A REIVINDICAÇÃO DO BETA

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Resumo

Vinte anos atrás, o Beta Marcus perdeu sua parceira, Mira. Desde então, ele serviu à alcateia North Ridge com lealdade estoica, nunca mais voltando a amar. Saria foi capturada ainda adolescente pelo antigo regime de Ironmoon e torturada pelo executor Kaelen até que seu lobo entrasse em estado latente. Agora, Kaelen a persegue porque ela conhece a localização de uma arma de prata que poderia reacender a guerra. Saria atravessa a fronteira para o território de North Ridge, ferida e selvagem. Marcus é designado para protegê-la. A proximidade forçada em uma cabana isolada derruba as barreiras de ambos: ele oferece paciência, ela oferece fogo. Quando os pesadelos os despertam, eles se encontram nos braços um do outro.

Status
Completo
Capítulos
31
Classificação
5.0 1 avaliação
Classificação Etária
16+

O Dia em que Mira Morreu

Prólogo: O Dia em que Mira Morreu

Vinte anos atrás – Primavera

A lua estava cheia e Marcus estava feliz.

Foi a última vez que ele seria feliz por vinte anos, embora ainda não soubesse disso. Ele estava parado na beira da clareira, com a mão envolvendo a de Mira. Os dedos dela estavam frios por causa do ar da noite, mas seu sorriso era quente o suficiente para derreter a geada na grama. Eles eram parceiros há onze meses. Onze meses acordando ao lado dela, adormecendo com o cabelo dela fazendo cócegas em seu queixo, aprendendo os pequenos sons que ela fazia quando estava satisfeita — um zumbido suave, quase como um ronronar, que ela nem percebia que fazia.

“Você está me encarando”, disse ela.

“Estou memorizando.”

“Memorizando o quê?”

“Tudo.” Ele a puxou para mais perto e pressionou os lábios na testa dela. “O jeito que o luar reflete no seu cabelo. O jeito que seu nariz enruga quando você está prestes a discutir comigo. O jeito que você diz meu nome como se fosse algo precioso.”

Ela riu — um som brilhante e sem fôlego. “Marcus, você está sendo sentimental.”

“Estou sendo honesto. Existe uma diferença.”

Ela inclinou a cabeça para trás e olhou para ele com aqueles olhos — cor de avelã, salpicados de dourado, cheios de um amor tão intenso que fazia seu peito doer. Ela era linda. Não da maneira das pinturas ou da poesia, mas da maneira de um livro muito amado, gasto nas bordas, cheio de histórias que ele queria ler para sempre.

“Eu te amo”, disse ela.

“Eu também te amo.”

Ela o beijou. Foi um beijo suave, rápido, uma promessa. Então ela se afastou, com um sorriso travesso. “Vamos ver quem chega primeiro na casa da alcateia. Quem perder vai ter que explicar ao Paul por que estamos atrasados para a reunião do conselho.”

“Aceito o desafio.”

Ela se transformou primeiro — mais rápido do que ele, sempre mais rápido. Sua loba era um borrão de pelos prateados e energia infinita. Ele se transformou um batimento cardíaco depois, seu próprio lobo avançando com uma alegria que parecia quase dolorosa em sua intensidade. Eles correram pela floresta, lado a lado, com a lua pintando listras prateadas em suas costas.

Ele a deixou vencer. Ela sabia que ele a deixou vencer. Mais tarde, ela o provocou sobre isso, cutucando as costelas dele com o cotovelo enquanto entravam na casa da alcateia, ainda ofegantes, ainda rindo.

“Você é mole demais comigo”, disse ela.

“Eu sou exatamente o que precisa.”

“Você vai me mimar demais.”

“Esse é o plano.”

A reunião do conselho foi entediante. Disputas de território. Rotas de suprimentos. Um lobo errante avistado perto da fronteira leste, nada com que se preocupar, provavelmente apenas de passagem. Marcus sentou-se ao lado de Mira, com as mãos entrelaçadas debaixo da mesa, e tentou prestar atenção. Mas sua mente continuava divagando — no jeito que ela estava ao luar, na vida que estavam construindo, nos filhotes que haviam conversado sobre ter algum dia. Três. Ela queria três. Ele queria o que quer que ela quisesse.

“Marcus.” A voz de Paul interrompeu seu devaneio. “Você me ouviu?”

“Desculpe. O quê?”

“A fronteira leste. Quero que você leve uma patrulha logo ao amanhecer. Apenas uma varredura. Certifique-se de que aquele errante tenha ido embora.”

“Entendido.”

Mira apertou sua mão. “Eu vou com você.”

“Você não precisa.”

“Eu quero.”

Ele olhou para ela, viu a determinação em seus olhos e assentiu. “Ok.”

Eles partiram antes do amanhecer. A floresta estava silenciosa, os pássaros ainda não cantavam, o único som era o estalar suave de suas botas na geada. Marcus liderou a patrulha — seis lobos, incluindo Mira, todos alertas, porém relaxados. Avistamentos de errantes eram comuns nessa época do ano. Solitários de passagem, procurando território, geralmente seguindo viagem em poucos dias.

“Isso é uma perda de tempo”, resmungou um dos executores, um jovem lobo chamado Terran.

“É uma patrulha”, disse Marcus. “Faça o seu trabalho.”

Mira caminhou ao lado dele, com o ombro roçando no dele. “Você está ranzinza hoje de manhã.”

“Não dormi bem.”

“Pesadelos?”

“Não.” Ele hesitou. “Eu apenas... estou com um pressentimento ruim.”

Ela olhou para ele, com os olhos suaves. “Você se preocupa demais.”

“Alguém precisa.”

Ela beijou a bochecha dele. “Eu te amo.”

“Eu também te amo.”

O ataque veio do nada. Em um momento, a floresta estava silenciosa. No outro, uma dúzia de lobos surgiu das árvores — não eram errantes, não eram solitários. Eram organizados. Armados com lâminas de prata.

“Emboscada!”, gritou Marcus.

A patrulha se transformou, mas era tarde demais. O inimigo já estava entre eles, com presas, garras e a terrível queimadura da prata. Marcus lutou — lutou como nunca antes, seu lobo rosnando, suas garras rasgando pelos e carne. Ao lado dele, Mira também lutava. Ela era feroz, linda e mortal.

“Marcus, atrás de você!”

Ele girou, pegou um lobo no meio do salto e o jogou contra uma árvore. O som dos ossos quebrando foi satisfatório. Ele se virou para encontrar Mira — e a viu receber o golpe. Era para ele. Ele viu isso nos olhos do errante, no arco da adaga de prata voltada para suas costas. Mira também viu. Ela entrou na frente deles sem hesitar, sem pensar. A lâmina afundou no peito dela.

“MIRA!”

Ele a segurou quando ela caiu. O errante já estava morto — um dos executores tinha arrancado sua garganta — mas Marcus não se importou. O mundo se resumiu a ela, ao sangue que se espalhava por sua camisa, à respiração terrivelmente ofegante dela. “Não”, disse ele. “Não, não, não—”

“Marcus.” A voz dela estava fraca, sumindo. “Está tudo bem.”

“Não está tudo bem. Não está—”

“Olhe para mim.” Ela estendeu a mão e tocou o rosto dele. A mão dela tremia. “Olhe para mim, meu amor.” Ele olhou. Os olhos dela estavam cor de avelã, salpicados de dourado, cheios de amor. Mesmo agora, mesmo com a morte rastejando em suas veias, ela estava sorrindo. “Eu faria de novo”, disse ela. “Mil vezes.”

“Não fale. Você vai ficar bem. Vou te levar de volta para a casa da alcateia. A avó da Nadine... ela tem magia de cura—”

“Não há tempo.” Sua voz era apenas um sussurro. “A prata... foi muito fundo.” Ela sabia que era ali que ela morreria.

“Tem que haver—”

“Marcus.” Ela o puxou para baixo e pressionou seus lábios nos dele. Estavam frios. “Eu te amo. Eu te amei desde o momento em que te vi, com todos aqueles ombros largos e carrancas. Eu te amei quando você me pediu em casamento, quando gaguejou as palavras e derrubou o anel. Eu te amei todas as manhãs, todas as noites, em cada momento entre elas.”

“Mira—”

“Me prometa uma coisa.”

“Qualquer coisa.”

“Não se feche. Não se transforme em pedra.” Os olhos dela estavam marejados. “Quando eu me for, encontre alguém. Ame novamente. Viva novamente.”

“Não existe mais ninguém.”

“Existe. Você só ainda não a conheceu.”

Ele balançou a cabeça, com lágrimas escorrendo pelo rosto. “Eu não quero mais ninguém. Eu quero você.”

“Eu sei.” Ela sorriu, de forma suave e triste. “Mas eu quero que você seja feliz. Mais do que tudo. Prometa-me.”

“Eu não posso—”

“Prometa-me, Marcus.”

Ele olhou para ela — para a mulher que o salvou, que o amou, que estava morrendo em seus braços porque era corajosa demais para deixá-lo levar o golpe. “Eu prometo”, ele sussurrou.

O sorriso dela se alargou. A mão dela caiu de seu rosto... e a luz se apagou de seus olhos.

Marcus a segurou por horas. A batalha tinha acabado. Os errantes estavam mortos ou tinham fugido. Seus companheiros de alcateia estavam ao redor dele, silenciosos, ensanguentados, sem saber o que fazer. Alguém tentou afastá-lo. Ele rosnou, e eles recuaram.

Ele a segurou enquanto o sol nascia, pintando a floresta em tons de dourado e rosa. Ele a segurou enquanto os pássaros começavam a cantar, alheios à tragédia sob seus galhos. Ele a segurou até o corpo dela esfriar, e então a segurou por mais tempo ainda.

“Me desculpe”, ele sussurrou. “Sinto muito.”

Ela não respondeu. Ela nunca mais responderia.

Eles a enterraram ao pôr do sol. A alcateia se reuniu na clareira sagrada, a mesma onde eles tinham realizado o Rito de Reivindicação há menos de um ano. Paul falou. Lena chorou. Alguém tinha colocado flores sobre o túmulo — rosas silvestres, as favoritas de Mira.

Marcus estava na beira da multidão, sozinho. Ele não chorou. Ele não conseguia. Havia um vazio dentro dele agora, uma caverna onde seu coração costumava estar. As lágrimas viriam mais tarde, no escuro, quando ninguém pudesse ver. Por enquanto, havia apenas isto: a terra fria, o sol se pondo e o silêncio onde a voz dela costumava viver.

“Mira”, ele disse, tão baixinho que ninguém ouviu. “Eu vou cumprir minha promessa. Eu vou tentar. Mas não agora. Não por um longo tempo.”

Ele se virou e foi embora. A alcateia o observou partir. E Marcus — o firme, leal e inabalável Marcus — começou o longo e lento processo de se transformar em pedra.

Vinte anos depois

Ele ainda visitava o túmulo dela. Toda primavera, no aniversário de sua morte, ele ia até a clareira e sentava ao lado da lápide. Ele contava a ela sobre a alcateia — sobre o acasalamento de Paul, sobre a estufa de Nadine, sobre os filhotes que tinham crescido e se tornado lobos. Ele falava do seu dia, do jeito que fazia quando ela era viva. E então ele sentava em silêncio, ouvindo uma voz que nunca mais falaria novamente.

Eu cumpri minha promessa, ele pensou. Eu tentei. Mas algumas pedras não podem ser quebradas.

Ele ainda não sabia que ela estava vindo. Uma tempestade, envolta em pelos e fúria. Um fantasma com presas. Uma mulher que abriria seu coração de pedra, mesmo que isso matasse os dois.