LUNA: O AVISO

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Resumo

Elena Vale encontra uma carta escondida de sua mãe desaparecida, alertando-a para ir até Black Hollow. Mas, no momento em que ela segue a pista, alguém começa a observá-la. Um lobo morto aparece à sua porta. Os registros de sua mãe desaparecem. E, atrás dos portões de Black Hollow, espera Darian Black — um Alpha perigoso que sabe mais sobre Elena do que admite. Ela veio em busca de respostas. Mas Black Hollow talvez estivesse esperando para reivindicá-la.

Status
Completo
Capítulos
30
Classificação
1.5 2 avaliações
Classificação Etária
16+

Capítulo 1

A chuva batia na janela do apartamento com um som fino e cansado.

Elena ajoelhou-se no chão da cozinha e puxou a gaveta emperrada até a madeira soltar um gemido baixo. A alça rachada cravava em sua palma. Ela só estava procurando pilhas. Era só isso.

A gaveta abriu-se de um solavanco.

Poeira, papéis velhos e o cheiro azedo do vazamento debaixo da pia escaparam para fora.

Então, seus dedos tocaram algo plano sob o fundo falso.

Ela congelou.

Um envelope.

Amarelado nas bordas. Macio pelo tempo. Escondido tão bem que ela talvez nunca o tivesse encontrado se a gaveta não tivesse emperrado.

O nome dela estava escrito na frente.

Elena Vale.

Sua garganta deu um nó.

Ela encarou o envelope por tempo demais, como se olhar fixamente pudesse torná-lo menos real. Sem selo. Sem endereço de remetente. Apenas seu nome e, abaixo dele, uma pequena marca azul.

Um círculo com um traço atravessado.

Ela conhecia aquela marca.

Não de uma memória clara. Mas de algo vago. Um lampejo de folhas molhadas. A mão da mãe na nuca dela. Uma voz dizendo: Fique quieta.

Então a imagem sumiu.

Elena virou o envelope. O papel parecia estranho em sua mão. Fino demais. Velho demais. Estava escondido há anos. Talvez desde quando ela era pequena demais para ler.

Ela deveria ter guardado de volta.

Em vez disso, enfiou a unha sob a aba.

Seu telefone tocou.

O som estalou pelo quarto.

Elena fechou os olhos por um instante e pegou o telefone no balcão. A tela mostrava o Sr. Harker.

Claro.

Ela olhou para o aviso de aluguel ao lado da caneca lascada. Números vermelhos. Aviso vermelho. Seis dias de atraso.

Ela atendeu.

“Alô?”

“Srta. Vale.” A voz dele soava fina e cortante pelo alto-falante. “Eu estava começando a achar que você tinha perdido seu telefone.”

“Estou aqui.”

“Ainda não houve pagamento.”

“Eu sei.”

“Preciso disso até sexta-feira.”

Sexta-feira era daqui a dois dias.

Seus dedos se fecharam em torno do envelope. “Eu disse que sei.”

Seguiu-se uma pequena pausa.

Então, com um tom mais suave, o que foi pior: “Você está aqui há três anos, Elena. Estou tentando ser paciente.”

Ela encarou o aviso até os números ficarem borrados.

Aluguel. Passe de ônibus. Eletricidade. Comida. O aquecedor que tossia a noite toda, como se estivesse com raiva por ainda estar vivo.

“Estou trabalhando nisso”, ela disse.

“Você sempre está.”

A linha ficou muda.

Elena abaixou o telefone e levantou-se rápido demais. O quarto girou. Ela se segurou no balcão com uma mão.

Na pia havia uma tigela da noite anterior, com macarrão seco nas bordas. Aquela era sua vida na maioria dos dias. Tigelas para lavar depois. Contas para pagar logo. Problemas pequenos com contornos definidos.

Não aquilo.

Não o envelope em sua mão.

Ela levou o envelope até a mesa e sentou-se.

A chuva escurecia a janela. Do outro lado da rua, o letreiro da lavanderia piscava num tom rosa fraco na tarde cinzenta.

Seu polegar pairou sobre a aba.

Ela poderia parar.

Ela não parou.

Dentro havia uma página dobrada e um pequeno objeto que caiu em sua palma.

Um amuleto.

Metal escuro. Um cordão arrebentado. Frio a ponto de arder.

À primeira vista, parecia um crescente cortado por uma linha fina. Depois, ela o virou sob a luz e viu a linha curvar-se em uma das pontas, como uma marca de garra.

Sua respiração falhou.

Ela conhecia aquilo.

Não de agora. Do passado.

De uma mão que cheirava a sabonete e fumaça. De ser instruída a mantê-lo escondido. De uma noite que ela se esforçou para enterrar.

A página tremeu quando ela a desdobrou.

A caligrafia era a mesma do nome na frente.

Da mãe dela.

Elena,

Se você está lendo isto, então eu falhei em voltar.

Seus olhos arderam. Ela piscou forte e continuou lendo.

Não me procure nos lugares que são fáceis de encontrar. Não confie em ninguém que diga que me conhecia bem. Se perguntarem sobre a estrada enluarada, minta.

Estrada enluarada.

Que tipo de aviso era aquele?

Ela leu a frase seguinte duas vezes.

Você sempre foi mais gentil do que eu merecia, e essa foi a parte mais difícil de partir.

Sua mandíbula travou.

Aquela frase doeu mais do que um pedido de desculpas sincero teria doído. Parecia alguém tentando não desmoronar ao escrever uma despedida.

Ela alisou a página e continuou.

Há coisas sobre seu nascimento que eu deveria ter lhe contado antes. Coisas que eu tinha medo demais de nomear. Se você ainda tem o amuleto, mantenha-o por perto. Se você o perdeu, então alguém esteve vigiando por mais tempo do que você imagina.

Vigiando.

Um frio percorreu sua pele.

Elena olhou para o amuleto em sua mão, depois para a marca azul no envelope.

O círculo com o traço atravessado.

Não era um sonho. Não era uma piada. Algo real.

Seu telefone vibrou novamente.

Ela o ignorou.

Pela primeira vez, ela não esperou que o mundo viesse até ela. Ela foi até a porta do apartamento, checou a corrente e olhou pelo olho mágico. Corredor vazio. Luz cinzenta. Um azulejo rachado perto da escada.

Nada.

Ainda assim, seu pulso continuava acelerado.

Ela voltou para a mesa, colocou o amuleto ao lado da carta e pegou o celular.

Nenhuma mensagem nova.

Ela encarou a tela, abriu os contatos e pairou sobre o nome de Marek.

Ele viria. Ele sempre vinha.

Ele traria aquela voz firme, aquele olhar tranquilo e faria tudo parecer menos perigoso do que era. Ele faria perguntas. Ele tentaria ajudar. Ele iria querer a verdade, e odiaria se ela a escondesse dele.

Elena quase ligou para ele.

Em vez disso, ela colocou o telefone de lado.

Se ela contasse agora, o segredo deixaria de ser dela.

Esse pensamento deveria tê-la confortado. Não confortou.

A porta do apartamento bateu.

Elena deu um solavanco tão forte que a carta deslizou na mesa.

Então veio a batida.

Três batidas rápidas.

Ela encarou a porta.

Ninguém batia assim a menos que a conhecesse.

“Marek?” ela chamou, já de pé.

“Quem mais seria?” A voz dele veio através da madeira, quente e áspera.

Seus ombros relaxaram antes que ela pudesse controlar.

Ela abriu a porta.

Marek Reed estava lá, com a jaqueta molhada de chuva, uma sacola de papel em uma mão e uma garrafa térmica amassada na outra. Os cabelos escuros estavam molhados nas pontas. Ele parecia ter vindo direto da oficina.

Ele deu um olhar para o rosto dela e franziu a testa.

“Está tão ruim assim?”

Elena deu um passo atrás para deixá-lo entrar. “Você sempre começa por aí?”

“Eu começo com o que vejo.”

Ele fechou a porta com o calcanhar e ergueu a sacola. “Sopa. Pão. Nem discuta. É de galinha, não carne misteriosa.”

“Eu não ia discutir.”

“É assim que eu sei que você está mentindo.”

Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto antes que ela pudesse contê-lo.

Ele colocou a sacola no balcão, então viu a gaveta aberta, o envelope na mesa e a carta ao lado.

Sua expressão mudou. Não muito. Apenas o suficiente.

Elena estendeu a mão tarde demais. Ele já tinha visto.

“O que é isso?”

“Nada.”

Marek olhou para ela. “Elena.”

Ela odiava o jeito que ele dizia seu nome quando sabia que ela estava se fechando. Sem raiva. Sem pressão. Apenas certeza.

Ela dobrou a carta uma vez, depois outra, porque suas mãos precisavam de algo para fazer.

“É antiga”, ela disse.

“Isso ainda não é uma resposta.”

“Não.”

Ele encostou um ombro no balcão e estudou o rosto dela. “Você está com aquela cara.”

“Que cara?”

“Aquela em que você diz que está bem, mas seu cérebro está claramente pegando fogo.”

Uma risada curta escapou dela. Doeu.

Ele percebeu.

É claro que ele percebeu.

Marek a conhecia desde crianças. Ele a vira com joelhos ralados, febre, empregos ruins e a última vez que ela chorou pela mãe antes que a raiva tomasse conta, porque chorar parecia perder duas vezes.

Ele sempre esteve lá.

Isso deveria ter tornado tudo mais fácil.

Não tornou.

“Aconteceu alguma coisa?” ele perguntou.

“Não.”

A resposta veio rápido demais.

Os olhos dele se estreitaram. “Esse 'não' foi muito rápido.”

Elena olhou para a sacola da sopa. “Estou com problemas com o aluguel.”

“Isso não é novidade.”

“É novidade o suficiente.”

Ele esperou.

O silêncio se estendeu.

Lá fora, um carro sibilou pela rua molhada. No andar de cima, um bebê chorou e parou. O prédio antigo acomodou-se com um estalo nas paredes.

Marek colocou a garrafa térmica sobre a mesa. "Pode me contar se for uma notícia ruim. Já vi sua cara de 'notícia ruim' antes."

Ela desviou o olhar.

A carta repousava sobre a mesa entre eles como um fio desencapado.

Se ela contasse, ele faria perguntas. Ele iria querer ajudar. Ele faria planos. Ele sempre fazia. Ele era bom nisso.

E aquela coisa vinda de sua mãe parecia pertencer apenas a ela. Secreta. Cortante. Talvez perigosa.

Ela não suportava a ideia de entregar aquilo.

Ainda não.

"É só uma conta", ela disse.

Marek não se moveu. "Você está segurando uma carta."

"É particular."

Aquilo o fez ficar parado.

Não magoado. Não exatamente.

Mas algo se fechou atrás de seus olhos.

"Ok", ele disse depois de um segundo. "Particular."

A palavra pesou mais do que ela queria.

Ela se odiou por isso.

Marek esfregou a nuca e, então, olhou para a sopa novamente, como se precisasse de algo simples.

"Coma mesmo assim", disse ele. "Você esquece de comer quando está estressada."

"Não esqueço."

"Você comeu torrada no jantar ontem à noite."

"Isso conta."

"Foi uma fatia."

"Foram duas."

"Uma e meia."

Ela quase sorriu. O sorriso veio e foi embora rápido demais.

Ele viu, mesmo assim.

O rosto dele suavizou, e isso fez o ambiente parecer mais perigoso do que antes. O conforto sempre causava isso. O conforto a fazia querer coisas para as quais não tinha espaço.

Ele apontou para a mesa. "Quer que eu fique enquanto você lê?"

Elena olhou para a página dobrada.

Aquela era a escolha real.

Dizer sim, e o segredo seria compartilhado. Talvez mais seguro. Talvez não. Dizer não, e ela ficaria sozinha com o que quer que sua mãe tivesse deixado para trás.

Ela ouviu a voz de seu senhorio em sua cabeça. Sexta-feira.

Ela ouviu seus próprios pensamentos também: Se isso é sobre ela, preciso saber. Se isso é sobre mim, preciso saber mais.

Mas sob isso, havia o velho medo.

Se alguém deixou isso para mim, por que agora?

Por que eu não fui o suficiente para ela ficar?

Elena dobrou a carta com mais força.

"Não", ela disse.

Marek arqueou as sobrancelhas. "Não?"

"Quero dizer... eu consigo ler."

"Tem certeza?"

"Sim."

Ele a estudou por mais um segundo e deu um pequeno aceno. "Ok."

Ele não insistiu. Esse era um dos motivos pelos quais ela confiava nele.

Ele tirou um recipiente da sacola e colocou na bancada. O vapor embaçou a tampa. "Coma primeiro, leia depois."

"Mandão."

"Prático."

Ela pegou o recipiente. Os dedos dele roçaram nos dela, quentes e ásperos pelo trabalho. O toque foi simples. Familiar. Ainda assim, fez algo em seu peito apertar.

Também a deixou inquieta.

Marek foi até a janela e olhou a chuva. "Você ainda vai à farmácia amanhã?"

"Se eu conseguir manter este emprego, sim."

Ele se virou. "Você vai."

"Não é assim que empregos funcionam."

"Para você, é quase isso. Você é irritantemente competente."

Aquilo arrancou uma risada real dela, breve e cansada. "Você parece ofendido."

"Estou."

Ela abriu a sopa e tomou uma colherada. Queimou o céu da boca. Bom. Deu a ela algo diferente em que se concentrar.

Marek a observou comer, depois olhou de volta para a carta.

"Você recebeu algo da sua mãe?"

Elena abaixou a colher.

O quarto ficou muito silencioso.

Ele tinha dito aquilo com gentileza. Sem pressão. Apenas um palpite que ele já tinha feito.

Ela deveria ter mentido.

Em vez disso, ela olhou para ele e entregou a verdade que conseguia. "Acho que sim."

O rosto de Marek se fechou. "Você acha?"

"Estava escondido."

O maxilar dele se moveu uma vez. "Onde?"

"Na gaveta."

"Sua gaveta?"

"Sim."

Ele deixou a informação pairar. "Há quanto tempo está lá?"

"Não sei."

"Sua mãe colocou lá?"

Elena encarou a sopa. "Não sei."

Ele se aproximou, mas parou ao ver os ombros dela se encolherem. "Ok. Desculpe."

Ela acenou uma vez, porque não conseguia dizer mais nada.

Ele ficou quieto por um momento. Então: "Quer que eu vá embora?"

A pergunta a surpreendeu.

Não porque ele iria embora. Mas porque ele perguntou.

"Não", ela disse depressa demais. Depois, com mais honestidade: "Eu não sei."

Marek deu um sorriso cansado. "Justo."

Ele despejou chá em uma caneca lascada que ela não tinha notado ele trazer. Gengibre. Ele sempre se lembrava das pequenas coisas.

Ele colocou a caneca ao lado dela e apoiou uma mão na bancada.

"Seja o que for", ele disse, "você não precisa lidar com isso sozinha."

Elena olhou para ele.

Ele falava sério. Era isso que tornava tudo difícil.

Ele estava ali na luz úmida que vinha da janela, simples e firme, sem segredos no rosto. Apenas preocupação. Apenas ele.

Por um segundo estranho, ela quis contar tudo. A carta. O amuleto. A marca no envelope que fizera seu estômago revirar. A parte crua dela que se sentia exposta.

Então, ela imaginou a cara dele se ela dissesse que sua mãe a avisou para não confiar na estrada banhada pelo luar.

Ele acharia que ela estava com medo.

Ele estaria certo.

Mas ele também tentaria tornar tudo menor. Mais seguro. Normal.

E ela não sabia se conseguiria sobreviver ao normal agora.

Então, ela estendeu a mão para a carta antes que ele pudesse ler a página e a deslizou para debaixo do guardanapo dobrado ao lado de sua tigela.

Marek viu o movimento.

Ele não a confrontou.

Isso quase piorou a situação.

"Obrigada pela sopa", ela disse.

"De nada."

"Sério."

Ele acenou uma vez. "Me manda uma mensagem mais tarde?"

"Talvez."

"Isso significa não."

Ela olhou para cima. "Significa talvez."

Ele deu aquele olhar torto novamente, o mesmo que provavelmente o livrava de problemas quando eles tinham dezesseis anos.

"Tudo bem", ele disse. "Talvez."

Ele se moveu em direção à porta e pausou com a mão na maçaneta.

"Elena."

Ela olhou para ele.

"Se precisar de mim, estou aqui. Mesmo se você estiver agindo de forma estranha."

Ela bufou. "Principalmente porque estou agindo de forma estranha?"

"É."

O canto da boca dele se levantou. Então ele se foi, e a porta bateu suavemente atrás dele.

Elena ficou parada por um momento, ouvindo os passos dele desaparecerem pelo corredor.

Depois, ela trancou a porta, checou a corrente e verificou novamente.

Só então sentou-se de volta à mesa e puxou a carta.

Suas mãos estavam tremendo agora.

Não muito. O suficiente.

Ela encarou o último parágrafo.

Eu sei que você vai querer respostas. Eu sei que ficará com raiva de mim. Você tem todo o direito.

Se eles vierem atrás de você, vá para Black Hollow.

Sua respiração parou.

Black Hollow.

O nome não significava nada e, ao mesmo tempo, significava tudo. Um lugar do qual ela nunca tinha ouvido falar. Ou tinha? Estava no limite da memória como uma palavra dita em outro cômodo.

Ela leu a frase novamente.

Se eles vierem atrás de você, vá para Black Hollow.

Por um longo tempo, ela ficou ali com a chuva no vidro, a sopa esfriando ao lado e o amuleto pesado na palma da mão.

Então ela olhou para a marca azul na página.

O círculo com uma linha atravessando-o.

E ela percebeu, bem devagar, que não era um símbolo de um sonho.

Era um aviso.

Ou uma reivindicação.

Ou ambos.

Elena virou a página, procurando por qualquer outra coisa.

Nada.

Nenhuma explicação. Nenhum endereço. Nenhuma assinatura.

Apenas a mesma pequena marca pressionada levemente no papel, como se alguém a tivesse carimbado antes que a tinta secasse.

Seu celular vibrou na bancada.

Uma mensagem de um número desconhecido.

Não chegue perto de Black Hollow.

Elena encarou a tela até as palavras ficarem embaçadas.

Então outra mensagem chegou.

Nós sabemos que você encontrou a carta.