The Bridge of Bones
A chuva castigava as montanhas com força suficiente para machucar a pele.
Talia Evernight puxou seu manto para mais perto do corpo enquanto estava na beira do desfiladeiro, tentando com todas as forças não olhar para baixo.
Esse teria sido um excelente conselho há três segundos.
Infelizmente, ela tinha olhado.
O abismo sob a ponte desaparecia na escuridão e em rochas pontiagudas, do tipo que não deixaria quase nada de uma pessoa se ela atingisse o fundo. A névoa serpenteava pelo desfiladeiro como fumaça fantasmagórica, enquanto trovões ecoavam pelo céu acima.
E, estendida sobre tudo isso —
A ponte.
Uma pedra negra e antiga, não mais larga que a tampa de um caixão. Sem grades. Sem proteção. Apenas rocha escorregadia suspensa sobre a própria morte.
Rowan parou ao lado dela, com a chuva escorrendo de sua trança escura. "Bom", disse ela calmamente, "isso parece desnecessariamente dramático."
Talia encarou a ponte. "Acho que o objetivo é nos matar antes mesmo de as aulas começarem."
"Isso economiza tempo."
Um garoto à frente delas soltou uma risada tensa que parecia estar a um suspiro de vomitar.
Centenas de cadetes do primeiro ano se aglomeravam na encosta atrás delas, encharcados até os ossos sob os portões imponentes da Blackspire Academy.
A própria academia se erguia além do desfiladeiro como uma fortaleza esculpida na montanha. Torres negras perfuravam as nuvens de tempestade, e a luz das tochas brilhava através de janelas estreitas. Estátuas maciças de dragões margeavam as paredes, com seus olhos de pedra fixos para baixo, como juízes esperando por execuções.
O que, Talia suspeitava, não estava longe da verdade.
Um oficial com cicatrizes estava parado na entrada da ponte com os braços cruzados atrás das costas.
"Cruzem", ele gritou por cima da tempestade. "Ou vão para casa."
Ninguém se moveu.
O oficial sorriu lentamente.
"Ah", disse ele. "Covardes este ano."
Uma garota perto da frente engoliu em seco antes de pisar na ponte.
O vento a atingiu imediatamente.
A ponte balançou.
Vários cadetes inspiraram bruscamente.
A garota deu outro passo.
Depois outro.
Na metade do caminho, um trovão estalou diretamente acima.
Ela se assustou.
Seu pé escorregou.
Talia observou o momento exato em que o pânico superou a razão.
A garota tentou se equilibrar.
Falhou.
E desapareceu por cima da borda.
O grito ecoou por tempo demais.
Seguiu-se um silêncio.
Ninguém falou.
O oficial olhou para o desfiladeiro com um tédio visível antes de gritar: "Próximo."
O estômago de Talia revirou violentamente.
Ao lado dela, Rowan murmurou: "Lugar encantador."
Outro cadete começou a atravessar.
Depois outro.
Um conseguiu.
O outro não.
A ponte ficava mais escorregadia a cada segundo que passava.
Um garoto alto e loiro por perto observou Talia de cima a baixo abertamente. Seu olhar demorou-se em sua estrutura esguia e no leve tremor em suas mãos.
"Você estará morta antes do amanhecer", disse ele.
Talia piscou para ele. "Que coisa estranha de se dizer em voz alta."
Alguns cadetes por perto riram pelo nariz.
A boca do garoto loiro se contraiu. "Você mal consegue ficar de pé com esse tempo."
"Ela ainda está de pé", Rowan interveio bruscamente.
O garoto deu um sorriso de lado. "Por enquanto."
Rowan deu um passo à frente antes que Talia pudesse impedi-la.
Aconteceu rápido — aquela mudança que Rowan sempre teve. Em um segundo, gentil. No outro, perigosa.
"Se você falar com a minha irmã novamente", Rowan disse suavemente, "eu mesma vou te jogar da ponte."
O garoto riu nervosamente. "Está me ameaçando?"
"Não", respondeu Rowan. "Estou prometendo eficiência."
Talia suspirou. "Row."
"Ele começou."
"Você ameaçou um homicídio em menos de trinta segundos."
"Na verdade", disse Rowan pensativa, "acho que foram quinze."
Um trovão estalou novamente.
A fila avançou.
Mais perto.
Mais perto.
Talia esticou os dedos contra a dor que já começava em suas juntas. O frio piorava o Splintering. A dor rastejava sob sua pele como vidro quebrado, alojando-se profundamente nos ossos.
Não agora.
Por favor, não agora.
Ela respirou fundo, concentrada.
Rowan lançou um olhar de lado para ela. Ela sempre percebia.
“Está tudo bem?”
“Fantástico”, Talia mentiu. “Eu sempre quis morrer dramaticamente em uma tempestade.”
Rowan deu um leve encontrão com o ombro nela.
“Você não vai morrer.”
“Você parece muito confiante para alguém parado ao lado de uma ponte mortal.”
“Eu tenho instintos.”
“Seus instintos uma vez lhe disseram que era seguro dar um soco em um oficial militar.”
“Ele mereceu.”
“Ele definitivamente mereceu”, Talia admitiu.
O oficial cicatrizado apontou para eles.
“Vocês dois. Andem.”
Rowan fez um gesto teatral. “Depois de você.”
Talia estreitou os olhos. “Você é quatro minutos mais velho.”
“E ainda assim, de alguma forma, mais sábio.”
“Discutível.”
Ainda assim, Talia deu o primeiro passo.
No momento em que sua bota tocou a ponte, o vento rugiu através do desfiladeiro.
A pedra sob seus pés estava escorregadia por causa da chuva.
Não olhe para baixo.
Ela imediatamente olhou para baixo.
A neblina girava lá embaixo.
Maravilhoso.
Atrás dela, Rowan murmurou: “Foco.”
Certo.
Talia forçou-se a seguir em frente com cuidado.
Um passo.
Depois outro.
A ponte balançou violentamente.
Alguém gritou atrás deles.
Um cadete escorregou alguns metros à esquerda de Talia, segurando-se por pouco na borda de pedra.
Seu pânico contagiou os outros instantaneamente.
As pessoas começaram a se mover rápido demais.
Grande erro.
A ponte deu um solavanco.
Talia baixou o corpo instintivamente, agarrando a pedra com as duas mãos enquanto vários cadetes perdiam o equilíbrio.
Um caiu.
O grito desapareceu na tempestade lá embaixo.
Outro escorregou e caiu de joelhos.
O pânico se espalhou como fogo.
Mova-se com inteligência.
Não mais rápido.
Talia forçou-se a respirar em meio ao caos.
A ponte balançava mais forte apenas quando o peso mudava de forma desigual.
Sincronia.
Essa era a chave.
Ela observou o movimento cuidadosamente, estudando o ritmo sob a tempestade.
Balanço para a esquerda.
Pausa.
Balanço para a direita.
Pausa.
Como uma batida de coração.
“Talia”, Rowan avisou atrás dela.
“Eu sei.”
Mais um passo cuidadoso.
Depois outro.
Alguém passou empurrando em pânico.
Talia girou de lado no último segundo, deixando que o impulso do cadete quase o levasse para fora da borda.
Ele se segurou soltando um som de horror.
“Você quase me matou!”
“Você estava fazendo um excelente trabalho sozinho”, ela rebateu.
Um relâmpago cortou o céu.
Por um segundo aterrorizante, todo o desfiladeiro iluminou-se em branco-prateado.
E Talia os viu.
Sombras massivas circulando bem acima das montanhas.
Asas.
Enormes.
Ancestrais.
Impossíveis.
Ela perdeu o fôlego.
Dragões.
Dragões de verdade.
Não desenhos em livros antigos. Não estátuas esculpidas.
Vivos.
Um deles soltou um rugido tão profundo que a ponte tremeu sob seus pés.
Ao seu redor, os cadetes paralisaram em temor e terror.
As criaturas moviam-se pelas nuvens de tempestade como deuses.
Observando.
Esperando.
Caçando.
Talia olhou para cima, a chuva escorrendo pelo seu rosto enquanto algo antigo e estranho se retorcia em seu peito.
Um dos dragões inclinou sua enorme cabeça prateada em direção a ela.
E por um momento impossível —
Pareceu que ele a viu.