The Crown Princess of Asterith
A primeira coisa que Lyra Vaelorian aprendeu sobre governar foi que o medo viaja mais rápido que a lealdade.
A segunda foi que os homens mentem de forma mais bela quando estão desesperados.
Esta noite, a corte real de Asterith estava cheia de homens desesperados.
A música flutuava pelo grande salão do trono em ondas elegantes e deliberadas; violinos se entrelaçando entre tambores graves, harpas brilhando como chuva distante. Cada nota foi escolhida para dar a entender que era uma celebração, embora nada ali merecesse esse nome. Sob o brilho dos candelabros de fogo de dragão suspensos bem acima, nobres deslizavam pelos pisos de obsidiana polida, envoltos em seda, joias e uma ambição cuidadosamente cultivada. Eles sorriam largo demais. Riam baixo demais. Observavam uns aos outros de perto demais.
Não era uma celebração. Era uma medição.
Lyra estava no topo da escadaria de mármore negro, observando tudo, e imaginou, não pela primeira vez, o quão difícil seria forjar a própria morte de um jeito que parecesse acidental, mas que ainda enviasse uma mensagem a todas as casas nobres: hesitação não é uma estratégia de sobrevivência.
“Cuidado”, disse uma voz familiar ao seu lado. “Você está fazendo aquela cara de novo.”
Sem desviar os olhos da corte abaixo, Lyra suspirou. “Que cara?”
“Aquele olhar silencioso e aterrorizante que faz metade da corte achar que você está imaginando execuções.”
“Eu estou imaginando execuções.”
Ronan riu baixo, como se ela tivesse lhe oferecido algo divertido em vez de perturbador.
Claro que ele riu.
Ao contrário de Lyra, seu irmão gêmeo de alguma forma sobreviveu à criação deles mantendo intactos tanto a sanidade quanto o senso de humor. Ele se inclinou preguiçosamente contra o corrimão da escada em trajes formais escuros; o bordado prateado capturava a luz oscilante das tochas como poeira estelar derramada. Eles compartilhavam o mesmo cabelo escuro e os mesmos olhos cinzentos marcantes, mas onde Lyra parecia afiada o suficiente para derrubar alguém com um olhar, Ronan parecia ter nascido para conquistar reinos inteiros apenas com educação.
Era profundamente irritante.
“Sabe”, ele continuou num tom casual, “a maioria das pessoas bebe vinho depois de uma desilusão amorosa.”
Lyra finalmente olhou para ele. “A maioria das pessoas não é uma futura rainha.”
“Verdade.” Ele inclinou a cabeça. “A maioria das pessoas também não olha para o ex-amante como se estivesse escolhendo onde enterrar o corpo.”
“Ele deveria se sentir honrado por eu ainda estar indecisa.”
Ronan sorriu ainda mais. “Lá está ela. O romance voltou.”
Lá embaixo, a orquestra aumentou o volume quando as grandes portas do salão do trono se abriram novamente.
O Príncipe Kael Dainmont entrou sorrindo.
E, apesar de tudo—
Apesar da traição.
Apesar da humilhação.
Apesar dos seis meses que Lyra passou reconstruindo as partes de si mesma que ele estilhaçou com afeto descuidado e mentiras calculadas—
Seu peito ainda apertou.
Pelos deuses, ela odiava isso.
Kael se moveu pela multidão com uma graça real sem esforço; seu cabelo dourado estava impecável e o traje militar cerimonial branco, com detalhes em ouro, capturava a luz das chamas como se ele pertencesse a ela. Todos os nobres na sala se voltaram para ele como se puxados por instinto. A admiração suavizou seus rostos.
O amado príncipe de Elyndor.
O honroso futuro rei.
O homem que jurou amá-la enquanto dormia com outra mulher durante negociações de paz que quase colapsaram três reinos.
Os dedos de Lyra apertaram a haste da taça de vinho até ela sentir a pressão em seus ossos.
Ronan notou imediatamente. “Ainda quer a opção da varanda?”
“Estou considerando veneno agora.”
“Elegante.”
“Obrigada.”
Como se sentisse o olhar dela, Kael olhou para cima.
Seus olhos se encontraram através do salão.
Por um breve segundo, o arrependimento cruzou seu rosto — tão rápido que a maioria das pessoas teria perdido.
Lyra não perdeu.
Bom.
Que isso o assombre.
Ele começou a caminhar em direção à escadaria.
Absolutamente não.
Lyra virou-se bruscamente e desceu antes que ele pudesse alcançá-la, com cada movimento preciso, controlado e sufocado sob camadas de seda negra. A multidão se moveu instantaneamente, abrindo caminho conforme a Princesa Herdeira de Asterith atravessava o salão como uma lâmina cortando a água.
As pessoas sempre abriam caminho para ela.
Às vezes por respeito.
Principalmente por medo.
O estrado real surgiu à frente — dois tronos de obsidiana esculpidos com dragões enroscados, mais antigos que o próprio reino. Lyra chegou até eles exatamente quando Kael chegou à base dos degraus.
“Lyra—”
“Não.”
A palavra única não foi alta. Não precisava ser.
O silêncio se espalhou mesmo assim, ondulando para fora como uma pedra lançada em águas calmas.
Ronan apareceu ao lado dela um momento depois, claramente encantado com o desastre que se desenrolava.
Kael baixou a voz. “Podemos conversar em particular?”
“Poderíamos”, Lyra respondeu com firmeza, “mas não consigo imaginar por que eu escolheria isso.”
O maxilar dele travou. Lá estava — a rachadura sob sua compostura polida.
Outrora, ver aquilo a teria desfeito.
Agora, apenas a deixava cansada.
“Eu cometi um erro.”
“Você cometeu vários.”
“Lyra—”
“Você me humilhou na frente de metade dos reinos”, disse ela, ainda calma, ainda precisa. “E fez isso enquanto jurava lealdade na minha cara.”
Um lampejo de culpa cruzou sua expressão novamente, mais profundo desta vez.
Bom. Deixe que isso se instale.
“Você me disse”, ela continuou suavemente, “que me amava o suficiente para sobrevivermos juntos à guerra.”
“Eu amava você.”
As palavras caíram mais pesadas do que deveriam, como pedras jogadas em águas paradas.
Ronan se mexeu levemente ao lado deles, subitamente menos divertido.
Lyra sustentou o olhar de Kael sem piscar. “Então você deveria ter agido como tal.”
Por um momento frágil e terrível, Kael pareceu um homem parado na beira de algo que ele não conseguia mais consertar.
Então, as grandes portas se abriram novamente.
E a sala inteira mudou.
A atmosfera tornou-se mais afiada — não mais alta, não mais brilhante. Apenas… alerta, como se o próprio instinto tivesse virado a cabeça.
A voz de um guarda real ecoou.
“Comandante Connor Ravaryn, da Casa Ravaryn.”
Sussurros surgiram instantaneamente.
Lyra franziu a testa levemente.
Ela conhecia o nome, é claro.
Todos conheciam.
O último filho sobrevivente de uma casa nobre desonrada. Um comandante que desapareceu nas terras devastadas do norte após o expurgo dos Ravaryn e retornou anos depois com histórias que ninguém podia verificar totalmente. Rastros de dragão mapeados onde nenhum deveria existir. Clãs de saqueadores inteiros desaparecidos sem deixar rastro. Um homem que diziam ter caminhado por guerras que engoliram soldados experientes por inteiro.
A maioria das histórias parecia exagerada.
Então ele entrou no salão.
E, de repente, elas não pareciam exageradas o suficiente.
Connor Ravaryn não usava armadura cerimonial. Nem insígnias polidas. Tampouco ostentava riqueza ou status como os da corte.
Apenas preto.
Couro de viagem preto, levemente coberto por uma poeira de neve. Uma capa pesada, gasta de tanto viajar. Armas presas com uma eficiência silenciosa — uma espada nas costas, duas adagas na cintura e outra lâmina escondida na manga, como se fosse um detalhe de última hora.
Mesmo parado, ele parecia movimento contido apenas pela força de vontade.
Não era a arrogância barulhenta dos cavaleiros que queriam ser vistos.
Era algo mais frio.
Mais controlado.
Como uma tempestade que já tinha decidido onde iria atacar.
O cabelo escuro caía levemente sobre seus olhos, sem qualquer penteado. Uma cicatriz suave cortava uma das sobrancelhas, dividindo a perfeição em algo mais perigoso. Ele avançou sem hesitação, com suas botas silenciosas sobre a pedra de obsidiana.
E então ele ergueu o olhar.
Diretamente para Lyra.
Não para o trono.
Nem para a coroa ao lado dele.
Para ela.
Algo afiado e estranho apertou seu peito diante da intensidade daquele olhar. Não era admiração. Nem polidez.
Era avaliação.
Como se ele estivesse medindo o quanto ela suportaria sobreviver.
Lyra odiou o quanto ela percebeu aquilo.
Ronan murmurou ao lado dela: "Ah, eu já gostei dele. Isso vai acabar terrivelmente mal".
Connor parou na base do estrado.
E não se curvou.
Uma pausa se estendeu — fina, perigosa.
Então, finalmente, ele inclinou a cabeça uma única vez.
"Sua Alteza."
Sua voz era mais baixa do que ela esperava. Controlada. Firme. Como se tivesse sido esculpida a partir do silêncio, em vez de uma conversa.
"Comandante Ravaryn", Lyra respondeu.
Outra pausa.
O olhar de Connor demorou um pouco demais antes que ele dissesse: "Eu estava começando a achar que as histórias sobre você eram exageradas".
Uma inspiração coletiva percorreu a corte.
Ronan quase engasgou com sua bebida.
Lyra inclinou a cabeça levemente. "E agora?"
O movimento mais sutil em sua boca — quase um sorriso, mas não exatamente.
"Agora eu acho que elas não foram exageradas o suficiente."
Algo perigosamente vivo tremeluziu em seu peito.
Absolutamente inaceitável.
Kael, ainda por perto, parecia que queria quebrar algo.
Interessante.
Antes que qualquer outra coisa pudesse ser dita, o salão do trono estremeceu.
Violentamente.
Ofegos irromperam enquanto os candelabros balançavam acima, com correntes gemendo sob a força súbita. Taças de vinho caíram. Conversas colapsaram em caos. O chão sob os pés de Lyra tremeu com força suficiente para rachar a pedra polida.
Então...
Das profundezas abaixo de Asterith.
Um rugido.
Não imaginado.
Não distante.
Antigo.
Massivo.
Vivo.
O som percorreu os ossos da própria montanha, agitando o ar até que doesse respirar.
Todos os nobres congelaram.
A expressão de Connor Ravaryn mudou instantaneamente.
Não era medo.
Era reconhecimento.
Lentamente, ele virou o olhar em direção à distante cadeia de montanhas além das muralhas do palácio.
Depois voltou para Lyra.
Muito calmamente, ele disse: "Os dragões despertaram".
Um segundo tremor se seguiu, mais forte que o primeiro. Vários nobres tropeçaram; um caiu de joelhos em oração. Os guardas agarraram armas que, de repente, pareciam pequenas demais para seja lá o que estivesse despertando sob o mundo.
Ronan se endireitou ao lado de Lyra, todo o bom humor desaparecendo. "Me diga que mais alguém sentiu isso."
Ninguém respondeu.
Kael deu um passo à frente. "Isso é impossível. O tratado..."
"Não significa nada", Connor cortou bruscamente, sua voz ainda controlada, mas agora carregada com algo visceral. "Se os selos estão se quebrando, a diplomacia já morreu."
Lyra o observou mais atentamente agora. "Você sabia que isso aconteceria."
"Eu suspeitava", ele corrigiu. "Existe uma diferença."
"Uma diferença que faz pessoas morrerem?", ela perguntou.
"Sim."
A honestidade daquilo era quase pior do que uma mentira.
Outro rugido rasgou o ar — desta vez mais perto. A montanha fora do palácio parecia responder, como se algo vasto estivesse se movendo sob suas entranhas.
Lyra sentiu então. Não o som. Não a vibração.
Uma consciência.
Como se algo antigo tivesse aberto um olho na escuridão e descoberto que o mundo havia mudado.
A mão de Connor moveu-se levemente em direção à sua espada, depois parou.
"Você deveria evacuar os distritos mais baixos", ele disse.
Lyra não desviou o olhar dele. "Você está dando ordens na minha corte agora?"
"Estou lhe dizendo o que sobreviverá a seguir."
Kael zombou. "Você espera que a gente acredite que dragões estão acordando sob Asterith e você apenas... o quê... apareceu andando por aqui para anunciar isso educadamente?"
Connor finalmente olhou para ele de verdade.
Com frieza.
"Você pode acreditar ou morrer discutindo sobre isso. Essas são as suas opções."
O silêncio tomou conta do salão novamente, mais pesado desta vez.
Então o chão rachou.
Uma fenda fina, como uma teia de aranha, espalhou-se pela obsidiana abaixo do estrado.
Lyra recuou instintivamente enquanto um calor — não físico, mas primitivo — subia através da pedra.
Algo lá embaixo estava subindo.
Algo que se lembrava de reinos mais antigos que os deles.
Os candelabros oscilaram violentamente.
E das profundezas da montanha...
Uma segunda voz respondeu ao primeiro rugido.
Mais perto.
Mais faminta.
Lyra encontrou os olhos de Connor novamente.
"O que você não está me contando?"
Pela primeira vez desde que ele entrou, algo como hesitação cruzou sua expressão.
Então ele disse, muito baixinho:
"Porque eu fui enviado aqui para impedi-los de acordar."
Uma pausa.
"E eu falhei antes mesmo de chegar."
O salão do trono ficou completamente imóvel.
Até Kael não tinha nada a dizer.
Lá fora, as montanhas gritaram.
E abaixo de Asterith, algo começou a subir em direção à superfície.