LUNA DO VAMPIRO

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Resumo

O Alfa Kael Draven odeia vampiros mais do que tudo—até encontrar Seraphina, uma vampira ferida, morrendo em sua floresta proibida. Ela deveria ser sua inimiga. Ela deveria ser executada. Mas, no momento em que ele a toca, seu lobo reconhece a verdade impossível. Sua Mate. Agora, Kael precisa proteger a única mulher que toda a sua alcateia quer ver morta, enquanto Seraphina esconde um segredo perigoso em seu sangue—algo ligado ao luar, maldições antigas e um lorde vampiro que a quer de volta. Um Alfa proibido. Uma vampira caçada. Um laço que pode destruir tanto lobos quanto vampiros. Ela nasceu para ser temida. Ele nasceu para matá-la. O destino fez dela sua Luna.

Status
Completo
Capítulos
30
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16+

1

A floresta estava silenciosa demais.

O alfa Kael Draven parou entre os pinheiros negros e ergueu a cabeça.

Sem pássaros.

Sem insetos.

Sem vento passando pelos galhos.

Apenas o gotejar suave da água da chuva caindo das folhas velhas, uma gota por vez, como se a floresta estivesse contando os segundos para algo acontecer.

Atrás dele, três guerreiros se espalharam em silêncio. Eles eram bons homens. Homens fortes. Lobos que cresceram naquelas matas e conheciam cada riacho, cada trilha destruída e cada caminho escondido de veados.

Naquela noite, nenhum deles queria estar ali.

Kael conseguia sentir o cheiro do medo deles, mesmo através da terra molhada.

Ele não os culpava.

Duas noites atrás, eles encontraram Marin perto da cerca norte. Sua garganta tinha sido aberta de forma limpa, seu corpo estava pálido e seus olhos encaravam a lua como se ele tivesse morrido implorando por ajuda.

Na noite passada, encontraram Tomas e Hale perto da antiga estrada de caça.

Ambos drenados.

Ambos frios.

Ambos sem nenhum sinal de luta.

Essa era a pior parte.

Lobos lutavam. Mesmo lobos moribundos deixavam sangue, marcas de garras, galhos quebrados, qualquer coisa.

Mas aqueles homens foram levados como velas sendo apagadas.

Silenciosamente.

Facilmente.

Os dedos de Kael apertaram a lâmina de borda prateada ao seu lado.

"Alfa", disse Riven atrás dele, com a voz baixa.

Kael virou a cabeça levemente.

Seu Beta estava perto de um carvalho partido, com uma mão erguida. Ele apontou para o chão.

Pegadas.

Não de lobo. Nem de veado. Nem de humano também.

As marcas eram leves demais, quase cuidadosas. Pés descalços na lama. Pés pequenos.

Kael se agachou e tocou uma das marcas com dois dedos.

Fria.

A lama ao redor dela começava a congelar.

Seu lobo se agitou sob sua pele, sombrio e inquieto.

Vampiro.

A palavra veio através dele como um rosnado.

Kael se levantou.

"Espalhem-se", ordenou ele. "Ninguém corre à frente. Ninguém quebra a formação."

Um dos guerreiros mais jovens, Dane, engoliu em seco. "Você acha que ainda está aqui?"

Kael olhou mais profundamente para dentro das árvores.

A floresta proibida se estendia por quilômetros além das terras de Blackthorn. Histórias antigas viviam ali. Histórias ruins. Lobos não traziam crianças perto daquela fronteira. Caçadores não ficavam após o pôr do sol. Até os lobos solitários evitavam o rio quando a lua estava vermelha.

Naquela noite, a lua não estava vermelha.

Não totalmente.

Mas havia uma mancha ao redor dela, um anel opaco de cobre, como se o sangue tivesse tocado o céu e não tivesse sido lavado.

"Está aqui", disse Kael.

Ninguém falou depois disso.

Eles se moveram entre as árvores.

Quanto mais entravam, mais frio o ar se tornava. A chuva grudava no cabelo de Kael e escorria por sua nuca. Suas botas afundavam na lama. Em algum lugar à frente, a água corria rápido sobre as pedras.

O rio.

Kael diminuiu o passo.

O cheiro o atingiu antes do som.

Sangue.

Não sangue velho. Fresco.

Seu lobo pressionou com força contra seus ossos.

Kael ergueu o punho.

Os guerreiros pararam.

Outro som veio de além das árvores.

Uma respiração.

Pequena.

Ofegante.

Kael foi o primeiro a se mover.

Ele passou entre dois troncos de pinheiro e pisou na margem do rio.

Por um segundo, ele não viu nada além de água.

O rio corria escuro sob o luar. A névoa pairava sobre as pedras. As samambaias se curvavam sob a chuva.

Então seus olhos a encontraram.

Uma garota estava deitada metade na margem lamacenta, metade contra uma pedra coberta de musgo.

Não.

Não era uma garota.

Uma vampira.

Kael soube imediatamente.

Sua pele era pálida demais, quase prateada sob o luar. Seu cabelo se espalhava ao redor dela como vinho escuro, molhado e emaranhado com folhas. Sangue manchava sua boca, sua garganta e seu vestido preto rasgado.

E em suas costas—

O maxilar de Kael tensionou.

Três flechas de prata.

Não uma prata comum. Prata abençoada. O tipo feito para queimar monstros de dentro para fora.

Seus dedos cavavam fracamente a lama como se ela tivesse se arrastado até ali centímetro por centímetro. Seu corpo tremeu uma vez e depois ficou imóvel.

Dane praguejou baixinho. "É ela."

Riven se aproximou de Kael. Seu rosto endureceu. "Ela os matou."

Kael encarou a vampira.

Ela parecia pequena demais para ter matado três lobos treinados.

Mas vampiros mentiam com o corpo. Eles usavam a beleza como uma armadilha. Pareciam frágeis até que seus dentes estivessem na sua garganta.

Kael se lembrou do sangue no chão de sua casa de infância.

A mão de sua mãe alcançando-o.

O corpo de seu pai atravessado na porta.

Olhos vermelhos na escuridão.

Ele tinha nove anos na primeira vez que aprendeu o que eram vampiros.

Ele passou o resto da vida garantindo que eles aprendessem o que ele era.

"Alfa?", perguntou Riven.

Kael deu um passo à frente.

Os olhos da vampira se abriram.

Eles não eram vermelhos.

Essa foi a primeira coisa estranha.

Eram cinzentos. Cinza-pálido, como fumaça após o fogo.

Seu olhar encontrou o dele, desfocado, mas afiado o suficiente para odiar.

"Fique longe", ela sussurrou.

Sua voz era áspera. Não doce. Não suave. Parecia ter sido arrastada sobre pedras.

Kael parou apenas porque as flechas de prata em suas costas se moveram quando ela respirou. Fumaça subiu das feridas.

Ela estava queimando viva por dentro.

Bom, sua mente disse.

Algo mais dentro dele não respondeu.

Riven ergueu sua lâmina. "Devemos acabar com isso agora."

Os lábios da vampira se curvaram em algo quase parecido com um sorriso.

"Lobo corajoso", ela murmurou. "Quatro de vocês. Uma mulher moribunda. Muito heroico."

Dane rosnou.

Kael ergueu uma mão, impedindo-o.

"Qual é o seu nome?", Kael perguntou.

A vampira olhou para ele como se a pergunta a divertisse.

"Isso importa?"

"Importa se você quiser viver o suficiente para responder a mais perguntas."

Ela deu uma risada fraca e depois tossiu. Sangue escuro escorreu do canto de sua boca.

"Então suponho que não importe."

Riven se inclinou para perto de Kael. "Ela está ganhando tempo."

Kael sabia disso.

Ainda assim, ele continuou olhando para ela.

Não havia medo em seu rosto. Dor, sim. Raiva, sim. Mas não medo.

Isso o irritou mais do que deveria.

Ele desceu a encosta em direção a ela. A lama deslizou sob sua bota.

A mão da vampira se moveu.

Rápida.

Mesmo ferida, mesmo queimando, ela agarrou um galho quebrado perto de seu quadril e o golpeou em direção a ele.

Kael pegou seu pulso antes que a madeira tocasse seu peito.

Sua pele era gelo.

O contato o atravessou como um choque.

Não dor.

Não exatamente.

Um calor violento surgiu em seu peito, tão repentino que ele quase perdeu o fôlego.

Seu lobo, que segundos antes rosnava por sangue, ficou completamente imóvel.

Então, ele avançou com uma única palavra.

Mate.

Kael congelou.

A floresta desapareceu.

O rio tornou-se um rugido distante.

A chuva caía entre eles, linhas prateadas na escuridão, mas ele já não conseguia senti-la.

Apenas o pulso dela sob seus dedos.

Apenas a pulsação fraca sob a pele fria.

Apenas a atração impossível em seu peito, profunda e brutal, como se algo ancestral tivesse alcançado seu interior e dado um nó em seu coração.

Não.

Seu lobo rosnou novamente, mais forte.

Mate.

A vampira olhou para ele.

Seus olhos cinzentos se arregalaram.

Ela também sentiu.

Kael viu o momento exato em que ela entendeu. O ódio em seu rosto se quebrou. A confusão apareceu. Depois, o horror.

“Não”, ela sussurrou.

A palavra deveria ter sido dele.

Kael soltou o pulso dela como se tivesse se queimado.

Ele deu um passo para trás.

Riven notou. É claro que ele notou. Ele sempre notava tudo.

“Kael?”

Kael não conseguiu responder.

A vampira tentou se levantar e falhou. Uma das flechas entrou mais fundo. Ela arfou, e o som o atravessou de uma maneira que não deveria.

Seu lobo rosnou para ele.

Ajude-a.

A mão de Kael se fechou em punho.

Ela é uma vampira.

Ajude-a.

Ela é a inimiga.

Mate.

Kael olhou para o sangue em sua boca.

Ele olhou para as flechas em suas costas.

Ele olhou para os olhos dela, ainda fixos nos dele com o mesmo horror que ele sentia.

“O que você fez?”, ele exigiu.

Ela franziu a testa. “Eu?”

“Que truque é esse?”

Ela riu novamente, mas não havia força na risada. “Se eu pudesse enganar um Alfa, não estaria deitada na lama com prata na coluna.”

Riven se aproximou. “O que está acontecendo?”

Kael forçou o rosto a ficar frio.

Nada.

Não estava acontecendo nada.

A Deusa da Lua não o teria ligado a uma vampira. Seu lobo não teria escolhido o tipo de criatura que destruiu sua família. O destino não era tão cruel.

Mas a atração permanecia.

Uma corda viva entre as costelas dele e as dela.

Ele odiava isso.

“Revistem a área”, ordenou Kael.

Riven não se moveu. “Alfa—”

“Agora.”

O comando ecoou pelas árvores.

Os olhos de Riven brilharam, mas ele obedeceu. Ele sinalizou para os outros, e eles se espalharam pelas margens do rio.

Kael ficou com a vampira.

Ela notou.

É claro que ela notou.

“Você deveria ir com eles”, disse ela.

“Você deveria parar de falar.”

“Eu adoraria. Infelizmente, sangrar até a morte me deixa sociável.”

Apesar de si mesmo, Kael quase olhou para a boca dela.

Quase.

Ele se conteve e olhou para as flechas em vez disso.

“Quem atirou em você?”

A expressão dela mudou.

Apenas por um segundo.

Mas Kael viu.

Medo.

Era isso.

Não dele.

De quem quer que tivesse colocado aquelas flechas em suas costas.

“Ninguém que você possa matar”, disse ela.

“Eu decido quem eu posso matar.”

“Vocês, lobos, sempre acreditam nisso.”

“E vampiros sempre acreditam que são imortais até que minha lâmina prove o contrário.”

O olhar dela deslizou para a arma na cintura dele.

“Então use-a.”

Kael não disse nada.

O rio batia contra as pedras. A chuva acumulava-se nos cílios dela. Sua respiração estava irregular agora. A cada poucos segundos, seu corpo tinha um pequeno tremor que ela tentava esconder.

Kael já tinha visto vampiros morrerem por causa da prata.

Não era rápido.

Queimava o sangue, depois os nervos, depois o coração.

Se ele a deixasse ali, ela sofreria até o amanhecer.

Isso deveria tê-lo satisfeito.

Não satisfez.

Seu lobo andava de um lado para o outro dentro dele como um animal engaiolado.

Salve-a.

Kael queria arrancar a besta de dentro de si.

Riven voltou das árvores. Seu rosto estava sério. “Havia outros. Pelo menos seis. Rastros de vampiros, mas não os dela. Eles vieram do leste e depois voltaram.”

O olhar de Kael se intensificou. “Voltaram?”

Riven assentiu. “Parece que eles estavam caçando-a.”

A vampira fechou os olhos.

Kael olhou para ela. “Por quê?”

Nenhuma resposta.

Ele se agachou ao lado dela novamente.

Seus olhos se abriram pela metade.

“Por que eles estavam caçando você?”, perguntou ele.

Ela engoliu em seco. Sua garganta se moveu com dor.

“Porque eu corri.”

“De quem?”

Ela sorriu fracamente. “Essa pergunta pode te matar, Alfa.”

Ouvir seu título sair da boca dela causou algo estranho nele. Ele odiou isso também.

“Qual é o seu nome?”, perguntou ele novamente.

Por um momento, ele pensou que ela recusaria.

Então ela sussurrou: “Seraphina.”

O nome passou por ele como fumaça.

Seraphina.

Seu lobo ficou quieto, quase reverente.

Kael odiou o nome imediatamente, porque uma parte dele queria dizê-lo novamente.

Riven se aproximou. “Chega. Vamos levar a cabeça dela aos anciãos. Que eles vejam que a ameaça foi eliminada.”

Kael levantou-se lentamente.

“Não.”

A palavra saiu antes que o pensamento pudesse detê-la.

Riven olhou para ele.

Dane e os outros tinham voltado agora. Todos os três olhavam para seu Alfa como se ele tivesse falado em um idioma que eles não conheciam.

“Não?”, repetiu Riven.

Kael manteve os olhos em Seraphina. “Vamos levá-la viva.”

A boca de Dane se abriu. “Alfa, ela é uma vampira.”

“Eu consigo ver isso.”

“Ela poderia ter matado Marin.”

“Ela não matou.”

A voz de Riven endureceu. “Você não sabe disso.”

Kael se virou para ele.

O poder em seu olhar fez os guerreiros mais jovens baixarem os olhos. Riven resistiu por mais tempo, porque era o Beta, porque era seu irmão em tudo, menos no sangue, porque ele tinha conquistado o direito de desafiar Kael quando ninguém mais ousava.

Mas até Riven deu um passo para trás.

“Ela estava sendo caçada”, disse Kael. “Aqueles que a caçavam podem ser os mesmos que mataram nossos homens.”

“Ou ela os trouxe para cá.”

“Então ela responderá por isso.”

“E se ela escapar?”

Kael olhou para Seraphina.

Ela estava observando-o novamente.

Muito pálida.

Muito imóvel.

Muito consciente.

“Ela não vai”, disse ele.

O maxilar de Riven travou. — Por que você a está protegendo?

A pergunta pairou no ar úmido.

Kael sentiu o elo de parceiros pulsar uma vez, bem fundo em seu peito.

Seraphina sentiu o mesmo. Seus dedos se cravaram na lama.

Kael foi o primeiro a desviar o olhar.

— Estou protegendo respostas — disse ele.

Não era exatamente uma mentira.

Mas também não era a verdade.

Ele se aproximou de Seraphina.

No momento em que suas mãos deslizaram sob o corpo dela, a mulher sibilou e tentou se esquivar. O movimento empurrou uma das flechas ainda mais fundo. Seu rosto empalideceu de dor.

— Pare — Kael disparou.

— Não preciso de um lobo me carregando.

— Você não consegue ficar de pé.

— Eu consigo me arrastar.

— Para onde? Para os seus caçadores?

Ela se calou.

Kael a ergueu.

Ela era mais leve do que ele esperava. Estava gelada contra o peito dele. O cabelo molhado colou no braço de Kael. O sangue encharcou sua camisa quase instantaneamente.

O lobo dentro dele se acalmou no momento em que ela estava em seus braços.

Aquilo assustou Kael mais do que qualquer outra coisa que acontecera naquela noite.

O rosto de Seraphina virou levemente em direção à garganta dele.

Riven rosnou.

Kael olhou para ela.

— Me morda — disse ele calmamente —, e eu vou esquecer que decidi te manter viva.

Os olhos dela subiram para os dele.

Mesmo morrendo, ela conseguiu parecer ofendida.

— Se eu quisesse o seu sangue, Alpha, teria pedido com mais educação.

Dane soltou um pequeno som de descrença.

Kael quase sorriu.

Quase.

Então, os olhos de Seraphina reviraram.

Seu corpo ficou inerte nos braços dele.

O elo puxou com força, afiado o suficiente para doer.

Kael apertou o aperto.

— Andem — ordenou ele.

Eles correram.

A floresta se tornou um borrão ao redor deles. Galhos estalavam contra os ombros de Kael. A lama espirrava sob suas botas. Os guerreiros vinham atrás, mas ninguém chegava muito perto.

Eles tinham medo dela.

Deveriam ter.

Kael também tinha medo dela.

Não por causa dos dentes dela.

Não por causa do sangue dela.

Mas porque todos os instintos em que ele confiava o tinham traído.

Seu lobo queria escondê-la da chuva. Arrancar as flechas das costas dela. Matar qualquer coisa que chegasse a menos de três metros dela.

Sua mente queria enfiar uma lâmina no coração dela.

As duas partes dele lutaram tão violentamente que, quando a casa da alcateia surgiu entre as árvores, a respiração de Kael já estava pesada.

Os portões se abriram.

Tochas ardiam ao longo do muro de pedra.

Os lobos se reuniram no pátio assim que o viram.

Primeiro, com alívio.

Depois, com horror.

Alguém gritou.

— Vampira!

Armas foram erguidas.

Grumidos ecoaram por todos os lados.

Kael atravessou a multidão com Seraphina em seus braços.

Sangue pingava do vestido dela sobre as pedras.

Ninguém se moveu para ajudar.

Ninguém ousou.

Mara, a curandeira, correu pelos degraus da enfermaria, com sua trança grisalha voando para trás. Ela parou bruscamente quando viu o que Kael carregava.

Seus olhos se arregalaram.

Então, diferente de todos os outros, ela olhou para os ferimentos de Seraphina em vez de para os dentes dela.

— Flechas de prata — disse Mara. — Abençoadas?

Kael assentiu.

Mara apertou os lábios. — Traga-a para dentro.

Riven segurou o braço de Kael. — Pense bem.

Kael olhou para a mão dele sobre seu braço.

Riven o soltou.

Ao redor deles, o pátio silenciou, exceto pelos rosnados baixos dos lobos que não entendiam por que seu Alpha trouxera uma vampira viva para casa.

Kael entendia.

Esse era o problema.

Ele entendia bem demais e, ao mesmo tempo, nada.

Mara o levou para a enfermaria. O cheiro de ervas e lençóis limpos o atingiu. Kael deitou Seraphina na cama estreita.

Ela parecia menor ali.

Menos como um monstro.

Mais como alguém que correu por muito tempo e finalmente desmaiou.

Mara cortou o tecido rasgado ao redor das flechas.

Riven estava na porta, com os braços cruzados e os olhos endurecidos.

— Alpha — disse Mara com cautela —, você precisa sair.

— Não.

— Preciso remover as flechas.

— Então as remova.

— Ela vai gritar.

Kael olhou para o rosto de Seraphina.

Seus lábios estavam azulados.

— Então ela vai gritar.

Mara o analisou por um longo momento.

Ela o conhecia bem demais.

Kael desviou o olhar.

A primeira flecha saiu com um som úmido.

O corpo de Seraphina arqueou para fora da cama.

Seu grito rasgou a casa da alcateia.

Cada lobo do lado de fora respondeu com rosnados.

O lobo de Kael enlouqueceu.

Ele agarrou a borda da mesa com tanta força que a madeira estalou sob seus dedos.

Mara puxou a segunda flecha.

Seraphina gritou novamente, mas desta vez sua mão disparou às cegas.

Kael a pegou.

Ele não deveria ter feito isso.

No momento em que os dedos dela se fecharam nos dele, o elo queimou em dourado atrás de seus olhos.

Os olhos de Seraphina se abriram de súbito.

Ela o encarou através da dor.

O quarto ficou imóvel.

Mara viu.

Riven viu.

Kael sabia que eles tinham visto.

A terceira flecha saiu.

Seraphina arquejou uma vez e depois desabou na cama, ainda segurando a mão de Kael.

Ninguém falou nada.

Mara olhou dos dedos de Seraphina para o rosto de Kael.

Sua voz caiu em um sussurro.

— Oh, Deusa.

O rosto de Riven mudou.

Não era mais confusão.

Compreensão.

Horror.

— Não — disse Riven.

Kael soltou a mão de Seraphina lentamente, mas já era tarde demais.

A verdade já tinha entrado no quarto.

Seu lobo pressionou contra sua pele, orgulhoso, furioso e certo.

Parceira.

Kael afastou-se da cama.

Os olhos de Seraphina estavam semicerrados, cinza-prateados e cheios de dor. Ela olhou para ele como se o odiasse por ser real.

Bom.

Ele a odiava pelo mesmo motivo.

Lá fora, a alcateia começou a gritar.

Matem a vampira.

Matem ela.

Matem ela.

Kael olhou para a mulher que o destino jogara em seus braços.

Uma vampira.

Sua inimiga.

Sua ruína.

Sua Luna.

Sua garganta travou ao redor das palavras antes que ele pudesse impedi-las.

— Não — ele sussurrou. — Não ela.