A LUNA DE OLHOS PRATEADOS

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Resumo

Ela foi rejeitada pelo seu companheiro. Humilhada diante de toda a alcateia. Expulsa como se não fosse nada. Mas eles cometeram um erro… Eles não a destruíram. Quando a traição desperta um poder oculto em seu sangue, a garota fraca de quem um dia zombaram retorna mais forte, mais fria e imparável. A verdade sobre sua linhagem começa a vir à tona — uma linhagem que a conecta não apenas a uma alcateia… Mas a um trono.

Gênero
Fantasy
Autor
MITHUN
Status
Completo
Capítulos
30
Classificação
3.7 3 avaliações
Classificação Etária
16+

CAPÍTULO 1

A primeira coisa que notei foi o silêncio.

Não era aquele silêncio comum que habita entre as árvores ao anoitecer, quando os pássaros se recolhem e o vento mexe nas folhas. Este silêncio era pesado. Estava à espera. Como se a própria floresta tivesse ficado imóvel para ouvir o meu medo.

Apertei o meu casaco contra o corpo e continuei a andar.

O caminho de cascalho tinha dado lugar, há muito, a terra batida, depois a raízes e, por fim, a nada. Eu sabia que deveria voltar para trás. Sabia que o limite do território de Black Hollow estava algures atrás de mim, e que entrar lá sozinha, à noite, era o tipo de estupidez que faz com que as pessoas se magoem.

Mas “magoar-me” era melhor do que morrer à fome.

O envelope no meu bolso parecia tão fino como uma mentira.

Dentro dele estava o último pagamento do restaurante, dobrado duas vezes e rabiscado com a conta do hospital da minha mãe, com o valor total em dívida circulado a vermelho. Como se o número, por si só, me pudesse ameaçar a ponto de encontrar um milagre.

A minha respiração saía em fios brancos. O ar estava mais frio ali, com cheiro a resina de pinheiro e terra húmida, e por baixo disso, algo mais selvagem. Almíscar. Animal.

Lobo.

A minha mão apertou a alça da mala de lona que trazia a tiracolo.

“São só cogumelos”, murmurei para mim mesma, embora as palavras soassem disparatadas no escuro. “É só isso que estás a fazer. Cogumelos. Bagas da época. O que quer que consigas carregar.”

Uma mentira, claro.

Eu estava ali porque a Sra. Vale, do restaurante, tinha sussurrado que a estufa abandonada na antiga propriedade madeireira ainda produzia ervas de inverno, se soubéssemos onde procurar. Ela tinha dito que o solo era rico com o calor antigo da terra, e que havia plantas que a montanha não deixava morrer. Boas para tinturas. Boas para a febre. Boas para vender.

Boas para evitar que uma cama de hospital engolisse a minha mãe por completo.

Passei por cima de um ramo caído e quase perdi o equilíbrio. A minha bota escorregou nas folhas molhadas e apoiei-me num tronco de árvore coberto de musgo.

Depois, ouvi-o.

Um galho a partir-se algures à minha esquerda.

Fiquei paralisada.

Cada músculo do meu corpo ficou rígido e, por um segundo estúpido e desesperado, pensei que talvez fosse um veado. Talvez uma raposa. Talvez a própria montanha a respirar.

Outro estalido. Mais perto.

O meu pulso começou a martelar.

Nenhum animal se movia daquela forma sem cuidado. Nenhum animal seguia com intenção.

“Olá?” A minha voz saiu demasiado fina, demasiado aguda.

Nada respondeu.

A floresta parecia inclinar-se na minha direção.

Dei um passo lento para trás, depois outro. O meu calcanhar bateu numa raiz e soltei um silvo. O pânico subiu rapidamente, quente e enjoativo, pela minha garganta.

E então, das sombras à frente, um par de olhos abriu-se.

Amarelos.

Baixos em relação ao chão.

Enormes.

Parei de respirar.

O lobo entrou num fio de luar, e cada instinto em mim gritou para correr. O seu pelo era escuro, quase preto, o tipo de preto que engolia a luz. Era maior do que qualquer cão tinha o direito de ser, com ombros a ondularem sob o pelo, a cabeça baixa como se já estivesse a escolher onde morder.

Recuei tão depressa que a minha mala bateu na anca.

O lobo não atacou.

Ele observava-me.

Isso era pior.

Porque havia inteligência naquele olhar. Consciência. Uma frieza predatória e imóvel que me fez arrepiar a pele.

Outra silhueta moveu-se atrás dele.

Depois outra.

O meu estômago pareceu cair até ao chão.

Eram três.

Não. Quatro.

A floresta já não estava silenciosa. Estava cheia do som suave e deliberado de corpos a moverem-se pelo mato. De patas a pressionarem a terra molhada. De respiração.

Deveria ter corrido no momento em que ouvi o primeiro galho partir-se. Em vez disso, fiquei ali parada como uma presa e encarei os lobos como se os meus olhos pudessem tornar aquilo irreal.

Um lobo contornou para o lado, bloqueando o caminho por onde eu tinha vindo.

Outro veio da direita.

Uma parede de escuridão fechou-se à minha volta.

A minha boca ficou seca. “Por favor”, sussurrei, embora não soubesse a quem estava a implorar. “Estou a ir-me embora. Não estou—”

O lobo à minha frente baixou a cabeça e mostrou os dentes.

Um aviso.

O terror gelou-me por dentro.

Nunca tinha visto lobos tão de perto. Não reais. Não fora de uma jaula ou de um documentário granulado. Mas estes não eram animais selvagens no sentido comum. O movimento deles era demasiado deliberado, demasiado controlado. Eles não estavam a caçar porque tinham fome.

Estavam a caçar porque queriam.

Os meus dedos enterraram-se na alça da mala com tanta força que a lona me cortou a palma da mão. Tentei lembrar-me do que fazer com um animal tão perto, tão ameaçador. Não corras. Não desvies o olhar. Faz-te parecer grande.

Nunca me tinha sentido tão pequena na minha vida.

O lobo mais próximo deu um passo.

Depois outro.

Um som escapou-me – meio suspiro, meio soluço – e, antes que pudesse impedir-me, tropecei para trás, contra algo sólido.

Humano.

Cada nervo do meu corpo detonou.

Virei-me com um grito agudo e dei por mim a olhar para o rosto de um homem que eu não tinha ouvido aproximar-se.

Ele era alto. De ombros largos. Perto o suficiente para eu sentir o cheiro a fumo no seu casaco e o toque limpo e cortante do ar de inverno preso nas suas roupas. O cabelo escuro caía-lhe sobre a testa, e os seus traços eram duros de uma forma que não parecia esculpida, mas sim conquistada. O seu queixo estava sombreado por barba por fazer. Os seus olhos, quando encontraram os meus, tinham a cor das nuvens de tempestade antes do relâmpago.

Não eram olhos de lobo.

Eram olhos humanos.

E, de certa forma, isso tornava-o mais perigoso.

“Não te mexas”, disse ele.

A sua voz era grave, rouca pelo comando, e deslizou sobre a minha pele com a força de um toque físico.

Olhei para ele, paralisada pela mudança súbita de um pesadelo para aquilo.

Os lobos tinham ficado imóveis.

Não se foram embora. Não fugiram.

Obedeceram.

A conclusão atingiu-me com tanta força que os meus joelhos quase cederam.

Ele não era apenas um homem qualquer na floresta.

Ele era o dono deles.

Dei um passo involuntário para longe dele e quase colidi com outro lobo que circulava atrás de mim. Um som de sobressalto saiu da minha garganta.

O maxilar do homem contraiu-se. “Eu disse para não te mexeres.”

“Então talvez devesses dizer aos teus cães para pararem de tentar comer-me.”

Um músculo mexeu-se na sua face.

Por um segundo de parar o coração, pensei que ele pudesse realmente sorrir. Mas o sorriso nunca chegou à sua boca. O seu olhar baixou, brevemente, para a lanterna que balançava na minha mão e depois para o meu rosto.

E ali – ali houve um brilho de algo que eu não consegui decifrar.

Não era surpresa.

Não exatamente.

Reconhecimento?

O meu estômago deu uma volta.

O lobo à nossa frente baixou a cabeça como se esperasse um sinal. O homem deu um passo medido na minha direção, e a besta afastou-se instantaneamente.

O meu corpo ficou frio.

Alfa.

Eu não sabia como sabia disso. Apenas sabia que qualquer coisa que mantivesse aqueles animais sob controlo estava parada à minha frente, com um rosto humano.

Os meus dedos apertaram a pega da lanterna até a estrutura de metal doer.

“O que é que queres?”, exigi, tentando manter a voz firme.

Ele olhou para mim durante um longo compasso de espera.

Depois os seus olhos moveram-se, apenas uma vez, para os meus.

Foi tão rápido que quase perdi o momento.

Quase.

A lua rompeu através das árvores, pálida e cortante, e a luz atingiu o meu rosto.

O silêncio que se seguiu foi diferente daquele de antes. Não era o sossego da floresta.

Choque.

Os lobos moveram-se.

Um deles emitiu um som gutural e baixo que levantou cada pelo dos meus braços.

O homem ficou completamente imóvel.

O seu olhar fixou-se no meu com uma força que me fez perder o fôlego.

Eu sabia, sem saber como, que algo tinha mudado. Algo subtil e fatal. O ar parecia apertar-se à nossa volta.

Seus olhos se estreitaram.

Aqueles olhos de nuvem de tempestade percorreram meu rosto, meu cabelo, minha boca, e então se fixaram nos meus com tamanha intensidade que senti um impulso absurdo de desviar o olhar.

Eu não desviei.

Porque agora eu podia vê-lo claramente, e pela primeira vez em meses senti a urgência imediata e humilhante de me tornar invisível.

Meus olhos eram prateados.

Não cinzas. Não azuis. Não cor de avelã. Prateados como metal batido ao luar, como escamas de peixe, como algo que não pertencia a um rosto humano.

Eu tinha passado vinte e um anos aprendendo a escondê-los.

Lentes de contato coloridas. Luz fraca. Olhar para baixo. Manter o capuz levantado. As mentiras vinham mais facilmente do que respirar.

Mas agora não havia como esconder.

O rosto do homem tornara-se ilegível, daquela forma característica de quem está decidindo se deve matar você ou se ajoelhar.

“Quem é você?”, perguntou ele.

Soltei uma risada trêmula, porque a pergunta era tão absurda que arranhou o pânico que subia pela minha garganta. “Acho que sou eu quem deveria perguntar isso.”

Suas narinas se dilataram.

Os lobos ao nosso redor se moveram novamente, inquietos agora, com a atenção fixada em meu rosto com um foco perturbador. Um deles soltou outro som baixo, mais profundo desta vez, quase reverente.

Reverente.

Senti um arrepio na espinha.

Olhei de um lobo para outro, depois voltei para o homem. “O que há de errado com eles?”

O olhar dele nunca deixou o meu. “O que é você?”

A pergunta me atingiu como um tapa.

“Eu sou uma pessoa”, disparei.

Algo perigoso aconteceu então.

Sua atenção desceu para a minha garganta, onde meu pulso batia forte e visível sob a pele. A linha de sua boca mudou, apenas levemente, e eu vi — algo cru e instintivo, algo que parecia demais com fome.

Minha respiração falhou.

Não era mais apenas o medo que fazia meu corpo me trair. Era o fato de ele estar perto demais. Alto demais. Estável demais. E embora eu soubesse, com absoluta certeza, que ele poderia me machucar de cem maneiras, uma parte traidora de mim notou a largura de seus ombros, a força em suas mãos, o calor que parecia emanar dele, apesar do frio.

O que era insano.

Aterrorizante, na verdade.

Eu me odiava por notar.

Seu olhar subiu de volta, como se ele tivesse captado o pensamento em meu rosto, e pela primeira vez sua expressão mudou para algo quase irritado.

“Não aqui”, disse ele bruscamente.

“Como é?”

Ele deu um passo à frente.

O instinto gritou para eu correr, mas os lobos se moveram em um arco silencioso, fechando todas as saídas. A presença do homem não era menos opressora. Na verdade, era pior, pois ele não precisava de dentes para me encurralar.

Ele só precisava olhar para mim.

“Você não deveria estar nesta floresta”, disse ele.

Ri novamente, mais agudo desta vez, quebradiça de nervosismo. “Você acha que esse é o problema?”

Seus olhos faiscaram.

Recusei-me a recuar.

Tudo bem. Que ele visse que eu não era alguma coisinha trêmula para sua matilha rodear, cheirar e decidir o destino. Minha mãe estava em uma cama de hospital com o coração falhando e, se eu fosse ser devorada esta noite, queria que fosse nos meus termos.

O pensamento me deixou com mais raiva, de alguma forma, e a raiva me deu coragem.

Levantei o queixo. “Saia da frente.”

A palavra saiu mais forte do que eu me sentia.

Seu olhar caiu para minha boca novamente.

Por um segundo impossível, o espaço entre nós pareceu desaparecer. Sua respiração mudou. A minha também. Eu podia sentir o calor dele, o pulso de poder sob sua pele, a borda afiada de seu autocontrole. E, por baixo disso, algo mais sombrio. Algo que queria testar os limites entre nós só para ver o que aconteceria se ele os rompesse.

Meu corpo reagiu antes que minha mente pudesse.

O calor subiu às minhas bochechas.

Eu odiei isso instantaneamente.

Ele percebeu.

É claro que ele percebeu.

Algo em seu rosto endureceu, como se minha reação o ofendesse mais do que meu desafio.

Um galho quebrou atrás de mim.

Virei-me rápido demais e vi um movimento entre as árvores — outra figura, mais ao longe, semioculta pelas sombras. Tamanho humano. Observando.

Um segundo cheiro me atingiu então, fraco, mas afiado o suficiente para dar um nó no meu estômago.

Sangue.

Não fresco. Antigo, seco na terra em algum lugar por perto.

Os lobos se viraram todos ao mesmo tempo.

A cabeça do homem se inclinou levemente.

“Peguem ela”, disse uma voz vinda das árvores.

Meu pulso disparou.

O homem ao meu lado não se moveu.

A voz veio novamente, mais perto agora, cheia de desprezo. “A menos que você tenha ficado mole, Alfa.”

Alfa.

A palavra ressoou em mim como um sino.

A figura entrou no luar e vi o rosto pálido de outro homem, mais velho, sorrindo sem calor. Seus olhos eram amarelos, não humanos. Lobos se moviam atrás dele em uma formação solta e circular, e o ar entre os dois grupos estalava com algo feio e antigo.

De repente, entendi, com uma certeza doentia, que eu tinha entrado no meio de uma luta pelo poder.

E eu era a razão pela qual todos estavam olhando para mim.

Meu coração batia dolorosamente contra as costelas.

O homem ao meu lado — Alfa — não tirou os olhos do recém-chegado. Sua voz, quando surgiu, era plana como uma lâmina. “Vá embora.”

O outro homem riu baixinho. “Ela não é sua para guardar.”

Senti as palavras como uma violação.

Minha boca se abriu, mas nenhum som saiu.

Porque o olhar do homem mais velho tinha pousado sobre mim com um interesse despido, e o sorriso que ele me deu era daqueles que pertenciam a um cadáver.

“Prata”, murmurou ele, saboreando a palavra. “Bem. Isso é inconveniente.”

Meu sangue virou gelo.

Prata.

Não por causa dos meus olhos.

Porque ele sabia.

Os lobos ao nosso redor ficaram inquietos, rosnados baixos ondulando pela escuridão. Fiquei no centro de tudo, minha lanterna pendurada inutilmente ao lado, minha respiração vindo rápida demais. A floresta parecia menor agora, mais apertada, como se cada árvore tivesse se curvado para dentro para testemunhar o que aconteceria a seguir.

O Alfa se moveu apenas o suficiente para que seu ombro quase roçasse o meu.

Não era conforto.

Proteção, talvez.

Ou posse.

Eu ainda não conseguia distinguir a diferença, e isso me apavorava mais do que os lobos.

O sorriso do homem mais velho se alargou. “Dêem uma boa olhada, rapazes”, disse ele para as sombras atrás dele. “Essa é aquela sobre a qual as histórias nos avisaram.”

Minha garganta secou.

Histórias?

Antes que eu pudesse perguntar, a mão do Alfa disparou — não para mim, mas para o meu pulso. Seus dedos se fecharam em torno dele, fortes e queimando através do tecido da minha manga.

Soltei um suspiro agudo com o contato.

Seu aperto era forte o suficiente para machucar.

Forte o suficiente para me ancorar.

Forte o suficiente para que uma parte primitiva de mim se iluminasse em resposta e imediatamente me deixasse furiosa.

“Ouça com atenção”, disse ele sem olhar para mim. “Quando eu me mover, você corre.”

Olhei para ele, atordoada. “O quê?”

Seu polegar pressionou uma vez a parte interna do meu pulso. Um pulso ali, impossível e íntimo. “Se você quer viver, corra.”

A voz do outro homem cortou a escuridão, fria como ferro. “Ela não vai.”

Os lobos avançaram.

E cada instinto em meu corpo finalmente, finalmente despertou.

Eu não sabia quem eram aqueles homens. Eu não sabia por que meus olhos tinham feito a floresta ficar mortalmente silenciosa. Eu não sabia por que a palavra prata soara como uma maldição.

Mas eu sabia uma coisa com absoluta certeza:

Eu não era mais a que estava caçando.

O Alfa inspirou profundamente ao meu lado, como se tivesse sentido o exato momento em que meu medo se transformou em outra coisa.

Então ele disse, muito baixo: “Agora.”

O primeiro lobo saltou.

E a noite explodiu.