Sem Correntes

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Resumo

Ela trocou a própria liberdade pela segurança deles. Ele só não percebeu que ela lhe custaria tudo. Lillian Chase passou vinte e três anos sobrevivendo. Não vivendo — sobrevivendo. Enquanto seus pais buscavam a próxima dose, ela afastava os traficantes, a fome, as mãos que insistiam em chegar perto demais de sua irmãzinha e seu irmão. Ela é a única barreira entre seus irmãos e os destroços de sua infância. E ela está desmoronando. Ethan Drake passou trinta anos construindo impérios. A boate. A fortuna. A armadura. Ele aprendeu cedo que o mundo toma o que quer — e a única maneira de manter qualquer coisa é possuí-la completamente. Ele não salva pessoas. Ele as adquire. Quando um amigo desesperado arrasta Lilly para o mundo de Ethan, ele vê algo que precisa possuir: uma garota quebrada, com o espírito ainda queimando em seus olhos cinza-tempestade. Ele lhe faz uma oferta que ninguém mais pode igualar — segurança para seus irmãos, recursos inimagináveis, proteção contra os monstros à sua porta. O preço é simples. Submissão vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Ela pensa que está vendendo seu corpo. Ele pensa que está comprando controle. Nenhum dos dois percebe que o outro é um espelho — duas crianças criadas por abutres, aprendendo que o amor é apenas mais uma transação. E quando os demônios do passado de Lilly aparecem com intenções mais sombrias do que ela jamais imaginou, o acordo se torna algo muito mais perigoso do que qualquer um deles esperava. Porque Ethan Drake queimaria seu império até as cinzas para tê-la de volta. E Lilly Chase passou tempo demais sendo lembrada de seu valor para deixar alguém — até mesmo ele — decidir o seu preço. Sombrio. Obsessivo. Consumidor. Esta não é uma história de amor. Ainda não. É o prelúdio marcado e sangrento de uma — e nem todos sobrevivem ao ato de abertura. Content Warning: Este romance contém conteúdo BDSM explícito, incluindo bondage, impact play, anal play, power exchange e cenas gráficas de violência, trauma e recuperação. Destinado apenas ao público adulto (18+).

Gênero
Erotica
Autor
Ember Wilds
Status
Completo
Capítulos
43
Classificação
5.0 1 avaliação
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

Lilly

A geladeira zumbia, um som baixo e doentio que não fazia nada para disfarçar o vazio lá dentro. A única lâmpada nua acima lançava uma luz amarelada e doentia sobre as prateleiras de metal. Contei o que havia dentro de novo, um ritual tão familiar quanto o meu próprio batimento cardíaco. Uma caixa de leite, um quarto cheia. Um pão de forma, apenas a extremidade. E, na porta de papelão, três ovos.

Três. Para Mia, Noah e para mim.

Meus dedos traçaram a curva fria e frágil da casca de um ovo. Era uma promessa e um problema de matemática ao mesmo tempo. Café da manhã resolvido. O almoço era uma incógnita. O jantar, uma prece. Os números sempre tinham que bater. Era a única regra nesta casa que nunca era quebrada.

Do outro lado da parede fina, uma tábua do piso gemeu.

Minha respiração travou na garganta, um solavanco agudo e doloroso. Não me movi. Minha mão congelou sobre o ovo. Todo o meu corpo ficou imóvel, uma estátua de uma garota esperando pelo veredito. Olhei para o corredor escuro e para a porta fechada no fim dele. A madeira estava marcada e lascada perto da maçaneta, lembrança de uma noite que eu tentava não recordar. Era a fonte de cada som que importava.

O gemido não se repetiu. Não houve um arrastar de pés, nenhum xingamento resmungado, nenhum passo pesado indo em direção ao banheiro. Apenas silêncio. Soltei o ar dos pulmões em um fluxo lento e controlado. Sem ar, sem som. Sem som, sem problemas. Tudo bem.

Um leve som de pés calçados com meias quebrou a quietude, e meus ombros, que eu nem tinha notado estarem encolhidos até as orelhas, relaxaram um pouco.

Mia apareceu na porta da cozinha, uma pequena sombra com o cabelo embaraçado pelo sono. Sua blusa de pijama de unicórnio estava curta demais, a barriguinha rosa esticada sobre um estômago que nunca estava cheio o suficiente. Ela esfregou os olhos com o punho, o olhar fixo no pão.

“Lilly?”, ela sussurrou. “Minha barriga está fazendo barulhos.”

A culpa era um gosto amargo e familiar no fundo da minha garganta. “Eu sei, querida. Estou fazendo o café da manhã.”

Tirei a caixa de ovos da porta, com movimentos cuidadosos e praticados. Um para o Noah, um para a Mia, um para mim. Quebrei-os na frigideira fria; o chiado era um som normal e bem-vindo. Usei o resto do leite para mexê-los, deixando-os fofos, do jeito que o Noah gostava. Cortei as cascas da torrada da Mia. Pequenas coisas. Eram as coisas que eu conseguia controlar.

Deslizei um prato na mesa na frente dela. “Aqui está. Pode comer.”

Ela subiu na cadeira e deu uma mordida, seus olhos já começando a pesar de novo. Observei-a, meu próprio apetite era um fantasma. Eu era a provedora. A protetora. Aquela que contava os ovos, prendia a respiração e garantia que a torrada não tivesse cascas.

E eu estava tão, tão cansada. A exaustão era uma coisa física, um peso nos meus ossos que estava lá desde que eu tinha treze anos, talvez menos. Aprendi a contar antes de aprender a ler — primeiro dinheiro, depois ovos, depois os minutos até que alguém perigoso chegasse em casa. Olhei ao redor da cozinha escura, para o linóleo lascado e o teto manchado de umidade. Este era o meu reino. E eu era sua prisioneira.

E naquele momento, pela primeira vez em muito tempo, permiti-me ter o pensamento perigoso: é só isso que existe?

O ritual matinal era uma máquina bem azeitada e silenciosa. Noah foi o próximo, aparecendo quando o último dos ovos mexidos esfriava na frigideira. Ele tinha dez anos, com cotovelos pontudos e uma seriedade que não deveria estar no rosto de uma criança. Ele se movia com uma eficiência silenciosa, uma versão menor de mim. Ele comeu seus ovos de pé, com a mochila já jogada sobre um ombro.

“Fez a lição de casa?”, perguntei, com a voz baixa.

Ele assentiu, mastigando rápido. “Está na pasta.”

Estendi a mão. Ele a pegou — uma folha de exercícios amassada sobre frações — e me passou. Alisei-a no balcão, meus olhos procurando erros. Estava perfeita. Ele era inteligente. Mais inteligente do que esta casa. Verifiquei seu estojo, certifiquei-me de que ele tinha dois lápis apontados e uma borracha. Uma tampa solta poderia significar uma nota ruim. Nota ruim significava um bilhete para casa. Bilhetes para casa eram variáveis imprevisíveis.

“Ok”, eu disse, guardando a folha de volta no bolso da frente. “Está tudo bem.”

Ele foi em direção à porta da sala de estar. Eu o segui, um passo atrás, minha mão tocando seu braço para pará-lo. “Espere.”

A sala de estar estava mais escura que a cozinha, o ar denso e viciado com cheiro de cerveja barata e algo ácido, como açúcar queimado. E lá, uma forma. Um homem, de bruços no sofá, um braço sobre a cabeça, o outro pendurado, os nós dos dedos roçando o carpete manchado. Um estranho. Um dos “amigos” do papai.

Eu me movi rapidamente, posicionando-me na porta, meu corpo como um escudo. Não queria que Noah visse o rosto do homem, relaxado e de boca aberta no sono. Não queria que Mia, que agora vinha atrás de nós como um pequeno patinho silencioso, visse o vômito seco no ombro da camiseta dele.

“Apenas contorne”, murmurei para Noah. “Em silêncio.”

Ele não perguntou por quê. Ele nunca perguntava. Ele contornou a mesa de centro, com os olhos no chão, e saiu pela porta da frente. Conduzi Mia atrás dele, pegando suas jaquetas gastas no gancho. Observei-os até que virassem a esquina, duas pequenas figuras caminhando para longe desta casa e entrando no mundo. Só então deixei a tensão em meus ombros diminuir.

O silêncio que eles deixaram para trás era mais pesado.

Meu celular, guardado no bolso de trás, vibrou contra minha pele. Estremeci; a vibração foi como um choque elétrico no silêncio. Puxei-o. Maya.

Maya: Acorda, Bela Adormecida. Hoje à noite. Vamos sair. Não aceito um não como resposta. Estarei aí às 7:30. Use algo que não seja cinza.

Olhei para a tela, meus polegares pairando sobre o teclado. Sair. A palavra era estrangeira, um idioma que eu não falava. Minha mente começou a calcular instantaneamente, o processo frio e rígido que eu conhecia melhor do que meus próprios sentimentos. Avaliação de risco.

O homem no sofá. Ele teria ido embora às 7:30? O papai estaria em casa? A mamãe estaria sóbria? Quem cuidaria da Mia e do Noah? Eu não podia deixá-los sozinhos, não com… aquilo na casa. O preço era alto demais. As variáveis não batiam.

Encostei-me no batente da porta, a madeira entrando nas minhas costas. O moletom cinza que eu usava parecia um uniforme, uma segunda pele. Era seguro. Era invisível. Maya queria arrancá-lo. Só de pensar nisso, sentia mais medo do que do rangido do piso no escuro. Ser vista era ser um alvo. Estar fora desta casa era perder o controle.

Meus polegares começaram a digitar, as palavras familiares e reflexivas formando um escudo.

Lilly: Eu não posso. Sinto muito.

Enviei. O pedido de desculpas foi automático, um reflexo. Esperei a resposta, um nó de pavor e um fio de outra coisa, algo traidor, revirando no meu estômago. Por favor, não insista. Por favor, deixe-me ficar aqui.

O telefone vibrou novamente quase instantaneamente.

Maya: Merda nenhuma. Você pode. Você só não quer. Não estou pedindo, Lilly. Estou avisando. Vamos tirar você dessa casa por uma noite. Vou comprar uma bebida para você que custa mais do que sua conta semanal do mercado. Vou te arrastar para uma pista de dança e você vai se lembrar de que tem um corpo que não serve apenas para fazer torrada e se esconder de monstros. 19:30. Esteja pronta.

Li a mensagem três vezes. As palavras foram um soco, mas um soco limpo. Maya não entendia a matemática, mas entendia o resultado. Ela via o cinza. E ela se recusava a deixar que eu desaparecesse nele. Meu polegar pairou sobre a tela, o desejo de digitar outra recusa, outra desculpa, um apelo desesperado. Mas ela não estava pedindo. Ela estava oferecendo uma tábua de salvação. E a parte aterrorizante era que uma pequena parte escondida de mim queria agarrá-la.

Não respondi. Apenas fiquei lá na sala de estar escura e com cheiro azedo, o telefone vibrando na minha mão com outra mensagem que eu estava com medo demais de ler, presa entre a vida que eu conhecia e uma promessa única e impossível de algo a mais.

O posto Gas-N-Go ficava a três quarteirões de distância, com uma camada permanente de gordura em todas as superfícies e um gerente que não fazia perguntas sobre meu horário ou por que eu às vezes precisava sair mais cedo. Contei o caixa pela terceira vez, garantindo que tudo estivesse certo. $247,62 em vendas. Salário mínimo menos impostos. Sobrevivência centavo por centavo.

“Harris quer você amanhã de manhã”, disse Shelly, inclinando-se pela divisória. Ela tinha quarenta anos, parecia ter sessenta e tinha olhos gentis. “Turno da abertura. 5 da manhã.”

Meu estômago afundou. “Posso tentar. As crianças—”

“Traga-as. Dou rosquinhas para elas.”

Consegui forçar um sorriso. Havia regras, e então havia a Shelly. “Obrigada.”

Ela dispensou meu agradecimento com a mão. Bati o ponto, o sol da tarde batendo no meu rosto quando pisei na calçada rachada. A caminhada para casa foi um borrão de memória muscular. Chequei meu telefone. 16:15. Três horas até a Maya chegar. Três horas para resolver a equação.

Quando cheguei em casa, o homem tinha ido embora. As almofadas do sofá ainda estavam marcadas, um cheiro azedo fraco permanecia, mas a sala estava vazia. Mamãe estava sentada à mesa da cozinha, as mãos em volta de uma xícara de café, os olhos vermelhos e distantes. Ela olhou para cima quando entrei, sua expressão alternando entre culpa e ressentimento.

“Lilly.”

“Mãe.” Mantive minha voz neutra. “Onde está o cara desta manhã?”

“Foi embora.” Ela bebeu o café. Preto. Provavelmente o último. “Papai o expulsou perto do meio-dia.”

Perto do meio-dia. Enquanto eu estava no trabalho.

Engoli a raiva, arquivando-a junto com todas as outras coisas que eu não podia consertar. “Eu preciso desta noite.”

Mamãe piscou, confusa. Pedir era geralmente tarefa do papai.

“Preciso sair. Só por algumas horas. Mia e Noah estarão dormindo às nove. Eles só precisam de… alguém aqui. Na casa.”

Ela me encarou por um longo momento, e por um segundo — apenas um segundo — achei que a tinha julgado mal. Achei que talvez encontrasse algum vislumbre da mãe que ela poderia ter sido. Mas então ela deu de ombros, um movimento seco e brusco. “Tudo bem. Tanto faz. Só mantenha-os quietos se acordarem. Estou com dor de cabeça.”

Assenti, a decepção familiar e entorpecente. Mamãe era imprevisível, mas geralmente era uma imprevisibilidade passiva. Papai era o elemento perigoso. E o papai não chegaria em casa até tarde. Os números finalmente se encaixaram. As variáveis se alinharam.

Às 19:28, a campainha tocou, um som tão deslocado na penumbra da noite que pareceu um alarme. Eu já estava esperando perto da porta, meu coração como um tambor frenético contra as costelas. Eu tinha trocado meu moletom cinza habitual, mas apenas pela minha melhor calça jeans escura e um suéter grafite limpo, porém desbotado. Era o máximo de cor que eu conseguia usar. Respirei fundo uma última vez e abri a porta.

Maya estava nos degraus da varanda desmoronando, uma explosão de vida vibrante e impossível contra a tinta descascada. Ela usava um vestido da cor de um pôr do sol tropical, seu cabelo escuro em ondas perfeitas que balançavam quando ela se movia. O perfume floral dela cortava o ar úmido e terroso ao redor da casa.

“Aí está você!”, ela sorriu, pegando minhas mãos e me puxando para a varanda antes que eu pudesse pensar em hesitar. “Eu estava começando a achar que você tinha se barricado. Meu Deus, é deprimente aqui fora.” Ela estremeceu dramaticamente, mas seus olhos eram gentis. “Vamos para a minha casa primeiro. Você não vai usar isso num clube.” Ela gesticulou para o meu suéter com um olhar de exasperação carinhosa. “Tenho o vestido perfeito para você. E então — o The Abyss.”

“O quê?”, perguntei, minha voz plana, um contraste gritante com o tom musical dela.

“O clube! É esse lugar novo, no centro. Toda madeira escura e veludo vermelho. Super exclusivo, mas eu conheço o dono.” Ela piscou. “É exatamente o tipo de lugar onde uma criatura misteriosa e linda como você deveria ser vista. Agora, vamos.”

Não me movi. Meus pés estavam colados ao concreto. “Maya, espere.”

O sorriso dela vacilou levemente. “O quê? Não vamos ter aquela conversa, vamos? Porque eu juro por Deus, Lilly, eu vou te arrastar daqui pelos cabelos.”

Balancei a cabeça, um nó familiar de pavor apertando meu estômago. “Não. Apenas… as crianças.”

A expressão de Maya suavizou, a performance desaparecendo por um segundo. Ela sabia. Ela sempre sabia. “Ok. O que elas precisam saber?”

Voltei para dentro, deixando a porta aberta, e me ajoelhei na frente de Mia e Noah, que estavam sentados no tapete gasto da sala, fingindo assistir à TV, mas na verdade apenas me observando com olhos velhos demais para seus rostos.

“Ok”, eu disse, com a voz baixa e firme. “Mia, você tem meu número. Noah, você tem o da Maya. Liguem para qualquer uma de nós se ouvirem qualquer coisa. Se ouvirem o carro da mamãe ou do papai, vão para o quarto do Noah e tranquem a porta. Não saiam por ninguém a não ser por mim ou pela Maya, entenderam?” Ambos assentiram, o maxilar de Noah tenso, os olhos de Mia arregalados. “Tem sanduíches na geladeira. Não atendam a porta. Não usem o fogão. Eu estarei de volta”, verifiquei meu relógio, “antes da meia-noite. Uma hora, no máximo.”

Era uma lista de verificação de sobrevivência. O único tipo que eu conhecia. Mamãe estava no quarto dela com a porta fechada. A casa estava estável. O estranho tinha ido embora. As variáveis tinham se alinhado.

Levantei-me, meus joelhos rígidos. Maya já estava segurando minha jaqueta, sua expressão ilegível.

Dei uma última olhada na casa. Vi o teto manchado, o corredor escuro, a forma das almofadas do sofá lentamente voltando ao lugar. Vi a versão de mim mesma que morava aqui, a garota que contava ovos e prendia a respiração. Sair parecia uma traição. Sair parecia um abandono de dever. O peso disso era uma pressão física nos meus ombros, tentando me puxar de volta para dentro.

Mas então olhei para Maya, parada na porta aberta, um pedaço do mundo lá fora, brilhante e insistente.

Dei um passo. Depois outro. Saí de casa e fui para a varanda, para o ar fresco da noite. Maya envolveu meus ombros com um braço quente e me puxou em direção ao seu carro.

Não olhei para trás. Eu não podia.