A NOITE EM QUE O LOBO SE CALOU
PRÓLOGO: A NOITE EM QUE O LOBO SE CALOU
Seis meses antes dos dias atuais
POV: Paul Silverback (Alfa da Alcateia North Ridge)
A lua estava cheia, gorda e cruel.
Paul Silverback estava na beira do cume, com os pés descalços pressionando a terra ainda quente pelo sol do dia, e ouviu seu irmão morrer.
Não pessoalmente. Não perto o suficiente para impedir.
Pelo elo da alcateia. Aquele fio dourado e fino que conectava cada lobo ao seu alfa — e um alfa à sua família. O fio de Lars vinha gritando há vinte minutos. Primeiro em terror. Depois em dor. Então, em algo pior. Silêncio. O silêncio de um lobo que tinha parado de lutar.
"Paul." A voz de Marcus veio pelo ponto eletrônico — tecnologia humana antiga, mas os metamorfos a usavam em missões porque os elos da alcateia podiam ser bloqueados. "Estamos a três minutos. Ele está no moinho velho. Garrett o pegou."
Garrett. O irmão mais novo de sua mãe. Seu tio. O lobo em quem Paul confiara para proteger a retaguarda de Lars durante as negociações com os renegados.
O lobo que tinha acabado de cravar uma lâmina de prata no abdômen de Lars e ido embora sorrindo.
Paul não respondeu a Marcus. Ele não conseguia. Sua mandíbula estava tão travada que ele sentiu um molar trincar.
Em vez disso, ele fez algo que não fazia desde que era um filhote pedindo permissão ao pai para correr com os anciãos.
Ele rezou. "Por favor. Ele não. Leve qualquer outra coisa. Leve o território. Leve meu braço. Leve meu lobo. Só não leve ele."
A lua não respondeu. O elo da alcateia ficou silencioso. Não apenas quieto. Silencioso. O fio que brilhava em dourado desde o dia em que Lars se transformou, aos treze anos — quinze anos de calor, de piadas, de corridas tarde da noite onde eles competiam pelos pinheiros e Lars sempre ganhava porque era menor, mais rápido, mais ardiloso — desapareceu.
Paul gritou. Não foi um uivo. Não foi uma palavra. Foi um som que rasgou seu peito como um segundo nascimento, deixando sua garganta em carne viva, fazendo pássaros voarem de todas as árvores em um raio de um quilômetro. Os membros da alcateia diriam a ele, mais tarde, que sentiram aquilo nos ossos. Alguns dos filhotes mais novos choraram. Sua mãe, Lena, derrubou uma tigela de cerâmica na cozinha da alcateia e nem se moveu para limpar.
Paul se transformou sem querer. Em um segundo, ele era um homem — trinta e quatro anos, um metro e noventa de altura, largo como o batente de uma porta, com cabelos escuros manchados de prata e a mandíbula pesada de seu pai. No segundo seguinte, seus ossos estalavam, se rearranjavam, com pelos surgindo através da pele como agulhas através do tecido.
Seu lobo veio à tona. Shadow. "Irmão," Shadow disse dentro de sua mente. A voz do lobo costumava ser um ronco, brincalhão, até mesmo convencido. "Deixe-me correr. Deixe-me encontrá-lo. Deixe-me matar."
"Ele está morto," Paul disse através do elo que conectava homem e lobo. "Lars está morto."
Shadow ficou imóvel. Não a imobilidade de um predador esperando para atacar. A imobilidade de uma árvore no momento antes de um machado a atingir. A imobilidade de um coração que para no meio da batida. "Não."
"Eu senti. O elo desapareceu."
"Não." Shadow tentou forçar para frente. Assumir o controle total. Paul permitiu. Seu corpo completou a transformação — pelos pretos, porte massivo, olhos da cor de ouro velho. A forma de Shadow era maior que a da maioria dos alfas, feita para uma caça silenciosa, para aparecer atrás dos inimigos antes que eles ouvissem uma respiração.
Shadow correu. Não em direção ao moinho. Isso seria lógico. Isso seria estratégico. Shadow correu para o último lugar onde o elo da alcateia ainda parecia quente — a clareira favorita de Lars, onde eles brincavam quando filhotes, onde Lars certa vez se transformou em um lobinho cinzento e se escondeu em um tronco oco por três horas só para fazer Paul rir.
A clareira estava vazia. Shadow ficou no centro, com o peito arfando, e ouviu. A floresta estava silenciosa. Sem grilos. Sem corujas. Sem vento. Shadow abriu a boca para uivar. Nada saiu.
Paul?
Paul tentou responder. Tentou dizer estou aqui, ainda estou aqui, nós vamos superar isso.
Mas algo estava errado. A voz em sua cabeça — a voz de Shadow, aquele companheiro constante desde que Paul tinha sete anos — estava desaparecendo. Não como um rádio perdendo o sinal. Como uma vela sendo abafada. Como um lobo se retraindo tão profundamente dentro de si mesmo que Paul não conseguia mais senti-lo.
"Shadow?"
Nada.
"Shadow, não. Por favor. Eu não posso perder você também."
Um sussurro. "...dói..." E então. Silêncio. Não o silêncio do sono. Não o silêncio da espera. O silêncio de um lobo que tinha parado de falar.
Paul desabou. Seu corpo voltou à forma humana — dolorosamente, lentamente, sem a ajuda de Shadow. Ele ficou deitado nu na clareira, com terra pressionada contra a bochecha, e encarou a lua.
Ele não chorou. Isso viria depois, no banho, com a água tão quente que deixava marcas em sua pele. Ele apenas ficou ali. E ficou ali. E ficou ali até Marcus encontrá-lo uma hora depois, envolver um cobertor em torno dele e dizer as palavras que se repetiriam nos pesadelos de Paul pelos próximos seis meses.
"Ele se foi, Paul. Os dois. Lars está morto. Garrett escapou. E Viktor de Ironmoon acaba de reivindicar o território em nossa fronteira sul." Paul fechou os olhos. Quando os abriu novamente, eles eram diferentes. Não mais frios. Não mais duros. Apenas vazios.
Dias atuais, seis meses depois:
A voz dentro da cabeça de Paul não havia retornado.
Shadow estava lá — Paul ainda conseguia se transformar, ainda conseguia sentir a presença do lobo como um membro que adormeceu, mas que não acordava. Mas a voz tinha sumido. As piadas. Os avisos. O calor de outra consciência compartilhando seu crânio.
Paul parou de uivar para a lua. Parou de correr na floresta. Parou de fazer as refeições com a alcateia, parou de comparecer às fogueiras noturnas onde os filhotes aprendiam a história da alcateia e parou de se sentar na velha cadeira de seu pai no escritório do alfa.
Ele treinava. Ele patrulhava. Ele dava ordens.
E toda noite, ele deitava em sua cama, encarava o teto e ouvia o silêncio onde Shadow costumava estar.
Até a noite em que uma mulher de cabelos ruivos em uma caminhonete amassada quase o atropelou.
Até a noite em que ele sentiu cheiro de madressilva, chuva e algo elétrico.
Até a noite em que uma voz pequena e suave dentro de sua cabeça — não a de Shadow, ainda não, mas algo — sussurrou uma palavra.
"...fique..."
E Paul Silverback, Alfa da Alcateia North Ridge, cujo lobo estava morto há seis meses, colocou sua caminhonete em marcha e saiu à procura de um milagre que ele não merecia.