A LUNA PERDIDA DO ALFA

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Resumo

Ela achava que era apenas uma garota tentando sobreviver. Então os lobos viram seus olhos... e tudo mudou. Caçada pela floresta sombria, Mara é arrastada para um perigoso mundo de lobos onde seus olhos prateados não são uma maldição — são um sinal. Um sinal de sangue antigo. Poder perdido. E um destino que as alcateias pensavam ter sido enterrado para sempre. Agora, um Alfa que deveria temê-la não consegue ficar longe dela, inimigos já estão em seu encalço, e a verdade trancada em seu passado está começando a despertar.

Gênero
Fantasy
Autor
MITHUN
Status
Completo
Capítulos
30
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

CHAPTER 1

A chuva fazia tudo parecer mal-assombrado.

Ela deixava a estrada estreita escorregadia como óleo, transformava os pinheiros em sombras curvadas e encharcava o casaco de Mara Vale em menos de um minuto. O frio deveria ser a pior parte. Não era.

A pior parte era o modo como a floresta silenciava quando ela atravessava as pedras de limite.

Sem pássaros. Sem vento. Sem insetos cantando no mato.

Apenas o zumbido baixo de energia no ar e a consciência constante e predatória de estar sendo observada.

Mara apertou a alça da bolsa de lona sobre o ombro e continuou andando.

Não pareça assustada. Não pareça perdida. Não pareça uma presa.

Ela repetia as palavras na cabeça como uma oração, embora não soubesse para quem estava rezando. Deus. Destino. A lua. Qualquer um serviria, se algum deles decidisse poupá-la esta noite.

Suas botas afundaram na lama perto da linha das árvores. À frente, através da chuva e do véu de névoa, ela finalmente pôde ver luzes.

Uma packhouse.

Grande, antiga e construída como se tivesse sido erguida por homens que esperavam defendê-la com sangue. Uma luz morna brilhava das janelas, cortando retângulos dourados na escuridão. Vapor subia das chaminés. O cheiro de lenha queimada flutuava sobre a terra molhada.

Segurança.

Ou a coisa mais próxima disso que ela tivera em três semanas.

Mara parou na beira da clareira, com o peito apertado pela dor familiar nas costelas. As cicatrizes ali repuxavam quando ela respirava fundo demais, um lembrete constante de que sobreviver não era o mesmo que escapar.

Ela tateou automaticamente o pingente escondido sob sua camisa.

Uma lua crescente. Prata lisa. Desgastada pelo toque.

Não importava o quanto tentasse, ela não conseguia lembrar de onde tinha vindo. Apenas que soltá-lo parecia perder o último pedaço de algo importante.

Um galho quebrou atrás dela.

Mara girou tão rápido que quase perdeu o equilíbrio.

Três homens surgiram das árvores.

Não eram guardas da alcateia. Não pelo jeito deles. Muito brutos. Muito silenciosos. Seus cheiros a atingiram um segundo depois — terra molhada, ferro, suor e algo azedo por baixo.

Medo, talvez.

Ou sede de sangue.

Um deles sorriu ao vê-la sozinha.

"Bem", disse ele, com a voz baixa e divertida. "Olha só quem apareceu."

Mara deu um passo para trás. Depois outro. "Não estou procurando encrenca."

O homem no meio riu baixinho. Ele tinha uma cicatriz cortando uma das bochechas, pálida contra a barba por fazer. Seus olhos eram de um castanho opaco e faminto. Ele a examinou lentamente, sem fazer esforço para esconder.

"Você escolheu o território errado para isso."

O pulso de Mara martelou forte na garganta. Ela não tinha um faro de lobo digno de nota. Apenas fragmentos. Instinto. A sensação de que aqueles homens eram perigosos do tipo que não precisava de garras para matar.

O da esquerda contornou-a. "Está sozinha, querida?"

Ela odiava que seu corpo quisesse ficar imóvel. Odiava aquela resposta antiga e profunda que sussurrava: se você não se mover, talvez não seja vista.

Mas ela tinha terminado de ser invisível.

"Sim", disse ela, e a mentira saiu mais monótona do que queria. "E estou indo embora."

O homem com a cicatriz deu um passo à frente. "Não até decidirmos se você vale a pena manter."

A pele de Mara gelou apesar da chuva.

Ela recuou em direção à estrada, com o coração batendo forte o suficiente para doer. "Fiquem longe de mim."

"Ou o quê?", ele perguntou, e então sorriu mais largo, mostrando um canino lascado que era longo demais para ser humano.

O estômago de Mara deu um nó.

Shifters.

Não membros da alcateia. Rogues.

Sua boca ficou seca. Ela tinha ouvido histórias suficientes nas últimas semanas para saber que os rogues eram piores que lobos sem alfa. Eram lobos sem controle. Homens que tinham sido expulsos, ou tinham escolhido se expulsar, e descobriram que a liberdade tinha um gosto muito parecido com sangue.

O da esquerda avançou.

Mara reagiu por instinto, balançando sua bolsa como uma arma. A lona atingiu o ombro dele. Ele praguejou, cambaleando meio passo. Ela não esperou para ver se causou algum dano. Ela correu.

Lama espirrou em suas pernas enquanto ela alcançava a estrada. Atrás dela, o grito do rogue cortou a chuva.

"Lá vai ela!"

Passos pesados a perseguiam.

Os pulmões de Mara arderam quase imediatamente. Seu corpo ainda estava fraco pela longa febre que tomara conta da última vez que fora ferida, e os hematomas em seu lado ardiam a cada passada. Ela forçou mais mesmo assim, escorregando no chão molhado, o cabelo chicoteando em seu rosto.

O portão da packhouse surgiu à frente.

Barras de ferro altas. Dois guardas em pé sob o arco. Tochas acesas. Uma chance.

"Ajuda!", ela gritou, e odiou como sua própria voz soou crua e desesperada. "Por favor—"

Um dos guardas virou-se, com a expressão atenta.

O outro alcançou a alavanca do portão.

Então tudo aconteceu ao mesmo tempo.

Um borrão de movimento vindo da escuridão. Um rogue atingiu o primeiro guarda de lado, com os dentes à mostra, e o homem caiu com um grito. O segundo guarda se transformou parcialmente, garras brilhando enquanto ele avançava.

Mara congelou tempo suficiente apenas para ver a luta começar na chuva.

Corpos colidiram contra a terra molhada. Dentes. Garras. Um rosnado tão vicioso que vibrou através de seus ossos.

Ela tropeçou para trás, horrorizada e inútil.

"Para dentro!", o segundo guarda latiu para ela, sem desviar os olhos do rogue que atacava.

Os pés de Mara se moveram sozinhos.

Ela correu pelo portão bem quando um segundo rogue saiu das árvores atrás dela. As barras de ferro fecharam-se com um estrondo profundo que ecoou como a tampa de um caixão. Algo atingiu o portão do outro lado com força suficiente para fazê-lo chacoalhar.

Mara recuou assustada.

"Ande."

A voz atrás dela era cortante, baixa e totalmente desprovida de bondade.

Ela se virou.

E esqueceu, por um batimento cardíaco insano, como respirar.

O homem parado na chuva no centro do pátio tinha ombros largos, cabelos escuros e era construído como a violência em forma humana. A água escorria pela linha afiada de seu maxilar e sobre a Henley preta esticada em seu peito. Seu rosto era feito de ângulos rígidos e fúria contida, como se até sua imobilidade tivesse sido forjada pela disciplina.

Mas foram seus olhos que fizeram Mara parar bruscamente.

Dourados.

Não humanos. Nem totalmente de lobo.

Alfa.

A palavra a atingiu como um golpe físico.

Ao redor dele, a alcateia estava imóvel. Guardas. Mensageiros. Uma mulher com uma cesta agarrada ao peito. Todos tinham baixado a cabeça, exceto ele.

Ele observava o caos no portão com foco letal.

Então seu olhar caiu sobre Mara.

Algo mudou.

Foi tão rápido que ela quase perdeu. Um lampejo. Um aperto em sua boca. Suas narinas dilataram, como se tivesse captado um cheiro que não conseguia identificar.

Mara sentiu o mesmo — um solavanco invisível que passou do espaço entre eles direto para seu peito.

Seu pingente queimou quente contra sua pele.

Não.

O pensamento veio com uma certeza imediata e doentia.

Não aqui. Não agora.

O alfa deu um passo em sua direção.

O mundo se resumiu ao som da chuva e à batida de seu próprio coração.

O olhar dele permanecia fixo no dela, como se tivesse encontrado algo que não esperava ver e não confiasse nos próprios olhos.

"Você", disse ele.

Não era exatamente reconhecimento.

Era pior que isso.

Soava como choque.

Mara engoliu em seco. "Preciso de ajuda."

O olhar dele caiu, apenas brevemente, sobre os hematomas visíveis em sua garganta acima da gola do casaco. Depois voltou para seu rosto. O ar entre eles pareceu apertar.

Antes que ele pudesse responder, outra voz cortou o pátio.

"Alfa."

Um homem de casaco escuro caminhou do salão principal, com a chuva perlando em seus ombros. Seu cabelo era prateado nas têmporas, seu rosto marcado e afiado. Não era um guarda. Não era um servo. Alguém importante o suficiente para falar sem esperar permissão.

Ele lançou um olhar para Mara e sua expressão endureceu.

"O que é isto?"

"Ela atravessou o portão enquanto os rogues atacavam", disse um dos guardas, sem fôlego da luta. "Eles estavam atrás dela."

As narinas do homem de cabelos prateados se contraíram. "E ela está em nossa propriedade porque...?"

Mara sentiu como um tapa.

Por que o quê?

Porque ela parecia humana o suficiente para ser suspeita. Porque ela não usava as cores de nenhuma alcateia. Porque ela tinha cicatrizes que não pertenciam ao mundo organizado e protegido deles. Porque ela estava sozinha, e ninguém confiava em uma mulher sem alcateia sozinha na chuva.

O alfa não olhou para o homem de cabelos prateados. Sua atenção permanecia fixada em Mara, intensa o suficiente para fazer a pele dela arrepiar.

"Quem é você?", ele perguntou.

A pergunta deveria ter sido simples.

Não foi.

O nome dela ficou entalado na garganta.

Ela tinha usado uma dúzia de nomes no último ano. Nenhum deles servia. Nenhum deles parecia ser o dela. Aquele com o qual ela nascera existia em algum lugar na escuridão, no limite da memória, quase fora de alcance, e essa ausência fazia com que qualquer apresentação parecesse uma mentira.

"Mara", ela disse por fim. "Mara Vale."

O maxilar do alfa se contraiu.

A reação foi tão leve que ela quase se convenceu de que tinha imaginado.

Então, o homem de cabelos prateados falou de novo, mais frio desta vez: "E por que o Alfa do território Black Thorn se importaria com uma perdida com um nome falso?"

Mara se eriçou, apesar do medo que apertava suas costelas. "Não é falso."

"Tudo em você parece falso", ele disparou.

As palavras atingiram em cheio o seu ponto mais fraco.

Falsa. Indesejada. Sem alcateia.

Atrás dos seus olhos, um lampejo de memória surgiu como um raio através do nevoeiro — paredes brancas, uma mão segurando seu pulso, alguém dizendo "não deixe ela lembrar" —

Mara ofegou e agarrou o pingente sob sua camisa.

O alfa percebeu.

É claro que ele percebeu.

Seus olhos se estreitaram e, quando ele falou novamente, o tom áspero em sua voz era inconfundível: "Chega."

O homem de cabelos prateados baixou a cabeça, mas apenas levemente. "Alfa, isso não é sensato. Há rogues no portão e ela aparece do nada, sem escolta. Não sabemos o que ela é."

Uma risadinha amarga escapou de um dos guardas antes que ele pudesse se conter.

Aquele som foi o suficiente.

O calor inundou o rosto de Mara, rápido e humilhante. Todos os olhares no pátio pareciam se voltar para ela. Ela podia sentir todos avaliando os furos em suas botas, as mechas úmidas de cabelo coladas em sua bochecha, a bainha rasgada de seu casaco. Ela sabia como estava: exausta, machucada e mal conseguindo ficar de pé.

Não era uma ameaça.

Era um problema.

Uma piada.

Algo em seu peito apertou tão forte que ela quase não conseguiu respirar.

A cabeça do alfa virou na direção do guarda que ria.

A diversão desapareceu instantaneamente.

O guarda ficou pálido. "Eu não quis dizer..."

"De joelhos", o alfa ordenou.

O pátio ficou em silêncio absoluto.

O guarda hesitou o tempo suficiente para piorar a situação, então caiu sobre as pedras molhadas tão rápido que seus joelhos espirraram água em uma poça.

O alfa não elevou o tom de voz. Ele não precisava.

"Zombar de uma mulher no meu portão enquanto rogues invadem meu território é estupidez", disse ele. "Faça isso de novo e eu vou tirar sua patente até o ciclo da lua acabar."

"Sim, Alfa."

Mara observava, atônita.

Ninguém nunca tinha sido repreendido por causa dela antes. Não daquele jeito. Não publicamente. E certamente não por um homem que parecia nunca ter duvidado, nem por um segundo, de seu direito de comandar o mundo ao seu redor.

A atenção dele voltou para ela.

A força daquele olhar quase a fez recuar.

"Venha comigo", ele disse.

Não foi um pedido.

Mara olhou por cima do ombro para o portão fechado. Os sons da luta haviam diminuído, mas a tensão no ar, não. Em algum lugar além dos muros, ela ainda podia sentir o cheiro dos rogues. Ainda conseguia sentir a lembrança de dentes se fechando atrás dela.

Dentro da casa da alcateia, o calor a esperava. A luz. Proteção.

Talvez.

Mas cada instinto que ela tinha gritava que seguir aquele alfa para dentro de sua casa era perigoso de um jeito que os rogues lá fora não eram.

E então havia aquela estranha e impossível atração em seu peito, aquela que tinha explodido no momento em que ela encontrou os olhos dele. Não fazia sentido. Isso a assustava mais do que os homens no portão.

"Eu não conheço você", ela disse, porque era a única defesa que tinha.

Algo ilegível passou pelo rosto dele. Dor, talvez. Ou irritação. Ou algo mais profundo que desapareceu antes que ela pudesse captar.

"Você está segura aqui", ele disse.

Segura.

Mara quase riu disso.

Antes que ela pudesse responder, o homem de cabelos prateados se aproximou, seu olhar afiado o suficiente para cortar. "Essa não é uma garantia que podemos dar levianamente."

Os olhos do alfa ficaram frios. "Elias."

O aviso em uma única palavra o silenciou.

Mara olhou de um para o outro, um mal-estar subindo por sua espinha. Então o homem de cabelos prateados era importante. Talvez um beta, talvez um conselheiro. Alguém acostumado a ser obedecido.

E, ainda assim, ele olhava para ela como se ela fosse uma contaminação.

O alfa estendeu uma das mãos.

Forte. Calosa. Úmida pela chuva.

O gesto era simples, quase calmo.

Também era a coisa mais perigosa que ele tinha feito até agora.

Se ela pegasse sua mão, ela entraria no mundo que ele governava.

Se recusasse, continuaria sozinha em um território onde os rogues já a tinham encontrado uma vez.

A escolha tinha gosto de ferro.

Mara olhou para a mão dele, depois para o seu rosto. Ele a observava com um foco tão intenso que parecia estar se preparando para um impacto.

Como se a resposta dela importasse.

Como se importasse para ele.

Isso não deveria ser possível. Ela não o conhecia. Ela não conhecia ninguém ali. E, no entanto, cada centímetro de sua pele parecia estar consciente dele, do calor sob a contenção, da atração perigosa daqueles olhos dourados fixos nela, como se ela fosse a única coisa na chuva.

Seus dedos se contraíram perto do pingente.

Então, vindo de além do portão, surgiu um som que fez todas as cabeças no pátio se virarem.

Um uivo.

Longo. Agudo. Perto demais.

Seguido por outro.

E mais outro.

Os guardas se moveram instantaneamente, com as mãos indo parar nas armas. O rosto do alfa endureceu em algo letal.

O estômago de Mara deu um nó.

Aquele não era o som de rogues testando um perímetro.

Aquele era um sinal.

Um sinal coordenado.

Elias praguejou baixinho. "Eles estão chamando mais deles."

O alfa se moveu em um borrão, posicionando-se à frente de Mara tão rápido que ela mal percebeu o movimento. Seu corpo tornou-se um muro entre ela e o portão, largo e inabalável.

"Para dentro", ele ordenou ao pátio. "Agora."

As pessoas se dispersaram.

Mas Mara não conseguia se mover.

Porque, no momento em que o uivo ecoou pelo terreno, seu pingente brilhou, quente o suficiente para fazê-la gritar.

Não apenas quente.

Ardente.

Ela ofegou e arranhou a corrente sob sua camisa, tentando arrancá-la, mas a prata estava pressionada contra sua pele como se tivesse se fundido a ela. Um pulso de luz brilhou sob seus dedos, forte o suficiente para refletir nos olhos do alfa.

A cabeça dele virou bruscamente em sua direção.

Seu olhar caiu sobre a mão dela.

Depois para o lugar onde o pingente ardia sob o colarinho.

Sua expressão mudou.

Toda a cor pareceu esvair-se do seu rosto, deixando para trás algo cru e totalmente descrente.

Não.

Essa palavra pareceu viver no espaço entre eles, embora nenhum dos dois a tenha dito em voz alta.

Mara olhou para cima, ofegante, com a chuva escorrendo por suas bochechas como lágrimas que ela se recusava a sentir.

"O que é isso?", ela sussurrou, embora já soubesse que a resposta a aterrorizaria.

O alfa abriu a boca.

Por um segundo impossível e suspenso, o barulho do pátio desapareceu. Os guardas. A chuva. Os uivos distantes. Tudo caiu diante do peso do olhar dele.

E então ele disse, muito baixinho, como se a verdade pudesse cortá-los ao meio se ele falasse mais alto:

"Essa é a marca da minha companheira."

Mara ficou completamente imóvel.

O pingente pulsou uma vez contra sua pele.

Então, bem além do portão, algo bateu contra o ferro com força suficiente para fazer todo o muro estremecer.

E a mão do alfa se fechou ao redor da dela.