Precisamos Conversar - Malik
O vestiário cheirava a suor, sabonete barato e algo que Malik já tinha desistido de tentar identificar. Ego, talvez. Vinte e quatro homens que acreditavam ser a dádiva de Deus para o gelo e os piores inimigos uns dos outros fora dele. O fedor tinha personalidade própria.
Ele puxou a camisa por cima da cabeça e deixou a rotina se acomodar em seus ossos. Equipamento fora. Fita arrancada. Patins desamarrados com a mesma precisão mecânica que usava desde os quinze anos. O conforto morava no ritual, mesmo aqui. Especialmente aqui.
— Ei, Willy. — Gretzko — o nome verdadeiro dele era Garrison, mas o novato tinha cometido o erro de dizer que tinha moldado seu jogo no Wayne, e o vestiário tinha transformado isso numa coleira. Gretzko se jogou no banco ao lado dele, ainda com o rosto vermelho do terceiro período. — Você viu a namorada nova do Hargrove? Gostosa pra caralho. Tipo, criminosamente gostosa.
Malik sorriu. — É? Bom pra ele.
— Bom pra ele? — Gretzko pareceu pessoalmente ofendido. — Cara, ela é tipo um dez. Talvez um onze. O Hargrove é um seis no melhor dia dele. Isso é intervenção divina.
Do outro lado da sala, Petrov bufou. Ele já estava sem camisa, as tatuagens pegando a luz fluorescente de um jeito que as fazia parecer mais baratas do que provavelmente eram. — O Hargrove não conseguiria puxar nem um músculo, quanto mais uma garota daquelas. Ela deve estar atrás do contrato.
Risadas. Rápidas, afiadas. A sala devorou.
Malik manteve a cabeça baixa e trabalhou na fita dos pulsos. Puxar. Rasgar. Enrolar. Descartar. De novo.
— Falando em puxar — disse Kessler, e a voz dele tinha aquele tom — o que significava que ele achava que ia ser hilário e todo mundo ia fingir concordar. Kessler era um ponta de segunda linha com um teto salarial de 4,2 milhões de dólares e a amplitude emocional de um parquímetro. — Alguém viu aquele patinador artístico na TV ontem à noite? O das Nacionais?
— Qual? — perguntou Gretzko.
— O cara. — Kessler deixou a palavra pairar por um momento, avaliando a sala. — O da camisa brilhante. Parecia que tinha saqueado o armário da irmã.
Petrov riu primeiro. Depois Hargrove. Então a onda se espalhou — cada risada mais alta que a anterior, cada uma um pequeno ato de lealdade.
O som pousou no peito de Malik como uma pedra em água parada.
Ele sorriu.
Ele sempre sorria.
— O cara provavelmente patina melhor que metade desse elenco — disse Malik, e a entrega foi perfeita — calorosa o suficiente para passar como piada, afiada o suficiente para redirecionar. A sala girou. Gretzko começou a discutir sobre técnica de patinação. Kessler passou para algo sobre a caminhonete dele.
O momento passou.
Eles sempre passavam.
Malik pegou a garrafa de água e tomou um longo gole, deixando o frio acalmar a garganta. As mãos estavam firmes. A mandíbula doía do sorriso que tinha usado por duas horas e meia, mas tudo bem. Esse era o preço do lugar.
Quatro temporadas nesse time. Duzentos e doze jogos de temporada regular. Trinta e uma aparições nos playoffs. Uma final de conferência. Zero pessoas nessa sala que conheciam a primeira coisa real sobre ele.
Você dava a eles a versão que conseguiam digerir, e mantinha o resto trancado tão fundo que alguns dias quase esquecia que estava lá.
Quase.
O técnico o puxou de lado depois que a sala esvaziou.
Billings era um técnico decente. Duro onde os técnicos precisam ser duros, e mole em exatamente nenhum dos lugares que importavam. Ele gostava de Malik porque Malik produzia. Matemática simples. Pontos equivaliam a aprovação. Aprovação equivalia a segurança.
— Bom jogo hoje à noite, Will. — Billings tinha o hábito de encurtar sobrenomes, como se estivesse construindo camaradagem uma sílaba de cada vez. — Aquele passe de contra-ataque no segundo período foi perfeito.
— Valeu, técnico.
— Escuta. — Billings cruzou os braços. Ele tinha aquela expressão — diretoria, conversa de troca, algo que Malik deveria se importar. — Vamos fazer um movimento. A diretoria está em negociações com Boston há algumas semanas.
— Boston. — Malik manteve a voz neutra. Interessado mas despreocupado. — Quem estamos olhando?
— Centro. Veterano. Exatamente o tipo de cara que precisamos se vamos consertar aquela segunda linha. — Billings fez uma pausa, e algo cruzou o rosto dele — como se estivesse tentando ler Malik antes de entregar o resto. — Fraser Vaughn.
O nome caiu.
Caiu do jeito que uma patinada ruim tira seus pés do chão — súbito, lateral, seu cérebro três segundos completos atrás do corpo.
Malik piscou.
— Vaughn — repetiu, porque a boca ainda estava funcionando mesmo que o resto dele tivesse ido para algum lugar distante e muito silencioso.
— Você conhece ele?
— Joguei com ele. — Verdade. Tecnicamente verdade. A verdade mais perigosa — o tipo que cobre tudo ao não revelar nada. — Anos atrás.
— Certo, vocês dois estavam na UHL, não estavam? Mesmo ano de draft ou algo assim?
Mesmo ano de draft. Mesmo time. Mesma casa de acolhimento por seis meses porque a família anfitriã tinha recebido os dois, dois garotos de dezessete anos dividindo um quarto de solteiro num subúrbio fora de Edmonton com papel de parede descascando do teto e uma fechadura do banheiro que travava se você girasse com muita força.
Mesma cama, algumas noites.
— Algo assim — disse Malik.
Billings assentiu, já seguindo em frente. — Ele é um competidor. Filho da puta durão. Exatamente o tipo de vantagem que esse elenco está precisando. A diretoria quer anunciar até quarta-feira.
Quarta-feira. Quatro dias.
— Parece bom, técnico.
— Fico feliz que você concorde. — Billings bateu no ombro dele — acabamos aqui — e foi embora.
Malik ficou parado no corredor fora do vestiário por um longo tempo depois disso.
A arena estava esvaziando. Ele conseguia ouvir o Zamboni abafado através das paredes, aquele zumbido mecânico baixo que sempre o arrastava de volta a ser jovem e estúpido e certo de que o mundo eventualmente se arranjaria em algo sobrevivível.
Fraser Vaughn.
Ele pressionou as costas contra a parede de blocos de concreto e fechou os olhos.
Dez anos. Uma década inteira construindo uma vida em cima do que tinha enterrado. Uma carreira, uma reputação, uma versão de si mesmo que ria nos momentos certos e dizia as coisas certas e ia para casa sozinho para um apartamento que parecia uma revista porque não havia ninguém nele para bagunçar.
E agora a liga — o universo, Deus, qualquer arquiteto cruel que estivesse comandando essa simulação em particular — tinha decidido jogar Fraser Vaughn no vestiário dele.
A última vez que tinha visto Vaughn fora do gelo. Realmente visto ele. Um estacionamento em Edmonton, novembro, frio tão cortante que seus pulmões pareciam cheios de vidro. O rosto de Vaughn meio iluminado por um poste de luz. A mala dele já no carro. Quatro minutos de conversa que destroçaram Malik por quatro anos.
Ele tinha dito a si mesmo que era certo. Vaughn indo embora. Se separando antes que a liga os separasse. Antes que alguém descobrisse. Antes que a coisa entre eles se tornasse a coisa que acabaria com os dois.
Engraçado como certo e pior podiam usar a mesma cara.
O telefone vibrou.
Ele tirou do bolso. Chat em grupo. O tópico não oficial do time — sem técnicos, aquele onde Kessler postava memes que teriam rendido multas a todos se o departamento de relações públicas visse.
Kess: ouvi que vamos pegar o vaughn de boston Kess: cara é uma máquina. zero personalidade kkkk Petrov: cara não sorri. nunca. Gretzko: talvez ele seja simplesmente diferente Kess: diferente tipo um muro de tijolos com atitude ruimHargrove: desde que ele faça pontos tô nem aí
Malik encarou a tela.
O polegar pairou sobre o teclado. Ele podia digitar algo fácil. Algo leve. Deve ser bom pra gente ou vamos ver o que ele tem. Algo que soasse como um companheiro de time e nada como alguém que já tinha memorizado a pressão exata da boca de Fraser Vaughn contra a clavícula dele no escuro.
Ele trancou o telefone. Colocou no bolso.
Caminhou até o carro.
Dirigiu para casa, para o apartamento de revista, serviu dois dedos de bourbon que mal sentiu o gosto, e ficou parado nas janelas do chão ao teto com vista para a Baía de Biscayne enquanto a cidade queimava laranja e violeta abaixo dele.
Fraser Vaughn estava vindo para Miami.
Fraser Vaughn, que jogava de centro como se estivesse tentando punir o gelo por existir.
Fraser Vaughn, que ele tinha amado dos dezessete aos vinte e um com o tipo de ferocidade que homens jovens só são capazes uma vez — total, aniquiladora, o tipo que deixa tecido cicatricial tão profundo que se torna arquitetura.
Malik colocou o bourbon de lado. Pressionou a testa contra o vidro. A baía brilhava quarenta andares abaixo, espelho escuro.
O telefone vibrou de novo.
Ele ignorou.
Então vibrou uma segunda vez. Uma terceira.
Ele tirou do bolso.
Um tópico diferente dessa vez. Privado. Um número que ele tinha deletado dos contatos três anos atrás mas ainda reconhecia — do jeito que você reconhece a própria letra, ou a própria voz, ou a forma de uma ferida que você mesmo se deu.
Desconhecido: Precisamos conversar.