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Annie
Eu soube que meu relacionamento tinha acabado quando descobri antes que ele me contasse.
Não foi porque ele traiu, pelo menos não no sentido físico que resulta em um rompimento limpo e explosivo. Não foi porque o amor evaporou de repente no ar. Foi algo muito mais insidioso. Eu soube que tinha acabado porque, quando atravessei a porta da frente da casa dos Miller, eu era a única pessoa na sala que não sabia que estava solteira.
Existe um tipo específico e visceral de humilhação reservado para a garota que entra em uma festa com um sorriso no rosto, sem saber que já virou uma história de fantasma. As pessoas não olham para você; elas olham *através* de você ou, pior, olham com aquela pena enjoativa, de cabeça inclinada, que diz que já leram a última página da sua vida enquanto você ainda está presa no meio de um capítulo.
Senti isso no segundo em que pisei no piso de madeira. O ar no hall de entrada estava pesado com o cheiro de vodca barata e perfume caro, e o grave das caixas de som vibrava nos meus ossos.
“Annie…”
A voz da Mia foi o primeiro sinal de alerta. Não era aquele cumprimento animado de sempre, de quem quer encher a cara. Era cuidadosa. Medida. Era o tom de voz que você usa quando se aproxima de um animal ferido que pode morder se você se mover rápido demais.
“Oi”, eu disse, tentando afastar aquele calafrio repentino. “Cadê todo mundo? Cadê o Ethan?”
Mia não respondeu de imediato. Ela mordeu o lábio, os olhos disparando em direção à ilha da cozinha, onde duas garotas que eu reconhecia vagamente do meu seminário de literatura tinham parado de conversar no momento em que apareci. Elas nem foram sutis; os olhos delas passaram por mim e foram direto para as portas de vidro que davam para o pátio dos fundos.
Elas estavam esperando pela colisão.
“Annie, espera”, disse Mia, tentando segurar meu braço, mas eu já estava me movendo.
Eu não precisava de um mapa. Meu estômago já tinha feito as contas. Caminhei em direção ao vidro, minhas botas marcando uma marcha fúnebre contra o piso. Através do vidro, sob o brilho suave e âmbar das luzes, eu o vi.
Ethan.
Meu namorado. Ou o homem que passei dois anos acreditando que era meu.
Ele estava perto da fogueira de pedra, de costas para a casa. Não estava sozinho. Ele estava inclinado, bem perto de uma garota de cabelos longos e escuros que captavam a luz — alguém que eu não conhecia. A mão dele estava plantada com firmeza na cintura dela, o polegar enganchado no passador do jeans dela. Não era um toque casual. Não era o jeito que você segura um amigo enquanto conta uma piada. Era possessivo. Era íntimo. Era o jeito que ele costumava me segurar antes de começar a "ficar até tarde na biblioteca" todas as noites no último mês.
Meu peito não desmoronou. Não houve o estilhaçar dramático do meu coração. Em vez disso, tudo dentro de mim simplesmente... travou. Foi uma finalidade fria, afiada e clínica. Como uma porta trancada por dentro.
“Ai, meu Deus”, Mia murmurou atrás de mim, com a respiração quente no meu ombro. “Quer que eu vá lá fora? Eu acabo com ele. Eu juro que destruo a vida dele, Annie.”
“Não.” Minha voz estava assustadoramente firme. Eu me sentia como se estivesse assistindo a um filme sobre mim mesma. “Eu cuido disso.”
Eu não sabia se conseguiria. Só sabia que não podia ficar daquele lado do vidro por mais um segundo, sendo a garota sobre a qual todos cochichavam.
Empurrei a porta de correr.
A umidade da noite me atingiu, um contraste gritante com o ar-condicionado, e a batida abafada da música lá fora foi substituída por um pulsar rítmico e intenso. Alguém perto da piscina soltou uma risada bêbada e estridente. Ethan não me notou. Ele estava ocupado demais sorrindo para a garota, como se ela fosse a coisa mais fascinante que ele já tinha encontrado.
A naturalidade — o conforto pleno e sem esforço que ele tinha com aquela estranha — foi a parte que doeu. Não deveria ter sido tão fácil substituir mil noites de história.
“Ethan.”
O nome dele parecia um pedaço de vidro cravado na minha garganta.
Ele congelou. Vi os músculos das costas dele ficarem rígidos e a mão dele soltar a cintura da garota como se tivesse se queimado. A garota virou primeiro. Ela parecia surpresa, depois cautelosa, o olhar varrendo meu rosto e pousando na mágoa que eu tentava esconder com tanto esforço.
Então, Ethan se virou.
A culpa estava lá, escrita no jeito frenético com que os olhos dele buscavam uma saída que não existia. Ele parecia um homem que tinha sido pego roubando e, por uma fração de segundo, eu o odiei mais do que algum dia o tinha amado.
“Annie”, ele disse. Ele deu meio passo na minha direção, depois parou, como se percebesse que a distância era sua única defesa. “Eu ia te contar. Eu ia te ligar hoje à noite.”
Soltei um som que deveria ter sido uma risada, mas saiu como um soluço que estrangulei no meio. “Ia mesmo? Antes ou depois de começar a sair com ela? Porque parece que você pulou algumas etapas do manual de 'como terminar um namoro', Ethan.”
“Eu não... nós não...” Ele olhou para a garota, procurando apoio, mas ela apenas bufou e cruzou os braços, parecendo totalmente indiferente à enrolação dele.
“Como é que está sendo, então?”, perguntei, dando um passo para dentro do círculo de luz. “Porque, de onde eu estou, parece que você está fazendo um teste público para a minha substituta em uma festa onde todo mundo sabe o meu nome.”
“As coisas não estão bem entre nós há um tempo, Annie. Você sabe disso”, ele disse, a voz baixando uma oitava, tentando retomar algum tipo de controle.
“Não estão bem?”, ecoei, com a raiva finalmente começando a borbulhar através do gelo. “'Não estar bem' é uma discussão sobre onde jantar. 'Não estar bem' é uma terça-feira chata. 'Não estar bem' não é arrumar uma garota nova enquanto você ainda dorme na minha cama e me diz que me ama antes de sair pela porta.”
“Você está fazendo cena”, ele sibilou, olhando nervosamente para os convidados que observavam do pátio.
Aquele foi o limite. O absurdo da situação me atingiu: o homem que tinha acabado com a minha dignidade na frente de quarenta pessoas estava preocupado com uma *cena*.
“Eu estou fazendo cena?”, ri, um som agudo e descontrolado que fez o Ethan recuar. “Não fui eu quem decidiu trocar de parceira em público. Você quer uma cena, Ethan? Eu posso te dar uma cena do caralho. Posso contar para todo mundo exatamente o quanto você é um covarde. Mas acho que você já está fazendo um trabalho muito bom em mostrar isso sozinho.”
“Podemos, por favor, conversar sobre isso em outro lugar?”, ele implorou.
“Não”, eu disse com firmeza. “Eu sei exatamente como essa conversa acontece. Você vai usar palavras suaves. Vai falar sobre 'crescimento individual'. Vai tentar fazer isso parecer mútuo e maduro para que você possa dormir hoje à noite se sentindo um 'cara legal'. Mas isso não é limpo. É uma bagunça, é patético, e eu não vou te ajudar a carregar esse peso.”
A garota se mexeu, desconfortável, trocando o peso de um pé para o outro. “Eu juro que não sabia que vocês ainda estavam juntos”, disse ela, com a voz baixa.
Eu olhei para ela — olhei de verdade. Ela era linda, mas não havia arrogância ali. Apenas uma pena profunda e desconfortável. Foi o golpe final. Eu não queria a pena dela. Não queria as desculpas dele.
“É”, eu disse, com a voz falhando um pouco. “Nós estávamos.”
O silêncio que se seguiu foi pesado, preenchido apenas pelo som distante da festa e pelos grilos na grama. Ethan parecia querer se aproximar, oferecer algum clichê final e inútil. Mas eu o via claramente agora — despido da nostalgia e das piadas que compartilhávamos. Ele era apenas um garoto que não sabia como ficar sozinho.
E, naquele momento, a ficha caiu. Pesada, mas constante. Eu não queria ele de volta. Não queria consertar nada. Eu só queria ir embora.
“Parabéns, Ethan”, eu disse, forçando um sorriso pequeno e torto que parecia estar rasgando meu rosto. “Você está livre agora. Vai lá e seja problema de outra pessoa.”
Virei as costas antes que ele pudesse dizer mais uma palavra. Não esperei que ele me seguisse. Não queria ver se ele parecia triste. Eu apenas andei.
A música me atingiu novamente quando entrei, o calor e o barulho parecendo um ataque físico. Era demais — brilhante demais, alto demais, olhos demais.
Mia estava lá num instante, segurando minhas mãos. “Ai, meu Deus, Annie. Você está bem? A gente pode ir embora. Podemos sair agora mesmo.”
“Estou fantástica”, eu disse, com a adrenalina começando a subir, mascarando o vazio no estômago. “Prosperando, na verdade. Nunca estive tão bem.”
Mia fez uma careta, apertando minha mão. “Tão ruim assim?”
“Pior. Preciso de uma bebida. Uma grande. Agora.”
Não esperei ela concordar. Fui até a cozinha, peguei um copo descartável vermelho cheio de algo transparente que cheirava a zimbro e virei metade de uma vez, em um gole longo e ardente. Queimou minha garganta e trouxe lágrimas aos meus olhos.
Bom. Eu queria sentir a queimação. Era melhor do que a dormência.
“O que você vai fazer?”, perguntou Mia, com a voz baixa enquanto se apoiava no balcão ao meu lado.
Eu não pensei. Não entrei em um ciclo de "por que" ou "como". Eu só senti algo se romper — uma coleira que eu nem sabia que estava usando há dois anos.
“Vou curtir uma fossa”, eu disse.
Mia piscou, de boca aberta. “Você odeia rebotes. Você literalmente passou quarenta minutos semana passada explicando para a Sarah por que um rebote é só um curativo em um ferimento de bala.”
“Correto.”
“E você faz discursos sobre a importância de 'lidar com seus sentimentos' e 'processamento emocional'.”
“Também correto.”
“E você uma vez disse...”
“Eu sei o que eu disse, Mia!” Segurei nos ombros dela, uma faísca imprudente e selvagem dançando sob minha pele. Eu me sentia elétrica, como se estivesse ligada a uma tomada. “Mas aqui está o detalhe. Hoje à noite, eu não quero processar nada. Não quero lidar com meus sentimentos. Não quero sentir *nada* que tenha a ver com o Ethan.”
Os olhos dela se arregalaram ao ver a mudança em mim. “Ah não. Annie, você está com aquele olhar.”
“Ah, sim.”
Eu me virei, examinando a sala. Olhei para os corpos suados dançando, os caras perto do barril de chope, os cantos escuros da sala de estar. Olhei para todas as possíveis decisões erradas, todas as belas distrações temporárias apenas esperando para acontecer.
Pela primeira vez desde que entrei por aquela porta, o peso no meu peito sumiu, substituído por algo afiado, perigoso e inebriante.
Parecia liberdade.
Inclinei-me para perto da Mia, um sorriso predatório surgindo nos meus lábios.
“Acha alguém horrível para mim”, eu disse. “E acha agora.”