✨ Prólogo — O Tratado de Fogo
📖 Taken by the Dragon King
✨ Prólogo — O Tratado de Fogo
A guerra terminou em cinzas.
Não em vitória ou paz, mas em silêncio. Aquele tipo de silêncio que se instala após uma devastação grande demais para ser nomeada. Ele pairou sobre a terra muito tempo depois que as chamas se apagaram, entrelaçado ao solo, carregado pelo vento. Florestas que antes eram densas de vida estavam negras e ocas, seus troncos reduzidos a torres de carvão que se erguiam em direção a um céu que tinha visto coisas demais. Cidades de pedra jaziam em ruínas, com suas muralhas fendidas pelo calor e por uma força além da compreensão humana. Ainda hoje, décadas depois, havia lugares onde nada crescia, onde a própria terra parecia se lembrar do que lhe fora feito.
Havia campos onde o solo ainda ardia sob a superfície, onde um passo descuidado podia liberar uma lufada de calor vinda das profundezas. Rios haviam mudado seus cursos, desviados pela destruição, abrindo novas rotas através da terra quebrada. Vilarejos inteiros desapareceram tão completamente que apenas seus nomes restaram, falados em tons baixos como avisos, em vez de lembranças. As crianças eram ensinadas a não se aventurarem muito longe da segurança das estradas reconstruídas, não por causa de bestas ou bandidos, mas porque a própria terra nem sempre era confiável.
Os humanos contavam a história de um jeito.
Os dragões contavam de outro.
Nas cortes humanas, a guerra era lembrada como uma luta pela sobrevivência, uma resistência desesperada contra criaturas poderosas demais para se negociar e destrutivas demais para coexistir. Pinturas retratavam grandes sombras aladas descendo do céu, fogo chovendo sobre cidades indefesas e deixando a ruína em seu rastro. Canções foram escritas sobre bravura e sacrifício, sobre reis que mantiveram sua posição e exércitos que lutaram contra probabilidades impossíveis.
Entre os dragões, a narrativa era mais fria.
Eles falavam de provocação, de invasão, de humanos que tinham ido longe demais em terras que não lhes pertenciam. Eles lembravam de acordos quebrados, relíquias roubadas e uma lenta erosão de limites que antes eram respeitados. Para eles, a guerra não havia começado em um único momento de fogo, mas em um longo e constante desmoronar da confiança.
A verdade, como tantas vezes acontece, ficava no meio-termo.
Mas, em um ponto, ambos os lados nunca hesitaram: a guerra quase destruiu a todos.
Então, uma divisão foi criada. Não uma construída com muralhas ou portões vigiados, mas algo muito mais duradouro. Ela foi desenhada no medo, reforçada pela lei e ligada por uma magia tão antiga que nenhum dos lados alegava compreendê-la por completo. Dos picos escarpados do norte às florestas sombreadas do sul, a fronteira se manteve. Diziam que aqueles que se aproximavam podiam sentir a mudança antes mesmo de vê-la: uma sutil alteração no ar, uma pressão que se instalava sobre a pele como um aviso.
Os humanos permaneceram em seus reinos, reconstruindo o que fora perdido. Pedra por pedra, ergueram suas cidades novamente, embora nunca tão grandiosas quanto antes. Os dragões voltaram para as terras que há muito lhes pertenciam, retirando-se para montanhas e vales escondidos, com sua presença sendo mais sentida do que vista. Às vezes, suas sombras podiam ser avistadas cruzando o céu à distância, vastas e fugazes, um lembrete de que eles não tinham desaparecido por completo.
Nenhum lado atravessava.
Nenhum lado interferia.
E, acima de tudo, não haveria mais laços.
Outrora, muito antes da guerra, existiam histórias. Eram contadas em voz baixa, passadas de uma geração para a outra como algo sagrado e perigoso. Contos sobre uma conexão entre dragão e humano que ia além de alianças ou poder, algo mais profundo do que lealdade ou controle. Um laço de fogo e alma, dito ser predestinado, inquebrável e impossível de ignorar.
Era raro, mesmo naquela época.
Quando acontecia, mudava tudo.
Havia relatos de humanos que conseguiam ficar ilesos diante do fogo de dragão, de dragões que não se curvavam a rei algum, mas que se ajoelhavam para uma única pessoa. Algumas histórias falavam de força compartilhada, de poder amplificado quando os dois estavam unidos. Outras contavam sobre ruína, sobre desequilíbrio e sobre laços que consumiam mais do que davam.
Nenhuma das histórias concordava entre si.
Mas todas terminavam da mesma maneira.
Em fogo.
Isso já era temido antes mesmo da guerra.
O que veio a seguir transformou o medo em lei.
Alguns alegavam que aqueles laços tinham sido corrompidos, que tinham dado início à própria guerra, unindo inimigos de maneiras que nenhum dos lados conseguia controlar. Outros acreditavam que os laços tinham servido de bode expiatório, culpados por uma destruição que tinha raízes muito mais complexas. A verdade foi enterrada sob as cinzas e o tempo, e talvez isso já não importasse mais.
O que importava era o que restava.
Quando as chamas finalmente se apagaram, ambos os lados concordaram em uma coisa: fossem o que fossem aqueles laços, eles jamais seriam permitidos novamente.
Para preservar a frágil paz que restava, o Tratado de Fogo foi forjado.
A cerimônia era precisa, inflexível em sua estrutura. A cada vinte anos, sob vigilância cuidadosa e tradição rígida, os dois mundos se encontravam na borda da divisão. Um terreno neutro era escolhido, sempre à vista da fronteira, mas nunca além dela. Ali, sob o céu aberto, a troca ocorria.
Os humanos traziam tributos. Não simples oferendas, mas tesouros escolhidos com cuidado deliberado; cada um destinado a simbolizar tanto respeito quanto submissão aos termos que mantinham a paz. Relíquias antigas, metais raros, artefatos infundidos com magia antiga, objetos que não podiam ser facilmente substituídos. O custo tinha que ser sentido.
Os dragões chegavam em silêncio.
Eles não se curvavam.
Eles não se ajoelhavam.
Eles aceitavam.
E nessa aceitação, o tratado era renovado.
Sem travessia. Sem interferência. Sem laços.
Não havia celebração compartilhada entre os dois, nem festas ou palavras trocadas. Nos reinos humanos, porém, um baile breve e cuidadosamente planejado era realizado em honra à renovação — mais por tradição do que por alegria, uma garantia silenciosa de que a paz, por mais frágil que fosse, ainda permanecia.
Uma vez que o tributo era tomado, os dragões retornavam aos seus céus e os humanos se retiravam para suas terras. A distância entre eles permanecia tão vasta quanto sempre, preservada não pela confiança, mas pela memória do que veio antes.
Por dois séculos, o equilíbrio se manteve. Inquieto e imperfeito, mas intacto. Gerações cresceram sob sua sombra, criadas com histórias de destruição e sobrevivência, do que fora perdido e do que jamais deveria ser arriscado novamente. A divisão tornou-se uma certeza, algo tão natural e inquestionável quanto o nascer do sol.
Contudo, até a certeza pode se desgastar.
Houve sussurros, silenciosos no início, depois crescendo nos espaços onde o medo e a curiosidade se encontram. Histórias de eventos estranhos perto da fronteira. De viajantes que alegavam sentir algo observando-os do outro lado da divisão. De calor no ar onde não deveria haver nenhum. A maioria descartava essas histórias como imaginação, os ecos persistentes de um passado que se recusava a desaparecer completamente.
Ainda assim, as histórias persistiam.
E em algum lugar, nas profundezas sob as camadas de lei e memória, algo mais antigo despertou.
Porque o destino nunca foi governado por leis.
E alguns laços, não importa o quão profundamente enterrados, nunca se foram de verdade.