz rachando como pergaminho seco. "Dante, escuta. Eu posso explicar. Fui forçado a fazer isso. Minhas dívidas, elas..."
Dante não parou. Ele nem sequer diminuiu o passo. Ele chegou à mesa de mogno, e o silêncio tornou-se absoluto. Estava tão silencioso que era possível ouvir o tique-taque mecânico e suave do Patek Philippe no pulso de Dante — um batimento cardíaco de ouro e aço. Dante colocou suas mãos enluvadas sobre a mesa. O couro preto rangeu — um som que imitou um osso quebrando.
Os olhos de Dante não eram humanos; eram dois cacos de obsidiana, desprovidos de misericórdia, refletindo o terror do homem à sua frente. Ele ficou ali por um minuto inteiro, sem dizer nada. O silêncio era uma tortura psicológica. Ele deixou que a própria culpa e o medo de Rico fizessem o trabalho, observando enquanto o pulso do homem batia em sua garganta como um pássaro preso.
Sem dizer uma palavra, Dante meteu a mão no bolso interno do paletó. Vários homens na sala se encolheram, esperando o saque de uma arma. Em vez disso, Dante tirou uma única moeda banhada a ouro — a Marca do Voto Quebrado. Ele a deslizou pela mesa. Ela girou, soando contra o mogno com um tinido agudo e assombroso até parar perfeitamente na frente de Rico.
A mensagem foi mais alta que um tiro. Você já é um homem morto.
Rico começou a soluçar, o som patético e úmido no vácuo do lounge. Dante manteve a postura, ajustando suas abotoaduras com uma precisão lenta e agonizante. Seu rosto permanecia uma máscara de mármore — sem raiva, sem alegria, apenas a indiferença fria e mecânica de um deus.
Ele virou a cabeça levemente em direção ao seu executor principal, Nero, que estava parado como uma gárgula perto da porta. Uma sombra de aceno foi a única ordem de Dante.
Finalmente, sua voz quebrou o silêncio. Era grave, melódica e vibrava com um poder que fazia as tábuas do piso abaixo deles zumbirem.
"Limpe a mesa", disse Dante, sua voz um rosnado de veludo escuro. "Eu não gosto do cheiro de um covarde."
Ele girou nos calcanhares e saiu, seu casaco forrado de seda esvoaçando atrás dele como as asas de um corvo. Ele não olhou para trás enquanto as portas pesadas se fechavam, ou enquanto o primeiro grito abafado ecoava de trás delas.
Lá fora, uma chuva pesada começara a cair, deixando as ruas da cidade escorregadias. Seu Mercedes-Benz S-Class preto estava parado no meio-fio, uma besta escura na névoa. Enquanto o motorista abria a porta, Dante pausou, olhando para o céu. A chuva esfriou o calor fantasmagórico da execução que ele acabara de ordenar, mas não fez nada para acalmar o vazio em seu peito.
Ele entrou no banco de trás, o cheiro de cedro caro e couro úmido de chuva preenchendo seus sentidos. Ele tirou o celular do bolso. Uma mensagem de sua irmã, Bianca, brilhava na tela: “Não esqueça amanhã! 8h em ponto para a orientação. Se você se atrasar, vou contar para a mamãe que você ainda é um pirralho.”
Um fantasma de alívio passou por seu maxilar. Bianca era a única coisa em seu mundo que não estava manchada de sangue. Ele odiava o mundo "civil" — a suavidade dele, a vulnerabilidade. Mas, por ela, ele suportaria.
"Para casa", murmurou Dante ao motorista.
Enquanto o carro deslizava, ele observou o Sapphire Lounge desaparecer no retrovisor. Ele pensou nos códigos, nas regras e na ameaça iminente da família Moretti. Ele pensou na paz que precisava manter com punho de ferro.
Ele não fazia ideia de que, em menos de doze horas, seu mundo de sombras, cuidadosamente construído, iria colidir com uma luz tão brilhante que ameaçaria cegá-lo.
Ele não sabia que Freya Thorne estava sentada em seu pequeno quarto, a apenas cinco quilômetros dali, estudando para sua prova de química, sem saber que o Diabo acabara de marcar seu território na cidade dela.
Enquanto o Mercedes faz a curva, um sedã prateado começa a segui-lo à distância. Não é um carro do Sindicato. É um batedor dos Moretti. A guerra está se formando, mas enquanto Dante fecha os olhos para tentar um momento de sono inquieto, ele vê o vislumbre de um sonho — uma garota de cabelos dourados que ele ainda nem conheceu, parada no meio de uma tempestade.