CHAPTER 1
Quando o primeiro grito cortou a noite, eu já estava correndo.
Não porque eu fosse corajosa.
Mas porque eu estava acostumada a sentir medo.
O som veio da linha das árvores além do limite de Briar Glen, agudo, animalesco e tão perto que a pele na minha nuca se arrepiou. Quase deixei cair a cesta que carregava. Maçãs rolaram pela trilha de terra batida, quicando até o mato, e uma delas se partiu sob a minha bota.
“Lena!” A voz da minha mãe veio da varanda do nosso pequeno aluguel, fina de pânico. “Entre!”
Eu não entrei.
Eu congelei.
Porque, sob o luar, logo depois da primeira fileira de pinheiros negros, algo maciço se moveu entre os troncos.
Não era um cervo.
Não era um cachorro.
Era um lobo.
Ele entrou no brilho prateado da lua como se estivesse esperando que eu o visse. Músculos se contraíam sob uma camada espessa de pelo escuro. Seus olhos captaram a luz e brilharam em âmbar, vívidos como brasas acesas.
Cada aviso antigo que minha avó murmurou voltou de uma vez.
Não vá para a floresta depois de escurecer. Não siga rastros estranhos. Não encare um lobo nos olhos se puder evitar.
Meu coração falhou uma batida.
A cabeça do lobo inclinou-se.
E então, ele sorriu.
Não, não sorriu. Lobos não sorriam.
Aquele sorriu.
Meu sangue virou gelo.
“Lena!” minha mãe gritou de novo, mais forte desta vez, dos degraus da varanda. Sua voz falhou. “Para dentro. Agora.”
Recuei um passo.
O lobo não se moveu.
Então outra silhueta surgiu ao lado dele. E outra.
Três.
Quatro.
Meus dedos apertaram a alça da cesta até que o vime marcasse minha palma. Um ganido subiu na minha garganta antes que eu conseguisse engoli-lo.
Os lobos eram grandes demais.
Parados demais.
Inteligentes demais.
E eles estavam se espalhando, silenciosos como fumaça, cercando o quintal.
Uma pressão tomou conta de mim, estranha e pesada, como se o próprio ar estivesse me observando. Minha pele se arrepiou. Os pelos dos meus braços se levantaram. Um instinto profundo dentro de mim gritava que eu não deveria estar ali, exposta e vulnerável, enquanto aqueles olhos estavam fixos em mim.
Um dos lobos baixou a cabeça.
Não para perseguir.
Para fazer uma reverência.
Os outros três seguiram o exemplo.
Por um segundo atordoado, o mundo inteiro deu errado.
Esqueci de respirar.
Então a luz da varanda acendeu atrás de mim, inundando o quintal de ouro.
“Lena, entre em casa”, minha mãe sussurrou, e agora havia algo na voz dela que eu nunca tinha ouvido antes. Não era medo.
Era reconhecimento.
Eu me virei rápido demais e quase tropecei na cesta. “O que é aquilo?”
O rosto dela estava pálido. Ela segurava o corrimão com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. “Eu disse para entrar.”
O lobo mais próximo levantou a cabeça.
Seu olhar passou pela minha mãe como se ela nem estivesse lá.
Ele estava olhando para mim.
Meu estômago deu um nó.
O maior deles deu um único passo à frente.
Eu tropecei para trás com um suspiro agudo, e o lobo parou instantaneamente, como se o meu medo tivesse puxado uma coleira apertada em torno de seu pescoço.
Aquilo me aterrorizou mais do que se ele tivesse atacado.
Porque lobos não reagiam a mim daquela maneira.
Nada reagia a mim daquela maneira.
Eu era Lena Vale, vinte e dois anos, garçonete temporária de lanchonete, estoquista de meio período em mercado, uma ninguém profissional. A garota que a cidade esquecia quando eu entrava em uma sala. A garota que os homens ignoravam, as mulheres tinham pena e os adolescentes riam quando achavam que eu não podia ouvir.
A garota humana.
A garota inútil.
Aquela que não tinha nada de especial no sangue, nada de mágico nos ossos e nada que valesse a pena notar.
Pelo menos, era isso que todos sempre diziam.
As orelhas do lobo estremeceram.
Ele sabia exatamente o que eu estava pensando.
Minha mãe desceu um degrau, depois parou como se estivesse cruzando uma linha invisível. “Lena”, disse ela novamente, agora com mais cautela, como se estivesse se aproximando de um animal acuado. “Venha aqui.”
“O que está acontecendo?”
“Não faça perguntas.”
Dei uma risada incrédula que soou fraca até para os meus próprios ouvidos. “Há lobos no nosso quintal. Grandes. Fazendo reverências. Mãe, se isso for algum tipo de piada—”
“Não é.”
A luz da varanda captou o brilho de lágrimas em seus olhos.
Algo dentro de mim se contorceu.
Minha mãe quase nunca chorava. Ela fazia turnos duplos, pagava as contas em dia e sorria através da exaustão com tanta frequência que isso se tornou um escudo. Vê-la assim fez o chão balançar sob meus pés.
Os lobos se moveram de novo.
Não em direção à casa.
Para longe dela.
Como um só, eles viraram as cabeças para a estrada.
Segui o olhar deles.
Dois caminhonetes subiam nossa estrada de terra, com os faróis iluminando as árvores. Eles pararam no portão, e homens desceram em um borrão de botas, jeans e jaquetas escuras. Eu os reconheci antes mesmo de ver seus rostos.
Xerife Calloway. Mason Trent, da loja de ração. O velho Sr. Harker, cujos joelhos estavam ruins demais para justificar o jeito que ele estava se movendo.
E atrás deles—
Prendi a respiração.
Elias Thorne.
Ele era a razão pela qual metade da cidade silenciava sempre que ele entrava em uma sala. A razão pela qual as mães puxavam as filhas para dentro à noite e os pais baixavam o tom de voz. Alto, ombros largos, todo controle frio e calma perigosa, como uma tempestade que aprendeu a vestir a pele de um homem. Ele era o xerife da cidade quando as pessoas queriam respostas, o alfa da alcateia quando elas queriam obediência, e a última pessoa que eu queria ver na beira do meu quintal.
Porque Elias nunca me olhou como se eu fosse invisível.
Ele olhava para mim como se eu fosse um problema.
Um problema muito pessoal.
Esta noite, aquele olhar atingiu como um golpe no peito.
Ele deu um passo lento para dentro do quintal e os lobos que ladeavam os pinheiros baixaram as cabeças ainda mais.
Minha boca secou.
Claro.
Claro que os lobos pertenciam a ele.
Meu estômago afundou com uma clareza humilhante. Os rumores circulavam há anos, sussurrados na lanchonete, nos corredores do mercado, no estacionamento fora do colégio onde eu já fiz turnos de verão.
A família Thorne não era apenas rica. A família Thorne não era apenas antiga.
Eles eram outra coisa.
Em algumas noites, eu ouvia os uivos vindo do cume e observava os homens da cidade ficarem quietos quando o som chegava. As velhas se benziam. As crianças tremiam e perguntavam o que eram. Todos sabiam o bastante para não dizer em voz alta.
Lobisomens.
E Elias Thorne era o alfa deles.
Ele parou a alguns metros da varanda, o olhar cortando do meu rosto para o da minha mãe e voltando. “Você não deveria estar do lado de fora.”
Sua voz era baixa, veludo sobre aço.
Eu odiava que meu pulso acelerasse ao som dela.
“Não me diga o que devo fazer”, disparei.
Minha mãe inspirou bruscamente. Um dos lobos fez um som profundo e grave na garganta.
Os olhos de Elias se desviaram, brevemente, para o animal, depois voltaram para mim. “Você não entende o que está na floresta esta noite.”
Meu queixo se levantou automaticamente, alguma parte teimosa de mim se recusando a se encolher mesmo enquanto minhas pernas tremiam. “Eu entendo que seus cachorros estão no meu quintal.”
Um lampejo cruzou seu rosto.
Não era diversão.
Algo mais afiado.
Os homens atrás dele estavam me encarando como se eu tivesse acabado de cometer um crime por falar.
Eu conhecia aquele olhar. Eu tinha visto muitas vezes na cidade. O olhar que dizia: garota humana, saiba o seu lugar.
A mandíbula de Elias se contraiu. “Aqueles não são cachorros.”
“Não me diga.”
Seu olhar caiu sobre minha boca por uma fração de segundo. Foi uma coisa tão pequena, quase nada, mas enviou calor através de mim tão rapidamente que quase dei um passo atrás para escondê-lo.
Eu não queria sentir aquilo.
Não agora.
Não por ele.
A estrada atrás dos caminhonetes explodiu com outro grito.
Este era humano.
Um dos homens gritou, e cada lobo no quintal ficou em alerta imediato. O maior deles — preto como tinta derramada, com uma cicatriz atravessando o focinho — virou a cabeça e rosnou tão baixo que o som vibrou nos meus ossos.
Então, a floresta ganhou vida.
Vultos surgiram da escuridão, rápidos demais para serem vistos claramente no início. Um borrão de pelos, presas e mandíbulas que se fechavam. Um dos lobos em nosso quintal avançou com um brilho de garras prateadas, e a noite explodiu em rosnados.
Eu tropecei para trás com um grito.
“Para dentro!”, Elias ordenou.
O comando atingiu o quintal como um estalo de chicote.
Minha mãe agarrou meu braço, mas eu me soltei sem pensar. “Não!”
Um lobo colidiu com a grade da varanda, estilhaçando a madeira. Minha mãe gritou.
Tudo aconteceu ao mesmo tempo.
Um dos homens perto do portão caiu com força na terra. Outro se transformou — realmente se transformou —, com os ossos estalando de forma doentia sob a pele, enquanto um corpo maior que o humano se erguia em um impulso violento. Eu já tinha visto o suficiente para saber que aquilo não era um sonho, nem uma brincadeira de bêbado, nem um boato da cidade que tomou forma.
Aquilo era real.
Assustadoramente real.
E, no meio de tudo isso, estava Elias Thorne, completamente imóvel.
Ele se moveu apenas uma vez.
Um braço disparou e me puxou para trás quando um borrão de pelos passou perto demais da varanda.
Eu me choquei com força contra uma parede de músculos, cedro e o ar frio da noite.
Elias.
Por um instante desorientador, fiquei pressionada contra ele, com sua mão travada ao redor do meu pulso e o outro braço firme contra minhas costelas para me manter atrás dele. Meu corpo ficou rígido.
Sua cabeça girou levemente, o suficiente para que eu pudesse sentir o calor de sua respiração perto do meu cabelo. “Fique atrás de mim”, disse ele, a voz agora rouca.
Algo ardeu em meu peito.
Raiva. Medo. Constrangimento.
E, por baixo de tudo isso, uma consciência estúpida e traiçoeira de quão sólido ele era, de como sua mão parecia ao redor do meu pulso, de como a frieza de seu controle fazia cada instinto em mim despertar e prestar atenção.
Eu odiava meu corpo por notar aquilo.
Eu o odiava por notar que eu notei.
“Eu não preciso que você me proteja”, eu sibilei.
Sua mão apertou um pouco mais. “Esta noite, você precisa.”
Outro lobo colidiu no quintal. Este era maior que os outros, cinza-tigrado e cruel, com um corte na lateral como se já estivesse lutando. Ele atingiu o lobo preto de focinho cicatrizado, e os dois se chocaram em um emaranhado de dentes e mandíbulas rangentes.
Minha respiração travou na garganta.
O cheiro veio em seguida.
Sangue.
Terra.
Pelos quentes.
Meu estômago embrulhou.
Eu podia ouvir minha mãe atrás de mim, soluçando baixinho, e aquilo era pior do que a luta. Pior do que os lobos. Pior do que a mão de Elias em mim.
Porque eu conhecia aquele som.
Eu tinha ouvido quando meu pai morreu.
Eu tinha ouvido quando as contas venciam, os armários permaneciam vazios e não havia ninguém vindo nos salvar, exceto eu.
Algo em meu peito ficou quente e rígido.
Os lobos não deveriam estar aqui.
O perigo não deveria estar no meu quintal.
E, por um momento insano e furioso, tudo o que eu queria era que aquilo parasse.
A pressão no ar aumentou.
As tábuas da varanda sob meus pés pareciam vibrar.
Um zumbido surgiu atrás das minhas orelhas, fino no início, depois mais alto, como se a própria noite tivesse prendido a respiração e estivesse esperando.
Os lobos no gramado congelaram.
A luta cessou.
Um por um, as cabeças se levantaram.
Cada um deles se virou para mim.
Não para Elias.
Para mim.
Um silêncio caiu tão abruptamente que pareceu como ser jogada debaixo d'água.
Eu encarei de volta, com o coração batendo forte contra as costelas.
O lobo preto com a cicatriz deu um passo à frente, lento e deliberado.
Elias praguejou baixo.
“Não se mova”, disse ele, mas sua voz tinha mudado. Havia cautela ali agora. Não por mim.
Por mim.
Eu não entendia por que aquilo me assustava tanto.
O lobo chegou à beira da varanda.
Seu olhar se prendeu ao meu.
Algo dentro de mim puxou.
Não fisicamente. Não exatamente.
Mais profundo.
Como se um fio tivesse se enrolado na minha coluna e puxado com força.
Meus joelhos enfraqueceram.
O lobo abaixou a cabeça.
Ele se curvou.
Os outros o seguiram.
Alguns dos homens no chão caíram sobre um joelho sem parecer que queriam.
Meu pulso deu um baque, forte o suficiente para doer.
Não.
Não, isso estava errado.
Olhei para Elias, precisando que ele explicasse aquilo, precisando que ele dissesse que era algum truque da alcateia, ou uma droga, ou um pesadelo sobre o qual eu riria mais tarde.
Mas a cor tinha sumido de seu rosto.
Ele estava me encarando como se tivesse acabado de ver o impossível.
Meu estômago afundou.
“O que é isso?”, sussurrei.
Seus olhos encontraram os meus.
Pela primeira vez desde que o conheci, Elias Thorne parecia perturbado.
“Lena”, disse ele, e meu nome em sua boca soou como um aviso, “o que você fez?”
“Eu não fiz nada.”
As palavras saíram rápido demais, afiadas demais.
Ele não respondeu.
O lobo cicatrizado deu mais um passo.
Então, para meu horror, ele pressionou sua cabeça maciça contra a grade da varanda como se estivesse se oferecendo.
Como se estivesse se ajoelhando.
Como se quisesse que eu o tocasse.
Meus dedos tremiam.
O mundo inteiro pareceu se reduzir àquele lobo e à atenção impossível em seus olhos.
Eu deveria estar aterrorizada.
Eu estava.
Mas por baixo do terror havia outra coisa.
Uma sensação estaladiça e crescente de que algo tinha se deslocado sob meus pés e ninguém se deu ao trabalho de me avisar que o chão tinha sumido.
A mão de Elias deslizou do meu pulso para o meu cotovelo, mais firme agora. Possessiva, quase. “Para dentro”, ele disse novamente, e desta vez o comando era apenas para mim.
Eu me virei para ele antes que pretendesse.
A luz da varanda cortava sombras duras em seu rosto, fazendo-o parecer mais velho e mais perigoso do que nunca. Havia um corte em seu maxilar que eu não tinha notado antes, e sangue na gola de sua camisa. Suas pupilas estavam contraídas, sua expressão esculpida em contenção.
Ele estava se esforçando muito para não me tocar novamente.
Isso, mais do que qualquer coisa, me fez estremecer.
“Se você sabe o que está acontecendo”, eu disse, com a voz tremendo apenas levemente, “você vai me contar”.
Por um batimento cardíaco, ele não disse nada.
Então, os lobos atrás dele levantaram a cabeça de uma só vez, com as orelhas alertas em direção à estrada.
O olhar de Elias passou por mim.
E seu rosto mudou.
Alarme. Alarme real.
Não o tipo controlado e vigilante.
O tipo que significava que algo pior tinha acabado de chegar.
Uma voz fria ecoou da escuridão além do portão.
“Ora”, disse ela. “Aí está você.”
Cada pelo dos meus braços se arrepiou.
Uma figura surgiu no alcance da luz da varanda.
Alta. Feminina. Bonita de um jeito que tornava a palavra cruel. Seu cabelo escuro caía em ondas brilhantes sobre um ombro. Ela vestia branco apesar da lama, e seu sorriso era tão limpo e afiado quanto uma faca.
Minha mãe soltou um som estrangulado atrás de mim.
Os olhos da mulher pousaram em mim, e o sorriso se alargou.
“Oh”, murmurou ela, quase encantada. “Ninguém me contou que a humana já estava marcada.”
Elias se moveu na minha frente tão rápido que o ar estalou.
Mas era tarde demais.
Porque o olhar da mulher já tinha descido para a minha garganta.
E eu senti naquele momento.
Uma queimadura sob a minha pele.
Bem onde os olhos dela olhavam.
Levei uma mão trêmula à minha clavícula.
Sob minha camisa, algo brilhava.